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sábado, 25 de maio de 2024

''Há dias que são filosofias''

''Há dias que são filosofias, que nos insinuam interpretações da vida, que são notas marginais, cheias de grande crítica, no livro do nosso destino universal. Este dia é um dos que sinto tais. Parece-me, absurdamente, que é com os meus olhos pesados e o meu cérebro nulo que, lápis absurdo, se vão traçando as letras do comentário inútil e profundo.''

Fernando Pessoa (Livro do Desassossego)

quinta-feira, 25 de abril de 2024

''Caio por um abismo feito de tempo… / Estou soterrado sob as pirâmides''




A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro... 

Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente 

E ao canto do papel erguem-se as pirâmides… 

Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena 

Ser o perfil do rei Quéops… 

De repente paro… 

Escureceu tudo… 

Caio por um abismo feito de tempo… 

Estou soterrado sob as pirâmides 

a escrever versos à luz clara deste candeeiro 

E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena…  

Ouço a Esfinge rir por dentro 

O som da minha pena a correr no papel… 

Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme, 

Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim, 

E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve 

Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos, 

E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo 

E uma alegria de barcos embandeirados erra 

Numa diagonal difusa 

Entre mim e o que eu penso… 

Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim!...

sábado, 2 de dezembro de 2023

''Toco só aonde toco, não aonde penso.''

Livro de autor de Lourdes Castro a partir de poema de Herberto Helder, 1958 


Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.⁠

Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.
Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem.
Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento.

Sim: existo dentro do meu corpo.
Não trago o sol nem a lua na algibeira.
Não quero conquistar mundos porque dormi mal,
Nem almoçar o mundo por causa do estômago.
Indiferente?
Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,
Um momento no ar que não é para nós,
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,
Traz! na realidade que não falta!

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só aonde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E somos vadios do nosso corpo.
E estamos sempre fora dele porque estamos aqui.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Que definição de Humanidade é esta que habitamos no presente?


Hoje, tive de ser minha amiga e remover as notificações das páginas de notícias nas redes. Oficializei que, por tempo indeterminado, só leio livros. São as guerras, são os atentados, é a crise, é o ódio que reina, são as crianças refugiadas, são as famílias a perderem as suas casas e a viverem em quartos, tendas e roulottes, são as pessoas que passam fome para não deixar os seus animais sem comer, etc... É um horror de mundo, é um pavor de país. Acordo aterrorizada, do pesadelo para o pesadelo.

Viemos de comunidades em cavernas para a privatização de todas as etapas da experiência humana, de cada bem essencial a cada centímetro quadrado de chão e... para quê? Para as pessoas andarem, em geral, infelizes e exaustas, de potencial subdesenvolto, ainda a lutar diariamente pelo abrigo e pelo sustento, tal e qual os pré-históricos? O ensino obrigatório passa 12 anos a comprovar como o Humano se cumpre, individual e irrepetível, em cultura e consciência, para depois vir o sistema político-financeiro estrangulá-lo, borrifar-se para o seu estado de ou-vivo-ou-morto-ou-assim-assim, reduzindo-o à sua condição de mais bicho do que gente? Num planeta com recursos bastantes para suprir as necessidades de todos, em prol de que tirania se mantém assim a civilização atrofiada?  

Alguém já se lembrou de olhar para o céu e de reparar como talvez espelhe a terra? Que somos nós, os seres humanos, cada um desses pontos luminosos, únicos e radiantes de capacidades, à espera no azul pelo direito a viver como quem brilha por um instante? Afinal, que definição de Humanidade é esta que habitamos no presente? Onde fica o Espírito, esses olhos de ver, essa centelha excepcional do animal-homem, essa Inteligência única que, sinceramente, parece cansar-se antes de ver-se ao espelho?

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.



Thomas Lelu


Mestre, meu mestre querido!

Coração do meu corpo intelectual e inteiro!

Vida da origem da minha inspiração!

Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada.

Alma abstracta e visual até aos ossos,

Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,

Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,

Espírito humano da terra materna,

Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva...

Mestre, meu mestre!

Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,

Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,

Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,

Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

Meu mestre e meu guia!

A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,

Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,

Natural como um dia mostrando tudo,

Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.

Meu coração não aprendeu nada.

Meu coração não é nada,

Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.

Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!

Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,

Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,

Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,

Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.

Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento

Pela indiferença de toda a vila.

Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,

Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,

E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém

Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,

Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?

Porque é que me chamaste para o alto dos montes

Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?

Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela

Como quem está carregado de ouro num deserto,

Ou canta com voz divina entre ruínas?

Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma,

Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele

Poeta decadente, estupidamente pretensioso,

Que poderia ao menos vir a agradar,

E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.

Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

Feliz o homem marçano,

Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada.

Que tem a sua vida usual,

Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio.

Que dorme sono,

Que come comida,

Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.

Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.

Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

O que for, quando for, é que será o que é.


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Fernando Pessoa

terça-feira, 7 de agosto de 2018

STEREODOX: suposição de qualquer semelhança

Written on the wind (Douglas Sirk, 1956)



Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

1934

fernando pessoa
poesias inéditas (1930-1935)
ática
1955




segunda-feira, 23 de abril de 2018

/ o luar vago dos candeeiros /

Lost Lost Lost, Mekas, 1976

O relógio que está para trás, na casa deserta, porque todos dormem, deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite. Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jaz na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho. Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não consigo ter.
Tudo em meu torno é o universo nu, abstracto, feito de negações nocturnas. Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas. Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana boiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir. Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espectáculo sem ruídos. Não tenho os olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de longe; são os candeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins abandonados da rua.
Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!... Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!... Cessar, ser incógnito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de folhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva!... Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeixa de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho... O absurdo, a confusão, o apagamento — tudo que não fosse a vida...
E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece — não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto. Posso deixar-me a vida, posso dormir, posso ignorar-me... E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez.
Com que luxúria (...) e transcendente eu, às vezes, passeando de noite nas ruas da cidade, e fitando, de dentro da alma, as linhas dos edifícios, as diferenças das construções, as minuciosidades da sua arquitectura, a luz em algumas janelas, os vasos com plantas jazendo enjauladas nas sacadas — contemplando tudo isto, dizia, com que gozo de intuição que subia aos lábios da consciência este grito de redenção: mas nada disto é real!
Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
  - 99.

domingo, 22 de abril de 2018

/ uma demora que acaba por me apavorar até à acção /

Out of the blue, Dennis Hopper, 1980

"Uma constitucional perturbação da vontade e uma ânsia, paralelamente paralisante, de sobre tudo dizer tudo, sem falha, falta ou fraqueza, fazem com que eu ponha em tudo o que faço uma demora que acaba por me apavorar até à acção, e que comece essa acção por um pedido de desculpas de tanto ter demorada."
Excerto de carta de Fernando Pessoa a Jaime Cortesão,
in "Obra essencial de Fernando Pessoa, Cartas"

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

'Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço.''



(O verdadeiro anarquismo)



''Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência. Levamos a disciplina social àquele ponto de excesso em que coisa nenhuma, por boa que seja - e eu não creio que a disciplina seja boa -, por força que há-de ser prejudicial.

Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica. (...)

Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa que fazem? Organizam um partido... Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral.

Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulizemos no doentio e do dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica.''

Fernando Pessoa, "Crónica da Vida Que Passa II" in O Jornal, 8 de Abril de 1915

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror.

LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando Pessoa

domingo, 26 de novembro de 2017

TOP 15 ou

''Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.''
Fernando Pessoa (Tabacaria)

A revista brasileira Cineplot pediu-me um Top 15 (de todos os tempos!) e eu, que nem me meto nisso dos Tops, desta vez alinhavei um, num guardanapo. Saiu-me isto mas, fosse o café mais demorado, e ter-me-ia saído outra coisa qualquer.


Yellow Sky (1948) de William A. Wellman

1. The Searchers (John Ford)
2. The Wind (Victor Sjöström)
3. L'Atalante (Jean Vigo)
4. Metropolis (Fritz Lang)
5. Pandora and the Flying Dutchman (Albert Lewin)
6. À Beira do Mar Azul (Boris Barnet)
7. India Song (Marguerite Duras) 
8. L'Année Derniére à Marienbad (Alain Resnais)
9. Yellow Sky (William Wellman)
10. Le Mépris (Jean-Luc Godard)
11. Cicatrice Interièure (Philippe Garrel)
12. Vampyr (Dreyer) 
13. Imitation of Life (Douglas Sirk)
14. A Matter of Life and Death (Michael Powell)
15. World on a Wire (Fassbinder)


domingo, 1 de outubro de 2017

European Citizend (1973-2019)

I. OS CAMPOS 

          PRIMEIRO / O DOS CASTELOS 
          A Europa jaz, posta nos cotovelos:
          De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
          E toldam-lhe românticos cabelos
          Olhos gregos, lembrando.

          O cotovelo esquerdo é recuado;
          O direito é em ângulo disposto.
          Aquele diz Itália onde é pousado;
          Este diz Inglaterra onde, afastado,

          A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
          Fita, com olhar sphyngico e fatal,
          O Ocidente, futuro do passado.

          O rosto com que fita é Portugal. 

I - Primeira Parte: Brasão (Fernando Pessoa)


domingo, 3 de maio de 2015

Gesamtkunstwerk

Remontons les Champs-Élysées, Sacha Guitry, 1938.

O que significa afinal essa pesadíssima expressão, experiência estéticaÉ uma comoção de ir às lágrimas ? Um paralisia pelo pasmo? Uma articulação impossível de palavras?Uma saída dos eixos dos dias? Um chamamento d'além? Vou a Trahndorff buscar mais um palavrão desses pesados, Gesamtkunstwerk - obra de arte total, síntese de todas as artes, arte síntese. Criada em 1827 para se endereçar a Wagner, que já era, como toda a gente sabe, cineasta, chega até aqui via filme. Em Yellow Sky, as pequenas filas de figuras competem com a dura imensidão de montanhas e de planícies. A secura do som incessante dos trotes segue liberta de música. O caminho arranca-se com dificuldade ao chão, na exaustão de uma travessia frágil. Impressões de perfeição - inesquecíveis quadros que não se descrevem senão para somar: o sublime é isto.



Yellow Sky, William Wellman, 1948

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Passo tempos, passo silêncios,

mundos sem forma passam por mim.
(...)
Não são as paredes reles do meu quarto vulgar, nem as secretárias velhas do escritório alheio, nem a pobreza das ruas intermédias da Baixa usual, tantas vezes por mim percorridas que já me parecem ter usurpado a fixidez da irreparabilidade, que formam no meu espírito a náusea, que nele é frequente, da quotidianidade enxovalhante da vida. São as pessoas que habitualmente nos cercam, são as almas que desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo.
O Livro do Desassossego


Rei das Rosas, W. Schroeter, 1986

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Brisas num princípio de Novembro.

os delírios.





As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
Fernando Pessoa




Une Histoire de Vent, 1988, Joris Ivens





James Broughton, The Bed, 1968


Capa do albúm A Momentary Lapse of Reason, dos Pink Floyd, 1987
fotografia de Robert Dowling



Wagonmaster, John Ford, 1950






A Felicidade
Tom Jobim
Composição: Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
e tudo se acabar na quarta feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor
Tristeza não tem fim
Felicidade sim









L'éclipse du soleil en pleine lune / The Eclipse: The Courtship of the Sun and Moon (Georges Méliès)


Em "Film ist a Girl and a Gun", de Gustav Deutsch, 2009




Esboço de Leonardo Da Vinci (1774)


Ten Suns threating to burn the Earth.
His heavenly majesty sent Hou Yi to fire nine arrows.
Nine suns died.
The earth and mankind were saved.

(...)

For you
breathing represents death.

(...)

I drank the elixir of life
and flew to the moon
where there's never any wind
not the slightest breath.
em Une Histoire de Vent


eppur si muove !

(...)







FOGE FOGE BANDIDO
letra de Manel Cruz

diz-me o porquê dessa canção tão triste
que me diz não vir de ninguém
decerto alguma coisa tu pediste a essa voz
que tu não sabes de onde vem
diz-me o porquê dessa canção tão triste
me fazer sentir tão bem
decerto alguma coisa mais te disse a mesma voz
que tu não dizes a ninguém
eu sei que tudo ser em vão é triste
como é triste um homem morrer
pergunta à voz se essa canção existe
e se ela não souber ninguém mais vai saber
diz-me o porquê desta canção tão triste
te fazer sentir tão bem
decerto eu oiço a voz que tu ouviste
talvez tu saibas de onde vem






Ici et ailleurs - JLG, Jean Pierre Gorin & Anne-Marie Miéville, 1976, color, 16mm/video



La Valléé Close - Jean-Claude Rousseau, 2000