quinta-feira, 25 de abril de 2024

''Caio por um abismo feito de tempo… / Estou soterrado sob as pirâmides''




A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro... 

Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente 

E ao canto do papel erguem-se as pirâmides… 

Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena 

Ser o perfil do rei Quéops… 

De repente paro… 

Escureceu tudo… 

Caio por um abismo feito de tempo… 

Estou soterrado sob as pirâmides 

a escrever versos à luz clara deste candeeiro 

E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena…  

Ouço a Esfinge rir por dentro 

O som da minha pena a correr no papel… 

Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme, 

Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim, 

E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve 

Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos, 

E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo 

E uma alegria de barcos embandeirados erra 

Numa diagonal difusa 

Entre mim e o que eu penso… 

Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim!...

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