domingo, 7 de junho de 2026

''Posso pão?''

 

Nos últimos anos, tem-se generalizado entre as crianças uma simplificação da linguagem, omitindo os verbos principais e deixando apenas os auxiliares (exemplo: "posso água?" em vez de "posso beber água?"). Especialistas apontam a pressa, os ecrãs e os vídeos rápidos como causas dessa "preguiça linguística''. Mas, sendo Portugal um dos países onde as crianças passam mais horas na escola face à média europeia, também pode ser sintoma do seu cansaço. 


“Portugal é um dos países da União Europeia onde as crianças passam mais tempo na escola. Entre os 6 e os 11 anos, muitas passam cerca de 38 horas semanais em creches ou escolas.”

Imprensa | Pordata



Consoante aponta o psicólogo Alfredo Leite,  a pobreza de linguagem conduz a uma pobreza de pensamento. O mesmo psicólogo aponta como inteligência emocional, no âmbito da infância, é ''ter vocabulário para o caos interno''. Para auxiliar a sua compreensão de si e do mundo, cabe-nos hoje puxar pelas nossas crianças, insistindo para que terminem correctamente as frases.









RIP Marjane Satrapi

 


sábado, 6 de junho de 2026

“Porque é que alguns britânicos não gostam de Donald Trump?”

Nate White, um escritor inglês, escreveu a seguinte resposta:

''A few things spring to mind.

Trump lacks certain qualities which the British traditionally esteem.

For instance, he has no class, no charm, no coolness, no credibility, no compassion, no wit, no warmth, no wisdom, no subtlety, no sensitivity, no self-awareness, no humility, no honour and no grace – all qualities, funnily enough, with which his predecessor Mr. Obama was generously blessed.

So for us, the stark contrast does rather throw Trump’s limitations into embarrassingly sharp relief.

Plus, we like a laugh. And while Trump may be laughable, he has never once said anything wry, witty or even faintly amusing – not once, ever.

I don’t say that rhetorically, I mean it quite literally: not once, not ever. And that fact is particularly disturbing to the British sensibility – for us, to lack humour is almost inhuman.

But with Trump, it’s a fact. He doesn’t even seem to understand what a joke is – his idea of a joke is a crass comment, an illiterate insult, a casual act of cruelty.

Trump is a troll. And like all trolls, he is never funny and he never laughs; he only crows or jeers.

And scarily, he doesn’t just talk in crude, witless insults – he actually thinks in them. His mind is a simple bot-like algorithm of petty prejudices and knee-jerk nastiness.

There is never any under-layer of irony, complexity, nuance or depth. It’s all surface.

Some Americans might see this as refreshingly upfront.

Well, we don’t. We see it as having no inner world, no soul.

And in Britain we traditionally side with David, not Goliath. All our heroes are plucky underdogs: Robin Hood, Dick Whittington, Oliver Twist.

Trump is neither plucky, nor an underdog. He is the exact opposite of that.

He’s not even a spoiled rich-boy, or a greedy fat-cat.

He’s more a fat white slug. A Jabba the Hutt of privilege.

And worse, he is that most unforgivable of all things to the British: a bully.

That is, except when he is among bullies; then he suddenly transforms into a snivelling sidekick instead.

There are unspoken rules to this stuff – the Queensberry rules of basic decency – and he breaks them all. He punches downwards – which a gentleman should, would, could never do – and every blow he aims is below the belt. He particularly likes to kick the vulnerable or voiceless – and he kicks them when they are down.

So the fact that a significant minority – perhaps a third – of Americans look at what he does, listen to what he says, and then think ‘Yeah, he seems like my kind of guy’ is a matter of some confusion and no little distress to British people, given that:
* Americans are supposed to be nicer than us, and mostly are.
* You don’t need a particularly keen eye for detail to spot a few flaws in the man.

This last point is what especially confuses and dismays British people, and many other people too; his faults seem pretty bloody hard to miss.

After all, it’s impossible to read a single tweet, or hear him speak a sentence or two, without staring deep into the abyss. He turns being artless into an art form; he is a Picasso of pettiness; a Shakespeare of shit. His faults are fractal: even his flaws have flaws, and so on ad infinitum.

God knows there have always been stupid people in the world, and plenty of nasty people too. But rarely has stupidity been so nasty, or nastiness so stupid.

He makes Nixon look trustworthy and George W look smart.

In fact, if Frankenstein decided to make a monster assembled entirely from human flaws – he would make a Trump.

And a remorseful Doctor Frankenstein would clutch out big clumpfuls of hair and scream in anguish:

‘My God… what… have… I… created?

If being a twat was a TV show, Trump would be the boxed set.”

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A extinção da infância em curso.

Não consigo descrever o grau de indignação que sinto ao observar como se normaliza a violação da infância nos meios de comunicação social SIC Notícias / Expresso. Ouvir crianças de 13 e 15 anos a serem expostas a conteúdos sexuais por adultos que assumem estar a dar-lhes a palavra pela celebração do ''Dia da Criança'' - gritemos então juntos a palavra CRIANÇA - só pode ser profundamente ilegal e espero que punível pelas autoridades competentes. Se há lugar para educação sexual em casa e nas escolas, expôr (ainda para mais fazendo uso das suas imagens públicas) as crianças a estes temas é uma instrumentalização grave destes menores. Eles são aqui chamados para o meio sem razão alguma: quem produz e quem consome o Expresso e a Sic Notícias são adultos. E já agora, porque é que começa por haver uma CRIANÇA na fotografia de publicidade a este podcast? O distúrbio mental está tão disseminado que nem se dá por ele.







quinta-feira, 7 de maio de 2026

: o texto escrito por IA é claramente escrito por IA.

Na licenciatura, li Deleuze até enjoar e prometi a mim mesma que nunca mais. Agora, vomito um outro tipo de vómito, um vómito inédito e verdadeiramente mais sincero, quando leio texto claramente escrito por IA, cuja forma é detectável e milhões de vezes mais chata. E o pior é que não vem assinado pela IA, mas sim pelo impostor que escreveu as prompts, e que crê que roubar à IA faz de si autor. Mas só se engana a si próprio. Se é para imposturas, ao menos que se roubasse um textinho de melhor qualidade, não?

Pela primeira vez na História, é mais rápido escrever do que ler. E a suprema falta de respeito pelo tempo de quem lê é não tirar sequer o tempo para escrever.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

As consequências devastadoras das alterações climáticas estão à vista.

Imagens aéreas do Pinhal de Leiria, exibidas pelo Jornal da Noite, SIC a 1 Fevereiro 2026

Se o PINHAL DE LEIRIA sobreviveu por 7 séculos e se, em 2017, perdeu 86% pelos desastrosos incêndios, vendo praticamente tudo o que sobrava ou renascia dizimado agora, em 2026, pela tempestade Kristin, resta-nos intuir que catástrofes desta magnitude em catadupa são verdadeiramente um fenómeno deste século. As alterações climáticas são reais e as suas devastadoras consequências estão à vista (e já nos chegaram ao 'quintal').




''PROIBIDO POR INCONVENIENTE'' ou, a miragem salazarenta do Candidato Ventura

 


Em 2022, a exposição PROIBIDO POR INCONVENIENTE, repescou o título satírico de Sttau Monteiro (1962) que, contemporâneo da censura salazarista, foi alvo dela. Expondo publicamente ''Materiais das Censuras no Arquivo Ephemera'', Pacheco Pereira demonstrou como o encobrimento pelo fascismo, de 1926 a 1974, era transversal, dos periódicos à publicidade, dos livros aos filmes. Notícias a dar conta de desfalques, corrupção, suicídios, acidentes graves, conflitos, etc, eram cortadas, pois Salazar afirmava que “só existe aquilo que o público sabe que existe”. 

Então, esse País-miragem mantido por Salazar, que está na origem de expressões como ''Era preciso um Salazar em cada esquina'' ou ''Isto só lá ia com três Salazares'' é uma alucinação colectiva, um País imaginado decorrente do estado geral de desinformação. Quando VENTURA relança estas expressões no presente, é deliberadamente desonesto e escolhe a via anti-democrática, fazendo campanha a partir da mesma desinformação contínua  - e conveniente - que alicerçou a grande noite da ditadura. 
 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

''o treino para a indiferença (...) já começou há muito''

''Estes imigrantes são fantasmas que nos visitam a partir do futuro, trazem-nos as novas dessa humanidade trucidada que seremos, uma humanidade aceitante, devastada, que tem aquele olhar perdido de quem não deixa de reconhecer a iminência do pior, desse elemento de capricho numa crueldade que, caso se fixe em nós, exercerá essa atenção que encontra sempre um novo ponto de pressão, inventando outro ângulo para a sua extorsão, para nos infligir alguma outra violência, e, assim, nos tornamos cada vez mais esses seres apagados, de um sangue tão frio quanto possível, de modo a sobrevivermos mais um dia, tenebrosamente vergados, sendo o medo toda a extensão da nossa consciência. Eles visitam-nos do futuro, incapazes de se misturarem, por não terem lembrança de alguma vez não ter sido tão difícil, e repugna-nos neles essa sensação de vertigem, como se estivéssemos a resvalar, a cair para a pele deles, como se intimamente suspeitássemos que é uma questão de tempo, e que a única diferença será as lembranças que irão pesar em nós, e que, do outro lado, serão uma fraqueza fácil de ser aproveitada pela crueldade. Tudo aquilo que acreditávamos que nos mantinha fixos, a nossa decência, educação, valores, revela-se então como um sistema de amarras mal ajustadas, cordas que julgávamos sólidas e que afinal apodrecem silenciosamente com a humidade do tempo, até ao momento em que, sob uma pressão mínima, cedem todas ao mesmo tempo. E é nesse instante, quase imperceptível, que começamos a compreender que aquilo a que chamávamos estabilidade não passava de um acordo provisório com as circunstâncias, um pacto tácito com a boa fortuna, sempre pronta a retirar-se sem aviso. Os imigrantes, ao caminharem entre nós com essa gravidade de quem traz consigo um inventário de perdas impossível de expor, tornam visível a falência desse pacto. Não pedem nada, e é isso que mais nos inquieta, porque a sua presença funciona como uma prova silenciosa de que há estados de vida para os quais não existe reparação, apenas continuação. Neles, o tempo não cura; acumula-se, deposita sedimentos, como poeira fina sobre móveis abandonados, e cada gesto quotidiano, o modo como seguram um saco, como esperam numa paragem, como evitam o olhar directo, parece conter uma história inteira que foi comprimida até ao ponto da quase ilegibilidade. Observando-os, sentimos uma estranha inversão da ordem temporal: somos nós que ficamos para trás, presos a um passado que ainda insiste em apresentar-se como normalidade, enquanto eles avançam, já adaptados àquilo que apenas começamos a pressentir. E talvez seja por isso que a sua imagem nos causa esse mal-estar profundo, essa sensação de que a linha que separa o espectador do observado é mais fina do que gostaríamos de admitir. Pois reconhecemos, apesar de todos os nossos esforços em negar, que o treino para a indiferença, para a redução progressiva da empatia, já começou há muito, disfarçado de prudência, de realismo, de cansaço moral. Assim, pouco a pouco, vamos aprendendo a habitar um mundo mais estreito, no qual a memória se torna um risco e a sensibilidade um luxo perigoso. E quando finalmente nos apercebemos de que também nós falamos com frases mais curtas, com menos inflexões, com esse tom neutro que evita atrair atenção, já estamos demasiado envolvidos no mecanismo para dele sair. Os fantasmas do futuro deixam então de nos visitar, porque já não é necessário: tornámo-nos, sem alarde, parte da mesma paisagem de sombras em deslocação contínua.'' Diogo Vaz Pinto

domingo, 25 de janeiro de 2026

Presidenciais 2026: Votar pela democracia e contra o fascismo.


Em conversa ocasional, um familiar meu citava André Ventura (numa das suas frases mais grunhas), e então perguntei-lhe directamente:
- Vota Chega, agora?
- Votei e vou voltar a votar!

Duas frases depois, desdenhava da burocracia do Estado Português, que ainda não lhe tinha dado a reforma, enquanto já recebia a sua pensão de França, onde esteve emigrado por vinte anos. Ou seja: gosta de usufruir das benesses de ter estado numa economia mais avançada do que a do lugar onde nasceu, mas quer os imigrantes fora de Portugal e que ninguém tenha oportunidades no País que não os portugueses. Exactamente a mesma mentalidade pequenina desses emigrantes que, no estrangeiro, votam Chega, mas que não querem realmente ficar em Portugal: estão à distância da propaganda online e ensopados das máximas salazarentas e folclóricas que Ventura prega, e vêem-no como restaurador de uma qualquer Portugalidade (esse ‘‘Bom Povo Português’’) que nunca existiu. E, tantas vezes esquecendo-se até de que descendem de quem foi para fugir ao Salazarismo, vão agora, em dia de eleições, subscrever aquele que quer um Salazar em cada esquina! De facto, a única coisa que emigrantes e luso-descendentes querem é que no Verão, quando vierem à terrinha exibir o Mercedes comprado com o ordenado da Alemanha ou da Suíça ou do Luxemburgo, Portugal ainda cheire a sardinhas e fumeiro e não a caril. Mas trabalhar cá? Nunca! Construir uma segunda casa e viver cá com a reforma de lá, isso sim! Votam na extrema direita para Portugal mas não lembram como, se a extrema direita chegasse ao leme num desses países onde vivem melhor e houvesse uma espécie de ICE (como a de Trump), possivelmente voltavam recambiados à força!

O que há de diferente entre um português que sai para a Europa para procurar melhores condições de trabalho e de vida, de um bangladeshi que vem para Portugal para procurar melhores condições de trabalho e de vida? Vincam-se diferenças ilusórias, que engendram o medo e escalam a violência. Este Ventura que papagueia ‘‘Deus, Pátria, Família e Trabalho’’, e que faz questão de lembrar, no directo televisivo, que vai à missa, só tirou da religião do Livro o ódio ao Outro. E tal como Salazar antes de si, que em nome de Deus e da Pátria propagou um imperialismo racialista e bélico e alimentou uma guerra colonial, também Ventura tem no Colectivo 1143 um braço armado, assim como o tem nos infiltrados nas forças de segurança que torturam imigrantes com sadismo. E com a mesmíssima passivo-agressividade do tom suave de sacristia, vem o fascismo corroendo devagarinho, legitimando-se entre slogans e frases-efeito, que ecoam e são repetidas por quem as ouve.

Nas próximas presidenciais, votar em António José Seguro é votar contra o neo-salazarismo de Ventura e do Chega (esse esquadrão de racistas, xenófobos, ladrões, pedófilos, trumpistas, nazis e arruaceiros, que mancham de crime as notícias semanais). Votar em António José Seguro é votar pela democracia e contra o fascismo.

''Quem dorme em democracia, acorda em ditadura.''







sábado, 13 de dezembro de 2025

[Ir ao cinema, na caverna escura,]

Ir ao cinema, na caverna escura,

sentar-me na poltrona do teu ombro

numa t-shirt antiga de bom pêlo,

é o prazer mais certo que me resta.

Que bom deixar-me estar na oscilação discreta

que nasce do teu corpo e me transporta

a essa embriaguez chamada rima;

sentir o cheiro limpo do cabelo,

adivinhar-te o gosto da saliva.

Pois, embora eu veja a multidão compacta

(que a imagem tornou inofensiva)

estremecer e rir e comover-se

à imprecisa luz da narrativa,

eu sei que é tudo só um mero acto

de magia vulgar vinda do tecto

onde o olhar obsceno do arquitecto

ao longo da sessão vigia e julga;

e mesmo a clara forma da paisagem

é tosco véu de uma ilusão sensível,

metáfora ou reflexo de outro mundo

perfeito e puro, onde não entra gente

(mas entra, vê tu bem, a miserável pulga).

Tu porém és real, sentes lá dentro

um coração pulsar, e até parece

que tens em ti a inclinação secreta

a seres dono de ti, e partilhar

a vida verdadeira de um insecto.

Assim eu sonho e penso, já suspenso

por fino fio, à altura do teu peito;

mas já, impaciente, tu murmuras

que perdes o teu tempo em desgraçada fita;

melhor seria, em quente discoteca,

toda a noite dançar (uma invenção maldita,

alheia à condição de quem medita),

ou regressar a casa, onde de graça

te aguarda mais concreta companhia.

Ficar por aqui só, sem o mistério

da tua carne branca bem cheirosa,

é uma perspectiva que me assusta;

como dizer-te que também eu quero

afinal conhecer o nó do enredo?

De poucas horas feita a longa vida,

são estas as melhores e as mais justas;

está o filme a acabar, fica comigo até ao fim;

não sabes que te perdes, quando te perdes de mim?

 

 

António Franco Alexandre

in  Aracne

sábado, 9 de agosto de 2025

''UM IAQUE NA SALA DE AULA'': Pertencemos ao lugar que nos quer.


Vi UM IAQUE NA SALA DE AULA (2019) filme de estreia do cineasta butanês Pawo Choyning Dorji, uma poderosa parábola sobre saber ficar onde se é preciso.


Ser é repetir: para lá de status, para lá de ego, para lá de fama, para lá de dinheiro, para lá de nome, enfim perceber a própria acção na vida como serviço (aos outros e ao comum) é ficar onde se faz a diferença, onde se é visto e respeitado, onde há margem para construir, onde se transmite legado. Seja nas dimensões profissional, emocional ou familiar: somos maiores do que nós próprios quando somos com e para os outros.
Pertencemos ao lugar que nos quer. 


''Nós somos a nossa vida, não temos outra definição, é esta.''

Eduardo Lourenço

Ricardo Marques, DIDASCÁLIAS, edição Do Lado Esquerdo



quarta-feira, 9 de julho de 2025

Educação: e se voltássemos aos objectos?


A ''fábrica de cretinos digitais'' (conceito do neurocientista francês Michel Desmurget, 2019) descreve como os nativos digitais estão a perder faculdades intelectuais e cognitivas por exposição excessiva a ecrãs. Esta geração tem o acesso à cultura centralizado num só aparelho digital: música, textos ou filmes equivalem a um tablet, laptop ou smartphone, simultaneamente plataformas de estudo e de lazer. Mas entre redes, notificações e janelas pop-up, em cada um destes aparelhos acontecem mil coisas por minuto, e a atenção esvai-se.

Antes, exercíamos autonomia e gosto sobre as nossas escolhas: a música era no walkman, discman ou Mp3 que carregávamos connosco. Os filmes eram nas cassetes e DVDs. Os textos eram nos livros. Havia uma relação háptica com a cultura baseada nos objectos que se perdeu com a hiperdigitalização.

Pela primeira vez, dizem os especialistas, temos uma geração mais estúpida do que a anterior. Esta carência intelectual liga-se à falta de cultura, ao nivelamento por baixo que redes e canais catalisam, mas também a uma falta de autonomia e a uma aceleração que diminui os índices de atenção.

Penso que a principal ferramenta que a criança tem de desenvolver é a resistência ao tédio. Com essa endurance estimulada desde cedo, a criança saberá estudar, escutar e encarar com menos frustração tudo: os exames, as provas desportivas, a aprendizagem do instrumento musical, etc. É a ferramenta mais útil para o seu futuro, a par do controlo emocional e da autonomia. 

Para pais e educadores, parece-me importante contrariar a hiper-aceleração e resgatar os formatos físicos, estreitando o acesso das crianças a Livros, DVDs e CDs, estimulando o seu transporte de cultura consigo e o poder decisório colocado em cada compra e em cada escolha.

E sem diabolizar a tecnologia, recordando como a sua disseminação é essencial na democratização ao acesso e à exposição a cultura, vamos utilizar pedagogicamente as novas plataformas como complemento - sem substituição. E que regressem os Nokia 3310, que as crianças não precisam de mais do que isso para estar contactáveis!