Kidfluencers: The business of broadcasting childhood
''[...] cada homem, limitado e condicionado pela estrutura ético-social, pelas contingências individuais, como que vive uma vida incompleta, medíocre, em relação à que ele secretamente aspira – a vida de cada um de nós é como uma tragédia truncada, ou uma comédia apenas esboçada... E daí a profunda necessidade de, ao lado da vida, existir um centro, um lugar, uma ilha de luz isolada no meio da cidade noturna, em que a paixão e a imaginação possam arder livremente, até o fim, sem as limitações do cotidiano: e assim, nesta ilha de luz, no Teatro, o homem, cada um de nós, pode ver-se realizado, cumprido integralmente, pode aferir a sua real potencialidade de paixão, saber de quanto amor e ódio, de quanto bem e mal é capaz; o Teatro dá-nos o desenho completo de nós mesmos, a tragédia ou a comédia totais das nossas vidas prisioneiras.''
(SANTARENO, 1967, O Tempo e o Modo, n. 50-53, 591-592. Lisboa )
Parece-me uma iniciativa copiável e aplaudo o Reino Unido por fazer frente aos gigantes da Big Tech. A expressão ''recolher obrigatório'' indicia já a situação de crise a que a medida responde, pois a utilização das redes por crianças e jovens devia ter sido regulada lá atrás. Mas, na génese da internet, quando um bando de hippies com jeito para a informática inventou a world wide web, o software era open source, o código era uma linguagem democrática e uma ideia de comunidade crescia com optimismo e sem restrições, pela via da partilha gratuita do conhecimento à escala global.
Com a exponenciação massiva da internet como produto, a internet foi colonizada pelos gigantes da Big Tech que cresciam enquanto remodelavam completamente a arquitectura da internet para progressivamente corresponder aos padrões comportamentais dos seus utilizadores, transformando o humaníssimo desejo de comunidade em redes sociais. O ciberespaço expandiu-se de mãos dadas com o capitalismo da vigilância e as redes sociais tornaram-se armazéns de dados voluntariamente cedidos pelos seus usuários.
Nas redes sociais, os utilizadores (''users'') são literalmente designados como os viciados em drogas, pois são constantes cobaias da experiência aliciante que as plataformas actualizam, assim aperfeiçoando a criação de perfis e padrões de engajamento e consumo. A tal ponto, que até já existem retiros de desintoxicação digital, onde os participantes têm de deixar o telemóvel à entrada.
Soma-se uma acumulação colossal de dados que vale mais do que todos os censos, todas as sondagens ou todas as amostragens alguma vez recolhidas. E, para acederem a essa informação como instrumento de ''previsão dos mercados'', as empresas pagam bom dinheiro às redes enquanto os seus utilizadores não pagam nada. ''If you're not paying for the product, the you are the product.''
Assim, face à proposta de lei para um recolher digital, quem se apressa em clamar liberdade (a sua e a dos seus filhos) para usar redes fora do controlo estatal, esquece um facto basilar: a liberdade nas redes não existe. Não é o utilizador quem controla a rede, mas a rede que controla o utilizador.
Já em fase legislativa acelerada, a proibição de redes sociais para menores de 16 anos, contempla TikTok, Instagram, Snapchat, YouTube, Facebook e X.
O Reino Unido não está, no entanto, sozinho neste posicionamento:
A Austrália, é o caso ocidental mais consolidado, com legislação já implementada desde 2025, já restringindo redes sociais a menores de 16;
A França já tem consentimento parental obrigatório para menores de 15; discute agora limites temporais e mecanismos automáticos de suspensão.
A Irlanda ainda não tem um modelo fechado, mas sob forte pressão por ser o coração europeu das Big Tech.
Na Noruega amadureceu, em debate público, propostas para elevar idade mínima digital, com consenso social elevado.
Na Suécia, a medida prossegue em fase experimental, com foco inicial em escolas e limitação de dispositivos; possível extensão futura às plataformas.
A Dinamarca está em fase de estudo político, com forte atenção ao impacto no desenvolvimento cognitivo infantil, mas sem legislação robusta ainda.
A Holanda está em fase de ensaio: medidas escolares já activas; transição provável para regulação doméstica.
No Canadá, algumas províncias avançaram mais depressa nesta legislação, sem quadro federal unificado.
Em Espanha, começou a discutir-se a verificação etária e o uso escolar, mas sem arquitectura legal definida.
Se esta medida já chega como contenção de danos, não faltam estudos recentes que co-relacionam a deterioração da saúde mental de crianças e jovens, ao acesso permanente às redes sociais nos telemóveis. Já estudadas, são várias as consequências desta exposição sobre os jovens: entre elas, a chamada ''mineração da atenção do utilizador'', a radicalização, sujeição a padrões irreais de lifestyle e consequente comparação social, a aceleração, o défice de atenção, a fragilização identitária, a exposição a violência simbólica ou a erosão do tempo lento necessário à formação do pensamento. A chamada adultização das crianças, está explícita no documentário da BBC News Brasil ''Como pular etapas na infância afecta o desenvolvimento''.
Veja-se ainda na Netflix o documentário The Social Dilemma. Armazenados os seus chorudos milhões de dólares no banco, são agora os inventores destas redes que aqui vêm avisar sobre os seus malefícios. E mesmo depois de verem o edifício a arder em múltiplas frentes, ainda assim sabem como hoje seria financeiramente inviável domar o monstro face aos accionistas (share-holders). Então, abandonam Silicon Valley em busca da redenção, e pedem perdão ao Mundo depois de ajudarem a destruí-lo.
Este documentário demonstra como a necessidade biológica de comunidade inscrita na evolução humana é tanto o factor que explica a adesão massiva às redes, como o que mais sai lesado pela sua utilização. A corrosão dos laços sociais no mundo físico em que a sociedade ancestralmente assenta, segue a par com a polarização, a radicalização e o extremismo, renomeando o presente como uma ''era da desinformação''.
Um recente julgamento histórico nos EUA deu, em 2026, a vitória em tribunal à jovem Kaley G.M, de 20 anos, que recebeu uma indemnização de 6 milhões de dólares num processo contra a Meta Platforms, Inc. e a Google LLC.
Essencialmente, Kaley começou a usar YouTube aos 6 anos, entrou no Instagram aos 9, e alegou que os mecanismos de scroll infinito, autoplay e recomendação algorítmica criaram adição, resultando em ansiedade severa, dismorfia corporal e depressão. O tribunal deu-lhe razão, sublinhando que, se o algoritmo é desenhado para capturar compulsivamente a atenção, então o problema está na arquitectura da máquina, e não somente no conteúdo de terceiros que aloja. Além de juridicamente revolucionário, abriu o diálogo para a necessidade de mudança.
Ao dinamizar pessoalmente actividades com crianças, oiço-os constantemente a combinarem, para mais tarde, encontros no Roblox (passei a conhecer esta plataforma gratuita de jogos), trocando os seus ''nicknames'' para se amigarem nessa rede. Como noutras redes, o vício no Roblox instala-se nas crianças devido ao seu design como slot-machine: ganham-se moedas, desbloqueiam-se pets, sobem-se níveis, encontram-se itens raros. Para além disso, há a customização do avatar e a socialização, que catalisa na criança a sua natural necessidade de pertença.
"Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente."
Jiddu Krishnamurti
O diagnóstico de uma sociedade doente é o estado de crise que, sob vários ângulos, se associa colectivamente ao viver contemporâneo. E se a infância está sob ataque, é preciso recordar (da psicologia, da psiquiatria, da neurologia ou da pedagogia), como se forjam nela os alicerces de toda vida em diante. Cuidar das crianças é cuidar do nosso futuro enquanto sociedade.
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MAIS INFO:
DN / Lusa: 26 Maio 2026
''Os nativos digitais são os primeiros filhos a terem um QI inferior ao dos pais. Após milhares de anos de evolução, o ser humano está agora a regredir em termos cognitivos e de capacidades intelectuais — por culpa da exposição excessiva a ecrãs.''
Michel Desmurget, in A FÁBRICA DE CRETINOS DIGITAIS, 2021
"As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. Dão-lhes o direito de falar quando antes só falavam num bar depois de um copo de vinho, sem prejudicar a comunidade... mas agora têm o mesmo direito de falar que um vencedor do Prémio Nobel. Dos idiotas."
Umberto Eco, 2015
“Portugal é um dos países da União Europeia onde as crianças passam mais tempo na escola. Entre os 6 e os 11 anos, muitas passam cerca de 38 horas semanais em creches ou escolas.”
Imprensa | Pordata
Nate White, um escritor inglês, escreveu a seguinte resposta:
Trump lacks certain qualities which the British traditionally esteem.
For instance, he has no class, no charm, no coolness, no credibility, no compassion, no wit, no warmth, no wisdom, no subtlety, no sensitivity, no self-awareness, no humility, no honour and no grace – all qualities, funnily enough, with which his predecessor Mr. Obama was generously blessed.
So for us, the stark contrast does rather throw Trump’s limitations into embarrassingly sharp relief.
Plus, we like a laugh. And while Trump may be laughable, he has never once said anything wry, witty or even faintly amusing – not once, ever.
I don’t say that rhetorically, I mean it quite literally: not once, not ever. And that fact is particularly disturbing to the British sensibility – for us, to lack humour is almost inhuman.
But with Trump, it’s a fact. He doesn’t even seem to understand what a joke is – his idea of a joke is a crass comment, an illiterate insult, a casual act of cruelty.
Trump is a troll. And like all trolls, he is never funny and he never laughs; he only crows or jeers.
And scarily, he doesn’t just talk in crude, witless insults – he actually thinks in them. His mind is a simple bot-like algorithm of petty prejudices and knee-jerk nastiness.
There is never any under-layer of irony, complexity, nuance or depth. It’s all surface.
Some Americans might see this as refreshingly upfront.
Well, we don’t. We see it as having no inner world, no soul.
And in Britain we traditionally side with David, not Goliath. All our heroes are plucky underdogs: Robin Hood, Dick Whittington, Oliver Twist.
Trump is neither plucky, nor an underdog. He is the exact opposite of that.
He’s not even a spoiled rich-boy, or a greedy fat-cat.
He’s more a fat white slug. A Jabba the Hutt of privilege.
And worse, he is that most unforgivable of all things to the British: a bully.
That is, except when he is among bullies; then he suddenly transforms into a snivelling sidekick instead.
There are unspoken rules to this stuff – the Queensberry rules of basic decency – and he breaks them all. He punches downwards – which a gentleman should, would, could never do – and every blow he aims is below the belt. He particularly likes to kick the vulnerable or voiceless – and he kicks them when they are down.
This last point is what especially confuses and dismays British people, and many other people too; his faults seem pretty bloody hard to miss.
After all, it’s impossible to read a single tweet, or hear him speak a sentence or two, without staring deep into the abyss. He turns being artless into an art form; he is a Picasso of pettiness; a Shakespeare of shit. His faults are fractal: even his flaws have flaws, and so on ad infinitum.
God knows there have always been stupid people in the world, and plenty of nasty people too. But rarely has stupidity been so nasty, or nastiness so stupid.
He makes Nixon look trustworthy and George W look smart.
In fact, if Frankenstein decided to make a monster assembled entirely from human flaws – he would make a Trump.
And a remorseful Doctor Frankenstein would clutch out big clumpfuls of hair and scream in anguish:
‘My God… what… have… I… created?
If being a twat was a TV show, Trump would be the boxed set.”