quinta-feira, 13 de maio de 2021

nós afinal estávamos aqui e não lá e às vezes, quando entre nós só havia o Nada, o nosso encontro era perfeito.

Tantas constelações que
nos são oferecidas. Quando
para ti olhei – foi quando? – estava
lá fora nesses
outros mundos.
Oh, estes caminhos, galácticos,
Oh, esta hora que nos
trouxe as noites lançando-as
na carga dos nossos nomes. Não
é verdade, bem o sei,
que tenhamos vivido, passou,
cego, apenas um sopro entre
Lá e Não-aqui e Às-vezes,
como um cometa, um olho passava vibrante
em busca de fogos extintos, nos desfiladeiros,
no lugar do lume a apagar-se estava
o tempo num esplendor de tetas,
e por ele acima e abaixo já
crescia e passava o que
é ou foi ou há-de ser –,
eu sei,
eu sei e tu sabes, nós sabíamos,
não sabíamos, nós
afinal estávamos aqui e não lá
e às vezes, quando
entre nós só havia o Nada, o nosso
encontro era perfeito.
Paul Celan, "Tantas Constelações". Trad. João Barrento

terça-feira, 4 de maio de 2021

Suzan@s-futur@s


Goste-se ou não se goste da candidata Suzana Garcia, esteja-se próximo ou a anos-luz do seu espectro político, há um aspecto que a sua existência pública levanta e que é da mais premente discussão. E é, precisamente, o facto de que a raça, na maior parte dos casos, não se vê. Afinal, quem é que pode afirmar conhecer verdadeiramente as miríades da sua composição étnica? Todos somos percentagens disto, daquilo, daqueloutro.

Suzana esperneia sem cessar porque lhe chamam racista quando ela até é mestiça. E o facto é que ela nisso tem toda a razão - mesmo que lhe saia muita outra coisa ao lado... Não é porque ela parece caucasiana que o é. E assim, evoca a mais verdadeira das verdades: nenhuma proveniência étnica ou racial, se vê senão numa análise ao ADN.
Não perceber isto é perpetuar estereótipos de que a raça é observável a olho nu, que é a falácia de base em que assentam todos os racismos. É esta a necessária discussão que a Suzana devia estar a gerar e não outras tretas. Porque, mais umas centenas de anos e, por via da globalização e da miscigenação, todos os seres humanos nisso vão ser Suzanas, na medida em que vamos pertencer a um melting pot tão indiscernível que essas conversas sobre etnias, raças ou racismo serão ainda mais pré-história. E ainda bem...

sexta-feira, 23 de abril de 2021

23.4.2021 / Dia do Livro e dos Direitos de Autor



Enquanto autora e aplicando o âmbito do dia ao cinema, apetece-me monologar: 

O que é, em termos práticos, um filme?
uma obra de arte? 
um serviço prestado a uma produtora? 
um produto cultural pautado pelas mesmas regras que orientam as demais trocas de bens e serviços?

Talvez todas as respostas anteriores. Mas, considerando como as lógicas comerciais rapidamente avançam para cima do princípio artístico do objecto, é muito fácil que este se perca de vista. Mas, não seria correcto afirmar que, considerando a forma como as produtoras operam presentemente em Portugal, um filme só é de autor se o produtor tiver a sensibilidade de conceder essa benesse ao seu autor? Por um lado, sempre se disse a peito cheio que o valor do cinema português e a sua definição mais ou menos lírica, é a pujança dos seus autores enquanto autores... Que é essa pessoalidade que compõe a categoria difusa a que chama cinema português... Que isto aqui não é o studio system americano... Mas ao mesmo tempo, na prática, é. Porque está inteiramente nas mãos do produtor a decisão de conceder essa ''benesse'' ao autor - a benesse de ser autor até ao fim. Ou a 30%, ou a 50%, ou a 80%. Tenha um filme ganho um concurso cinematográfico, televisivo ou multimédia, ou seja o que for... Não importa. Quem decide o papel que o realizador tem ou não tem no objecto enquanto tal é, em última análise, o produtor. Porque efectivamente, os produtores são os inevitáveis mediadores entre os meios e a obra e, no processo, ou encaram o realizador como artista ou como tarefeiro. Não tenho soluções. Estou apenas a constatar como, no fundo no fundo, todo o fazer de cinema em Portugal assenta em questões de empatia e de sensibilidade artística, coisas praticamente impossíveis de medir ou de legislar.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

No papel abandonado

 


sexta-feira, 2 de abril de 2021

the art of losing


One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

SE AS MINHAS MÃOS PUDESSEM DESFOLHAR



Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

terça-feira, 30 de março de 2021

''Mas a pupila de um cego também não esquece o azul que não vê.''



Cada um quer ter a sua dor

e dar-lhe um corpo, um aspecto, uma cama,
e rogar-lhe pragas no escuro das noites,
trazê-la em si tenazmente
para que seja vista como uma bandeira,
como a espada que fortalece.
Mas perdeu-se no ar da vida
uma outra fé, um outro dever
que não suporta ser nomeado
e só diz respeito a quem o sente.
É este. É ficar
aqui a sentir como agora
a onda que sobe às nossas mentes,
que as aperta numa só respiração
como se fosse para sempre,
e as abandona.
Mas a pupila de um cego também
não esquece o azul que não vê.

Silvia Bre
(tradução de Vasco Gato)

domingo, 28 de março de 2021

Ring Of Peace


I have passed the doors of coldness
The doors of my bitterness
To come and kiss your lips
City reduced to a room
Where the absurd tide of evil
leaves a reassuring foam
Ring of peace I have only you
You teach me again what it is
To be human when I renounce
Knowing whether I have fellow creatures
Paul Eluard

terça-feira, 23 de março de 2021

''Turn loneliness into solitude''

 


Andrei Tarkovsky

domingo, 21 de março de 2021

Dia Mundial da Poesia

 



É uma obra que se vai realizando, uma mulher que se cria para um vestido.

Comprei um vestido novo, um vestido de interior, próprio de casa, longo, para uma hora de uma certa tarde, para algumas noites no meu apartamento, sei para quem, agrada-me porque é comprido e leve, e alem disso explica que vou ficar muito tempo em casa, a partir de hoje. Para o provar, não queria que Ivan estivesse aqui, Malina muito menos; por ele não estar, posso olhar-me à vontade no espelho, dou voltas e mais voltas diante do enorme espelho do corredor, a mil léguas, a uma distância abissal, astronómica dos homens. Por uma hora, posso viver fora do tempo e do espaço, verdadeiramente contente, transportada a uma lenda onde o perfume de um sabonete, o ardor duma água-de-colónia, o frufru de roupa interior, o gesto da mão mergulhando borlas na caixa do pó, ou retocando meditativamente uma sobrancelha, são a única realidade. É uma obra que se vai realizando, uma mulher que se cria para um vestido. No mais profundo segredo se esboça de novo o que é uma mulher, pensa-se no começo do mundo, num halo que não dá luz para ninguém. É preciso escovar vinte vezes os cabelos, untarem-se os pés de unhas envernizadas, é preciso depilar pernas e axilas, abrir e fechar o chuveiro, uma nuvem de pó inunda a casa de banho, olha-se no espelho, ainda é domingo, consulta-se o espelho, na parede, talvez já seja domingo.




Ingeborg Bachmann

domingo, 14 de março de 2021

Do mundo faz-me bem a canção distante




Do mundo faz-me bem a canção distante 
como o amante no escuro lê o corpo ao lado
surdo ao som do mundo
saboreando a corrente, fundo
entre coisas e seres afogados, 
como a prece de quem dorme e solta
esse aroma que tudo trama interiormente
ouvindo os nós da eternidade romper-se
do mesmo modo que a noite se acaba
entre dois corpos que se enganaram
e depois disso só resta o talento
para se fingirem mortos um para o outro,
como enfim o quarto e a ilha são recuperados,
livros e caroços, a mesa, o balanço
curvado por cima o firmamento,
a passada firme cheirando daqui a terra inteira
com o propósito de não ir a lugar nenhum,
agradam-me os limites da minha tumba,
as poucas palavras e a vista, o vazio,
as ridículas flores amarelas, o que o vento diz
quando ninguém o escuta, e então
sobre as cinzas neutras de um verso roubado a Lorca
pode ser que um leopardo se chegue
e o sinta articular enfim o silvo de luz
contando que os séculos salvem este olhar 
única flor que deu uma tão fraca memória
imagino que possa vaguear
como num frasco selado acontece
o tempo apurar longamente uma visão,
uma névoa ou um sono que se estende
para além da vida, 
como há ecos que prolongam uma obra
encantando outras mãos
como num cântaro uma água velha
a que o silêncio deixou o gosto
tece a hábil descrição do mundo circundante
essas sombras que mal se agarram
quando já não é a terra o que nos prende
mas do céu as raízes que se infiltram
e mexem dentro de nós, 
para que assim mesmo depois de frios
nos teus lábios se possa ler outra coisa
como se mastigasses um colibri
como se descrevesses o paraíso
chamando alguém que pouse na pedra
a cabeça e por um momento tolde o céu.

Diogo Vaz Pinto