terça-feira, 2 de março de 2021

Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.

BEBO UMA BICA POR DIA


Bebo uma bica por dia, às vezes bebo-a fria
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.

Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.

Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.

A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.

Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?

E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

e eu sem braços.

 Oh lábios aos pares
onde se fecha o espaço
e eu me monstro escasso
Oh caldo de pétalas
onde boiam olhos de óleo
e os meus postos em nada
Oh estradas da noite
onde os cães morrem de espanto
e eu me misturo mal
Oh selva esbracejante
onde flores e êmbolos
onde ninhos e compassos
e eu sem braços.

Regina Guimarães

sábado, 27 de fevereiro de 2021

pela janela espio a paisagem destruída

 

ERAS NOVO AINDA


mal sabia reconhecer os teus própios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles
esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou
enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme
quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

a eterna questiúncula de nascer

PRANTO PELO FIM DA JUVENTUDE

ó gloriosa senhora que tudo atinge
esquecei minha puberdade em algum Verão
passai os anos mui sucessivamente ao longe
esteja eu sempre rodeado de beleza e são

ponde depressa esta chuva no sequeiro
trazei a costumada amante soalheira
que ela enxugue meu destroço caloteiro
de uma antiga suavidade mais costeira

responde‑me, quantas maldades te fiz
que não passo de um poeta a meia haste
se te traí foi por supor, foi por um triz
que era meu o que agora me apartaste

não subtraias mais este meneio, a eficácia
em que cultivo o escândalo com que protelo
até hoje fui raro freguês de uma farmácia
queria daqui p’rá frente continuar a sê‑lo

seja eu claro enfim: não quero morrer
peço‑o com mesuras, rainha, não é para agiotar
conquanto a eterna questiúncula de nascer
pareça pior que os custos de me ausentar

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

RIP Ferlinghetti (1919 - 2021)




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

exigências simples.

O Poder de Circe

Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.

Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,

sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.

Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi

que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,

previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas

que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém

vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
podia ter-te aprisionado.

Louise Glück

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

happy something new but not quite


 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A poesia


 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente: o coração onde correm milhões de gotas de sangue.

 


Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,

uma coroa de borboletas com suas asas pintadas. Terás de volta ao pescoço flores de abóbora, em prata, e a lua que para ti noites e noites forjei. Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa. Um cavalo ardente e leve, animado pelo meu fogo de amor. E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente: o coração onde correm milhões de gotas de sangue.

gavetas fechadas

 


domingo, 27 de dezembro de 2020

Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.

 Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto.

Gosto do deserto. Levei tábuas e pregos. Ferramentas, as belas ferramentas dos homens. Levei água, víveres, sementes. Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos – também não eram sementes de máquinas. As belas máquinas dos homens. Não me lembro se fui pelo ar. Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas. Não me lembro de quando se vai deixando. Foi portanto pelo ar. Levei tudo para experimentar o deserto. Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas – as belas ferramentas. Tenho uma pequena ciência. Aprendi. Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto. Ficava no meio. No meio é bom – há uma coisa que se chama à volta. Serve para estar bem só. Comprei tábuas, sementes e águas. Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo. Eram sementes de cabeças de crianças. Tenho uma pequena ciência. Fiz como nos livros. Dividi-me em sete dias. Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego. Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos. Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia. Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto. No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre. Foi então que senti o sangue a bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia. No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão – as sementes –, lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento. Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra – era então o sexto dia. E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira. Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso corpo solitário sente deitado sobre a terra. Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia. Era uma sementeira de cabeças de crianças. Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário. Não eram. Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças – era terrível. Seriam verdes-garrafa? Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças – vivas, oscilantes, latejantes sobre os pedúnculos que irrompiam do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria. Começaram então a sussurrar – e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo. Mas eram cabeças de crianças. E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração, estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças. Eu nunca mais dormiria – era de noite, era agora a minha noite. E então elas começaram a cantar – na minha noite. Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa – e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes. No deserto. O meu coração nunca mais dormiria. Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário. Eram cabeças de crianças.

Mas já o coro das primeiras aves ergue um cântico / na vasta catedral do céu ainda indeciso

Um dia uma vida

Não vazes tantas vezes vozes rente ao vento
e não escutes os pássaros nem mesmo o mar
não oiças nem sequer o vento se soprar
ouve o tempo passar escuta a sua voz
pois o tempo tem voz o tempo fala
Está atento abertos os ouvidos ouve
a vida é uma vasta música suave
É esta praia esta dúzia de casas
curiosas do mar que as lambe lá em baixo
a verdadeira capital da noite
Nos limites marítimos do burgo
de casas calmas sobre as pálpebras da morte
dormindo à luz da lua sobre as ondas
que trocam mais abaixo espuma com as rochas
nos extremos atlânticos de aquesta povoação precária
o homem abafado pelo alvo algodão do sono
transforma-se num peixe e devora esse peixe
sem pressentir sequer que a si mesmo se devora
Outras vezes o homem sempre vítima do sono
afaga na almofada um vulto imaginado
e dá-lhe mesmo um nome sem saber
que nomear as coisas é criá-las
Entretanto a sereia sulca o nevoeiro
nas masmorras erguidas na orla do sonho
depois de o náufrago nadar nu nos lençóis do leito
sob a noite cerrada sobre a cruel
concórdia do convénio conjugal
E há sonhos e segredos vislumbrados véus
nos que dormem nas casas onde o mar mergulha
vêm flocos de neve à tona da memória
e doses simples ou dobradas meias doses
de uma lua embalada em lenta trajectória
sulcam o céu de telha ou de betão das construções
Inexploradas conchas sobressaltam os caminhos
calcados por aqueles que o mar chama
e favas e feijões inaugurais rompem a terra
sensível à semente que a fecunda
cavada num convívio de indistintos mortos
que em sua noite metafórica articulam só
a imutável voz possível às inscrições pétreas
Mas já o coro das primeiras aves ergue um cântico
na vasta catedral do céu ainda indeciso
quando a alva alveja os sonhos dos vizinhos
embora ainda os embale o naufrágio do sono
A povoação ondula como um lago
levemente mexido pela névoa que inaugura
o espaço disponível para o dia
Ao sol horizontal saem de casa os habitantes
que após o sol não são os mesmos de antes
O tempo passa ouve o tempo passa
faz um breve ruído e passa irrefragável incontido
Já o primeiro sol surge e retira
a sonolenta capa que cobrira cada face
e as gaivotas filhas da manhã
trazem no bico a fímbria da recente luz
E começam as colunas de neblina a irromper
das chaminés de renda das recém-despertas casas
As árvores são verdes é sólido o mar
o tempo passa há raparigas novas
sinto-me em paz as coisas estão no seu lugar
Uma criança chora a terra rola há roupa suja
eu morro bem o sei mas o mundo melhora
Para quê destruir um por um os relógios
se não existe rosto onde não poise pés o tempo
que é feito de passar como de água o mar?
Sabe-me bem sentar sentir-me vivo
sem ter que sujeitar-me à morte mísera do sono
Leio o futuro nas folhas de chá
e vou verificar se o mar ainda lá está
no extremo ocidental do forte onde as gaivotas
procuram povoar ou abolir a solidão
O sol senhor despótico domina
o vasto principado que ilumina
O tempo continua a emitir a sua voz
Pudesse eu eleger por mim a companhia
decerto levaria apenas árvores ao lado
Um deus somente podia afogar
a cabeça no mar da minha vida
Começo a caminhar na madrugada
entre sardinhas e mulheres saltitantes
e ao chegar ao mar penso pregar
o meu sermão de algas e sargaços sobre a esperança humana
sob o canto dos pássaros e a língua dos vizinhos
Neste jardim só cresce a roupa seca pelo sol
as coisas são ou não não são verdade ou não
o povoado cheira a comida e maresia
e através da vida desafia o mundo o nada
Que hei-de fazer se sou a gata borralheira?
- canta a convulsa rapariga oculta nos arbustos
E em vão voga na expectativa de quem nunca vem
mordiscar-lhe a papoila mole dos lábios
com a sofreguidão da truta ao absorver o anzol
Um forasteiro só certa vez a beijou ao vê-la distraída
mas por mais que esperasse nunca mais voltou
a dar-lhe um beijo só em toda a vida
E o hálito leve de insolentes raparigas
embacia os espelhos da manhã
E quando até mim chegas deus chegou
mulher inesperada meio mulher e meio madrugada
recortada no céu de um homem que desesperou
tantas vezes voltou de mãos cheias de nada
Eu quero para mim parcelas de manhã
delas farei um tempo para mim
um tempo de porvir que se detenha
tempo que se renegue e seja tempo
e que ao negar-se afirme a sua condição
As coisas em redor prodigalizam cor
coisas que se concentram que têm sabor
E vejo como orvalho o teu olhar tombar
primeiro quase sólido e depois vapor
evaporar-se e dissipar-se como halo ou hálito
Teu corpo acolhedor calma baía
recorta-se na luz agora a esta hora
e alegra mesmo até a alegria
Pressinto que vieste e finalmente veio alguém
que verdadeiramente vem sem bem se saber quem
Pões os pés na manhã e tudo são caminhos
a orla do vestido roça no rocio depois do
baile breve na praia iluminada pela lua
muito mais tua do que do planeta
onde vivemos pois à tua volta
é que descreve a lua a sua órbita perfeita
A noiva tem no seu vestido branco óptima mortalha
e tem escovas de dentes iminente vida conjugal
dias de sol inúteis como logo este jornal
por trás do rosto imóvel que prospecta ao espelho
uma última vez antes de ir à casa sobrepor a igreja
O tempo não parou ó noiva é esse o mal
se hoje és imortal oxalá amanhã
leve a terra te seja
em sonhos sempre alguma borboleta sobre ti
desceu e escureceu a própria escuridão
sobre essa silhueta de senhora do olhar
sozinha em vida e pelo ar apenas rodeada
cercada só de terra e na morte isolada
Saíste com a aurora vertical recebeste o meio-dia
escondeste-te na luz perdeste-te na estrada
e não deixaste nada além da tua ausência
As vozes são às vezes vítimas do vento
à criança que foi substitui-se o adulto
cada rosto destrói as sucessivas formas desse rosto
um rosto é um momento
Um homem pisa pedra a pedra uma calçada
e ao pisar a primeira está a última pisada
A gente vai pela rua vai e vem
mas pela vida vai-se e nunca vem ninguém
O som do órgão ultrapassa os azulejos
a mole da igreja e inaugura a primavera
Não oiço a voz do mar oiço o tempo passar
É primavera mesmo sobre a minha idade
sobre os anos que põem pés pesados no meu peito
(eu agora nem mesmo me revejo já
nessas fotografias nessas outras tantas mortes)
A música solar murmura em meus ouvidos
o mar dorme um profundo sono azul
um grupo palrador de pombas arredonda o adro
e ao ver uma gaivota cospe um pescador
para na pesca o não abandonar a sorte
Grandes nuvens me nevam na cabeça
o dia alastra como um canto líquido
e com um mata-moscas procuro matar
o sol em cada raio que devassa os vidros da janela
A luz valsa e verseja em cada pedra
rebenta em ondas na margem do dia
parado como um mar a ventos não sujeito
A terra é musical no meu país
cantava tanto a brisa nas espigas
nas débeis raparigas nas umbrosas oliveiras
quando ao princípio éramos os campos e eu
E nem essa magnífica mulher
de um olhar que apenas por brilhar já transfigura o ar
que nas mãos manipula embrulhos e palavras
consegue afugentar a primavera
que entre dois ladrilhos do comprido corredor
culmina e se concentra numa flor naquela casa
(qual será o futuro dessa flor
que os campos renegou e mal nasceu domesticou
a explosão natural do reino vegetal?)
Boceja a tarde soalheira e sossegada nos
plátanos calmos como o espaço dos domingos
e o mar encosta preguiçoso a fronte
no regaço que a terra intimamente tem
na cúpula do corpo da nutrida primavera
nos confins da aldeia cheia de um odor de amor e mar
Vejo a fazenda a vida ameaçadas por
espumas e brisas de uma cor de esmeralda
e o louvor dos pássaros crepita
no fogo fluvial do mês de agosto
Ó natureza nua mãe do mundo
eu sacrifico apenas ao deus bach esse deus que
numa abóbada de música domina
A solidão rumina neste cabo
onde a névoa se adensa e principia a evocar
a geada caída no primeiro jardim
do homem donde ergueu o voo
a gaivota que agora um arenque devora
E entretanto a tarde não tem mãos a medir
e enquanto não cair os homens e os campos
sujeitam-lhe uns a vida outros a superfície
aceitam-na como uma solução
O sol que nasce põe-se nos teus olhos
e mal os fechas logo a noite desce sobre
um rosto que resume rápidas mulheres
Quando passas eu passo a conhecer de cor inúmeros países
há morangos vermelhos nos teus seios
e arremessam-te olhos curiosas árvores e ávidas janelas
que te deixam na rua puramente nua
enquanto o som do sino soa no teu peito
e o sol se dissolve em teu vestido
Pensam martirizar as tuas ancas
amaldiçoar maldizer o teu nome
e assassinar-te com olhares elaborados
no silencioso e chão laboratório
onde calculam complicadas cúmplices maquinações
tenebrosos embaixadores do país das trevas
O sol suave como um pensamento
despenha-se nas águas entre nuvens
e à minha volta fecha-se esse férreo
abraço conjugal que a sociedade
usa para devassar a intimidade
Mas se eu escancarar de par em par
as portentosas portas de acesso à minha vida
hão-de inundá-la ao mesmo tempo sol e mar
únicos portos para os meus navios
Afoga-se o crepúsculo na noite
como nele se afogara já o dia
e eu velo não venha a morte ver
se pálpebras pesadas me não velam
o olhar minha única defesa
Há magos que de flores fazem raparigas
que devagar se enfeitam para a festa
do fero e feroz fim da luz diária
Os mortos surgem nos seus fatos domingueiros
lágrimas luzem lá onde ontem uns olhos olharam
As ruas são de noite como que canais
por onde só circula a sonolenta escuridão
Saio de casa ou sóbrio como um domingo
ou exuberante e excessivo como um sábado
Vindo da agricultura e da cultura por
folhas de terra e páginas de livros
ordenho umas palavras leves e leitosas
e com elas procuro apreender deter o tempo
obrigá-lo a parar e impedi-lo de passar
Mas oiço-o falar é sua esta voz
Cobre-me o corpo a escuridão e cai sobre ele a chuva
e as nuvens indecisas contra as quais se apoiam
os arcos e abóbadas da noite
solidamente assente em dunas ou colunas
da mais universal obscuridade
comunicam-me a mágoa deste tempo português
e chego a pôr em causa a minha nacionalidade
Há uma luz lunar que ilumina o mar
o asparge pela areia pela maré cheia
o poema de espuma que lhe cabe recitar
e me fala das cinzas a que se reduz
o céu breve e restrito de uma noite
abençoada noite de mulheres
que quando dormem mais estão despertas
e são reais louças e temporãs
Faço uma coisa ou outra e depois disso
é ao túmulo só o sítio aonde tenho de ir
Preciso de dormir e só na pedra tumular
eu poderei poisar de verdade a cabeça
Ingresso para sempre no mais puro escuro
Fui um inveterado tripulante da memória
oiço os passos do tempo sei a minha idade
e deito-me com toda a dignidade
É inútil bater amigos inimigos a esta loisa
onde eu repouso como simples coisa
E o tempo poisa deixa finalmente de passar

Ruy Belo http://voarforadaasa.blogspot.com/2018/04/um-dia-uma-vida-ruy-belo-dito-por-luis.html