Antes, exercíamos autonomia e gosto sobre as nossas escolhas: a música era no walkman, discman ou Mp3 que carregávamos connosco. Os filmes eram nas cassetes e DVDs. Os textos eram nos livros. Havia uma relação háptica com a cultura baseada nos objectos que se perdeu com a hiperdigitalização.
Pela primeira vez, dizem os especialistas, temos uma geração mais estúpida do que a anterior. Esta carência intelectual liga-se à falta de cultura, ao nivelamento por baixo que redes e canais catalisam, mas também a uma falta de autonomia e a uma aceleração que diminui os índices de atenção.
Penso que a principal ferramenta que a criança tem de desenvolver é a resistência ao tédio. Com essa endurance estimulada desde cedo, a criança saberá estudar, escutar e encarar com menos frustração tudo: os exames, as provas desportivas, a aprendizagem do instrumento musical, etc. É a ferramenta mais útil para o seu futuro, a par do controlo emocional e da autonomia.
Para pais e educadores, parece-me importante contrariar a hiper-aceleração e resgatar os formatos físicos, estreitando o acesso das crianças a Livros, DVDs e CDs, estimulando o seu transporte de cultura consigo e o poder decisório colocado em cada compra e em cada escolha.
E sem diabolizar a tecnologia, recordando como a sua disseminação é essencial na democratização ao acesso e à exposição a cultura, vamos utilizar pedagogicamente as novas plataformas como complemento - sem substituição. E que regressem os Nokia 3310, que as crianças não precisam de mais do que isso para estar contactáveis!

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