Liberdade é uma palavra indefinível e elástica. Vamos conquistando certas liberdades, enquanto outras nos são roubadas. Mas, contas feitas com os princípios e com a natureza, não é de hoje que o balanço me parece negativo.

A revolução industrial prometeu que a máquina iria libertar o ser humano, mas escravizou-o e empobreceu-o. A cada dia, a inteligência artificial substitui a passos largos, tornando o humano cada vez mais obsoleto. Orientado pela eficiência, o humano compete com a velocidade da máquina que aperfeiçoou. Não pode parar porque tempo é dinheiro. E, sem se aperceber, no lufa-lufa perdeu muito do que o define enquanto humano: a alegria, a música, o culto, a pausa, a conexão, a criatividade, a poesia, a família, a amizade, o lazer, a vida comunitária... Sem querer, esperamos ‘‘maquinismo’’ uns dos outros e chamamos-lhe profissionalismo. Sobre uns e outros, usamos palavras tão imundas como o óleo por onde a engrenagem desliza: eficácia, produtividade, competência, resultados... Por míseros trocados e gratidão eterna, enfiamo-nos no ritmo até à goela, cada qual só mais uma peça substituível. No mundo sobrepovoado, não faltam fornadas de carne faminta e em fuga, disposta a trabalhar por migalhas. Produz-se cada vez mais. Descarta-se cada vez mais facilmente. Exportado para longe das vistas do primeiro mundo, o lixo contamina os panoramas tropicais do terceiro. E num planeta de recursos poluídos, ar irrespirável e pessoas doentes cada vez mais cedo, tudo rebenta pelas costuras. Mas os defensores do capitalismo continuam a dizer que bom é continuar a produzir mais.
A velha guarda fica chocada quando eu digo que hoje não vivemos em liberdade. Hoje o totalitarismo é outro, e é sub-reptício. Que não há um ditador? Então o que é a febre do lucro imediato que sacrifica sistematicamente todo um planeta, de recursos exaustos - onde a milhões de pessoas faltam bens tão básicos quanto água potável? Que não há imperialismo? Então o que é essa coligação de gigantes tecnológicos que decidem sobre um mundo (virtual) que toda a gente usa e ninguém questiona, detendo metade de todo o capital mundial? Que não há colonialismo? Então o que é a deslocação industrial da mão-de-obra para os países subdesenvolvidos, onde os salários, direitos e condições de trabalho são os piores possíveis? Que não há polícia secreta? Então o que é a hiper-vigilância sem ângulos mortos e o controlo automático de todas as comunicações e deslocações, logs, GPS, históricos, caches...? Que não há denunciantes? Então o que é a censura por algoritmo e a capacidade de reportar anonimamente online? Etc, Etc, Etc..
A velha guarda fica chocada quando eu digo que hoje vivemos em ditadura e que esta é pior do que nunca, porque é à escala planetária. Já chegámos à distopia prometida e, pior, estamos contaminados por ela até à alma, atomizados, condizentes como cordeiros na auto-propaganda da paz podre: de cada vez que nos entre-copiamos e montamos a rede social como álbum cor-de-rosa de férias paradisíacas, selfies, bombons gourmet, camisolas de marca, sorrisos brancos e mensagens ''vai ficar tudo bem'', desmobilizamos o grito colectivo e adoçamos a boca à besta.
Certo que estar sempre zangado não é vida, mas que vida vai ser a nossa na Terra?