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domingo, 7 de junho de 2026

''Posso pão?''

 

Nos últimos anos, tem-se generalizado entre as crianças uma simplificação da linguagem, omitindo os verbos principais e deixando apenas os auxiliares (exemplo: "posso água?" em vez de "posso beber água?"). Especialistas apontam a pressa, os ecrãs e os vídeos rápidos como causas dessa "preguiça linguística''. Mas, sendo Portugal um dos países onde as crianças passam mais horas na escola face à média europeia, também pode ser sintoma do seu cansaço. 


“Portugal é um dos países da União Europeia onde as crianças passam mais tempo na escola. Entre os 6 e os 11 anos, muitas passam cerca de 38 horas semanais em creches ou escolas.”

Imprensa | Pordata



Consoante aponta o psicólogo Alfredo Leite,  a pobreza de linguagem conduz a uma pobreza de pensamento. O mesmo psicólogo aponta como inteligência emocional, no âmbito da infância, é ''ter vocabulário para o caos interno''. Para auxiliar a sua compreensão de si e do mundo, cabe-nos hoje puxar pelas nossas crianças, insistindo para que terminem correctamente as frases.









quarta-feira, 9 de julho de 2025

Educação: e se voltássemos aos objectos?


A ''fábrica de cretinos digitais'' (conceito do neurocientista francês Michel Desmurget, 2019) descreve como os nativos digitais estão a perder faculdades intelectuais e cognitivas por exposição excessiva a ecrãs. Esta geração tem o acesso à cultura centralizado num só aparelho digital: música, textos ou filmes equivalem a um tablet, laptop ou smartphone, simultaneamente plataformas de estudo e de lazer. Mas entre redes, notificações e janelas pop-up, em cada um destes aparelhos acontecem mil coisas por minuto, e a atenção esvai-se.

Antes, exercíamos autonomia e gosto sobre as nossas escolhas: a música era no walkman, discman ou Mp3 que carregávamos connosco. Os filmes eram nas cassetes e DVDs. Os textos eram nos livros. Havia uma relação háptica com a cultura baseada nos objectos que se perdeu com a hiperdigitalização.

Pela primeira vez, dizem os especialistas, temos uma geração mais estúpida do que a anterior. Esta carência intelectual liga-se à falta de cultura, ao nivelamento por baixo que redes e canais catalisam, mas também a uma falta de autonomia e a uma aceleração que diminui os índices de atenção.

Penso que a principal ferramenta que a criança tem de desenvolver é a resistência ao tédio. Com essa endurance estimulada desde cedo, a criança saberá estudar, escutar e encarar com menos frustração tudo: os exames, as provas desportivas, a aprendizagem do instrumento musical, etc. É a ferramenta mais útil para o seu futuro, a par do controlo emocional e da autonomia. 

Para pais e educadores, parece-me importante contrariar a hiper-aceleração e resgatar os formatos físicos, estreitando o acesso das crianças a Livros, DVDs e CDs, estimulando o seu transporte de cultura consigo e o poder decisório colocado em cada compra e em cada escolha.

E sem diabolizar a tecnologia, recordando como a sua disseminação é essencial na democratização ao acesso e à exposição a cultura, vamos utilizar pedagogicamente as novas plataformas como complemento - sem substituição. E que regressem os Nokia 3310, que as crianças não precisam de mais do que isso para estar contactáveis!

domingo, 7 de julho de 2024

França: A subida ocidental do fascismo é também a expressão política desta tarantular tirania em vigor chamada capitalismo.

Em Paris, ironia, o capitalismo a proteger-se da violência que a ascensão do fascismo catalisa. E que tal pensar-se na ascensão do fascismo como consequência desse mesmo capitalismo tardio? São guerras que não acabam porque há uma indústria bélica a mexer. A acrescentar aos refugiados da guerra, os climáticos porque há recursos esgotados pela sobreprodução. São trabalhadores a produzir o que não conseguem comprar. A subida ocidental do fascismo é também a expressão política desta tarantular tirania em vigor chamada capitalismo, que é só mais uma forma de Homem-contra-o-Homem.


''Nós não somos obrigados a ter uma utopia alternativa para a sociedade para não querermos isto. A nossa moeda é o mandar. É preciso uma moeda alternativa. Não é preciso saber como é que fazíamos sem isso para não querermos isso.''

MIGUEL ESTEVES CARDOSO

in Podcast Não mandas em mim #4

 

Público

sexta-feira, 31 de maio de 2024

autocarros

- já passou. 
- já passou? 
- quero dizer, eu deixei passar. 
- e o que teria sido preciso para teres apanhado o autocarro? 
- suspeitei antes do sprint que não ia ter pulmões, não corri. 
- e ele partiu sem ti? 
- partiu. 
- vais então treinar os pulmões para apanhares o próximo? 
- ou desisto já de tentar apanhar um autocarro. 
- desistes de todos os autocarros? 
- às tantas, o mundo é mais bonito sempre a pé.
- como é que sabes se não andas de autocarro? 
- é por andar a pé que não chego a horas ao autocarro.

sábado, 27 de abril de 2024

ser

 


daqui 

ser depois húmus

ser depois flor

ser depois pólen

ser depois mel

ser depois doce chá da senhora

ser ser ser ser

terça-feira, 9 de abril de 2024

Nunca aprendi convictamente a querer uma narrativa

Vidya Gastaldon

Chamava-se ‘‘A Sara Mudou de Visual’’, esse livro da Maria Teresa Maia González que li na adolescência. Gémea mas distinta do seu símil, Sara era uma jovem impermeável às adolescentices e que, voltada para o espírito, desprezava bens materiais e todos os dias buscava a simplicidade, assentando num convento. Identifiquei-me com aquilo. Em 2010, feita a licenciatura em Comunicação, estava com um pé aqui e outro nas esferas, convicta de que havia algo de superior na vida ascética. Aproximei-me de um Carmelo, ofereci-me para fazer design de eventos e fiquei à distância de um telefonema. Rapidamente, um pé-atrás: havia a Madre que adorava ligar à sua novidade, mas rebentava de impaciência para as Irmãs do costume. Havia a futilidade dos entreténs cochichados, entre as roupinhas costuradas para a cerâmica do deus-menino e a ementa semanal de doces conventuais. 
Concluí que aquele claustro não chegava para elevar Gaia.

A fim de apurar que espiritualidade era a minha, comecei um segredo: um mestrado em História e Cultura das Religiões na FLUL, em pós-laboral. Lá, fiz um amigo: o monge-poeta Leandro Durazzo, que viera do Brasil só para ser aluno do Professor Paulo Borges. Ontem, respondeu-me por mail o Leandro que a vida vai feliz e será papai. Por aqui, querido, rebaptizo-me amiúde para ser enfim a mesma. Ontem, o eclipse solar total implodiu com o que me sobrasse de Ego, consoante também ensina o Professor Paulo, em meditação. Depois, vem à semana a terapeuta, entre ais e uis esforçando-se por colar os pedaços, para que dali lhe saia, ao menos, uma medida mínima de pessoa. Como nunca aprendi convictamente a querer uma narrativa própria, venho tentando encontrar-me nas histórias dos outros... Leio e continuo a ler, vejo filmes atrás de séries. Invento personagens e narrativas, escrevo prosas, peças, performances... De tanto exagerar em aléns e adolescências prolongadas, foi na zanga que Deus me chamou ao gabinete do reitor para corrigir: és obrigada a regressar a ti. Não vou. Ay vais vais. Não volto. Ay isso é que voltas. Mas, meu Deus… então eu, quem sou? 

Sou sem medo, ao menos isso: aquece-me a realidade por cobertor, ininterrupto manto de olhos-que-tudo-vêem, de olhos-que-sempre-protegem. Lanço vistas para dentro, e digo ‘‘tão cor-de-Rosa este corpo ainda fértil’’. Lanço vistas para fora, e digo ‘‘tão cor-de-Rosa a altura dos exemplos por copiar!’’ Rabiscados os Futuros em hipótese, vieram amigos palpitar-me em torno das inquietações: ‘‘É simples: é a reprodução da civilização!’’, sumariza antropo-lógico o João Meirinhos. ‘‘É simples: é a individuação como jogo!’’, ri o Vasco Gato, no revés matemático da poesia. 

Nessa Ordem também eu confio mas, porque ainda me é difícil querer, hoje começo pelos quereres pequenos: agora que tenho uma gata, estou inclinada para adoptar um cão. Também ando a juntar para um jipe, útil para fotos e vídeos nas montanhas. De resto, sigo coroada pelas luzes aleatórias, escoltada pelos sinais, persuadida pela Primavera a fazer ninho com o homem-casa, em lugar de passear o cosmos no anelar. O horário laboral é procurar por mim, tentando acabar o que começo sempre da melhor forma possível. E percebi que o mesmo serve para a vida. 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

agora



by Aitor Saraiba @aitorsaraiba


agora que já reflecti todos os capitalismos tardios

agora que já vi os grandes quadros nos museus europeus

agora que já antecipei mil caminhos que rebentam em WW3

agora que já pesei a mente humana ao lado da AI

agora que já abri a retina com sol directo

agora que já fiz sopa

agora que já actualizei análises aos alérgenos

agora que já respondi aos e-mails com boa ortografia

agora que já dei três voltas ao parque a correr

só me apetece é costurar uma colcha para a cama em quilt

tingir, bordar, coser

e depois dormir

debaixo das cores que escolhi

é isso

nada mais.

nada me apetece mais.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Yin-Yang.


Lima de Freitas
O terceiro olho, 1981

Yin-Yang.

Chegar ao máximo para chegar ao contrário. No máximo da febre, a revelação. No máximo da impulsão, a maior queda. No máximo da clausura física, a expansão mental. No limite da doença, a percepção aguda do corpo. Na falta de saúde, a valorização da saúde. Na falta de escolhas, o foco. No máximo da pureza, a maior compaixão pela vulgaridade. No máximo da solidão, o apreço pela companhia. Na extinção do ego, o mais colectivo abraço. No máximo da guerra, a maior prece. No máximo da santidade, o êxtase.


terça-feira, 12 de dezembro de 2023

33

Nos escombros de uma terra aparentemente abandonada por Deus, quase parece delírio encontrar no caos uma ordem. Entre as crianças rebentadas pelo Hamas e os rapazes encolhidos no fundo dos camuflados em Kiev, intervalo com os melhores produtos para a sua mesa, mais a puberescente starlet a borrifar-se de perfume francês e o jingle do chocolate de leite alpino. O sequestro consumista do Natal intoxica sem tento nem senso, esvaziando até à náusea. Mas no princípio do calendário, o Ocidente zerava no mito: com 33 anos, o profeta Yeeshu abandonava as peles sobre a pedra, e o boato começava a espalhar-se: subiu invisível pelos ares. Foi assim: mataram-no para depois o trazerem na boca. Foi um cinema de saliva e demorou séculos a chegar em fascículos, parábolas, magia e personagens. A ausência teceu o mistério. Que era tão bonzinho para gente que só podia ser santo. Que era tão grande para homem que só podia ser deus. E ao 3º dia, trovão, eis que voltou para avisar quem lá ouviu que a carne é só um fato temporário mas que, por sorte, ainda sobram vagas na imatéria. E nesse dia, amansaram tremidos os comuns e, com jeitinho, pediram paternidade e rogaram por milagres e quartos no céu. Mas Yeeshu foi-se tão depressa quanto veio. Prometeu voltar mas não voltou. A partir desse dia, começámos a nascer mais pequenos do que nunca. A desproporção acordou de repente os espelhos e, coroados de infinito, até hoje gritam: se o azul não me deu essa estrela ao parto, que me dê essa estrela na partida! Perco-me até reparar que a impaciência te sai pela inquietude das mãos. ''Mas que teimosia, ainda essa reconstituição do delírio antigo?'' Bem sei… Bem sei que ainda hoje viste um restaurante a arder em Massamá: do fumo saía uma bombeira intoxicada e, ao lado, ficaram dois carros em chamas. Sei que há roupa para apanhar do arame e a prestação da segurança social para pagar. Sei que a anemia da tua mãe te apoquenta, que, de manhã, quase levantaste o dedo do meio àquele otário no trânsito mas depois não, que ainda tens de ir buscar as garotas à escola e que ainda há louça na pia para pôr na máquina. Mas espera, espera mais um instante. Deixa-me explicar-te como a matemática de sombras engendra as estórias: assim como as bonecas das garotas são miniaturas para ensinar a ser, do Livro nasce um Super-Homem como quem acorda o Everest no horizonte. Altos são os trabalhos mas estamos, afinal, demasiado fartos de ser somente humanos - queremos rebentar pelas costuras, escalar entre krishnas, budas, anjos e santos, e entre demais antropomorfos d’além. Estudamos o relógio, crentes na harmonia que une as mensagens aos números. Seria impossivelmente triste a criação ser uma coincidência, não achas? Para variar, este ano podíamos montar um presépio, o que dizes? Acho que as garotas iam gostar dessa bonecada. E eu já tenho papel de alumínio guardado para fazermos a estrela.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Que definição de Humanidade é esta que habitamos no presente?


Hoje, tive de ser minha amiga e remover as notificações das páginas de notícias nas redes. Oficializei que, por tempo indeterminado, só leio livros. São as guerras, são os atentados, é a crise, é o ódio que reina, são as crianças refugiadas, são as famílias a perderem as suas casas e a viverem em quartos, tendas e roulottes, são as pessoas que passam fome para não deixar os seus animais sem comer, etc... É um horror de mundo, é um pavor de país. Acordo aterrorizada, do pesadelo para o pesadelo.

Viemos de comunidades em cavernas para a privatização de todas as etapas da experiência humana, de cada bem essencial a cada centímetro quadrado de chão e... para quê? Para as pessoas andarem, em geral, infelizes e exaustas, de potencial subdesenvolto, ainda a lutar diariamente pelo abrigo e pelo sustento, tal e qual os pré-históricos? O ensino obrigatório passa 12 anos a comprovar como o Humano se cumpre, individual e irrepetível, em cultura e consciência, para depois vir o sistema político-financeiro estrangulá-lo, borrifar-se para o seu estado de ou-vivo-ou-morto-ou-assim-assim, reduzindo-o à sua condição de mais bicho do que gente? Num planeta com recursos bastantes para suprir as necessidades de todos, em prol de que tirania se mantém assim a civilização atrofiada?  

Alguém já se lembrou de olhar para o céu e de reparar como talvez espelhe a terra? Que somos nós, os seres humanos, cada um desses pontos luminosos, únicos e radiantes de capacidades, à espera no azul pelo direito a viver como quem brilha por um instante? Afinal, que definição de Humanidade é esta que habitamos no presente? Onde fica o Espírito, esses olhos de ver, essa centelha excepcional do animal-homem, essa Inteligência única que, sinceramente, parece cansar-se antes de ver-se ao espelho?

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

AMAR contra o negro


A energia está horrível. Toda a gente está a sentir o negro. Sugiro desligar o televisor, tentar preservar alguma luz dentro, meditar contra esta negatividade e permanecer gentil, fazendo o que há a fazer de possível, dignificando, agradecendo à vida por cada instante fugidio, simplesmente amando apesar de tudo - essa é a verdadeira resistência à guerra. 

terça-feira, 25 de abril de 2023

liberdade, qual


Liberdade é uma palavra indefinível e elástica. Vamos conquistando certas liberdades, enquanto outras nos são roubadas. Mas, contas feitas com os princípios e com a natureza, não é de hoje que o balanço me parece negativo.



A revolução industrial prometeu que a máquina iria libertar o ser humano, mas escravizou-o e empobreceu-o. A cada dia, a inteligência artificial substitui a passos largos, tornando o humano cada vez mais obsoleto. Orientado pela eficiência, o humano compete com a velocidade da máquina que aperfeiçoou. Não pode parar porque tempo é dinheiro. E, sem se aperceber, no lufa-lufa perdeu muito do que o define enquanto humano: a alegria, a música, o culto, a pausa, a conexão, a criatividade, a poesia, a família, a amizade, o lazer, a vida comunitária... Sem querer, esperamos ‘‘maquinismo’’ uns dos outros e chamamos-lhe profissionalismo. Sobre uns e outros, usamos palavras tão imundas como o óleo por onde a engrenagem desliza: eficácia, produtividade, competência, resultados... Por míseros trocados e gratidão eterna, enfiamo-nos no ritmo até à goela, cada qual só mais uma peça substituível. No mundo sobrepovoado, não faltam fornadas de carne faminta e em fuga, disposta a trabalhar por migalhas. Produz-se cada vez mais. Descarta-se cada vez mais facilmente. Exportado para longe das vistas do primeiro mundo, o lixo contamina os panoramas tropicais do terceiro. E num planeta de recursos poluídos, ar irrespirável e pessoas doentes cada vez mais cedo, tudo rebenta pelas costuras. Mas os defensores do capitalismo continuam a dizer que bom é continuar a produzir mais.  

A velha guarda fica chocada quando eu digo que hoje não vivemos em liberdade. Hoje o totalitarismo é outro, e é sub-reptício. Que não há um ditador? Então o que é a febre do lucro imediato que sacrifica sistematicamente todo um planeta, de recursos exaustos - onde a milhões de pessoas faltam bens tão básicos quanto água potável? Que não há imperialismo? Então o que é essa coligação de gigantes tecnológicos que decidem sobre um mundo (virtual) que toda a gente usa e ninguém questiona, detendo metade de todo o capital mundial? Que não há colonialismo? Então o que é a deslocação industrial da mão-de-obra para os países subdesenvolvidos, onde os salários, direitos e condições de trabalho são os piores possíveis? Que não há polícia secreta? Então o que é a hiper-vigilância sem ângulos mortos e o controlo automático de todas as comunicações e deslocações, logs, GPS, históricos, caches...? Que não há denunciantes? Então o que é a censura por algoritmo e a capacidade de reportar anonimamente online? Etc, Etc, Etc..

A velha guarda fica chocada quando eu digo que hoje vivemos em ditadura e que esta é pior do que nunca, porque é à escala planetária. Já chegámos à distopia prometida e, pior, estamos contaminados por ela até à alma, atomizados, condizentes como cordeiros na auto-propaganda da paz podre: de cada vez que nos entre-copiamos e montamos a rede social como álbum cor-de-rosa de férias paradisíacas, selfies, bombons gourmet, camisolas de marca, sorrisos brancos e mensagens ''vai ficar tudo bem'', desmobilizamos o grito colectivo e adoçamos a boca à besta.


Certo que estar sempre zangado não é vida, mas que vida vai ser a nossa na Terra?

terça-feira, 16 de novembro de 2021

''Batalha dos Anjos''

 


Durmo pouco por isso julguei estar a alucinar. Apesar do verde sumido, eram distintas as grandes letras inscritas no camião de carga que, pesadamente, seguia com o seu cimento, à minha frente: BATALHA DOS ANJOS. No meio do congestionamento matutino, o temor apocalíptico de um empreiteiro que ama Tennessee Williams? Com esse primeiro sol nas frentes, delirei para com os meus botões: eis mais uma gracinha do hiperjogo, mais um piscar de olho da simulação, mais uma rima cósmica. Ri sozinha e depois contou-me o Google que BATALHA DOS ANJOS é uma empresa de demoliçãohttps://batalhadosanjos.pt/. Nada como derrocar betão rezando para que a destruição expanda para armagedão.


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

mera gripe obrigada

 

parecia gripe mas no trabalho franziram logo o sobrolho e Sabrina tu só regressas depois de ter um teste à negativo ao COVID okay? okay 

e não fosse ser mesmo COVID o SNS pôs-me em retiro profilático e eu que tenho as rinites sinusites e bronquites todas fico logo sem ar com uma gripezita e não é que me deu mesmo a falta de ar e lá fui eu para o hospital mas não veio uma ambulância qualquer foi a do COVID o homem de branco totalmente coberto como quem vai desmantelar chernobyl medindo febre 38,4 oxigenação 80% não lhe digo que não seja COVID menina mas pode ser gripe virose ou ansiedade temos de testar e depois no São Francisco Xavier uma noite torrencial de chuva autêntico estado de guerra a triagem improvisada num contentor a sala de espera noutro contentor o televisor ligado a dar as estatísticas da pandemia números obscenos de mortos infectados recuperados percentagens e estatísticas para engolir com o jantar 

eu a arder cheinha de sede e o velho

olhe eu já estou aqui desde as duas da tarde

aos berros a mulherzinha ao telefone

querido vou ficar aqui até às seis da manhã

olho para o relógio

são quase dez da noite 

olho para a pandemia em grande reportagem no televisor olho para a pulseira que me puseram a dizer covid19 olho para o placard covid19 na porta olho para os joelhos que não se aguentam quietos olho para esta gente que espera pelo resultados olho para os caixotes de lixo com sinais biohazard 

que dor de cabeça esta 

e eu

só quero ir embora

juro que só quero ir embora tenho de me levantar quero ir embora levanto-me e arranco da tomada o carregador do telefone quero ir embora chamo um uber quero ir embora vou até às enfermeiras quero ir embora

senhora enfermeira quero ir embora

que já estava melhor da respiração que tinha uma credencial da médica de família que podia fazer um teste no laboratório no dia seguinte por favor quero ir embora

chegaram hoje os testes da zaragatoa ao exsudado nasal e faríngeo: negativo 

allô regresso na segunda já sem gripe mas mais aterrorizada do que nunca

 

 


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

aprendendo com os escombros / a coincidência

Dolls, Kitano, 2002

por profecia: cada qual redigindo o seu sangue
desamarrados ou amarrados um ao outro
resistindo às estações como dolls de Kitano
caminhando juntos pelo acidente bucólico  
aprendendo com os escombros
a coincidência de espaço-tempo
um instante duplo do corpo 
novo ser agora que junto

sábado, 2 de novembro de 2019

God has sent special people.


Amigos que têm sido como faróis na fase extremamente difícil que atravesso, 
vocês sabem quem são, mas eu só vos posso agradecer com o coração na garganta e um punhado de palavras floridas.
Têm o meu genuíno obrigada e ombros na volta, porque o amor é simetria.

sexta-feira, 1 de março de 2019

8 horas? balada da utopia.



: Olhem para eles
: Olhem para todos eles e vejam-nos bem
Anarco-individualistas, Socialistas, Utopistas, Libertários, Sindicalistas, Comunistas, Simones Weils, Hannahs Arendts, Marxs-Engels, Thoreaus, Bakunines, Kropotkines, Lafargues, Pougets, Hegels, Baginskis, Roberts Owens, etcs e tais
ELES escreveram
ELES incendiaram
ELES lutaram
ELES berraram
ELES deram a cara
ELES foram parar à choldra
mas
ELES revolucionaram em coro para
NÓS trabalharmos 8 horas
  • 8 dignas horas para o trabalho
  • 8 dignas horas para a vida
  • 8 dignas horas para o sono


há 100 anos
ELES morreram para a gente não trabalhar mais do que 8 horas
mas
NÓS que estamos no Portugal de 2019
sabemos que não é bem assim:

nessa mesma lei onde se lê o dia das 8 horas  
lê-se também que o ordenado mínimo são 600 euros
600 míseros euros que não dão para viver
por isso
trabalhar 8 horas simplesmente não chega
e a gente que já trabalhou 8 horas
não tem outro remédio senão ir trabalhar mais
: trabalhar no que der !
: trabalhar no que aparecer !
: trabalhar até cair !
(mas, em 2019, ainda é suposto o humano dormir?)

Então o que é que essa lei legisla aqui afinal?
Nada.
Efectivamente: Nada.
Porque se fosse uma lei a sério, protegia a todos, era ou não era?
[Ah!, só que agora há
uma coisa que não havia no tempo deles
uma coisa que é a vitória do neo-liberalismo sobre o mercado de trabalho
uma coisa chamada de falsos recibos verdes que
por estar quase completamente à margem de legislação
é a coisa favorita dos patrões neste Portugal de 2019,
porque lhes permite aproveitarem-se desses trabalhadores porque
> se eles não ganham que baste logo
> eles têm mesmo de manter actividade aberta porque
> eles têm mesmo de se safar com extras e passar recibos sobre isso
então, o que resulta disto?
depois dos patrões pagarem o ordenado mínimo
aos que trabalham 8h diárias
ainda têm a perfeita desculpa
para criarem vínculos precários com esses trabalhadores
que (só no papel) são trabalhadores independentes
e formalmente nunca se contratam!]

- ahahahaha!, é 2019 e nós já chegámos ao lowest of the low da civilização.
- hey, tu não te queixes, ao menos estás a trabalhar na tua área!
- lol.


logo,
neste Portugal de 2019
inchado do seu falso europeísmo,
desde que as contas estejam em dia
desde que os impostos estejam em dia
desde que as multas estejam em dia
que importa afinal
que alguém morra a trabalhar para pagar as contas?