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terça-feira, 9 de abril de 2024

Nunca aprendi convictamente a querer uma narrativa

Vidya Gastaldon

Chamava-se ‘‘A Sara Mudou de Visual’’, esse livro da Maria Teresa Maia González que li na adolescência. Gémea mas distinta do seu símil, Sara era uma jovem impermeável às adolescentices e que, voltada para o espírito, desprezava bens materiais e todos os dias buscava a simplicidade, assentando num convento. Identifiquei-me com aquilo. Em 2010, feita a licenciatura em Comunicação, estava com um pé aqui e outro nas esferas, convicta de que havia algo de superior na vida ascética. Aproximei-me de um Carmelo, ofereci-me para fazer design de eventos e fiquei à distância de um telefonema. Rapidamente, um pé-atrás: havia a Madre que adorava ligar à sua novidade, mas rebentava de impaciência para as Irmãs do costume. Havia a futilidade dos entreténs cochichados, entre as roupinhas costuradas para a cerâmica do deus-menino e a ementa semanal de doces conventuais. 
Concluí que aquele claustro não chegava para elevar Gaia.

A fim de apurar que espiritualidade era a minha, comecei um segredo: um mestrado em História e Cultura das Religiões na FLUL, em pós-laboral. Lá, fiz um amigo: o monge-poeta Leandro Durazzo, que viera do Brasil só para ser aluno do Professor Paulo Borges. Ontem, respondeu-me por mail o Leandro que a vida vai feliz e será papai. Por aqui, querido, rebaptizo-me amiúde para ser enfim a mesma. Ontem, o eclipse solar total implodiu com o que me sobrasse de Ego, consoante também ensina o Professor Paulo, em meditação. Depois, vem à semana a terapeuta, entre ais e uis esforçando-se por colar os pedaços, para que dali lhe saia, ao menos, uma medida mínima de pessoa. Como nunca aprendi convictamente a querer uma narrativa própria, venho tentando encontrar-me nas histórias dos outros... Leio e continuo a ler, vejo filmes atrás de séries. Invento personagens e narrativas, escrevo prosas, peças, performances... De tanto exagerar em aléns e adolescências prolongadas, foi na zanga que Deus me chamou ao gabinete do reitor para corrigir: és obrigada a regressar a ti. Não vou. Ay vais vais. Não volto. Ay isso é que voltas. Mas, meu Deus… então eu, quem sou? 

Sou sem medo, ao menos isso: aquece-me a realidade por cobertor, ininterrupto manto de olhos-que-tudo-vêem, de olhos-que-sempre-protegem. Lanço vistas para dentro, e digo ‘‘tão cor-de-Rosa este corpo ainda fértil’’. Lanço vistas para fora, e digo ‘‘tão cor-de-Rosa a altura dos exemplos por copiar!’’ Rabiscados os Futuros em hipótese, vieram amigos palpitar-me em torno das inquietações: ‘‘É simples: é a reprodução da civilização!’’, sumariza antropo-lógico o João Meirinhos. ‘‘É simples: é a individuação como jogo!’’, ri o Vasco Gato, no revés matemático da poesia. 

Nessa Ordem também eu confio mas, porque ainda me é difícil querer, hoje começo pelos quereres pequenos: agora que tenho uma gata, estou inclinada para adoptar um cão. Também ando a juntar para um jipe, útil para fotos e vídeos nas montanhas. De resto, sigo coroada pelas luzes aleatórias, escoltada pelos sinais, persuadida pela Primavera a fazer ninho com o homem-casa, em lugar de passear o cosmos no anelar. O horário laboral é procurar por mim, tentando acabar o que começo sempre da melhor forma possível. E percebi que o mesmo serve para a vida. 

domingo, 7 de abril de 2024

and everlastings

Vidya Gastaldon

No water so still as the

dead fountains of Versailles.” No swan,

with swart blind look askance

and gondoliering legs, so fine

as the chinz china one with fawn-

brown eyes and toothed gold

collar on to show whose bird it was.



Lodged in the Louis Fifteenth

candelabrum-tree of cockscomb-

tinted buttons, dahlias,

sea-urchins, and everlastings,

it perches on the branching foam

of polished sculptured

flowers–at ease and tall. The king is dead.


Marianne Moore