Vidya Gastaldon
Chamava-se ‘‘A Sara Mudou de Visual’’, esse livro da Maria Teresa Maia González que li na adolescência. Gémea mas distinta do seu símil, Sara era uma jovem impermeável às adolescentices e que, voltada para o espírito, desprezava bens materiais e todos os dias buscava a simplicidade, assentando num convento. Identifiquei-me com aquilo. Em 2010, feita a licenciatura em Comunicação, estava com um pé aqui e outro nas esferas, convicta de que havia algo de superior na vida ascética. Aproximei-me de um Carmelo, ofereci-me para fazer design de eventos e fiquei à distância de um telefonema. Rapidamente, um pé-atrás: havia a Madre que adorava ligar à sua novidade, mas rebentava de impaciência para as Irmãs do costume. Havia a futilidade dos entreténs cochichados, entre as roupinhas costuradas para a cerâmica do deus-menino e a ementa semanal de doces conventuais. Concluí que aquele claustro não chegava para elevar Gaia.
A fim de apurar que espiritualidade era a minha, comecei um segredo: um mestrado em História e Cultura das Religiões na FLUL, em pós-laboral. Lá, fiz um amigo: o monge-poeta Leandro Durazzo, que viera do Brasil só para ser aluno do Professor Paulo Borges. Ontem, respondeu-me por mail o Leandro que a vida vai feliz e será papai. Por aqui, querido, rebaptizo-me amiúde para ser enfim a mesma. Ontem, o eclipse solar total implodiu com o que me sobrasse de Ego, consoante também ensina o Professor Paulo, em meditação. Depois, vem à semana a terapeuta, entre ais e uis esforçando-se por colar os pedaços, para que dali lhe saia, ao menos, uma medida mínima de pessoa. Como nunca aprendi convictamente a querer uma narrativa própria, venho tentando encontrar-me nas histórias dos outros... Leio e continuo a ler, vejo filmes atrás de séries. Invento personagens e narrativas, escrevo prosas, peças, performances... De tanto exagerar em aléns e adolescências prolongadas, foi na zanga que Deus me chamou ao gabinete do reitor para corrigir: és obrigada a regressar a ti. Não vou. Ay vais vais. Não volto. Ay isso é que voltas. Mas, meu Deus… então eu, quem sou?
Sou sem medo, ao menos isso: aquece-me a realidade por cobertor, ininterrupto manto de olhos-que-tudo-vêem, de olhos-que-sempre-protegem. Lanço vistas para dentro, e digo ‘‘tão cor-de-Rosa este corpo ainda fértil’’. Lanço vistas para fora, e digo ‘‘tão cor-de-Rosa a altura dos exemplos por copiar!’’ Rabiscados os Futuros em hipótese, vieram amigos palpitar-me em torno das inquietações:
‘‘É simples: é a reprodução da civilização!’’, sumariza antropo-lógico o João Meirinhos.
‘‘É simples: é a individuação como jogo!’’, ri o Vasco Gato, no revés matemático da poesia.
Nessa Ordem também eu confio mas, porque ainda me é difícil querer, hoje começo pelos quereres pequenos: agora que tenho uma gata, estou inclinada para adoptar um cão. Também ando a juntar para um jipe, útil para fotos e vídeos nas montanhas. De resto, sigo coroada pelas luzes aleatórias, escoltada pelos sinais, persuadida pela Primavera a fazer ninho com o homem-casa, em lugar de passear o cosmos no anelar. O horário laboral é procurar por mim, tentando acabar o que começo sempre da melhor forma possível. E percebi que o mesmo serve para a vida.

