Nos escombros de uma terra aparentemente abandonada por Deus, quase parece delírio encontrar no caos uma ordem. Entre as crianças rebentadas pelo Hamas e os rapazes encolhidos no fundo dos camuflados em Kiev, intervalo com os melhores produtos para a sua mesa, mais a puberescente starlet a borrifar-se de perfume francês e o jingle do chocolate de leite alpino. O sequestro consumista do Natal intoxica sem tento nem senso, esvaziando até à náusea. Mas no princípio do calendário, o Ocidente zerava no mito: com 33 anos, o profeta Yeeshu abandonava as peles sobre a pedra, e o boato começava a espalhar-se: subiu invisível pelos ares. Foi assim: mataram-no para depois o trazerem na boca. Foi um cinema de saliva e demorou séculos a chegar em fascículos, parábolas, magia e personagens. A ausência teceu o mistério. Que era tão bonzinho para gente que só podia ser santo. Que era tão grande para homem que só podia ser deus. E ao 3º dia, trovão, eis que voltou para avisar quem lá ouviu que a carne é só um fato temporário mas que, por sorte, ainda sobram vagas na imatéria. E nesse dia, amansaram tremidos os comuns e, com jeitinho, pediram paternidade e rogaram por milagres e quartos no céu. Mas Yeeshu foi-se tão depressa quanto veio. Prometeu voltar mas não voltou. A partir desse dia, começámos a nascer mais pequenos do que nunca. A desproporção acordou de repente os espelhos e, coroados de infinito, até hoje gritam: se o azul não me deu essa estrela ao parto, que me dê essa estrela na partida! Perco-me até reparar que a impaciência te sai pela inquietude das mãos. ''Mas que teimosia, ainda essa reconstituição do delírio antigo?'' Bem sei… Bem sei que ainda hoje viste um restaurante a arder em Massamá: do fumo saía uma bombeira intoxicada e, ao lado, ficaram dois carros em chamas. Sei que há roupa para apanhar do arame e a prestação da segurança social para pagar. Sei que a anemia da tua mãe te apoquenta, que, de manhã, quase levantaste o dedo do meio àquele otário no trânsito mas depois não, que ainda tens de ir buscar as garotas à escola e que ainda há louça na pia para pôr na máquina. Mas espera, espera mais um instante. Deixa-me explicar-te como a matemática de sombras engendra as estórias: assim como as bonecas das garotas são miniaturas para ensinar a ser, do Livro nasce um Super-Homem como quem acorda o Everest no horizonte. Altos são os trabalhos mas estamos, afinal, demasiado fartos de ser somente humanos - queremos rebentar pelas costuras, escalar entre krishnas, budas, anjos e santos, e entre demais antropomorfos d’além. Estudamos o relógio, crentes na harmonia que une as mensagens aos números. Seria impossivelmente triste a criação ser uma coincidência, não achas? Para variar, este ano podíamos montar um presépio, o que dizes? Acho que as garotas iam gostar dessa bonecada. E eu já tenho papel de alumínio guardado para fazermos a estrela.
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