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sábado, 13 de dezembro de 2025

[Ir ao cinema, na caverna escura,]

Ir ao cinema, na caverna escura,

sentar-me na poltrona do teu ombro

numa t-shirt antiga de bom pêlo,

é o prazer mais certo que me resta.

Que bom deixar-me estar na oscilação discreta

que nasce do teu corpo e me transporta

a essa embriaguez chamada rima;

sentir o cheiro limpo do cabelo,

adivinhar-te o gosto da saliva.

Pois, embora eu veja a multidão compacta

(que a imagem tornou inofensiva)

estremecer e rir e comover-se

à imprecisa luz da narrativa,

eu sei que é tudo só um mero acto

de magia vulgar vinda do tecto

onde o olhar obsceno do arquitecto

ao longo da sessão vigia e julga;

e mesmo a clara forma da paisagem

é tosco véu de uma ilusão sensível,

metáfora ou reflexo de outro mundo

perfeito e puro, onde não entra gente

(mas entra, vê tu bem, a miserável pulga).

Tu porém és real, sentes lá dentro

um coração pulsar, e até parece

que tens em ti a inclinação secreta

a seres dono de ti, e partilhar

a vida verdadeira de um insecto.

Assim eu sonho e penso, já suspenso

por fino fio, à altura do teu peito;

mas já, impaciente, tu murmuras

que perdes o teu tempo em desgraçada fita;

melhor seria, em quente discoteca,

toda a noite dançar (uma invenção maldita,

alheia à condição de quem medita),

ou regressar a casa, onde de graça

te aguarda mais concreta companhia.

Ficar por aqui só, sem o mistério

da tua carne branca bem cheirosa,

é uma perspectiva que me assusta;

como dizer-te que também eu quero

afinal conhecer o nó do enredo?

De poucas horas feita a longa vida,

são estas as melhores e as mais justas;

está o filme a acabar, fica comigo até ao fim;

não sabes que te perdes, quando te perdes de mim?

 

 

António Franco Alexandre

in  Aracne

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

''embora (...) tenha esse talento conhecido de acordar de manhã, dormir à noite, e ser, o dia todo, como gente''


''as horas do vasto almofadão translúcido''


Algumas Horas Outras



algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes 
ácidos da louça, não serão recordadas, ou quanto mais 
as recordarmos, mais a ignorância deitará 
os corpos no tapume de vidros, para que em torno 
se conciliem as vontades singulares, as 
particularidades de um impetuoso alarme. 
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos 
encolhidos, para que um amplo destino os atravesse. 
considerem, por exemplo, o paquete que ao meio-dia 
igere as minuciosas palmeiras sobre a 
alta insensatez dos aquedutos. ou ainda 
a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo 
do outro lado das vidraças: azul, não é? 
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las? 



e ainda o sossego das interrogações não se deixa 
facilmente esborratar, ou a qualidade 
das tintas, assim no meio do lençol, 
o impediu até agora. algumas 
são as horas do vasto almofadão translúcido 
onde as janelas germinaram, e são 
as solenes sardinheiras ardidas 
na boca do início. soçobrando a música 
produzimos os locais inamovíveis, as persianas 
corridas sobre o papel meticuloso das suas 
amenas enseadas. não olhes, 
outras algumas horas que a madeira se parte 
e os carinhosos garfos se encolhem na gengiva. 



quem nelas arde mastigando o musgo 
fluvial, ou as longas cortinas inundadas, 
dificilmente evitará outras incertas mesas 
onde dorme. observem como estão cobertas 
pela (metáfora da) nuvem sobre o fundo 
de actos responsáveis, gracejos gratuitos, animais de 
pequeno porte. eles mesmos 
se esquecerão, no solene rebordo das horas, 
de quem foram, de quem teriam sido 
as campânulas inamovíveis, e essas feridas 
precocemente supuradas. então outros se cobrem 
com (a metáfora das) sedas mais cruéis, 
algumas outras horas que adivinham em garfos 
naufragados, o silêncio, a secura. 



observem como rapidamente esquecem, mudando de cor 
a cada rotação das ventoinhas. e ainda 
imagem é pouco fiel, dada a distância 
e o sucessivo afastamento das delicadas 
membranas, observem como 
se dividem, no instante anterior à queda. 
não se encontra explicado o sombrio abcesso 
de cólera, ou de timidez, quando as nódoas estalam 
ao frio pouco vulgar nesta estação do mês. 
ou será isto, e nada mais, o que esquecemos? 

António Franco Alexandre, in 'Os Objectos Principais' 

sábado, 7 de julho de 2018

leio nas folhas / das árvores

Quatro Caprichos, António Franco Alexandre