Mostrar mensagens com a etiqueta DIOGO VAZ PINTO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta DIOGO VAZ PINTO. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

''o treino para a indiferença (...) já começou há muito''

''Estes imigrantes são fantasmas que nos visitam a partir do futuro, trazem-nos as novas dessa humanidade trucidada que seremos, uma humanidade aceitante, devastada, que tem aquele olhar perdido de quem não deixa de reconhecer a iminência do pior, desse elemento de capricho numa crueldade que, caso se fixe em nós, exercerá essa atenção que encontra sempre um novo ponto de pressão, inventando outro ângulo para a sua extorsão, para nos infligir alguma outra violência, e, assim, nos tornamos cada vez mais esses seres apagados, de um sangue tão frio quanto possível, de modo a sobrevivermos mais um dia, tenebrosamente vergados, sendo o medo toda a extensão da nossa consciência. Eles visitam-nos do futuro, incapazes de se misturarem, por não terem lembrança de alguma vez não ter sido tão difícil, e repugna-nos neles essa sensação de vertigem, como se estivéssemos a resvalar, a cair para a pele deles, como se intimamente suspeitássemos que é uma questão de tempo, e que a única diferença será as lembranças que irão pesar em nós, e que, do outro lado, serão uma fraqueza fácil de ser aproveitada pela crueldade. Tudo aquilo que acreditávamos que nos mantinha fixos, a nossa decência, educação, valores, revela-se então como um sistema de amarras mal ajustadas, cordas que julgávamos sólidas e que afinal apodrecem silenciosamente com a humidade do tempo, até ao momento em que, sob uma pressão mínima, cedem todas ao mesmo tempo. E é nesse instante, quase imperceptível, que começamos a compreender que aquilo a que chamávamos estabilidade não passava de um acordo provisório com as circunstâncias, um pacto tácito com a boa fortuna, sempre pronta a retirar-se sem aviso. Os imigrantes, ao caminharem entre nós com essa gravidade de quem traz consigo um inventário de perdas impossível de expor, tornam visível a falência desse pacto. Não pedem nada, e é isso que mais nos inquieta, porque a sua presença funciona como uma prova silenciosa de que há estados de vida para os quais não existe reparação, apenas continuação. Neles, o tempo não cura; acumula-se, deposita sedimentos, como poeira fina sobre móveis abandonados, e cada gesto quotidiano, o modo como seguram um saco, como esperam numa paragem, como evitam o olhar directo, parece conter uma história inteira que foi comprimida até ao ponto da quase ilegibilidade. Observando-os, sentimos uma estranha inversão da ordem temporal: somos nós que ficamos para trás, presos a um passado que ainda insiste em apresentar-se como normalidade, enquanto eles avançam, já adaptados àquilo que apenas começamos a pressentir. E talvez seja por isso que a sua imagem nos causa esse mal-estar profundo, essa sensação de que a linha que separa o espectador do observado é mais fina do que gostaríamos de admitir. Pois reconhecemos, apesar de todos os nossos esforços em negar, que o treino para a indiferença, para a redução progressiva da empatia, já começou há muito, disfarçado de prudência, de realismo, de cansaço moral. Assim, pouco a pouco, vamos aprendendo a habitar um mundo mais estreito, no qual a memória se torna um risco e a sensibilidade um luxo perigoso. E quando finalmente nos apercebemos de que também nós falamos com frases mais curtas, com menos inflexões, com esse tom neutro que evita atrair atenção, já estamos demasiado envolvidos no mecanismo para dele sair. Os fantasmas do futuro deixam então de nos visitar, porque já não é necessário: tornámo-nos, sem alarde, parte da mesma paisagem de sombras em deslocação contínua.'' Diogo Vaz Pinto

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

''afastar o coração de uma morte fácil''

As Bodas de Deus, João César Monteiro (1998)

''
...tive mãos em imensos bolsos, puxei fogo, acendi junto ao rosto de uma vez só mil cigarros, fiz por afastar o coração de uma morte fácil, como os versos, revirando tudo...''
Diogo Vaz Pinto 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

''menos do corte que da sensação da lâmina''


Elle,  Paul Verhoeven, 2016

Flechas envenenadas é o que ficou
de um sonho mal digerido
um rato ainda vi sumir-se
e tremendo da incerteza e do que já não podia
pus os olhos no espelho
quis como nunca um rosto que se visse
do outro lado da noite,
granítico, de pedra acordada
traços fundos seguindo o que se diz
de olhos fechados.

O tempo perde, o vento passa os dedos magros
ao longo dos braços,
a roupa que despiste eu ouço-a; eras miúda
e eu mal via no escuro

foi uma idade perversa que hoje eu aprecio
tomei-a dos teus lábios e ele traduzia
nuns gorjeios, bebia connosco
recebia as migalhas, pedacinhos de nêspera
até a tarde ficar cheia, virando

agora o vento baralhou-me o pássaro
desmemoriado, zumbe aflito
faz-se de mosca para não ficar de luto.
Nas costas do mundo, sem fim nem começo
uma frase devora-nos

o quarto de dormir inclinou-o um ritmo
passos que dou por outros
segredam, balouçam as lâmpadas
e não tenho poderes senão essas coisas que leio
de que nasço, voltando-me ao contrário
a sombra arrancada entre o texto e a terra

sou o que quer morrer disto
de um estilo bêbado,
menos do corte que da sensação da lâmina
e o sentido a desfazer-se da língua
uma possibilidade de música dissolvendo-se
num silêncio frio até para os deuses

de tudo, como um soro, enchi a garrafa
e bebo um gole à vez
o sabor a grito que ficou naquela água.
Depois de discussões o poço foi tapado
ficaste tu, eu e as explicações do pássaro
caídos lá em baixo.