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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

''afastar o coração de uma morte fácil''

As Bodas de Deus, João César Monteiro (1998)

''
...tive mãos em imensos bolsos, puxei fogo, acendi junto ao rosto de uma vez só mil cigarros, fiz por afastar o coração de uma morte fácil, como os versos, revirando tudo...''
Diogo Vaz Pinto 

domingo, 10 de abril de 2011

JCM

‎"Quando se filma alguma coisa, fazemos a velha história de Lumière: o combate com o real, com as coisas que estão ali. Algumas vezes enganamo-nos. Eu gosto de ver filmes. Mas filmes que sejam cinema, e não fogo-de-artifício." (João César Monteiro)

domingo, 27 de março de 2011

Filme-Esmola



Fragmentos de um Filme Esmola - A Sagrada Família, João César Monteiro, 1973

na Cinemateca Portuguesa
21 de Abril, 21:30

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cães.



JCM



Os cães dormem finissimamente. Vejo-os resumidos em torno do chão, peneirando serenos as dunas do sono. Já eu, reproduzo a insónia de uma forma quase fabril: de hora em hora, de noite em noite. É a metalurgia de algo que não funde, eu e a fornalha das minhas burlas, dos meus prejuízos. Entendo que cada homem, superando o receio da excomunhão, devolverá o seu corpo à indiscrição. Corpo no mundo como rusga. Revirar tudo, farejar como os cães a flor absurda do prazer.

Vasco Gato


Falou-nos dos cães.
Cães lindíssimos, de língua negra – contou. Tinha-os visto. A rasgarem; a despedaçarem as vestes daqueles homens vindos de outros planetas. São de outros planetas mas lindos, lindos, lindos! A Rússia é bonita. Lá existe o nazismo. Como na Hungria. Quem manda são os ditadores e é terrível terrível terrível! Todo o mundo obedece. Todo o mundo! Eu estive na Rússia. Muitos crimes! O meu marido veio da Rússia. Trazia planos da Hungria. As línguas dos cães do mar negro são negras negríssimas! Os homens cheiram a sangue, somos todos felizes, meu Deus!, acredito em Deus!, somos todos felizes! «O Senhor é português?» - Não! Pois claro que não! O senhor é russo. O senhor é lindo! Lindo! Muito lindo!
Não receies, Glöcker. É inofensiva. Vê como sorri. Deve ter sessenta mas parece quarenta. Como sorri não obstante; apesar de tudo. Como nos volta as costas. Nada lhe interessa. Não lhe interessa. E, contudo, eis que de novo se anima; resplandece. Lado a lado do rosto, duas orelhas crescem, crescem, crescem. Uma estrela escorre-lhe da baba.
Ladra.
Ciumento, arfante, hipnotizado, o cão… repara: «Já tinhas visto uma palavra de quatro patas a abanar a cauda?»


Eduarda Chiote
A Décima Terceira Ilha
Edições Afrontamento, 1983


No silêncio com que o mundo te envolve,
poderias sonhar com o tempo em que corrias,
mordendo a erva, dando voltas sobre ti próprio
como no dia em que nasceste. No entanto,
limitas-te a gemer; e ninguém sabe
a que mãos te entregas, nem que obscuro fim
adias com a tua ausência na vida.

Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996



É ainda assim completamente insuportável!
Estou rabugento como tudo.
A minha rabugice não é conforme poderia ser a vossa:
apanharia qual um cão o rosto de testa lisa
da lua
e cobrindo-a de latidos.

Deve ser dos nervos…
Vou sair,
dar uma volta.
Mas na rua ninguém consegue acalmar-me.
Uma mulher grita-me qualquer coisa a propósito de uma boa tarde.
Há que responder:
eu conheço-a.
Quero fazê-lo,
mas sinto
que é impossível à maneira dos homens.

Que escândalo!
Estarei a dormir?
Apalpo-me:
sou tal como era,
o rosto a que estou habituado.
Toco no lábio,
por baixo desponta
um canino.

Escondo rapidamente a cara, como para me assoar,
corri para casa dobrando o passo.
Contorno prudente a esquadra mas de repente um grito ensurdecedor:
«Ó da guarda!
Ele tem uma cauda!»

Passei a mão e fiquei hirto!
Isto era mais claro
que todos os caninos,
na minha pressa furiosa não tinha reparado
que sob o casaco
uma enorme cauda tinha estendido o seu leque
e abanava atrás de mim,
uma enorme cauda de cão.

Que irá acontecer?
Um pôs-se a berrar, amotinando a multidão,
ao segundo juntou-se um terceiro, depois um quarto.
Derrubaram uma pobre velha
que benzendo-se gritou qualquer coisa a propósito do diabo.
E quando, a cara eriçada pelas vassouras de enormes bigodes
a multidão se aproximou,
imensa,
maldosa,
eu pus-me a quatro patas
e ladrei:
Au! Au! Au!

Vladimir Maiakovski, in "33 Poesias" quasi, 2008
trad. Adolfo Luxúria Canibal



No passado verão agora tantamente tão passado
verão coisa que na verdade vocês verão
leitores meus autores que verdade verdadinha não existe
no passado verão se o estive estive aqui
Que não sabia então que a solidão
das plantas no Inverno a solidão
do cão de francis bacon foragido
a solidão do cão de francis bacon
num quadrado encerrado e mesmo até geometrizado
acossado talvez pela delimitada dimensão
dum quadro exposto no museu de arte moderna
em nova york e visto agora numa má reprodução
na casa sobre o mar do meu amigo joão miguel
a companhia só possível fora dessa implacável simetria da
pintura que na vida tem cruel caricatura
desse cão fustigado a farejar a fuga
desta diária saga que nos suga
cão de antemão sozinho e só senhor da solidão
que não sabia então que a solidão
que a chuva a solidão a solidão a chuva
cheia na uva mas vazia ou só cheia de vazio aqui
que o não sabia sei-o eu sentado aqui agora
sentado aqui aonde vi senti perto de mim
a jacqueline que distante agora mais queria aqui
que quando no verão cegávamos os olhos do limão
no fundo desses copos desse péssimo gin tónico
ó meu amigo cão mais só que as devastadas plantas
mais acossado mesmo que os cuidados cactos
limitados capados nos regados vasos
cão que tens por contorno a companhia
que tens precisamente fora quanto dentro tanta falta te fazia
ó meu amigo cão dás-me tu pelo menos
a mim que não sei bem como sair de tudo isto
melhor que coisa alguma a tua mão?

Ruy Belo
Toda a Terra
1976


Monteirismos.

nunca senão sábios.



"... Olhe o Jean-Marie Straub. Não o admiro por passar fome. Admiro-o porque faz cinema e porque para fazer o cinema que faz tem de suportar a guerra que a Alemanha lhe declarou. O público alemão que, aliás, ele considera o melhor da Europa, vinga-se na quotidiana côdea do cineasta que, imperturbável (até quando?), continua a massacrá-lo com os seus filmes. O mais extraordinário é que a firmeza moral de Straub não se aparenta em nada com um romântico suicídio aos pés da barriguda Besta bávara! O menos que se pode aventar é que o conflito, que exclui todas as possibilidades de reconciliação (nicht versohnt), é de prognóstico assaz duvidoso. Uma coisa, porém, é certa: cada filme que o Straub consegue fazer, rompendo a barreira económica que o sistema lhe impõe, é uma vitória do chamado bloco aliado do cinema, e se eu não acreditasse que a Alemanha vai perder a guerra, refugiava-me num país onde nunca ninguém tivesse ouvido falar do flagelo cinematográfico.
A par disto, como sei que não chego a netos, vou tentar reconciliar-me com a morte. O cinema não é mais do que um itinerário que instaura o reencontro do homem consigo mesmo. Ou Ulisses de novo em Ítaca. Você consegue levar a sério um senhor que tem vinte e cinco tostões no bolso? "
In "O Tempo e o Modo", nº 69/70 Março/Abril 1969


"... Antes do mais, é conveniente esclarecer que este plano foi, a meu pedido, filmado pelo sr. António-Pedro Vasconcelos, atendendo a que, farto do filme, me deslocara, no entretanto, para Itália em viagem nupcial. Ao sr.Vasconcelos foram deixadas todas as indicações julgadas úteis para a boa execução do plano, tarefa de que ele se encarregou escrupulosamente, segundo creio, e pela qual lhe estou muito grato. Bem feita acção seria, pois, eu vir agora queixar-me do trabalho generosamente despendido por um colega em proveito de um filme meu, mas lá que o enquadramento é uma boa merda, isso é. Então eu tenho que gramar aquelas verticais todas abauladas sem ficar roxo de cólera? E quem é que o mandou, seu fantasista, pôr o senhor da senhora que está na cama a ler os Cahiers du Cinéma? Não vê que isso desvia a atenção do movimento obsessivo do plano? Era preferível ter posto o homem a brincar com a pila!....."
Planificação de "Quem espera por sapatos de defunto morre descalço" (1970), in "Os que vão morrer saúdam-te" (1974)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

sobre JCM

13 de MAIO de 2011
MESA 3, 17h-19h, EROTISMO E MODERNIDADE




"A Erotização do espírito em João César Monteiro" 


Paulo Filipe Monteiro | Universidade Nova de Lisboa

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Filmes para Rir





Filmes para Rir : Fiz o meu top 10 de Comédias À Pala de Walsh. Desta vez, com algo que dificilmente se voltará a repetir - partilhando página com o Bruno Aleixo.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Chose your own ground.






JLG / JLG (autoportrait de décembre) (1994)






Citizen Kane (Orson Welles, 1941)






Young Mister Lincoln (John Ford, 1939)





Fotografias de Robert Walser em "Branca de Neve" (João César Monteiro, 2000)






What is he building in there?
Tom Waits

sábado, 29 de agosto de 2009

Take a walk on the Ray side.



Passeio com Johnny Guitar
JOÃO CÉSAR MONTEIRO (1995)



Revia há pouco o "Aquele Querido Mês de Agosto", a passar na RTP2, e no fim, o Vasco Pimentel dizia, poetica e assertivamente, que captava o som que queria. Que em qualquer realidade onde se encontrasse, seleccionava a banda-sonora do seu momento, dando ênfase aos sons que lhe interessavam.
Olho para esta curta metragem, exemplo de que o sentido máximo do Cinema é o do espectador. O espectador de todas as eras, sempre em posse de uma memória, instrumento de captação único e de reinterpretação artística ímpar (Cada recordar de um filme é, em si, um novo filme). E é nesses seus ecos que se ouve Hollywood clássica nos bairros lisboetas de 1995. E faz todo o sentido.


(Um obrigada à professora Manuela Viegas, por me relembrar disto, em tom oportuno legendando-o: "Um sentimental ao microscópio... Um estudo sobre a aura (da película também)...")

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

JCM - Da glória de fazer cinema em Portugal -

''Suponho que o Malheiro também simpatizou comigo e decidiu dar-me um filme, facto a que sou extremamente sensível, sobretudo depois de saber que houve quem o tentasse dissuadir alegando que sou doido varrido. Parece que sim, que sou, mas a cólera do Senhor ainda não me fulminou. Podia contar duas ou três histórias sobre a loucura mas prefiro pensar que este País tem a sensatez que merece". JOÃO CÉSAR MONTEIRO

(João César Monteiro - Festival de Tróia)

Via TF10

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Ser humano, um papel a desempenhar:

The face of another, Teshigahara, 1966


Adão e Eva




Le Bassin de John Wayne, 1997
de João César Monteiro

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

O que farei eu com esta espada? (JCM,1975)


terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Núpcias medievais.


Silvestre
JOÃO CÉSAR MONTEIRO (1981)

«Séculos XV-XVI. Dom Raimundo, um senhor interessado em largar os seus domínios, combina o casamento de uma das filhas – uma legítima, Sílvia, outra bastarda, Susana – com um vizinho rico e jovem, D. Paio, seguindo para a corte, a fim de convidar o rei a assistir à boda. Durante a ausência do pai e mais tarde, aquando do banquete nupcial, ocorrem insólitos acontecimentos, que envolvem um peregrino a Santiago e um cavaleiro, que desejam as duas meninas» (Cit. José de Matos-Cruz em Cais do Olhar, ed. Cinemateca Portuguesa, 1999).

sexta-feira, 15 de dezembro de 2000

''Não tenho vida para olhar para cima.''

Recordações da Casa Amarela, João César Monteiro, 1989