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sábado, 28 de abril de 2018

''Um pó luminoso insiste na memória'' Nuno Júdice



Russa, João Salaviza + Ricardo Alves Jr, 2018

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cães.



JCM



Os cães dormem finissimamente. Vejo-os resumidos em torno do chão, peneirando serenos as dunas do sono. Já eu, reproduzo a insónia de uma forma quase fabril: de hora em hora, de noite em noite. É a metalurgia de algo que não funde, eu e a fornalha das minhas burlas, dos meus prejuízos. Entendo que cada homem, superando o receio da excomunhão, devolverá o seu corpo à indiscrição. Corpo no mundo como rusga. Revirar tudo, farejar como os cães a flor absurda do prazer.

Vasco Gato


Falou-nos dos cães.
Cães lindíssimos, de língua negra – contou. Tinha-os visto. A rasgarem; a despedaçarem as vestes daqueles homens vindos de outros planetas. São de outros planetas mas lindos, lindos, lindos! A Rússia é bonita. Lá existe o nazismo. Como na Hungria. Quem manda são os ditadores e é terrível terrível terrível! Todo o mundo obedece. Todo o mundo! Eu estive na Rússia. Muitos crimes! O meu marido veio da Rússia. Trazia planos da Hungria. As línguas dos cães do mar negro são negras negríssimas! Os homens cheiram a sangue, somos todos felizes, meu Deus!, acredito em Deus!, somos todos felizes! «O Senhor é português?» - Não! Pois claro que não! O senhor é russo. O senhor é lindo! Lindo! Muito lindo!
Não receies, Glöcker. É inofensiva. Vê como sorri. Deve ter sessenta mas parece quarenta. Como sorri não obstante; apesar de tudo. Como nos volta as costas. Nada lhe interessa. Não lhe interessa. E, contudo, eis que de novo se anima; resplandece. Lado a lado do rosto, duas orelhas crescem, crescem, crescem. Uma estrela escorre-lhe da baba.
Ladra.
Ciumento, arfante, hipnotizado, o cão… repara: «Já tinhas visto uma palavra de quatro patas a abanar a cauda?»


Eduarda Chiote
A Décima Terceira Ilha
Edições Afrontamento, 1983


No silêncio com que o mundo te envolve,
poderias sonhar com o tempo em que corrias,
mordendo a erva, dando voltas sobre ti próprio
como no dia em que nasceste. No entanto,
limitas-te a gemer; e ninguém sabe
a que mãos te entregas, nem que obscuro fim
adias com a tua ausência na vida.

Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996



É ainda assim completamente insuportável!
Estou rabugento como tudo.
A minha rabugice não é conforme poderia ser a vossa:
apanharia qual um cão o rosto de testa lisa
da lua
e cobrindo-a de latidos.

Deve ser dos nervos…
Vou sair,
dar uma volta.
Mas na rua ninguém consegue acalmar-me.
Uma mulher grita-me qualquer coisa a propósito de uma boa tarde.
Há que responder:
eu conheço-a.
Quero fazê-lo,
mas sinto
que é impossível à maneira dos homens.

Que escândalo!
Estarei a dormir?
Apalpo-me:
sou tal como era,
o rosto a que estou habituado.
Toco no lábio,
por baixo desponta
um canino.

Escondo rapidamente a cara, como para me assoar,
corri para casa dobrando o passo.
Contorno prudente a esquadra mas de repente um grito ensurdecedor:
«Ó da guarda!
Ele tem uma cauda!»

Passei a mão e fiquei hirto!
Isto era mais claro
que todos os caninos,
na minha pressa furiosa não tinha reparado
que sob o casaco
uma enorme cauda tinha estendido o seu leque
e abanava atrás de mim,
uma enorme cauda de cão.

Que irá acontecer?
Um pôs-se a berrar, amotinando a multidão,
ao segundo juntou-se um terceiro, depois um quarto.
Derrubaram uma pobre velha
que benzendo-se gritou qualquer coisa a propósito do diabo.
E quando, a cara eriçada pelas vassouras de enormes bigodes
a multidão se aproximou,
imensa,
maldosa,
eu pus-me a quatro patas
e ladrei:
Au! Au! Au!

Vladimir Maiakovski, in "33 Poesias" quasi, 2008
trad. Adolfo Luxúria Canibal



No passado verão agora tantamente tão passado
verão coisa que na verdade vocês verão
leitores meus autores que verdade verdadinha não existe
no passado verão se o estive estive aqui
Que não sabia então que a solidão
das plantas no Inverno a solidão
do cão de francis bacon foragido
a solidão do cão de francis bacon
num quadrado encerrado e mesmo até geometrizado
acossado talvez pela delimitada dimensão
dum quadro exposto no museu de arte moderna
em nova york e visto agora numa má reprodução
na casa sobre o mar do meu amigo joão miguel
a companhia só possível fora dessa implacável simetria da
pintura que na vida tem cruel caricatura
desse cão fustigado a farejar a fuga
desta diária saga que nos suga
cão de antemão sozinho e só senhor da solidão
que não sabia então que a solidão
que a chuva a solidão a solidão a chuva
cheia na uva mas vazia ou só cheia de vazio aqui
que o não sabia sei-o eu sentado aqui agora
sentado aqui aonde vi senti perto de mim
a jacqueline que distante agora mais queria aqui
que quando no verão cegávamos os olhos do limão
no fundo desses copos desse péssimo gin tónico
ó meu amigo cão mais só que as devastadas plantas
mais acossado mesmo que os cuidados cactos
limitados capados nos regados vasos
cão que tens por contorno a companhia
que tens precisamente fora quanto dentro tanta falta te fazia
ó meu amigo cão dás-me tu pelo menos
a mim que não sei bem como sair de tudo isto
melhor que coisa alguma a tua mão?

Ruy Belo
Toda a Terra
1976


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

(...e sou eu que tenho de encontrar as razões para o que não precisa delas)


Alessandro Sicioldr



Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que
crescem depressa, como os ciprestes, ou as
que se enrolam a tudo o que aparece nos muros
como as buganvílias. Através delas, vejo o céu
que me traz outras coisas, mais complicadas
dos que estas da terra; e também no céu
escolho, hoje, o que não é difícil, a nuvem
que há pouco parecia eterna e desapareceu;
ou um branco sujo que apagou o horizonte,
por algum tempo, e fez com que todo o
universo ficasse ao meu alcance para nada.

Mas o que é simples também pode ser o
seu contrário. Há uma lógica no interior
deste movimento que faz crescer o cipreste,
ou empurra a buganvilia para o fundo do muro;
e também as nuvens seguem uma direcção
precisa, mudando a sua forma à medida que
se afastam dos meus olhos. A verdade deste
mundo encontra-se no próprio acaso que
a determina; e sou eu que tenho de encontrar
as razões para o que não precisa delas,
porque a sua existência se limita a este
perfume de fim de verão, ou à queda
das folhas que se confundem com nuvens.
O mundo é imprevisível como a vida
da borboleta que nasceu de dentro da
buganvilia; mas o vento que há pouco soprava,
não me disse nada sobre isso, nem o seu
sopro vago me libertou de folhas e de
nuvens, para que o chão e céu ficassem
limpos. Só a borboleta, no instante do voo,
trouxe a sua luz dissonante para dentro
da natureza; e foi ao encontrá-la,
no meio da terra e das pedras do jardim,
que me apercebi de que nem tudo é simples,
quando a morte se cruza com a beleza.

sábado, 4 de novembro de 2006

''as mãos não se podem tocar''

Chris Marker, La Jetée, 1962

Eu, sabendo que te amo, 
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

J
ÚDICE, NUNO (1997), A Fonte da Vida, Lisboa, Quetzal.