VIR A MUNDO > SER ESPERADO POR > VOCAÇÃO DE >
(...) Qual é o lugar do poeta - neste caso, Baudelaire - para Benjamin? É aquele que na sua obra pode dar a ver a imagem da vida? Porque a sua função não é nem a do comentário nem a da crítica.
O poeta não entra na relação entre o químico e o alquimista. Essa relação é a do leitor. Por isso o subtítulo do livro é "Benjamin, leitor de Baudelaire". Benjamin diz que as obras de arte, os poemas, são como pessoas muito atraentes e secretas. Para as conhecermos teríamos de exercer violência sobre elas; mas abstemo-nos de o fazer e perguntamo-nos se essas pessoas não têm familiares (irmãos e irmãs) a quem fosse possível fazer perguntas. Ele diz que esses irmãos e irmãs se encontram nos problemas filosóficos. Considera que os poemas da filosofia estão relacionados uns com os outros e podem constituir uma unidade, mas que não podemos chegar a exprimi-la. A essa falta de possibilidade chama ele ideal do problema.
A pergunta sobre a unidade não pode ser feita ou não tem resposta?
Não pode ser feita porque não tem resposta. Mas o facto de não poder ser respondida não invalida que ela ocorra e tenha a sua fertilidade. Qual será o acesso a essa pergunta inexistente? O acesso é-nos dado pela obra de arte. Não é que a obra de arte concretize o ideal do problema. A obra tem nela própria o ideal do problema enterrado, daí o comentário poder ser visto como um desenterrar. O que implica, no pensamento de Benjamin, uma relação muito profunda entre arte, poesia e filosofia. No fundo, a actividade filosófica exercita-se no reconhecimento das obras de arte e da poesia. A poesia de Baudelaire representa para Benjamin um modo de tocar a raias da vida, o que passa por cima do conceito, da argumentação. O poeta do século XIX canta a cidade, mas já não é ouvido. Há um desajustamento entre a actividade poética e o modo como as forças sociais e económicas se desenvolveram, em particular cristalizadas na teoria do progresso. A criatividade humana, se não contribuir para a utilidade da existência, no que concerne à sua sobrevivência, não é considerada, ou é mesmo rejeitada.
Porque a pergunta que se impõe é: para que serve?
A partir de certa altura, poético começou a querer dizer inexacto, irreal, desnecessário, absurdo, inconsistente. Isto diz qualquer coisa sobre a compreensão do que é a poesia por parte daqueles que, em geral, não a lêem. Pensemos num poeta do século XVI, Tasso. Foi muito lido, reconhecido pelos poderes estabelecidos que lhe pagavam a existência (o duque de Ferrara em particular), mas recusou a coroa de louros. Petrarca, poucas dezenas de anos antes, tinha aceitado. Rilke considera que com Tasso começa, em termos de poesia, a época moderna. A coroa de louros era a aceitação por parte do poeta desse reconhecimento exterior. Tasso teve consciência de que esse reconhecimento não acertava com a intimidade do poeta. Temos uma equivalência disto em Baudelaire, cheia de humor, na auréola do poeta que cai na lama. E que ele não apanha.
"A arte não salva a nossa noite, a arte ilumina a nossa noite como as estrelas, as ideias. Iluminar, porém, não só não é despiciendo, como é indispensável". O lugar da poesia é este?
É impressionante essa carta de Benjamin a Florens Christian Rang, em que faz uma distinção entre a arte e a vida a partir dessas imagens da noite e do dia. As obras de arte pertencem à nossa noite, como estrelas. Não nos salvam. Para nos salvar da noite só o nascer do dia. É aí que se insere a acção histórica. Benjamin tem a este respeito uma posição paradoxal. A noite retorna. E tudo o que ela arrasta - o nosso lado sombrio. É a nossa natureza que escapa à história. Estar diante do abismo é ser moderno em sentido excêntrico (como ele diz). Essas imagens de abismo e noite são qualquer coisa que pertence ao ser humano e que está para além da redenção. A arte não redime.
Mas é indispensável que ilumine. Se não, seria o breu total.
Exacto. Esse brilho não é equivalente à salvação. O coração da arte não é salvar a vida humana. Há quem sofra por causa disso. Hermann Broch, Jorge de Sena também. Sabe que a arte não redime a angústia de viver. Em Benjamin não vemos essas graves perturbações. Só vemos o paradoxo.
A poesia pode ser vista como uma tradução da vida?
Benjamin nunca usa essa expressão para especificar a passagem da vida à poesia. Pensa na tradução como a passagem de uma língua para outra numa relação de vida, redentora. Em texto anterior (que ele desenvolve a partir do Génesis), a linguagem humana da nomeação é já uma forma de tradução. É interessante que não volte a retomar esse conceito de tradução. Talvez porque ela, à luz desse texto, só se possa fazer de uma linguagem inferior para uma superior, da linguagem das coisas para a linguagem humana. Antes da expulsão do Paraíso, é difícil conceber Adão como humano, porque não nasceu. O nascimento é um acontecimento pós-paradisíaco. Nietzsche retoma em "O Nascimento da Tragédia" uma ideia que está presente em textos muito antigos (védicos e gregos) da separação do todo, da individuação. É uma concepção de justiça mítica, de culpa natural, que Benjamin recusa liminarmente. Ele tem a tese de que fomos esperados na Terra.
Que entronca numa expressão que se usa: a mãe está a espera de bebé.
Sermos esperados na Terra implica um dever de rememoração em relação aos que nos esperaram. Os nossos pais e todos os outros. Isso significa que todo o sentido da vida humana tem a ver com a transmissão. Por isso é que a linguagem é sempre a que passa de pais para filhos. É a linguagem em que nos banhamos desde que nascemos, e não uma linguagem construída.
(...) O fogo-de-artifício de Maria Filomena Molder, Ipsilon 18.05.2011, entrevista de Anabela Mota Ribeiro
... Cada um de vós é um mundo, como estrelas do céu
Vós víveis, um deus cada qual, juntos em livre união.
Pudesse eu tolerar a servidão, já não invejava
Este bosque e bem me amoldava à vida em comum.
Não me prendesse já à vida em comum o coração
Que não deixa de amar,
Como eu gostava de morrer entre vós!
excerto de "Os Carvalhos" in "Poemas", Holderlin