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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

''passava o tempo a ouvir deus e música de jazz''

“Movemo-nos na Noite Sem Saída e Somos Devorados Pelo Fogo”- Guy Debord

Já ninguém morre de amor, eu uma vez andei lá perto, estive mesmo quase, era um tempo de humores bem sacudidos, depressões sincopadas, bem graves, minha querida, mas afinal não morri, como se vê, ah, não, passava o tempo a ouvir deus e música de jazz, emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes, ah, sim, pela noite dentro, minha querida. a gente sopra e não atina, há um aperto no coração, uma tensão no clarinete e tão desgraçado o que senti, mas realmente, mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não, eu nunca tive queda para kamikaze, é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida, saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber, e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim. há ritmos na rua que vêm de casa em casa, ao acender das luzes, uma aqui, outra ali. mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha no lusco-fusco da canção parar à minha casa, o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente, minha querida, toda a gente do bairro, e então murmurarei, a ver fugir a escala do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Vasco Graça Moura in Antologia dos Sessenta Anos

domingo, 15 de abril de 2018

''Se na estética se aplica a mesma inflação que mantém viva a sociedade capitalista, o mundo em que vivemos não vale a pena''

Crítica da Separação, Guy Débord, 1961


JMS: O filme militante confina as pessoas à urgência. E na urgência estamos, a culminação do sistema que inventou as câmaras de gás. (…) Esta ideia poderia servir de definição para o cinema político: evitar a todo custo o que mantém com vida o capitalismo, a inflação. Se na estética se aplica a mesma inflação que mantém viva a sociedade capitalista, o mundo em que vivemos não vale a pena, continuamos a deitar água ao moinho. (…)
DH: Nós, como pessoas, reagimos forçosamente às circunstâncias, mas isso não é motivo suficiente para plasmar as reações individuais em um filme. Para isso estão as histórias sentimentais.

Danièle Huillet e Jean-Marie Straub em entrevista a François Albera, 2001

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Les Enfants Perdus

Critique of Separation, Guy Débord

sábado, 11 de abril de 2015

Milord reduzido a viver de imagens

O LORD

Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso - em dúvida iludida...
(-Por isso a minha raiva mal contida,
- Por isso a minha eterna impaciência.)
Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, e palácios e colunas
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...
( - Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande património algures haver perdido;
Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido -
E a Cor na minha Obra o que ficou do encanto...)
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

 Sur le passage de quelques personnes à travers une assez courte unité de temps (Guy Débord 1959)




sexta-feira, 10 de abril de 2015

Social Network: o espectáculo de si mesmo.

dou por mim a pensar que
: as redes sociais são o oráculo débordiano em ácidos
os ''ambientes de solidão entre-reforçada'', as ''aventuras apresentadas mas não construídas'', os ''indivíduos por ser'', os ''espectros que assombram os objectos anarquicamente doados pelos outros'', os ''sinais que emitem possibilidades de uma vida mais intensa que ainda não foi encontrada'', a ''exterioridade'', a ''alienação''. a ''separação pela não-intervenção'', etc

: Se Guy tivesse vivido para ter conta no Instagram

1) teria um ataque de tédio face ao psico-capitalismo in-yer-face inscrito no consumismo (denominador-comum) compartilhado nesta comunidade de inserção e pertença mas

2) haveria de reconhecer soberania à máquina publicitária que, tão geracionalmente confiante na ''economia do EU'', conseguiu fazer de cada indivíduo um bill-board voluntário e da vida pessoal uma mercadoria multi-branding (espectro que só remotamente corresponde ao referente), mas

3) rendido à inconsequência das palavras ao lado das imagens, iria tirar umas selfies (#senãoospodesvencer) e fazer parte deste espectáculo de imagens estáticas e em movimento ~ agora a cores. 


La Societé du Spéctacle, Guy Débord, 1973