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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Someone Sometimes
fotografia de autoria desconhecida
“Oh, how good it is to be with someone, sometimes.”
― Marguerite Duras, Hiroshima Mon Amour
terça-feira, 21 de agosto de 2018
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Defesa de Duras
desejamos chegar à vida adiante
rapidamente sentir o não sentido
abrir ao escuro esse grande coração secreto
que teme definhar em peito jovem
a solidão é a primeira morada:
o cinema acontece na cabeça
finge sempre o outro
que melhor couber a
esse par de braços estendidos
n'importe qui.
escada acima escada abaixo
Duras fez vida de ir
da sua pequena avenida até aos céus
e a sua idade foi sempre
fez nascer o seu grande amor ausente
que à partida lhe deixou
uma espera por resolver
tudo cai
e
tudo muda
mas
(em segredo)
um peito resiste:
Duras fez vida de ir
da sua pequena avenida até aos céus
e a sua idade foi sempre
das décadas quietas
da mesma juventude revisitada
essa água donde mil vezes fez nascer o seu grande amor ausente
que à partida lhe deixou
uma espera por resolver
cada dia costura a memória pela escrita e
o breve encontro de uma adolescência dura uma vida
DURAS
quinze anos e meio
quinze anos e meio
apenas e para sempre
porque os desejos da juventude são infinitos
o
: primeiro toque
eternamente impresso
na
: primeira brancura
de um corpo
afaga a mortalidade a cada hora
tudo cai
e
tudo muda
mas
(em segredo)
um peito resiste:
"Uma pessoa nunca deve curar-se da sua paixão."
O AMANTE
''Nada os atingirá.''
AGATHA
''Porquê negar evidentemente a necessidade da memória?"
HIROSHIMA MEU AMOR
já não era ele
o grande viajante de S.Thala
o príncipe do Ganges
o barqueiro do Mekong
o elegante diplomata bengalês
o desconhecido das Indochinas
o estranho da praia
o chinês que lhe iniciou o corpo ao fim da tarde
(num quarto quente em Laos)
todos variações do mesmo nome
o nome desse primeiro homem
reinando sobre todos
(O seu nome de Veneza numa Calcutá deserta)
um duplo ataque do Tempo:
sobre eles
o peso de não terem chegado antes
sobre ela
a busca vã pela vida já vivida:
«Embarquei com ele, feliz de ser como todas as outras. (...) Tudo foi pensado depois, no barco de volta a França: amei-o sem dúvida. (...) Era muito muito forte. Era para toda a vida.»
''Dás-me um grande desejo de amar.''
HIROSHIMA MEU AMOR
Moderato Cantabile, Peter Brook, 1960
''enquanto nada acontecer entre eles, a memória está amaldiçoada com o que não aconteceu.''
OLHOS AZUIS, CABELO PRETO
das tuas mãos incessantes
uma caneta e um copo
viajas de pernas torcidas nos cafés e
ignoras o jornal dia após dia
tu escreves
Marguerite
tu escreves
(para sempre
destinada a chamar meu amor a
uma página em branco)
foste tu quem
em India Song - Son Nom de Venise
nos explicou como
os nomes próprios
são
fôlegos muito secretos
em espera
são
feitiços que a língua vicia
(entre sussurros e suspiros
e para dentro de si)
guardamos os outros pelo nome:
numa palavra, um sopro
numa velocidade, um coração
a memória faz-se numa esperança de amanhã
uma caneta e um copo
viajas de pernas torcidas nos cafés e
ignoras o jornal dia após dia
contra o rodopio do mundo vivo
a tua missão é sempre
a de ir inventando a memória
: a guerra acabou
: esse país já não existe
: tu voltaste da colónia
ele onde está?
(- por ti, estou às mãos de ser) tu escreves
Marguerite
tu escreves
(para sempre
destinada a chamar meu amor a
uma página em branco)
foste tu quem
em India Song - Son Nom de Venise
nos explicou como
os nomes próprios
são
fôlegos muito secretos
em espera
são
feitiços que a língua vicia
(entre sussurros e suspiros
e para dentro de si)
guardamos os outros pelo nome:
numa palavra, um sopro
numa velocidade, um coração
a memória faz-se numa esperança de amanhã
a sala escura sonha a voragem em uníssono
desenfreadamente se viveu
até àquela hora de
querer morrer entre
os lençóis que acabam o mundo:
foi ali que o caminho para o fim se interrompeu
S.Thala: morada dos Eternos.
desenfreadamente se viveu
até àquela hora de
querer morrer entre
os lençóis que acabam o mundo:
foi ali que o caminho para o fim se interrompeu
S.Thala: morada dos Eternos.
India Song (Marguerite Duras, 1975)
o romance é um trabalho do espírito
aquece o mais banal
replica-se
o erotismo é intelecto
projectado sobre
: um corpo
: um rosto
: um detalhe
como uma tela branca pronta a abrir-se à vida do sonho
a paixão é um enredo
em que se entra com vontade de vestir
as faltas gritam
os limites gritam
a narrativa quer ser completa pelos pormenores
os olhos desejam afundar-se,
desejam curar-se de um mundo
afogando-se noutro
tudo é vontade de ver e
o projecto avança
com a minúcia do imaginar
o teu trabalho
Marguerite
é literal
: escrever romances
viver das páginas
donde se extraem lembranças
de mundos primeiramente teus
dás universo aos
corpos interrompidos
(essas faltas) donde o erotismo nasce
e depois
as pessoas que tão bem escreves
são peles que largas
para a leitura vestir
e aí
tudo muda
aí
acredita-se
Il dialogo di Roma (Marguerite Duras, 1983)
mas
o idealismo é
o primeiro mandamento
do espírito aberto
: é mais fácil
detalhar na nostalgia
das horas cada vez mais longínquas
a paixão não é afinal
a fome de deuses na terra?
o desejo é um treino da imaginação:
todos os corpos implicados
têm o mesmo protagonismo
tudo é e não é comum
nestas danças de encontros e fugas
(indivíduos serão individuais)
- cada qual
irá plantar em si as expectativas
-cada qual
há-de abrir os dedos
largar as roupas e
fingir
fingir fé
e um dia
peut-être
este amor será verdadeiro
e um dia
afastados entre si os corpos
este amor será perfeito
foi isto
que Duras nos ensinou
lembrando como
o desejo vive da ausência
e como
o tempo é da dedicatória
até ao ideal que
melhor servir
a função de contar a história
(e toda a história é distância)
no fim
todos os actores das circunstâncias
perceberão como a ficção constrói o real
e
como o real é
o que acontece dentro da cabeça
e
em boa memória há
horas perfeitas como filmes
La Femme Du Gange, Marguerite Duras, 1974
todos os Verões sonhamos os Verões de Marguerite:
os mesmos quartos de praia
tão vazios de amor como
os corpos ansiosos de mulheres tão jovens
que só toleram a perfeição por chegar
de olhos e ouvidos postos no mar
a palavra certa
subitamente por ouvir
as mesmas ondas de Virginia
os batimentos da possibilidade:
Agatha et Les Lectures Illimitées é sobre
amar profundamente sem saber a quem
«Recolher as flores para quando Alguém chegar»
«Recolher as flores para quando Alguém chegar»
: reanimar as horas com visões pagãs
: dedicar corpo fiel a alguém sem rosto
(é uma imaginação admirável )
o romance é
é uma das mais extraordinárias formas de viver:
com ambição de infinito
com ambição de infinito
(NEVERS. NEVERS EN FRANCE.)
HIROSHIMA, MON AMOUR
sabe quem se dá um espelho:
os problemas dos espíritos
cruzam os mesmos caminhos
o pensamento vicia círculos
para voltar às fundações
(para o pensar e para o sentir
nunca se parte de mãos vazias)
(uma salvação que não chegou ainda)
para voltar às fundações
(para o pensar e para o sentir
nunca se parte de mãos vazias)
e é porque
os mesmos temas lugares e sujeitos
ressurgem no mundo de Duras que
é comum ouvir-se que
é uma cineasta repetitiva ou
uma escritora medíocre
! injustiças
quando
quando
foi ela que nos deu a ver
crua e lancinante
quão irremediável é
a incompletude do corpo
quão real é
a solidão que se anima pelas
pequenas afeições
fechadas nos livros e nos filmes
por enquanto
deixou-nos com
um último fundo de fé:
um futuro por que se espera é (uma salvação que não chegou ainda)
As Mãos Negativas, Marguerite Duras (1979)
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