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terça-feira, 26 de outubro de 2021

''Porque aquele que ama nasce e morre. Vive nele o fim espalhado da terra.” Herberto Hélder

 


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Uma salamandra devorou o meu fogo...

Grimes in Los Angeles 2021, by Jvshvisions


Não pode mais, Iniji


Esfinges, esferas, falsos signos,
obstáculos no caminho de Iniji

Movem-se margens
Fundações afundam-se

Mundo. Não mundo
só o amálgama

As pedras já não sabem ser pedras

Entre todos os leitos da terra
onde está o leito de Iniji?

Menina
pá pequena
Iniji não pode fazer força

Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo

Fluidos, fluidos
tudo o que passa
passa sem parar
passa

Ariadne mais fina que o seu fio
não consegue reencontrar-se

Vento
sopra vento em Arraô
vento

Ananoá Iniji
Anâã Animá Iniji
Orrenaniâã Iniji
e Iniji inanimada

Sai meio corpo
meio corpo morto

Ananejá Iniji
Anajetá Iniji
Anamajetá Iniji

A bilha não entorna a ciência
O fogo não derrama o leite

A chave,
onde está a chave?
Os insectos passam-na uns aos outros
As vassouras varrem-na

Tu sim, tu; mas eu não tem

Eva sou eu
orfã da ideia
saída, portas fechadas

Já não agarra, Iniji

Iniji fala com palavras
que não são as suas palavras

Djã
Djã Djã
Djã dã dã
que tornam Iniji inânime
sem regresso nos carris de Irritilili

Quantos vespões no verão da sua cabeça

Não te detenhas nele, Iniji

Se tu vais Njeu
Njá vá dá

Se tu não njá
njarrá rá vais

Reboques
que a rebocam
que ela reboca

Aonde regressar?
Foi-se o coração do quarto

Repetição sempre repetida

Oh Dormir, dormir numa ânfora

Paralisia nas águas
Paralisia nos campos

Sofre-se aqui a suprema fealdade
o ataque das agulhas voadoras

O avesso do perfume, não sabem, eles

O raio não é feito para cabeças de crianças
mas está lá
recreando-se, para ele, para nada, para criar um trovão

As montanhas de Niniji estão condenadas
Recôncavos, depressões, poços

Segundo o mundo, os males

Fechou-se a porta das viagens
no túmulo jaz Iniji

Misturados ao insalubre dos fundos
contrários caracteres ficaram nela,
o torturante do fogo junto ao monótono da água
junto ao inconsistente, ao imperceptível do ar.

E sempre
o corpo sem vida como a rotação da mó

Lá onde não existe nenhuma clareira
nascentes, oferendas
os infindáveis bordados da teia da aranha invisível
tecem árvores com os meus pensamentos
não posso fazer nada

Somente as amarguras grandes
somente a contínua continuação

As escalas devoram a melodia
debaixo do tecto, o telhado
debaixo do soalho, o leito
na estopa os sinos

Uma salamandra devorou o meu fogo...

Este coração já não se entende com os corações este coração
não reconhece ninguém na turba dos corações

Corações cheios de gritos, de ruídos,
de bandeiras
este coração não é desenvolto com estes corações
este coração esconde-se destes corações
este coração não se compraz com estes corações.

Oh cortinas, cortinas e ninguém vê Iniji

Stella, Stella constelada
já te não levantas para mim, Aurora

Tão pesados
tão pesados
tão taciturnos seus monumentos
tão impérios, tão quadriláteros
tão esmagadores bárbaros, tão vociferantes,
e nós tão nenúfar
tão espiga ao vento
tão longe do cortejo
tão mal na cerimónia
tão pouco da nossa idade e tanto a passear
tão farinha
tão peneirada

e sempre na peneira
asas de morcego
batendo sempre contra a cara

Bifurcações
e desuniu-se o uno

liames ligam lugares Lorenzo

O cisne erguido ao rés das águas não disse «minha filha»

Porque os gelos
porque a fuga dos espíritos
aconteceu

Quem agora há-de aportar à ilha?

As formas fogem em farrapos
mergulham, alongam-se, deformam-se
luas nos bordos de uma nuvem negra.

Tiram-se as luvas cheias de sangue
tira-se a camisa cheia de sangue

ah lasciate
lasciate

Silêncio

silêncio

Deixai-me nadar pelas paredes fora
Ouço murmúrios que me chamam
É ele. É o momento.
Enfim!

Espelhos recolhem-nos
Espelhos trocam-nos
a perdida deste mundo, a morte do outro mundo

Deixai-nos

Rorraá Roá Roarrá Rorrâã

Hoarre hoâã

Tornou-se depois tudo tão duro
tão detestável
velha mão nodosa
sobre um rosto de têmporas raiadas de veias
outrora
o rio de júbilo não tinha o leito ressequido
Iniji não vivia ainda atrás das portas de chumbo

Não acontecera ainda.

Vida, extremidade de um galho...

Ah o terrível, o trémulo que tão fácil dissipa o universo inteiro

Estes esgares à minha roda
sempre, sempre
que desejam eles?

Papéis sempre sempre redistribuídos
perdizes, folhas, loucas



Vapor
apenas vapor
pode acaso o vapor voltar a ser migração?
o fio passa
repassa
fio sem fim a fiar-se
casulo que me enclausura

Ah! O Juízo
sofrida sentença semelhante à síncope
vagas fustigantes
dedos aduncos
tudo são tormentos para a órfã

Iniji hóspeda efémera das covas,
pais, pinças, palavras

Eis a estrada longínqua que não vem de volta.

Dorme o seio de onde jorrou o leite.

Apagou-se o contorno... e a opala...

Ficou a sombra só o suspiro dos lábios

Vem, vem, vento de Aúrraú
tu, vem!

Henri Michaux
Herberto Helder, poemas mudados para português, in "Poesia Toda", p. 469, Assírio & Alvim, 1996

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Até pode suceder que a morte não seja bastante.



Nunca se sabe aquilo que basta. Talvez baste um poema, uma coisa mínima, viva, nossa, uma coisa sub-reptícia para empunhar diante do implacável acordo das formas exteriores. Também pode ser que nada baste. E nesse caso tanto faz escrever um romance ou cem poemas ou apenas um poema, ou ler ou emendar o céu astronómico ou manter-se parado no meio de um jardim húmido e silencioso, à noite. Até pode suceder que a morte não seja bastante.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente: o coração onde correm milhões de gotas de sangue.

 


Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,

uma coroa de borboletas com suas asas pintadas. Terás de volta ao pescoço flores de abóbora, em prata, e a lua que para ti noites e noites forjei. Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa. Um cavalo ardente e leve, animado pelo meu fogo de amor. E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente: o coração onde correm milhões de gotas de sangue.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.

 Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto.

Gosto do deserto. Levei tábuas e pregos. Ferramentas, as belas ferramentas dos homens. Levei água, víveres, sementes. Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos – também não eram sementes de máquinas. As belas máquinas dos homens. Não me lembro se fui pelo ar. Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas. Não me lembro de quando se vai deixando. Foi portanto pelo ar. Levei tudo para experimentar o deserto. Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas – as belas ferramentas. Tenho uma pequena ciência. Aprendi. Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto. Ficava no meio. No meio é bom – há uma coisa que se chama à volta. Serve para estar bem só. Comprei tábuas, sementes e águas. Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo. Eram sementes de cabeças de crianças. Tenho uma pequena ciência. Fiz como nos livros. Dividi-me em sete dias. Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego. Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos. Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia. Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto. No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre. Foi então que senti o sangue a bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia. No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão – as sementes –, lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento. Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra – era então o sexto dia. E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira. Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso corpo solitário sente deitado sobre a terra. Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia. Era uma sementeira de cabeças de crianças. Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário. Não eram. Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças – era terrível. Seriam verdes-garrafa? Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças – vivas, oscilantes, latejantes sobre os pedúnculos que irrompiam do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria. Começaram então a sussurrar – e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo. Mas eram cabeças de crianças. E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração, estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças. Eu nunca mais dormiria – era de noite, era agora a minha noite. E então elas começaram a cantar – na minha noite. Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa – e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes. No deserto. O meu coração nunca mais dormiria. Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário. Eram cabeças de crianças.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

''Construímos um lugar de silêncio.''

A Valsa com Bashir, Ari Folman, 2008
"A memória é dinâmica. Ela está viva. [...] Nós não vamos a lugares que nós não queremos. [...] A memória nos leva onde precisamos ir."

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder, Ofício Cantante

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

''Lá vai a bicicleta do poeta em direcção ao símbolo''


Montana Belle, Allan Dwan, 1952


Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder, in “Poesia Toda” assírio & alvim, 1981

oh nunca mais quero viver no mundo!

Faust, Andrea Bussmann (2018)

Profano, prático, público, político, presto, profundo, precário,
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar
a terra
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos o silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com
cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
e paus amarelos,
paus virgens com linho e algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha
em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Omar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro do mesmo mundo era o centro de Alexandria,
olhos fechados víamos através das pálpebras a nossa vida ardente
                               e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!

Herberto Helder, in Servidões, 2013

terça-feira, 21 de agosto de 2018

''troca tudo meu tão certo''


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

STEREODOX: ''amor, velocidade, morte, metamorfose''

quinta-feira, 26 de julho de 2018

''Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo.''




Herberto Helder, em minúsculas, Assírio & Alvim



sexta-feira, 22 de junho de 2018

''esse fantasma da voz quebrada pelo soluço da Marylin'' HH




J. SEVILLA



domingo, 28 de junho de 2015

a miséria dos minutos, / a força sustida das coisas, / a redonda e livre harmonia do mundo.

''No fundo de toda a beleza jaz qualquer coisa de inumano, e essas colinas, a doçura do céu, esses desenhos de árvores, eis que nesse mesmo minuto perdem o sentido ilusório de que os revestíamos, agora mais longínquos do que um paraíso perdido.''
ALBERT CAMUS, o Mito de Sísifo


Ana-ta-han, Sternberg, 1953

deixamos o espaço às coisas e tapamos com mantas de imagens 
os olhos, a noite é mais pesada que os nossos corpos, muito mais
fria
PER AAGE BRANDT

terça-feira, 24 de março de 2015

HH vive


''e eu, que em tantos anos não consegui inventar um
resquício metafísico,
ponho todo o empenho no trânsito das minhas cinzas:
oh retretes terrestres com destino final nas grandes águas
marítimas:
glória atlântica,
índica megalomania das tripas!"

HERBERTO HELDER
(A Morte Sem Mestre)






Pieter Claesz, Vanitas Still Life with Oil Lamp and Writing Utensils (1628)

Paul Delvaux , Conversation, (1944)

sexta-feira, 6 de março de 2015

Corpo, um tratado sobre o trespasse


"eu que sou isento, digo, que me devore um buraco ou fora ou dentro"

HERBERTO HELDER



"In this world which we enter, appearing from a nowhere, and from which we disappear into a nowhere, Being and Appearing coincide."
Arendt, Hannah. The Life of the Mind



Die Spinnen - Parte I, Fritz Lang, 1919

 Beethoven (Abel Gance, 1936)


Vampyr, Dreyer, 1932

 Judex, Franju, 1963


 Force of evil, Abraham Polonsky, 1948


 L'Atalante, Jean Vigo, 1934




Why Husbands Flirt (Al Christie ,1918)

Woman in the dunes, Teshigahara, 1964


Ossos (Pedro Costa, 1997)


You only live once, Fritz Lang, 1937

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

bom será o tempo, bom será o espírito.

(...)
Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água. 
 (...)
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
  (...)
HERBERTO HELDER
 

L'argent, M. L'Herbier (1928)

 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

''É em nós que se encurva o nervo do arco contra a flecha.''

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.



Herberto Helder
Cobra
Poesia Toda
Assírio & Alvim
1979

Devil's Den Elevations, Philip Wolfhagen, 2000

Philip Wolfhagen, New Delirium, 2007

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

E as letras estão em ti, abertas / pela neve dentro.


(...)
Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.

E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.

O alfabeto, a lua.

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.
(...)
Herberto Helder


Tokyo Story, Ozu, 1953