Onde pôr a cabeça?
Um céu
um céu porque não há mais a terra,
sem sequer uma asa, sem penugem, sem pluma de pássaro,
sem orvalhos
estritamente, unicamente céu
um céu porque não há mais a terra
Após a explosão na cabeça,
o horror, o
desespero
após nada mais ter havido, tudo devastado, afundado
toda passagem perdida
um céu glacialmente céu
Já obstruído, barrado, lotado de
detritos;
céu por causa da enxaqueca da terra
desprovida de céu
um céu porque não há mais
onde pôr a
cabeça
Atravessado, encolhido, retraído, reduzido, desmanchado aos poucos,
irrespirável nas explosões e nas fumaças
bom pra nada
um céu inencontrável
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domingo, 7 de novembro de 2021
''um céu glacialmente céu // Já obstruído, barrado, lotado de / detritos''
sexta-feira, 8 de outubro de 2021
Uma salamandra devorou o meu fogo...
Grimes in Los Angeles 2021, by Jvshvisions
Não pode mais, Iniji
Esfinges, esferas, falsos signos,
obstáculos no caminho de Iniji
Movem-se margens
Fundações afundam-se
Mundo. Não mundo
só o amálgama
As pedras já não sabem ser pedras
Entre todos os leitos da terra
onde está o leito de Iniji?
Menina
pá pequena
Iniji não pode fazer força
Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo
Fluidos, fluidos
tudo o que passa
passa sem parar
passa
Ariadne mais fina que o seu fio
não consegue reencontrar-se
Vento
sopra vento em Arraô
vento
Ananoá Iniji
Anâã Animá Iniji
Orrenaniâã Iniji
e Iniji inanimada
Sai meio corpo
meio corpo morto
Ananejá Iniji
Anajetá Iniji
Anamajetá Iniji
A bilha não entorna a ciência
O fogo não derrama o leite
A chave,
onde está a chave?
Os insectos passam-na uns aos outros
As vassouras varrem-na
Tu sim, tu; mas eu não tem
Eva sou eu
orfã da ideia
saída, portas fechadas
Já não agarra, Iniji
Iniji fala com palavras
que não são as suas palavras
Djã
Djã Djã
Djã dã dã
que tornam Iniji inânime
sem regresso nos carris de Irritilili
Quantos vespões no verão da sua cabeça
Não te detenhas nele, Iniji
Se tu vais Njeu
Njá vá dá
Se tu não njá
njarrá rá vais
Reboques
que a rebocam
que ela reboca
Aonde regressar?
Foi-se o coração do quarto
Repetição sempre repetida
Oh Dormir, dormir numa ânfora
Paralisia nas águas
Paralisia nos campos
Sofre-se aqui a suprema fealdade
o ataque das agulhas voadoras
O avesso do perfume, não sabem, eles
O raio não é feito para cabeças de crianças
mas está lá
recreando-se, para ele, para nada, para criar um trovão
As montanhas de Niniji estão condenadas
Recôncavos, depressões, poços
Segundo o mundo, os males
Fechou-se a porta das viagens
no túmulo jaz Iniji
Misturados ao insalubre dos fundos
contrários caracteres ficaram nela,
o torturante do fogo junto ao monótono da água
junto ao inconsistente, ao imperceptível do ar.
E sempre
o corpo sem vida como a rotação da mó
Lá onde não existe nenhuma clareira
nascentes, oferendas
os infindáveis bordados da teia da aranha invisível
tecem árvores com os meus pensamentos
não posso fazer nada
Somente as amarguras grandes
somente a contínua continuação
As escalas devoram a melodia
debaixo do tecto, o telhado
debaixo do soalho, o leito
na estopa os sinos
Uma salamandra devorou o meu fogo...
Este coração já não se entende com os corações este coração
não reconhece ninguém na turba dos corações
Corações cheios de gritos, de ruídos,
de bandeiras
este coração não é desenvolto com estes corações
este coração esconde-se destes corações
este coração não se compraz com estes corações.
Oh cortinas, cortinas e ninguém vê Iniji
Stella, Stella constelada
já te não levantas para mim, Aurora
Tão pesados
tão pesados
tão taciturnos seus monumentos
tão impérios, tão quadriláteros
tão esmagadores bárbaros, tão vociferantes,
e nós tão nenúfar
tão espiga ao vento
tão longe do cortejo
tão mal na cerimónia
tão pouco da nossa idade e tanto a passear
tão farinha
tão peneirada
e sempre na peneira
asas de morcego
batendo sempre contra a cara
Bifurcações
e desuniu-se o uno
liames ligam lugares Lorenzo
O cisne erguido ao rés das águas não disse «minha filha»
Porque os gelos
porque a fuga dos espíritos
aconteceu
Quem agora há-de aportar à ilha?
As formas fogem em farrapos
mergulham, alongam-se, deformam-se
luas nos bordos de uma nuvem negra.
Tiram-se as luvas cheias de sangue
tira-se a camisa cheia de sangue
ah lasciate
lasciate
Silêncio
silêncio
Deixai-me nadar pelas paredes fora
Ouço murmúrios que me chamam
É ele. É o momento.
Enfim!
Espelhos recolhem-nos
Espelhos trocam-nos
a perdida deste mundo, a morte do outro mundo
Deixai-nos
Rorraá Roá Roarrá Rorrâã
Hoarre hoâã
Tornou-se depois tudo tão duro
tão detestável
velha mão nodosa
sobre um rosto de têmporas raiadas de veias
outrora
o rio de júbilo não tinha o leito ressequido
Iniji não vivia ainda atrás das portas de chumbo
Não acontecera ainda.
Vida, extremidade de um galho...
Ah o terrível, o trémulo que tão fácil dissipa o universo inteiro
Estes esgares à minha roda
sempre, sempre
que desejam eles?
Papéis sempre sempre redistribuídos
perdizes, folhas, loucas
Vapor
apenas vapor
pode acaso o vapor voltar a ser migração?
o fio passa
repassa
fio sem fim a fiar-se
casulo que me enclausura
Ah! O Juízo
sofrida sentença semelhante à síncope
vagas fustigantes
dedos aduncos
tudo são tormentos para a órfã
Iniji hóspeda efémera das covas,
pais, pinças, palavras
Eis a estrada longínqua que não vem de volta.
Dorme o seio de onde jorrou o leite.
Apagou-se o contorno... e a opala...
Ficou a sombra só o suspiro dos lábios
Vem, vem, vento de Aúrraú
tu, vem!
Henri Michaux
Herberto Helder, poemas mudados para português, in "Poesia Toda", p. 469, Assírio & Alvim, 1996
domingo, 5 de agosto de 2018
Dying is an art, like everything else. (I do it exceptionally well)
Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpoum corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo
Henri Michaux
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
Tu t'en vas sans moi, ma vie.
| El Sur, Victor Erice (1983) |
Tu t'en vas sans moi, ma vie.
Tu roules.
Et moi j'attends encore de faire un pas.
Tu portes ailleurs la bataille.
Tu me désertes ainsi.
Je ne t'ai jamais suivie.
Je ne vois pas clair dans tes offres.
Le petit peu que je veux jamais tu ne l'apportes.
A cause de ce manque, j'aspire à tant.
A tant de choses, à presque l'infini...
A cause de ce peu qui manque, que jamais tu n'apportes.
Tu roules.
Et moi j'attends encore de faire un pas.
Tu portes ailleurs la bataille.
Tu me désertes ainsi.
Je ne t'ai jamais suivie.
Je ne vois pas clair dans tes offres.
Le petit peu que je veux jamais tu ne l'apportes.
A cause de ce manque, j'aspire à tant.
A tant de choses, à presque l'infini...
A cause de ce peu qui manque, que jamais tu n'apportes.
Henri Michaux
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
City sad
The Crowd, King Vidor, 1928
"A mind of a certain size can feel only exasperation toward a city. Nothing can drive me more fully into despair. The walls first of all, and even then all the rest is only so many horrid images of selfishness, mistrust, stupidity, and narrow-mindedness. No need to memorize the Napoleonic code. Just look at a city and you have it. Each time I come back from the country, just as I am starting to congratulate myself on my calmness, there breaks out a furor, a rage... And I come upon my mark, homo sapiens, the acquisitive wolf. Cities, architectures, how I loathe you! Great surfaces of vaults, vaults cemented into the earth, vaults set out in compartments, forming vaults to eat in, vaults for sex, vaults on the watch, ready to open fire. How sad, sad..." Henri Michaux
domingo, 9 de novembro de 2008
Tratados sobre a alma.
Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e vai-se. Vai-se a nadar. (Se a vossa alma parte quando estão de pé, ou sentados, ou de joelhos, ou apoiados nos cotovelos, para cada posição corporal diferente a alma partirá com uma locomoção e uma forma diferentes, segundo concluirei mais tarde).
Fala-se muito em voar. Não é isso. Nadar é o que ela faz. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo.
Uma série de pessoas tem assim uma alma que adora nadar. Dá-se-lhes vulgarmente o nome de preguiçosos. Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.
A alma parte a nadar até ao vão das escadas, ou à rua, consoante a timidez ou a audácia do homem, porque ela conserva sempre um fio que a une a ele, e se esse fio se quebrasse (às vezes é muito fino, mas só uma força terrível o poderia romper) seria terrível para eles (para ela e para ele).
Então, quando ela está entretida a nadar ao longe, por esse simples fio que liga o homem à alma escoam-se volumes e volumes de uma espécie de matéria espiritual, como lama, como mercúrio, ou como um gás – gozo interminável.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É também por isso que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois acaso haverá coisa mais egoísta do que a preguiça?Tem fundamentos que o orgulho não tem.
Mas as pessoas irritam-se com os preguiçosos.
Quando os vêm deitados, batem-lhes, mandam-lhes água fria à cabeça, eles têm de recolher a alma imediatamente. Olham-vos então com esse olhar de ódio, bem conhecido, e que se vê sobretudo nas crianças.
HENRI MICHAUX
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