terça-feira, 4 de agosto de 2026
''Pessoas desesperadas, usadas, empurradas e descartadas por um mundo cada vez mais alucinado, onde a performance vale mais do que a política, onde o teatro e os influenciadores têm mais força do que o custo de vida e onde o ódio convence os pobres a votarem contra si próprios, desde que lhes seja permitido atingir outros pobres.''
domingo, 7 de junho de 2026
''Posso pão?''
Nos últimos anos, tem-se generalizado entre as crianças uma simplificação da linguagem, omitindo os verbos principais e deixando apenas os auxiliares (exemplo: "posso água?" em vez de "posso beber água?"). Especialistas apontam a pressa, os ecrãs e os vídeos rápidos como causas dessa "preguiça linguística''. Mas, sendo Portugal um dos países onde as crianças passam mais horas na escola face à média europeia, também pode ser sintoma do seu cansaço.
“Portugal é um dos países da União Europeia onde as crianças passam mais tempo na escola. Entre os 6 e os 11 anos, muitas passam cerca de 38 horas semanais em creches ou escolas.”
Imprensa | Pordata
sábado, 6 de junho de 2026
“Porque é que alguns britânicos não gostam de Donald Trump?”
Nate White, um escritor inglês, escreveu a seguinte resposta:
Trump lacks certain qualities which the British traditionally esteem.
For instance, he has no class, no charm, no coolness, no credibility, no compassion, no wit, no warmth, no wisdom, no subtlety, no sensitivity, no self-awareness, no humility, no honour and no grace – all qualities, funnily enough, with which his predecessor Mr. Obama was generously blessed.
So for us, the stark contrast does rather throw Trump’s limitations into embarrassingly sharp relief.
Plus, we like a laugh. And while Trump may be laughable, he has never once said anything wry, witty or even faintly amusing – not once, ever.
I don’t say that rhetorically, I mean it quite literally: not once, not ever. And that fact is particularly disturbing to the British sensibility – for us, to lack humour is almost inhuman.
But with Trump, it’s a fact. He doesn’t even seem to understand what a joke is – his idea of a joke is a crass comment, an illiterate insult, a casual act of cruelty.
Trump is a troll. And like all trolls, he is never funny and he never laughs; he only crows or jeers.
And scarily, he doesn’t just talk in crude, witless insults – he actually thinks in them. His mind is a simple bot-like algorithm of petty prejudices and knee-jerk nastiness.
There is never any under-layer of irony, complexity, nuance or depth. It’s all surface.
Some Americans might see this as refreshingly upfront.
Well, we don’t. We see it as having no inner world, no soul.
And in Britain we traditionally side with David, not Goliath. All our heroes are plucky underdogs: Robin Hood, Dick Whittington, Oliver Twist.
Trump is neither plucky, nor an underdog. He is the exact opposite of that.
He’s not even a spoiled rich-boy, or a greedy fat-cat.
He’s more a fat white slug. A Jabba the Hutt of privilege.
And worse, he is that most unforgivable of all things to the British: a bully.
That is, except when he is among bullies; then he suddenly transforms into a snivelling sidekick instead.
There are unspoken rules to this stuff – the Queensberry rules of basic decency – and he breaks them all. He punches downwards – which a gentleman should, would, could never do – and every blow he aims is below the belt. He particularly likes to kick the vulnerable or voiceless – and he kicks them when they are down.
This last point is what especially confuses and dismays British people, and many other people too; his faults seem pretty bloody hard to miss.
After all, it’s impossible to read a single tweet, or hear him speak a sentence or two, without staring deep into the abyss. He turns being artless into an art form; he is a Picasso of pettiness; a Shakespeare of shit. His faults are fractal: even his flaws have flaws, and so on ad infinitum.
God knows there have always been stupid people in the world, and plenty of nasty people too. But rarely has stupidity been so nasty, or nastiness so stupid.
He makes Nixon look trustworthy and George W look smart.
In fact, if Frankenstein decided to make a monster assembled entirely from human flaws – he would make a Trump.
And a remorseful Doctor Frankenstein would clutch out big clumpfuls of hair and scream in anguish:
‘My God… what… have… I… created?
If being a twat was a TV show, Trump would be the boxed set.”
quinta-feira, 4 de junho de 2026
A extinção da infância em curso.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
: o texto escrito por IA é claramente escrito por IA.
Na licenciatura, li Deleuze até enjoar e prometi a mim mesma que nunca mais. Agora, vomito um outro tipo de vómito, um vómito inédito e verdadeiramente mais sincero, quando leio texto claramente escrito por IA, cuja forma é detectável e milhões de vezes mais chata. E o pior é que não vem assinado pela IA, mas sim pelo impostor que escreveu as prompts, e que crê que roubar à IA faz de si autor. Mas só se engana a si próprio. Se é para imposturas, ao menos que se roubasse um textinho de melhor qualidade, não?
Pela primeira vez na História, é mais rápido escrever do que ler. E a suprema falta de respeito pelo tempo de quem lê é não tirar sequer o tempo para escrever.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
As consequências devastadoras das alterações climáticas estão à vista.
''PROIBIDO POR INCONVENIENTE'' ou, a miragem salazarenta do Candidato Ventura
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
''o treino para a indiferença (...) já começou há muito''
''Estes imigrantes são fantasmas que nos visitam a partir do futuro, trazem-nos as novas dessa humanidade trucidada que seremos, uma humanidade aceitante, devastada, que tem aquele olhar perdido de quem não deixa de reconhecer a iminência do pior, desse elemento de capricho numa crueldade que, caso se fixe em nós, exercerá essa atenção que encontra sempre um novo ponto de pressão, inventando outro ângulo para a sua extorsão, para nos infligir alguma outra violência, e, assim, nos tornamos cada vez mais esses seres apagados, de um sangue tão frio quanto possível, de modo a sobrevivermos mais um dia, tenebrosamente vergados, sendo o medo toda a extensão da nossa consciência. Eles visitam-nos do futuro, incapazes de se misturarem, por não terem lembrança de alguma vez não ter sido tão difícil, e repugna-nos neles essa sensação de vertigem, como se estivéssemos a resvalar, a cair para a pele deles, como se intimamente suspeitássemos que é uma questão de tempo, e que a única diferença será as lembranças que irão pesar em nós, e que, do outro lado, serão uma fraqueza fácil de ser aproveitada pela crueldade. Tudo aquilo que acreditávamos que nos mantinha fixos, a nossa decência, educação, valores, revela-se então como um sistema de amarras mal ajustadas, cordas que julgávamos sólidas e que afinal apodrecem silenciosamente com a humidade do tempo, até ao momento em que, sob uma pressão mínima, cedem todas ao mesmo tempo. E é nesse instante, quase imperceptível, que começamos a compreender que aquilo a que chamávamos estabilidade não passava de um acordo provisório com as circunstâncias, um pacto tácito com a boa fortuna, sempre pronta a retirar-se sem aviso. Os imigrantes, ao caminharem entre nós com essa gravidade de quem traz consigo um inventário de perdas impossível de expor, tornam visível a falência desse pacto. Não pedem nada, e é isso que mais nos inquieta, porque a sua presença funciona como uma prova silenciosa de que há estados de vida para os quais não existe reparação, apenas continuação. Neles, o tempo não cura; acumula-se, deposita sedimentos, como poeira fina sobre móveis abandonados, e cada gesto quotidiano, o modo como seguram um saco, como esperam numa paragem, como evitam o olhar directo, parece conter uma história inteira que foi comprimida até ao ponto da quase ilegibilidade. Observando-os, sentimos uma estranha inversão da ordem temporal: somos nós que ficamos para trás, presos a um passado que ainda insiste em apresentar-se como normalidade, enquanto eles avançam, já adaptados àquilo que apenas começamos a pressentir. E talvez seja por isso que a sua imagem nos causa esse mal-estar profundo, essa sensação de que a linha que separa o espectador do observado é mais fina do que gostaríamos de admitir. Pois reconhecemos, apesar de todos os nossos esforços em negar, que o treino para a indiferença, para a redução progressiva da empatia, já começou há muito, disfarçado de prudência, de realismo, de cansaço moral. Assim, pouco a pouco, vamos aprendendo a habitar um mundo mais estreito, no qual a memória se torna um risco e a sensibilidade um luxo perigoso. E quando finalmente nos apercebemos de que também nós falamos com frases mais curtas, com menos inflexões, com esse tom neutro que evita atrair atenção, já estamos demasiado envolvidos no mecanismo para dele sair. Os fantasmas do futuro deixam então de nos visitar, porque já não é necessário: tornámo-nos, sem alarde, parte da mesma paisagem de sombras em deslocação contínua.'' Diogo Vaz Pinto
domingo, 25 de janeiro de 2026
Presidenciais 2026: Votar pela democracia e contra o fascismo.
Em conversa ocasional, um familiar meu citava André Ventura (numa das suas frases mais grunhas), e então perguntei-lhe directamente:
sábado, 13 de dezembro de 2025
[Ir ao cinema, na caverna escura,]
Ir ao cinema, na caverna escura,
sentar-me na poltrona do teu ombro
numa t-shirt antiga de bom pêlo,
é o prazer mais certo que me resta.
Que bom deixar-me estar na oscilação discreta
que nasce do teu corpo e me transporta
a essa embriaguez chamada rima;
sentir o cheiro limpo do cabelo,
adivinhar-te o gosto da saliva.
Pois, embora eu veja a multidão compacta
(que a imagem tornou inofensiva)
estremecer e rir e comover-se
à imprecisa luz da narrativa,
eu sei que é tudo só um mero acto
de magia vulgar vinda do tecto
onde o olhar obsceno do arquitecto
ao longo da sessão vigia e julga;
e mesmo a clara forma da paisagem
é tosco véu de uma ilusão sensível,
metáfora ou reflexo de outro mundo
perfeito e puro, onde não entra gente
(mas entra, vê tu bem, a miserável pulga).
Tu porém és real, sentes lá dentro
um coração pulsar, e até parece
que tens em ti a inclinação secreta
a seres dono de ti, e partilhar
a vida verdadeira de um insecto.
Assim eu sonho e penso, já suspenso
por fino fio, à altura do teu peito;
mas já, impaciente, tu murmuras
que perdes o teu tempo em desgraçada fita;
melhor seria, em quente discoteca,
toda a noite dançar (uma invenção maldita,
alheia à condição de quem medita),
ou regressar a casa, onde de graça
te aguarda mais concreta companhia.
Ficar por aqui só, sem o mistério
da tua carne branca bem cheirosa,
é uma perspectiva que me assusta;
como dizer-te que também eu quero
afinal conhecer o nó do enredo?
De poucas horas feita a longa vida,
são estas as melhores e as mais justas;
está o filme a acabar, fica comigo até ao fim;
não sabes que te perdes, quando te perdes de mim?
António Franco Alexandre
in Aracne




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