Contra quaisquer moralismos, Kiss Me, Stupid (Billy Wilder, 1964) é uma anti-parábola, sob todos os pontos de vista. Ninguém é totalmente bom ou totalmente mau: aqui, todos são ridículos, aqui todos têm medida humana e ninguém acaba curado de si. Apesar da narrativa funcional em 3 actos, distribuída entre vinhetas, este filme planta a mais delirante, radical e descontrutora semente de anarquia. O humor começa por colocar as grandes stars em fundo inesperado: o grande ''DINO'' Martin é um sexómano; a gloriosa Kim ''POLLY a Pistoleira'' Novak, é uma prostituta platinada que por ali anda, descalça e de gatas, à procura do seu piercing do umbigo. Duro e real, este filme fala sobre adequação da justiça à escala das necessidades e aspirações individuais, num mundo em que rigorosamente todos - para lá da ocupação ou da classe - são inadaptados. What makes it is the irregularity. Entre paredes, desenha-se o princípio da resolução pacífica, numa espécie de ode (em fundo cómico) à lei do homem, ao nivelamento social, à negociação directa entre pessoas tão carregadinhas de qualidades como de defeitos, existindo como quem quer existir. Um filme a ver mais e melhor.
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
sábado, 1 de agosto de 2009
Jim Morrisson e a história do filme noir
Hello, I love you, won't you tell me your name?
É uma questão de luz e de proximidade: aconteceu mal caiu o plano sobre a esfíngica face da mulher que entra de rumo certo e de queixo altivo, da mulher que fuma com segredos nos olhos, da mulher que bebe de perna traçada no bar, da mulher de passo incerto que, pela primeira vez, chega com malas e desejos à perdição dos trópicos. Bastou esse plano para, num vislumbre, já a amarmos todos. O seu nome, a sua graça, é o que ansiamos por desvelar todos na pele de heróis ansiosos, in the mood for love.
Esta é a história de como as estrelas nascem. Do amor à primeira vista nasceu o star-system.
Esta é a história de como as estrelas nascem. Do amor à primeira vista nasceu o star-system.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
The Lubitsch Touch.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Paper Press.
Ace in the hole, Billy Wilder, 1951
Tenho as mais profundas saudades do jornal impresso de cada vez que me deparo com as caixas de comentários dos jornais online, onde grassa o mais baixo do mais baixo. Se, em dose pontual, a estupidez pode ter piada, quando é a mais é do mais deprimente que existe.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2006
Sobre as variações da mesma tarde de domingo :
Grand Hotel
EDMUND GOULDING (1932)

De 1932, um prenúncio da instabilidade alemã na altura, em plena República de Weimar.
O Apartamento
BILLY WILDER (1960)
Who doesn't want to fall in love?Sicília
STRAUB- HUILLET (1999)

Sicília. A vida é bela porque simples, a vida é bela porque bruta.
quinta-feira, 2 de junho de 2005
Double Indemnity (Billy Wilder, 1944)
Billy Wilder
Double
Indemnity implica três leituras. É o nome da encruzilhada em que o corpo do
marido de Barbara Stanwyck foi encontrado; é a referência ao prémio do seguro
que caberá a Phyllis por tal acidente; é ainda a inscrição da relação
condenada em que os dois cúmplices se envolvem.
Esta tripla leitura não está na
novela de James Cain, que serviu de base a este filme. Provém dos adaptadores
da novela: o grande romancista Raymond Chandler que, nesta obra, teve a sua
mais importante contribuição para a história do cinema e o ex-argumentista de
Lubitsch, Billy Wilder, que com este filme realizou, após The Major and the Minor e Five
Graves to Cairo, a obra que plenamente o consagrou.
Double
Indemnity é no seu registo “negro”, muito diverso das obras citadas.
Explicitamente é a primeira das cáusticas e cruéis visões de Wilder da
sociedade americana, para não dizer da humanidade em geral. Esta “tragédia
americana” não introduz um universo de “paixão e morte”, nem sequer um mundo de
violência erótica (embora o erotismo tenha lugar importante no filme) mas a dissecação
de uma galeria humana particularmente sórdida em que nenhum dos personagens,
desde o trio de protagonistas aos secundários (o marido de Phyllis, a enteada,
o noivo desta, Nino Zachette, etc.) tem qualquer móbil elevado ou ultrapassa
uma baixeza que os acompanha desde o primeiro plano. Todos se movem num mundo
do “seguro” e das indemnizações duplas ou não. Todos correm apenas os riscos
inerentes a elas e o medo, quando esse risco é ultrapassado, é o único
sentimento que determina as sucessivas traições e crimes.
Walter, o homem sem sinais
particulares (no visible scars) começa
a perder o seu flácido domínio quando suspeita que o seu papel pode não ser o
de destinatário do desejo e do dinheiro de Phyllis, mas o de próxima vítima
desta. Então o medo apodera-se dele, nas trocas de mulheres (plano igual de
Stanwyck e da enteada, quando esta é vista de costas, no encontro na colina) de
móbeis (salvar-se ou matar Phyllis) e na troca da full confession pela máxima mentira. O seu último confronto com a
amante é apenas o confronto de dois medos enormes, cada um deles sabendo bem o
que o cúmplice é capaz de fazer. Por isso, os tiros finais são tiros que
parecem “disparados por outrem” sem jamais se saber (devido a uma portentosa
movimentação da câmara) qual dos dois foi àquela casa com a intenção de matar:
se os dois a tinham ou se nenhum a tinha. Já não há verdade possível para
eles, mas também já não há mentira ou jogo que os possa salvar. E se,
neste filme, alguém se humaniza é, apesar de tudo, Phyllis, quando começa a
surgir de óculos escuros, ocultando o baço olhar com que até aí a víramos. Mas
- Wilder é implacável - nem essa humanização é segura, pois que, coincidindo
com esse momento do filme, a banda sonora começa a substituir a espantosa
partitura de Rozsa pela retórica duma música sentimental, insinuando um último
artifício de Stanwyck.
Para que nenhuma dúvida reste, é também
nessa altura da confissão que um personagem tão repugnante como o casal - o
detective Barton Keyes - começa a ouvir o que considera “enough” e intervém
para se apoderar da sua vítima, provando a eficiência do sistema sobre a das
infracções a ele: do mesmo passo, vinga-se do homem apenas “mais alto”
acendendo-lhe o último cigarro e trocando o estatuto social que sempre fizera Walter
riscar fósforos para ele (já antes, na última cena com Phyllis, o
protagonista perdera esse sinal de segurança, perdendo a caixa de fósforos que
sempre mecanicamente funcionara quer para o seu superior hierárquico, Barton,
quer para o seu superior sexual,Phyllis).
Para filmar este mundo por demais
repugnante em que a imagem do desejo (Stanwyck) é emoldurada no mais repelente
dos décors, na mais repelente das famílias
e nos artifícios mais ordinários da imitação do erotismo (os sapatos, o roupão,
os grandes planos das pernas) em que os encontros clandestinos se passam nos
supermercados, entre latas, compras e vendas, em que a suprema palavra do amor
(“baby”) é rebaixada ao nível dessas mesmas latas e da comida para bébés assim
servida, em que as declarações de amor (“I love you” - “I love you too”) só
preparam (entre MacMurray e Stanwyck, como entre MacMurray e Robinson) o próximo
golpe e nem sequer o próximo ódio, para filmar este mundo - dizia - Wilder
recorreu à distância duma câmara que se detém sobretudo nas marcas desse vazio
(o escritório deserto, os apartamentos, os supermercados, os automóveis, as
sombras, a confusão de silhuetas) e nos rostos de personagens só habitados por
esse mesmo vazio. Quando Walter conta a sua noite na família de Phyllis fala do
“mesmo olhar” que todos teriam. Na sequência seguinte, a câmara detém-se implacável
sobre ele, para nos mostrar que esse mesmo olhar era também o dele. Olhar que
nem nos momentos supremos - o do desejo ou da morte - se ilumina ou abre, antes
se cerrando numa opacidade total.
Filmando esta história em que o
dinheiro, como em todos os filmes de Wilder, é o único motor, o realizador soube
contudo que o único tom apropriado a ela era o da tragédia, pois que da tragédia
americana se trata, ou melhor da tragédia da sociedade que os Estados Unidos
paradigmaticamente ilustram. Donde, que desde o primeiro movimento, o tom
seja o duma imparável fatalidade, tão insustentável como os acordes da genial
partitura de Rozsa. Antes que Walter dissesse que a “máquina tinha começado a
girar e nada a podia deter” já o sabíamos, pelo modo como a câmara gira da “noite
branca” do genérico até à silhueta do homem apoiado em muletas (“os passos dum
morto” - como MacMurray dirá no fim), desde os encadeados iniciais até ao
travelling que, dentro dum carro nos
atira para Los Angeles e para o décor
vazio da companhia de seguros. Se a música de Rozsa ‚ um dos contrapontos dessa
inexorabilidade, o outro vem da voz de MacMurray e do ruído do magnetofone,
registando o que não é uma confissão (a quem se dirige ela?) mas um comentário
cumprindo a função de coro e arrastando-nos para uma das mais surpreendentes
descidas aos abismos da miséria humana que Hollywood nos forties nos deu.
Miséria dos personagens, dos duplos
seguros, da morte como moeda de troca e da permanente penumbra que, através das
omnipresentes sombras dos estores, nos dá um mundo listrado, sem saídas nem tom
definido, onde, como Walter diz a propósito de Phyllis, depois do assassinato
do marido, não há lugar para nervos nem para lágrimas. Apenas para o ritmo
martelado duma música e duma voz, apenas para uma crispação, apenas para o
lugar onde corpos se abatem, abatidos pelo peso da engrenagem de que são peças.
JOÃO BÉNARD DA COSTA
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