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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

já não me lembro / se vi primeiro as estrelas


 Trouble in Paradise, Lubitsch, 1932


A propósito de estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes
Quem Quer Casar Com a Poetisa?
Quasi Edições, 2001

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

''A ideia nasce / mas a ideia já nada-morta.''

Design for Living, Ernst Lubitsch , 1933

START UP Rita Natálio
Ontem estava eu no meio de um vendaval de cuecas sujas
quando proclamei: os meus objectivos
são tão claros como a minha falta de objectivos
nivelo-me pelo meio
como qualquer cidadã de metro e meio da Régua.
Sou alpinista de montes e serras de palha
troco arroz por palha
escrevo palha sobre todo o pilim do mundo
pedra sobre pedra, pedra papel tesoura
admito sem pudor e perante todos que não sei
nem quero domar o perlimpimpim do mundo.
Empalhada, empapada, empalada na conversa do psicanalista
começo a ter dificuldades no controlo de psicoventos
ai, a antevisão de todas as ideias é para mim uma câmara ardente
ai, os meus olhos de televisão vidente
vêem passar as carpideiras do real
e com elas limitam-se a carpir
com todo o já-sabido-sentido-lambido
com todo o estertor de um mundo quase vencido.
Conheço e mato,
reconheço e morro.
Reconheço e remato,
reconheço e remôo.
A ideia nasce
mas a ideia já nada-morta.
A ideia nasce
mas todo o século vinte e um
é um post-mortem e um.
Todo o século vinte e um
é um post-hit e um.
Todo o século vinte e um
é um trinta e um.

Por sorte, ainda me resta uma costela de feitante:
vendo esta ideia por dois euros no minipreço
para comprar um euromilhões
e penso na multiplicação do pão
do meu imaginário vão (de escada)
e com sorte, ainda chego a artista doutorada em vazio
e se me perguntarem porquê
responderei: porque preciso de dinheiro para comprar cuecas.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

STEREODOX: I'm in the middle of your picture

terça-feira, 12 de junho de 2018

''Passámos a falar de amor.''



Shop Around the Corner, Lubitsch, 1940

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Ri-se dos passos que deixou / por tropeçar.

Cluny Brown, Lubitsch, 1947

Quem não arrisca não erra, não se expõe
a que o vento lhe desmanche o penteado,
a cosmética das máximas mais firmes.
Este jovem, por exemplo, não arrisca,
veste de luto por si mesmo, num ensaio
de extinção. Ri-se dos passos que deixou
por tropeçar. Cada minuto em silêncio,
pensa ele, vale pelo menos seis dobrões
de serenidade. Sepultado até aos ossos
em palavras aprendidas, faz o encómio
da vida retirada, dos dentes de leite.
Escolheu o partido da solidão porque
a vida o assusta. Assusta-o a turbulência
do mal, a guinada sanguinária em que se
jogam os sucessos, os triunfos - a vida,
julga ele, é refractária à piedade. Fala-se,
na vida, muito alto, cometem-se rasteiras
e negaças por vontade. É de fugir
ou devorar, comenta ele aos seus botões.
E nada disso o apaixona. Não foi feito
para guerras nem angústias, desconfia
do amor e da fraqueza que nos une
como eles de corrente ameaçada.
Antes quer a sepultura dos libertos,
declarar-se à fantasia dos caídos
sem combate. E de tanto recuar,
não parece outro o seu destino.

José Miguel Silva, Erros Individuais, Relógio D'Água

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

{Senhor, está na hora.}

Heaven Can Wait, Lubitsch,  1943

Senhor, está na hora. Foi imenso o Verão. 
Pousa a tua sombra sobre os relógios de sol 
e solta os ventos pelos prados

Ordena que engordem os últimos frutos; 
concede-lhes mais dois dias meridionais, 
impele-os para a conclusão, e busca 
a derradeira doçura no vinho pesado. 

Quem não tiver agora casa, já não a construirá.
 Quem estiver agora sozinho, assim permanecerá por muito tempo, 
vigiando, lendo, escrevendo longas cartas
 e deambulando pelas alamedas, para cá e para lá, 
desassossegado, enquanto as folhas se deixam levar. 




 Rainer Maria Rilke
 (tradução de Vasco Gato) 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Cat Person / conto de Kristen Roupenian

''...like the kind of girl who thought she was going to get murdered every time she went on a date.'' Kristen Roupenian

Cluny Brown, Lubitsch, 1946

quinta-feira, 2 de abril de 2009

The Lubitsch Touch.





NINOTCHKA. : LUBITSCH (1939)

"What would Lubistch do?" era a inscrição no poster que se elevava da secretária de Billy Wilder. O realizador conhecia o toque mágico de Lubitsch essa narrativa de cronómetro perfeito, esse je ne sais quoi que só podia ser génio puro.