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sexta-feira, 26 de abril de 2024

o pó e o amor / como o poema / são feitos / no dia a dia

 




Louvor do lixo

 

para a Amra Alirejsovic
(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

 

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão

 

[A mulher-a-dias, Lisboa: & etc, 2002]

 

terça-feira, 2 de junho de 2020

O poema / sai barato / já não se escreve / com pena de pato

Dmitriy Krestniy

Um poema de Adília Lopes


O poema
sai barato
já não se escreve
com pena de pato

Um poema
é um poema
é um poema

Uma rosa
não é uma rosa
não é uma rosa

O rabo
é abstracto?
o poema
sobre o poema
(este poema)
engonha
mas não envergonha

em Caras Baratas - Antologia, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 180.

sábado, 31 de agosto de 2019

''Ninguém me diga que as coisas são simples''


sábado, 3 de agosto de 2019

mas para mim é um drôle de chemin



Para um Vil Criminoso

Fizeste-me mil maldades
e uma maldade muito grande
que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa
a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém
uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por me teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe

Adília Lopes, in 'Um Jogo Bastante Perigoso'

sábado, 27 de outubro de 2018

Praça do Chile.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

já não me lembro / se vi primeiro as estrelas


 Trouble in Paradise, Lubitsch, 1932


A propósito de estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes
Quem Quer Casar Com a Poetisa?
Quasi Edições, 2001

domingo, 10 de junho de 2018

voilá.

Miyako Ishiuchi

"Só gosto das pessoas boas 
quero lá saber que sejam 
inteligentes artistas sexy sei lá o quê 
se não são boas pessoas 
não prestam" 
Adília Lopes

domingo, 22 de abril de 2018

Promenade @ Lisbon [1668-2018]

via Livraria Trindade

Lisboa

Cidade branca 
semeada 
de pedras 

Cidade azul 
semeada 
de céu 

Cidade negra 
como um beco 

Cidade desabitada 
como um armazém 

Cidade lilás 
semeada 
de jacarandás 
Cidade dourada 

semeada 
de igrejas 

Cidade prateada 
semeada 
de Tejo 

Cidade que se degrada 
cidade que acaba 

Adília Lopes, in 'Poemas Novos' 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ON-OFF

Mesmo que pudesse
dizer tudo
não podia dizer tudo
e é bom assim.

Adília Lopes

Parallel I, Harun Farocki, 2012

domingo, 28 de setembro de 2008

cantar custa uma língua

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou cortar-te a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra


ADÍLIA LOPES

Olympia Teil 1 - Fest der Völker, Leni Riefenstahl, 1938