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sábado, 1 de fevereiro de 2020

não é ainda poeta o bastante para conseguir


"Se o seu dia-a-dia lhe parecer pobre, não o acuse de pobreza; acuse-se a si próprio, reconheça que não é ainda poeta o bastante para conseguir invocar as suas riquezas; pois para um criador não há pobreza e nenhum lugar é indiferente e pobre."
Rainer Maria Rilke, Cartas a Um Jovem Poeta

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Os triunfos já não o tentam.


O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol, / e solta ventos sobre os campos lavrados.



''Liberté et patrie'', JLG + Anne Marie Mieville, 2002



Dia de Outono


Senhor: é tempo. O Verão foi muito demorado.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol,
e solta ventos sobre os campos lavrados.

Faz arredondar os frutos temporãos;
dá-lhes inda um par de dias meridionais,
leva-os à sua perfeição e espreme
o final doce e negro do vinho da estação.

Quem agora não tem casa, já nenhuma construirá.
Quem agora está só, vai continuar carente,
vai velar, ler, escrever cartas extensas
e vai cirandar aqui, ali, nas alamedas
sem pouso, entre trémulas folhas densas.


Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

{Senhor, está na hora.}

Heaven Can Wait, Lubitsch,  1943

Senhor, está na hora. Foi imenso o Verão. 
Pousa a tua sombra sobre os relógios de sol 
e solta os ventos pelos prados

Ordena que engordem os últimos frutos; 
concede-lhes mais dois dias meridionais, 
impele-os para a conclusão, e busca 
a derradeira doçura no vinho pesado. 

Quem não tiver agora casa, já não a construirá.
 Quem estiver agora sozinho, assim permanecerá por muito tempo, 
vigiando, lendo, escrevendo longas cartas
 e deambulando pelas alamedas, para cá e para lá, 
desassossegado, enquanto as folhas se deixam levar. 




 Rainer Maria Rilke
 (tradução de Vasco Gato) 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Call me by your name (ERA A MORTE A RIR)

VERDES ANOS
Era o amor
Que chegava e partia
Estarmos os dois
Era um calor, que arrefecia
Sem antes nem depois
Era um segredo
Sem ninguém para ouvir
Eram enganos e era um medo
A morte a rir
Dos nossos verdes anos
Foi o tempo que secou
A flor que ainda não era
Como o outono chegou
No lugar da primavera
No nosso sangue corria
Um vento de sermos sós
Nascia a noite e era dia
E o dia acabava em nós



Call Me By Your Name, Luca Guadagnino, 2017

Em nada concordo com a leitura amarga de Richard Brody. Referencial mas a rebentar de Rohmer, CALL ME BY YOUR NAME revela, com a deliciosa precisão da literatura, como a raiz do romance é verbal. Com a cabeça a destilar essências dos clássicos e o corpo a pulsar de jovem no agora, tudo se passa, como Elvis tão bem lembrou, now or never.

«Inquietos, ansiamos por um amparo,
nós jovens demais por vezes para o antigo
e demasiado velhos para o que nunca foi.» 

(Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu)


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Da Natureza, da Arte ou da Vida.



"Para um criador, uma teoria não é nada, não serve senão para as pessoas já mortas."
FRITZ LANG
entrevista a Jean Demarchi e Jacques Rivette
Cahiers nº99, Set. 1959



"A obra de arte é de uma solidão sem fim, e nada está mais longe de tocá-la do que a crítica."
RAINER MARIA RILKE
Cartas A Um Jovem Poeta


"...E é isto, meu caro! É isto que nos torna pobres no meio das riquezas: por não podermos estar sós, por o amor não morrer em nós enquanto vivermos. Dá-me de novo o meu Ádamas e vem com todos os que me pertencem, para que o antigo mundo belo entre nós se renove, para que nos reunamos e unamos nos braços da nossa divindade, da Natureza...."
FRIEDRICH HOLDERLIN
in Hipérion ou O Eremita Da Grécia











"Caça ao Coelho com Pau", Pedro Costa, 2007


Tarrafal, Pedro Costa, 2007


quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Memórias, II.

Recordo ainda nitidamente uma ocasião, outrora, em minha casa, quando encontrei um estojo de jóias; tinha dois palmos de tamanho, era em forma de leque, com um rebordo de flores decalcadas sobre o marroquim verde-escuro. Abri-o: estava vazio. Posso dizê-lo agora, passado tanto tempo. Mas, na altura em que o abri, vi apenas em que consistia esse vazio: em veludo, numa pequena elevação de veludo claro, já gasto; no encaixe da jóia que nele se perdia, vazio, num pequeno rasto de melancolia mais claro. Por um instante era possível suportá-lo. Mas talvez seja sempre assim para aqueles que foram amados e ficaram para trás.
Rainer Maria Rilke, "As Anotações de Malte Laurids Brigge"

olha todos os defuntos das molduras nos destroços da casa, o meu avô com a caçadeira que o meu pai recusara a encaixar um cartucho e a arrepender-se do cartucho
- Não são assuntos meus
enquanto as mimosas se alargavam no campo do tamanho da noite, a presença da lagoa assustava-o não pelas rãs ou os tucanos, pela água invisível para cá e para lá no silêncio parecida com o sangue que nos anda no corpo....
António Lobo Antunes, "O Arquipélago da Insónia"



Tom Waits por Anton Corbijn

A minha memória não é uma fonte de sofrimento. Certas partes são como uma loja de penhores, outras como um aquário, outras como uma despensa. Julgo que há um sítio onde a memória se distorce como as imagens nos espelhos de feira e é essa área que mais me interessa.
Tom Waits, outubro 1983

terça-feira, 26 de julho de 2005

''E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança''


Posle Smerti ( After Death ), Yevgeni Bauer,  1915