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sexta-feira, 15 de março de 2013
sábado, 1 de dezembro de 2012
quinta-feira, 3 de maio de 2012
... A entrada numa nova era, seja ela qual for.
" (...) Se um filha da puta de um tiro aniquila irremediavelmente o triste ser de corpo e alma que é o polícia de Electra – mas, permitam-me a divagação, um daqueles filhas da puta de tiros pré-digitais, sem as merdas de maquiagem que agora tudo facilita e enfraquece, sim um estouro que chega ao sangue e aos ossos do lado de cá da tela e nos fode de alguma maneira - no filme em que agora me vou deter, um filme de terror extensível a qualquer um que por aí ande, alma penada ou não – a pelicula arde, e como sabemos, quando tal acontece, é o fim de um mundo, qualquer coisa que se parece com aquele término que se deu antes dos homens aparecerem neste canto do universo, essa suprema explosão, ou muito simplesmente, algo irrecuperável e a entrada numa nova era, seja ela qual for. "
(...)
Two – Lane tem o seu corpo embebido pela medonha consciência de que alguém fodeu tudo, um basto alguém, que tais alicerces mentirosos de uma sociedade apenas aniquilaram o que valia a pena, que o que foi certo tempo jamais voltará a ser, que a tristeza não terá fim. Por isso Paul Vecchicali, num texto sobre o filme publicado à época, tem toda a razão ao falar de um filme inteiramente político, francamente político, lancinantemente político. Política nunca por palavreado das personagens ou por figurações mais ou menos literais ou subversivas, sim política da forma, da pura e violenta forma que vinga, política pelos meios eminentemente cinematográficos, politica pela consciência que se nos instala, e mesmo por um envolvimento a que ninguém escapa, de que cada plano está carregado, sem sabermos porquê e inexoravelmente porque a câmara escancara, com algo do que Jean – Marie Straub uma vez disse que todos os verdadeiros trabalhos deveriam ter, ou seja: “cada filme que se faz, cada obra de arte que se faz, deve ter sempre uma coisa presente, é que hoje em dia já não se pode tomar banho num rio “. A grande farsa que quem quer pressente a planar da superfície para a infinitude do campo… "
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
ANTESTREIAS x 3
Cinemateca Portuguesa
DIA 17 DE FEVEREIRO
sexta-feira
21.30
As produtoras
farrapo, filmes da puta e zero em dinheiro
têm o prazer de convidar para a ante-estreia de
sem abrigo
pena perdida
debate da loucura e do amor
> localização: http://www.cinemateca.pt/OutrasPaginas/Contactos/Sede.aspx
> ás 19.30 para quem tiver fome e sede, no terraço da cinemateca
trailers disponiveis
http://vimeo.com/35138582
http://vimeo.com/30145660
terça-feira, 21 de junho de 2011
Que Cinemateca?
Le Salaire du Zappeur
montagem de José Oliveira, Mário Fernandes e Marta Ramos.
"Cinemateca de Babel ou cinemateca de Alexandria? Cinemateca necessária ou cinemateca das necessidades? Cinemateca do povo ou cinemateca das embaixadas? Cinemateca dos vândalos ou cinemateca da carteira da tia? Cinemateca "front line" ou cinemateca "online"? Cinemateca do liceu ou cinemateca do museu?"
via blog Raging B
sexta-feira, 18 de março de 2011
A Juventude Marcha. V
Vladimir e Rosa, Grupo Dziga Vertov, 1971
DE ESPERANÇA PREGADA AO QUE FAZ FALTA.
0.
PIM! PAM! PUM!
E OS VENTOS DE ORPHEU CHEGARAM AO FUTURO (E QUE AVANÇO?)
1.
2.
E OS VENTOS DE ORPHEU CHEGARAM AO FUTURO (E QUE AVANÇO?)
...
Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
...
1916. MANIFESTO ANTI-DANTAS. ALMADA NEGREIROS.
1.
Os sete pecados capitais da crítica
Carlos Natálio, in blog Ordet, 11.3.2011
1-Ignorância completa da História do Cinema;
2-Ignorância da técnica cinematográfica;
3-Ausência total de imaginação;
4-Preferência pelo cinema francês, pelo facto dos críticos conhecerem pessoalmente os realizadores;
5-Tom insolente ou professoral;
6-Julgar os filmes segunda as «intenções» do realizador;
7-Idade excessiva dos críticos, «cujos cérebros deram o melhor de si em 1925».
2-Ignorância da técnica cinematográfica;
3-Ausência total de imaginação;
4-Preferência pelo cinema francês, pelo facto dos críticos conhecerem pessoalmente os realizadores;
5-Tom insolente ou professoral;
6-Julgar os filmes segunda as «intenções» do realizador;
7-Idade excessiva dos críticos, «cujos cérebros deram o melhor de si em 1925».
François Truffaut, 1955
2.
Caça ao prémio 2011José Oliveira, in blog Raging Bull, 23.3.2011
- devem fazer-se filmes para viver, não para ir aos festivais...
- devem fazer-se filmes contra esses bandos dos mesmos, boas familias das palmadinhas das costas que a cada ano preenchem os lugares cimeiros dos icas e dos festivais e se congratulam entre eles...
- devem fazer filmes contra os festivais, contra esse antro de corrupção bafienta, contra o espectáculo do ego....
- a vida é do caralho, cinema...
- fazer filmes contra o dinheiro, contra as produtoras, contra os produtores, contra o vedetismo, contra a hipocrisia, contra o estado e contra o ica...
- viver e filmar, a mesma coisa...
- devem fazer-se filmes para amar o que pode ser o mesmo que para destruir...não para comprar casas, fatos de luxo, carros...
- devem fazer-se contra a melhor fotografia ou o grande prémio...
- jamais negócio...
- jamais punhetagem...
- jamais reconheçimento...
- devem fazer-se filmes contra os festivais indies da moda e contra os alternativos que nada mais são do que cordeirinhos, as tais "marias vão com as outras", rebeldes de trazer por causa e de fina veste, burgueses que sonham ser polémicos ou poetas comem no restaurante último grito... gente mais dentro do sistema que o próprio sistema, falsos de merda que se defendem com ataques facéis contra ministras e contra o cinema do dinheiro mas não percebem que são tão falsos como eles...
- fazer filmes contra os "especialistas"...
- os tais que papagueiam Straub e editam Bruno de Almeida...midas filmes dizem eles.
- cinema faz-se de graça, sem um único tostão...coisa de solitários coisa de irmãos...tudo ou nada...
- devem fazer-se filmes contra os cabrões que desprezaram e se riram do filme amador (que tudo amava) de um puto que quase deu a vida para filmar a conversa da avó em plano fixo...contra os mesmos cabrões que se babaram com a tipa nua filmada em travelling do último génio antigo assistente de realização...lançamento do ano...investimento infalivél atalanta...
- o puto que sozinho fez a imagem, os enquadramentos, montou, captou o som...e que nem deu nome a isto porque tinha apreendido era com o Eustache com o Garrel ou o Ford na escuridão da cinemateca...e que não sabe o que são correcções de cor...filtros...directores de fotografia...
3.
FUKUSHIMA ESPERA-VOS.
José Rodrigues, in blog Juventude Marcha, 18.3.2011
Quando acabei de ver pela enésima vez o primeiro Rambo disse cá pra mim baixinho e num som de merda: puta que pariu que esta merda é mesmo um grande filme ao nível dum Peckinpah caralho. A foda é que os restantes são piores que o esterco que o cão do vizinho deixa no quintal todos os dias. A mesma merda pró Rocky e prós restantes. Estes cabrões de Hollywood que gostam de assassinar os filmes com as sequelas e sequelas das sequelas e o diabo a quatro deviam ser todos irradiados da puta da face da terra, puta que os pariu embrulhá-los todos juntar lá os políticos de Portugal e o Vasconcelos e mandar tudo prá central de Fukushima.
4.
QUEREMOS CINEMA SEM ACORDO ORTOGRÁFICO!*
* LONGE DOS POLIMENTOS DO POLITICAMENTE CORRECTO.
Queremos cinema português! Queremos o Mozos em DVD, queremos ver-lhe os filmes todos! Queremos cinema estrangeiro! Queremos ver do bom e do melhor! Queremos ver os filmes a retratar a alma, o cinema saído do corpo! Queremos os recantos das ruas, os relatos esquecidos! Queremos o anonimato das vozes imperativas, a vida das respirações sôfregas! Queremos os cigarros excessivos, os tiques viciados, os espasmos destravados! Queremos as mãos que tremem e os nervosos miudinhos dos vinte e poucos anos de experiência calejada! Queremos a sobrevivência dos sentimentos por filmar, queremos o delírio da fome bruta de cinema! Queremos o sofrimento vivo e as batalhas reais! Queremos a loucura da paixão e a demência do amor! Queremos heróis de sangue e documentos de fúria! Queremos educação! Queremos civilização! Queremos respeito pela arte, pela cultura, pelo ensino e pela aprendizagem! Queremos desrespeito pela arte, pela cultura pelo ensino e pela aprendizagem! Queremos que não se acuse o artista porque não dá lucro! Queremos distância dos conservadores e dos conservatórios! Chega de lixo! Basta! Chega do esgotamento pela velocidade! Chega das sobreposições do vácuo através da imagem! Chega da cópia sucessiva despida de sinceridade e de estímulo! Chega de A.P.V.s e de Breyners e desses etcs! Chega da crítica desresponsabilizada! Chega da tirania americana! Chega do entupimento de treta pelas séries, 13x5 / episódios x seasons! Chega de um país que engana onde devia formar! Chega de estupidezes de riso fácil para alhear a cachaça do automatismo diário! Chega das produções milionárias do artifício! Chega de máscara e de maquilhagem e de pornografia! Chega das elites do cinema e do cinema para as elites! Chega de publicidade no cinema! Chega de publicidade por cinema! Chega de Belas e Paparazzos em estreia na RTP quando há tão melhor para mostrar! Chega de novelas e de tele-filmes! Chega do embrutecimento dos espíritos! Que se cumpra o progresso! Que se avance a mudança! QUEREMOS QUE OS FILMES QUE SE FAZEM E SE MOSTRAM SEJAM CINEMA!
terça-feira, 1 de março de 2011
: agenda
em Março na Cinemateca
Qui. [10] 21:30 | Sala Dr. Félix Ribeiro
PAI NATAL
de José Oliveira com José Oliveira, Sabrina Marques, Daniel Pereira, Tiago Ribeiro, Manuel Mozos Portugal, 2010 – 20 min
LOST WEST / OESTE PERDIDO
de Mário Fernandes com Rui Pelejão, Paulo Fernandes, Marta Lambelho, Carlos Silva, Adriano Figueiredo, Miguel Carneiro Portugal, 2006-2010 – 175 min / legendada em português
São dois títulos de estreia em primeiras exibições públicas absolutas: PAI NATAL, de José Oliveira, segue a história de um jovem cinéfilo que, vindo de Braga, chega a Lisboa “onde arranjou um emprego fugaz e particular” e que o filme capta, diz ainda a sinopse, “entre as salas escuras, uma rapariga e os amigos, o retrato de um tempo e de um rapaz como muitos, Meio perdido, meio desinteressado.” LOST WEST, “western no budget” onde Mário Fernandes “juntou uma quadrilha selvagem amadora e partiu à aventura do oeste”, faz jus ao título e apresenta-se como a história de um pistoleiro frio e implacável chamado Kit Carson que regressa a El Cabelero, “um padieiro de mineiros, agricultores e homens sem escrúpulos” onde “encontra uma região marcada pelo peso de vários passados e dominada por Beralt Tin, o líder de uma matilha de sádicos assassinos, que impõe o seu império predador do alto de uma pirâmide de escombros.”
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Get out of the car
"Os artistas e o artista do lado dos pobres que trabalham e suam e tornam isto mais habitavél – Thom Andersen. "
José Oliveira in Raging B, sobre "Get Out of The Car" de Thom Andereon
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Starting Again.
CZARADOX de volta à acção.






Tôkyô sonata, Kiyoshi Kurosawa (2008)
Chegada com o verão, a dignidade autorizada das férias dá-se entre horas de distensão ociosa. Do bocejo a que o tédio se autoriza até à consideração de avaliação mais sisuda, muitos nos recambiamos, simultâneos, para longe das janelas deste virtualismo conversador.
A ocasião tem vigores de celebração, reabertas as portas ansiadas do Raging B, onde este maravilhoso post acerta em ressalvar o espírito conveniente de que se alimentam os fôlegos destas lides. Hiperbolizada pela nova energia, regresso para medir a nova dedicação apetecida a estas paredes. Sempre em coro, a caiar esta parede com os rumos incertos do meu tempo:
:
TERÇA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO DE 2010
PUBLICADA POR JOSÉ OLIVEIRA
RAGING-B.BLOGSPOT.COM
"Da boca de Jean Eustache saiu certa vez a mais bela descrição de um filme que eu me lembro de ler, foi assim:
“Lembro-me de caminhar em Paris, de Montparnasse ao bairro XVIII, de caminhar a pensar, como numa caminhada que trouxesse o tempo de volta. Quando cheguei a casa, a minha avó falou-me durante muito tempo. Tive a impressão de que me falava de coisas importantes. Quando lhe disse: "Mas, escuta, temos de registar tudo isso", ela respondeu: "Mas enfim, são coisas que não são bonitas". "Isso não me interessa", respondi, "é preciso registar as coisas, bonitas ou não, elas são importantes, elas são grandes." Arranjei algum dinheiro para comprar película a preto e branco 16, aluguei duas câmaras, pedia Théaudière que cuidasse delas e a Jean-Pierre Ruh que fizesse o som. E o tempo do filme, foi o tempo da película, as duas câmaras a funcionar alternadas, de seguida, sem corte. O filme era assim a história da película, do início até ao fim. Ao mesmo tempo, como era cineasta de profissão, era um filme de um cineasta profissional e um filme de família, um filme amador em 8mm rodado na praia.”
Ou seja, Eustache pensou, ou sonhou, mas concretizou, teve essa tremenda ousadia, esse espantoso gesto de humildade, refazer algo que o cinema sério prometeu servir: um grande (incomensurável) arquivo de pessoas e de memórias. Para sempre. Apontar uma câmara a alguém com muitas coisas para dizer – e todos tem coisas para dizer, a sua narrativa – filmar até a fita acabar e gravar o som, a palavra e o que a envolve. Com todo o saber e com toda a simplicidade. Está feito. Assim mesmo. Fê-lo, não ficou pelo sonho ou pelas promessas.
2007. Wang Bing. “He Fengming”. Ou no título internacional: “Fengming: A Chinese Memoir”. Ou ainda, mais delicadamente: “Chronicle of a Chinese Woman”.
Como Eustache, é o filme que todos poderiam idealizar. O filme que todos poderiam fazer. Cinema sempre foi coisa de amadores. Amadores que tudo lhe retribuem. “Não sabemos mais das imagens do que o resto das pessoas”, penso que afirmou Godard um dia. Trinta e tal anos depois as fitas rareiam e o digital possibilitou tais dádivas ainda mais possíveis. Wang Bing também apontou a sua câmara a uma pessoa querida e deu-lhe o mundo todo. O tempo todo. Ela, senhora também de idade avançada, caminha até casa, abre a porta, senta-se e desvela infinitas histórias, e, tirando mais três ou quatro planos dela a movimentar-se pela casa, é o que vamos ter durante umas três horas e tais. A violência de um interminável plano fixo ao serviço de uma abundância desmedida de factos e de ficções – porque jamais a memória poderá reter só o “verdadeiro” – de amores, desamores, tragédias e festas, choro e riso.E a presença e o peso que ela exerce sobre a cena, como acontecia com Odette Robert, é verdadeiramente vulcânica, arrasadora. É o plano que estremece tantas vezes com os ditos e com as expressões, o olhar, as rugas e o falar dessa imponente e bela senhora. Questão de paciência e curiosidade. Através de tudo isso, das confissões de soslaio às grandes epopeias, toda a história de uma nação (a chinesa, a dela) e de um arco temporal fugidio que poderiam ser as histórias e os tempos de toda uma humanidade. Todos nós estamos lá num cantinho e ao mesmo tempo tudo é dela, só dela. Tocantemente intimista e singular e surpreendentemente universal.
“Griffith filmou a biografia de todos os homens e mulheres à face da terra”, escreveu João Mário Grilo. Bing ofereceu a Fengming uma via de catarse e ofereceu-nos a todos nós uma espécie de espelho e de previlégio que em algum dos lados nos podemos ou haveremos de nos poder vislumbrar. Sem a profissionalidade das equipas do “grande cinema” ou das pressões. Uma peça familiar, uma peça manual trabalhada em porcelana, com o máximo do saber. E o filme é o milagre do presente em que o vemos, como testemunhas e ecos, a evidência do olhar que abre infinitas brechas de sentimentos e de emoções. Histórias e mais histórias, sensibilidades, sensações, "déjà vu´s", recordações, alegrias e medos. Não há que filosofar, “o que é, é” e nessa experiência de tempo pode-se chegar ao absoluto. Não há filme mais verdadeiro, não há filme mais fantástico e aventureiro. Resistência e liberdade, é o que ele nos diz. É o que Bing e Fengming nos dizem. Mesmo que a solidão seja terrível.
Não há génio, nem em Eustache nem em Bing, e quem os quiser seguir, e mesmo que só daqui a dezenas de anos um ser qualquer descubra no nada uma velha cassete qualquer e a veja e sinta alguma coisa, valerá a pena."






Tôkyô sonata, Kiyoshi Kurosawa (2008)
Chegada com o verão, a dignidade autorizada das férias dá-se entre horas de distensão ociosa. Do bocejo a que o tédio se autoriza até à consideração de avaliação mais sisuda, muitos nos recambiamos, simultâneos, para longe das janelas deste virtualismo conversador.
A ocasião tem vigores de celebração, reabertas as portas ansiadas do Raging B, onde este maravilhoso post acerta em ressalvar o espírito conveniente de que se alimentam os fôlegos destas lides. Hiperbolizada pela nova energia, regresso para medir a nova dedicação apetecida a estas paredes. Sempre em coro, a caiar esta parede com os rumos incertos do meu tempo:
:
TERÇA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO DE 2010
PUBLICADA POR JOSÉ OLIVEIRA
RAGING-B.BLOGSPOT.COM
"Da boca de Jean Eustache saiu certa vez a mais bela descrição de um filme que eu me lembro de ler, foi assim:
“Lembro-me de caminhar em Paris, de Montparnasse ao bairro XVIII, de caminhar a pensar, como numa caminhada que trouxesse o tempo de volta. Quando cheguei a casa, a minha avó falou-me durante muito tempo. Tive a impressão de que me falava de coisas importantes. Quando lhe disse: "Mas, escuta, temos de registar tudo isso", ela respondeu: "Mas enfim, são coisas que não são bonitas". "Isso não me interessa", respondi, "é preciso registar as coisas, bonitas ou não, elas são importantes, elas são grandes." Arranjei algum dinheiro para comprar película a preto e branco 16, aluguei duas câmaras, pedia Théaudière que cuidasse delas e a Jean-Pierre Ruh que fizesse o som. E o tempo do filme, foi o tempo da película, as duas câmaras a funcionar alternadas, de seguida, sem corte. O filme era assim a história da película, do início até ao fim. Ao mesmo tempo, como era cineasta de profissão, era um filme de um cineasta profissional e um filme de família, um filme amador em 8mm rodado na praia.”
Ou seja, Eustache pensou, ou sonhou, mas concretizou, teve essa tremenda ousadia, esse espantoso gesto de humildade, refazer algo que o cinema sério prometeu servir: um grande (incomensurável) arquivo de pessoas e de memórias. Para sempre. Apontar uma câmara a alguém com muitas coisas para dizer – e todos tem coisas para dizer, a sua narrativa – filmar até a fita acabar e gravar o som, a palavra e o que a envolve. Com todo o saber e com toda a simplicidade. Está feito. Assim mesmo. Fê-lo, não ficou pelo sonho ou pelas promessas.
2007. Wang Bing. “He Fengming”. Ou no título internacional: “Fengming: A Chinese Memoir”. Ou ainda, mais delicadamente: “Chronicle of a Chinese Woman”.
Como Eustache, é o filme que todos poderiam idealizar. O filme que todos poderiam fazer. Cinema sempre foi coisa de amadores. Amadores que tudo lhe retribuem. “Não sabemos mais das imagens do que o resto das pessoas”, penso que afirmou Godard um dia. Trinta e tal anos depois as fitas rareiam e o digital possibilitou tais dádivas ainda mais possíveis. Wang Bing também apontou a sua câmara a uma pessoa querida e deu-lhe o mundo todo. O tempo todo. Ela, senhora também de idade avançada, caminha até casa, abre a porta, senta-se e desvela infinitas histórias, e, tirando mais três ou quatro planos dela a movimentar-se pela casa, é o que vamos ter durante umas três horas e tais. A violência de um interminável plano fixo ao serviço de uma abundância desmedida de factos e de ficções – porque jamais a memória poderá reter só o “verdadeiro” – de amores, desamores, tragédias e festas, choro e riso.E a presença e o peso que ela exerce sobre a cena, como acontecia com Odette Robert, é verdadeiramente vulcânica, arrasadora. É o plano que estremece tantas vezes com os ditos e com as expressões, o olhar, as rugas e o falar dessa imponente e bela senhora. Questão de paciência e curiosidade. Através de tudo isso, das confissões de soslaio às grandes epopeias, toda a história de uma nação (a chinesa, a dela) e de um arco temporal fugidio que poderiam ser as histórias e os tempos de toda uma humanidade. Todos nós estamos lá num cantinho e ao mesmo tempo tudo é dela, só dela. Tocantemente intimista e singular e surpreendentemente universal.
“Griffith filmou a biografia de todos os homens e mulheres à face da terra”, escreveu João Mário Grilo. Bing ofereceu a Fengming uma via de catarse e ofereceu-nos a todos nós uma espécie de espelho e de previlégio que em algum dos lados nos podemos ou haveremos de nos poder vislumbrar. Sem a profissionalidade das equipas do “grande cinema” ou das pressões. Uma peça familiar, uma peça manual trabalhada em porcelana, com o máximo do saber. E o filme é o milagre do presente em que o vemos, como testemunhas e ecos, a evidência do olhar que abre infinitas brechas de sentimentos e de emoções. Histórias e mais histórias, sensibilidades, sensações, "déjà vu´s", recordações, alegrias e medos. Não há que filosofar, “o que é, é” e nessa experiência de tempo pode-se chegar ao absoluto. Não há filme mais verdadeiro, não há filme mais fantástico e aventureiro. Resistência e liberdade, é o que ele nos diz. É o que Bing e Fengming nos dizem. Mesmo que a solidão seja terrível.
Não há génio, nem em Eustache nem em Bing, e quem os quiser seguir, e mesmo que só daqui a dezenas de anos um ser qualquer descubra no nada uma velha cassete qualquer e a veja e sinta alguma coisa, valerá a pena."
sábado, 17 de abril de 2010
sábado, 12 de dezembro de 2009
... que o cinema é o que está na vida à espera de ser visto.
All Quiet on the Western Front, Lewis Milestone, 1930
O PASSADO COMANDOU O FUTURO
Havemos de viver num sistema ordenado e, nesta lógica, estão previstas todas as dinâmicas do encontro e do reencontro. Há uns anos valentes, escrevi um pequeno texto chamado "Ode aos Gigantes" mas só hoje é que encontrei os Gigantes que a ficção ali descreveu. Se pudesse reclamar-lhe uma espécie de dedicatória tardia, de certeza que o remetia à morada desses dois tipos incríveis, o JOSÉ OLIVEIRA e o MÁRIO FERNANDES. Há pessoas que nascem com vocação natural para serem humanos. Tipos destes, que a fortuna fez encontrar, uniam-se cada qual nas sinceridades particulares da sua acção muda, até que conheceram para se emparelhar. E é com luminosidade que me chegam, trazendo formas à minha inspiração. Tipos destes são afinal um tributo à própria vida nas contas de cada dia em que cá se acrescentam. Resta-me agradecer aos recambolescos da ordem pelos raios de luz que tive o privilégio de receber dos nomeados para, de alguma forma, guiar a solidão irredutível deste caminho. Esse misticismo é daqueles que habita os recantos das ruas e não os espectros coloridos dos olhos para o céu.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Arte da mise-en-scène
Melancholia, Lav Diaz (2008)
"Ainda ontem, em conversa com um grande cinéfilo, nos lembramos de como João Lopes, ao considerar Casino, de Scorsese, o melhor filme dos anos 90; ou como em qualquer outro lado ele defendia o “Ocean´s 11”, de Soderbergh, como uma portentosa lição de mise-en-scène, precisamente, dizendo qualquer coisa como: «quando Picassso pintava uma peça de fruta, todos achavam uma obra-prima” (cito de cor); ou de como ligava o mesmo Casino á obra, precisamente de Hitchcock ou de Godard: “Repor a ordem no caos que é este mundo”. A minha opinião é esta: hoje em dia haverá, ainda mais que no período clássico, um elemento que têm que prevalecer junto da puramise-en-scène ou exercício estilístico: a duração; ou gravidade.
É o que separa, por exemplo, os excepcionais planos do filme dos Coen, dos planos dos anúncios dos perfumes, ou do Moulin Rouge. A arte da duree. De fazer durar uma imagem, de a ligar com a seguinte, com uma lógica intrínseca."
José Oliveira in arte da mise-en-scène
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