sábado, 23 de junho de 2018

Mil e Uma Noites serviram para decorar pesadelos.

(...)
A febre o desgastou e as ilustrações das Mil e Uma Noites serviram para decorar pesadelos. Amigos e parentes o visitavam e com exagerado sorriso lhe repetiam que o achavam muito bem. Dahlmann ouvia-os com uma espécie de fraco estupor e surpreendia-lhe que não soubessem que estava no inferno. Oito dias passaram, como oito séculos. 
(...)
O SUL, Borges

‘‘Onde falta a dúvida falta o saber’’ JLG

 JLG / JLG - Autoportrait de Decembre, Jean-Luc Godard (1994)


chegámos demasiado tarde ao coreto / da vida

lamento e exortação
Que chegámos demasiado tarde ao coreto
da vida para sonhos e cantigas de libertação
revulsionária, percebemo-lo aos vinte anos;
que justiça é uma jura redigida em esperanto
e a lei o duro eixo onde circula o privilégio,
percebemo-lo depois, muito a contragosto.
Resta-nos perder a última ilusão: a de que haja
ainda espaço nesta feira popular da mediocracia
para uma escrita que não seja celebração
do estridente carrossel publicitário,
dos económicos carrinhos de choque,
da barraca de tiro em que fazemos de patos.
Quando percebermos também isto, saberemos
que a Gloriosa Era da Literatura Ocidental
chegou ao fim, derretida (como sugere
o seu acrónimo) pelo aquecimento da sandice
global, que não viemos aqui para tentar reanimar o moribundo, mas alegrar um velório.
Está na rua o funeral. Ninguém nos paga
para isto, verdade, mas o morto merece.
Se queremos brilhar ainda um pouco, é agora
ou nunca. Afinemos as cordas, as lágrimas,
em dó sustenido. Vamos tentar dar o nosso melhor.
José Miguel Silva

sexta-feira, 22 de junho de 2018

vivo



''A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.'' 
Clarice Lispector

''o apego guardado''



''Art is not natural.'' JLG

1 PM (JLG IN USA), D.A. Pennebaker, 1968

 Gato / Gravata / Godard



quinta-feira, 21 de junho de 2018

''em ferida uma falha''


L'Île aux Merveilles de Manoel, Raoul Ruiz, 1984

Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.
Clarice Lispector

Por vezes não sabemos o que fazer

por vezes não sabemos o que fazer
— hoje apenas resta esta frase
a sinalizar em ferida uma falha
— sem esperança dela irradiar
cornucópia luminosa braseiro
ficamos imobilizados no mundo
sem contorno ou profundidade
sem mão ou palavra para erguer
alguma coisa se afasta de nós
irremediavelmente.


Carlos Alberto Machado


''All your insides fall to pieces''


Innocence Unprotected, Makavejev, 1971

''Há dias que atravessamos deitados numa cama demasiado ampla para um só sonhador, completamente despertos, de rosto confundido entre os cobertores, de corpo engessado, de futuro fracturado. Dói-nos tudo, tudo e mais alguma coisa, mas se nos perguntassem, responderíamos “nada em particular”. E é verdade''
Bénédicte Houart

''Vivemos um entreacto com orquestra''


STEREODOX : Pix

STOP CRYING YOUR HEART OUT

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. 
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”
José Saramago  


(Getting to Know the Big Wide World), Kira Muratova, 1979

''...Nessa noite terminara de ler mais um desses livros que vivem da empatia inesperada por seres longínquos feitos de palavras. Emocionara-se. Novamente. Percebeu que o sangue dentro de si não tinha todavia coagulado. Sangrava silenciosa e felizmente. Graças às palavras de alguém.'' Rui Poças




https://www.youtube.com/watch?v=dhZUsNJ-LQU

''o lugar onde somos figuras''

A Cosmos (Rosemarie Trockel)

«A terceira confidência
é que não há contemporâneos, mas elos de ausências presentes; há um anel de fuga. Na prática, é uma cena infinita – o lugar onde somos figuras»

(Maria Gabriela Llansol, Inquérito às Quatro Confidências)

terça-feira, 19 de junho de 2018

STEREODOX: ''Try to build a wall that is high enough.''

segunda-feira, 18 de junho de 2018

on Jean-Daniel Pollet

* JOUR APRÈS JOUR : Hoje, às 18h30, na Cinemateca
''Jean-Daniel Pollet (1936-2004) é autor de uma muito singular obra, de marca poética e reflexiva sobre a duração como elemento cinematográfico. JOUR APRÈS JOUR é um filme póstumo, realizado por Jean-Paul Fargier a partir da ideia de montagem registada no papel por Pollet que concebeu o filme exclusivamente a partir de imagens fotográficas da sua casa, das estações do ano, de frutos e flores. Uma primeira exibição na Cinemateca, para ver às 18h30 no ciclo 24 IMAGENS – CINEMA E FOTOGRAFIA.'' 





* MÉDITERRANÉE: 
Restaurado / editado por La Traverse

« Enfin ! "Méditerranée" (version restaurée) et "Bassae" de #JeanDanielPollet de nouveau disponibles en dvd !
Livre-dvd co-édité avec Les éditions de l'Œil
Textes de Yannick Haenel, Dominique Painï et Philippe Sollers.
Parution juillet 2018 »


« Que savons-nous de la Grèce aujourd’hui… Que savons-nous de nous-mêmes, hormis que nous sommes nés là il y a des milliers d’années… Que savons-nous donc de cette minute superbe où quelques hommes se sont sentis solidaires de lui, solidaires de la lumière non pas envoyée par les dieux mais réfléchie par eux, solidaires du soleil, solidaires de la mer… De cet instant à la fois décisif et naturel, le film de Jean-Daniel Pollet nous livre sinon le trousseau complet, du moins les clés les plus importantes… Les plus fragiles aussi… Dans cette banale série d’images en 16 sur lesquelles souffle l’extraordinaire esprit du 70, à nous maintenant de savoir trouver l’espace que seul le cinéma sait transformer en temps perdu… Ou plutôt le contraire… Car voici des plans lisses et ronds abandonnés sur l’écran comme un galet sur le rivage… Puis, comme une vague, chaque collure vient y imprimer et effacer le mot souvenir, le mot bonheur, le mot femme, le mot ciel… La mort aussi puisque Pollet, plus courageux qu’Orphée, s’est retourné plusieurs fois sur cet Angel Face dans l’hôpital de je ne sais quel Damas… » Jean-Luc Godard, Cahiers du cinéma(fév. 1967)

De onde foi que chegou todo este pudor repressivo e persecutório?

Bloqueada por causa de uma Vénus (...) 


Data

{à maneira de Eustache Deschamps) 

Tempo de solidão e de incerteza 
Tempo de medo e tempo de traição 
Tempo de injustiça e de vileza 
Tempo de negação 

Tempo de covardia e tempo de ira 
Tempo de mascarada e de mentira 
Tempo que mata quem o denuncia 
Tempo de escravidão 

Tempo dos coniventes sem cadastro 
Tempo de silêncio e de mordaça 
Tempo onde o sangue não tem rastro 
Tempo de ameaça 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto' 

domingo, 17 de junho de 2018

''self-alienation''


 Le Redoutable, Hazanavicius, 2017


Piquena Refexão:

Ser um bom crítico não é desgostar constantemente, fazendo uso da verve treinada para tornar mais um texto em mais um exercício masturbatório de lancinantes precisamentes que, à partida, já se sabe dorminar com eloquência e sem esforço. Não é mais sofisticado de gostos o que não gosta de nada: o melhor crítico, para mim, é o que não aparece constantemente de impermeável vestido, estupidamente zelando por se apresentar de intelecto acabado. O melhor crítico é esponjoso, jovem como os jovens, passando ao lado desses bafios nostálgicos de um-ontem-melhor-do-que-o-hoje e, à altura da sua letra, amplificando entre ecos o entusiasmo constante de quem acredita que o cinema ainda o é. Essa é, aliás, a única forma de um crítico acordar de manhã para, durante mais um dia, ser crítico. Digo eu.

sábado, 16 de junho de 2018

''...there are ways out. there is a light somewhere. it may not be much light but it beats the darkness....'' Bukowski

Nouvelle vague, Jean-Luc Godard, 1990

sexta-feira, 15 de junho de 2018

smart people being smart.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

STEREODOX - ''This is a journey and we call it home''


''...
We're breaking promises we thought we could keep
We trigger avalanches unknowingly
We travel in and out, we take off, we land
We live in airports like we don't have a plan
This is a journey and we call it home
...''

quarta-feira, 13 de junho de 2018

''A pele demasiado larga para a carne.''



Do tempo
Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar, e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


in Lérias (Lisboa: Averno, 2011)

''Esqueço porque o que se esquece não nos magoa.'' Pedro Mexia

Daisuke Yokota