''Por fim ele só conseguia imaginar salas
inexequíveis, quartos giratórios, decorações caleidoscópicas, caixas de mudança para a alma...''

Robert Musil, O Homem sem Qualidades
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''Love, Arthur, is a poodle's chance of attaining the infinite, and personally I have my pride.'' 
Louis-Ferdinand Céline
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Thank You God for this fine day
Bless all the children of the world
And thank You for the plants
And the animals
Bring me sweet dreams tonight
And help me be good tomorrow
Noah's Ark



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"Being with you and not being with you is the only way I measure time"
BORGES


Marina Abramović + Ulay, Relation in Space, 1976


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"A promessa da cinefilia encontra-se no potencial das imagens terem um efeito que não se conforma às nossas ideias ou expectativas pré-concebidas, portanto será igualmente grave para a cultura cinematográfica se, por parte do mundo académico, o que conte para a escrita aceitável fique restringido a causas prováveis e a efeitos mensuráveis, isolando o cinema do pensamento especulativo e das realidades políticas. Segundo Jacques Rancière, o conhecimento do mundo a que chamamos cinema é sempre cambiante e sempre controverso e pertence a qualquer um que o tome como um lugar em que pode forjar o seu próprio e pessoal caminho." 
Nico Baumbach,''All that heaven allows'' 
Film Comment magazine 2012
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''De gente que se arremete contra as ondas porque não saberia o que fazer com um mar morto.'' 
Pedro Jordão 


Autumn Leaves (The Way We Are) de Robert Aldrich (1956)




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Written on The Wind, Douglas Sirk, 1956

"This is the kind of thing Douglas Sirk makes movies about. People can’t live alone, but they can’t live together either. This is why his movies are so desperate. "
http://www.filmcomment.com/blog/sirk-from-the-archives/

The Bitter Tears of Petra von Kant, Rainer Werner Fassbinder, 1972


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Toda a maldade é fraqueza. 
John Milton
THE ARRIVAL, de Dennis Villeneuve (2016)

O pensamento molda a linguagem. Somos maus porque pensamos mal - é uma fraqueza de pensamento, logo, de linguagem. WHY ARE THEY HERE? Porque melhorar é um exercício do exemplo, da cópia, da fasquia. O derradeiro humanismo de THE ARRIVAL chega dos aliens e demora a fazer-se entender: Language is our weapon. Our weapon is our gift. Esta invasão não invade; não é senão um espelho por decifrar - o ''casulo'' é o do Homem em potência. Sim, a narrativa tem falhas (científicas, inclusivé) mas o coração está no sítio: Arrival (2016) é um risco íntegro de Denis Villeneuve. Porquê risco? Porque, verdadeiramente fenomenológico, se atreve a pensar até ao osso, a propor distinto à raiz. Porque vai levar com os dedos apontados da ridicularização massiva e sabe-o. Porque se arrisca a surgir sincero, a ter mais meditação embrulhada em mistério do que a acção-e-suspense que o público espera de um sci-fi pós-apocalíptico. Porque é que este filme existe? Porque precisamos dele. E só se vê ao espelho quem se atreve.

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Blanche (Walerian Borowczyk, 1971)

https://www.youtube.com/watch?v=Y7O0rBGSqjI

Is this about where your head’s at? (fuck)
No, Blanche, she’s upset because they keep changing the taste of coke
Golden Gal on her screen
Some kind of tube she'd never seen
Gift to the girl ready to dream
Hope in new forms the elderly be
Spirit is burning to hear it for the girls again
So complex and brave
A power and lure without showing some legs
Different roads not just sexual things
Went and cut a rude hue said it did right away
And I’m keeping it new, and relearning girls again
It’s a strange kind of plot who steps and paves the golden way
With a humor that is known to quickly put me in my place
Every words so tricky how we know what to say
My gal you're so strong you should hold your head above them
And you need not ask for much to get my praise
Golden Gal on her screen
Some kinda tune she'd never seen
Gift to the girl ready to dream
Hope in new forms the elderly be
Spirit is burning to hear it for the girls again
Let me dress up like a golden gal and have my golden day
Let me watch the mark of maleness from a table side in greys
I can only dream of how I’d be so amazed
The Gals were right on, when she needed laughs to fall on
For all of this and more I give them praise
You think the gals should feel so comfortable these days
But sexy genders bring some troubles to the fray
And trouble tears apart another golden heart
So I want to be the reminder that she’s stronger than the bulk on other days
Golden Gal gave me my strength
She said I’ll be here for you later, boy
Now run along you have to fall
Golden Gal gave me my faith
All it took was some belief
But don’t believe that she should change at all
Golden Gal taught me restraint
She said you'll want me more much later, dude
I'm your everything and not your toy
Golden Gal I’ll be beside her
And I might want to stand in line
To find the kind of mind she can provide
You think the gal should feel so comfortable these days
But sex and gender brings some troubles to the fray
And trouble tears apart another golden heart
So I want to be the reminder that she’s stronger than the bulk on other days
Golden Gal gave me my strength
She said I’ll be here for you later, boy
Now run along you have to fall
Golden Gal gave me my faith
And all it took was some belief
But don’t believe that she should change at all
Golden Gal taught me restraint
She said you'll want me more much later, dude
I'm your everything and not your toy
Golden Gal I’ll be beside her
And I might want to stand in line
To find the kind of mind she can provide
Here for a while I will follow my golden gal

ANIMAL COLLECTIVE


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ilustrações de Jacques Fabien Gautier d'Agoty

A cabeça muda o corpo, o corpo muda a cabeça.
No corpo a mudança dá-se a ver, mas precisamos da claridade de certas horas muito secretas para nos assegurarmos de que mudámos de ideias. Manso e súbito, chega o momento em que te sabes outro, incrivelmente longe de um qualquer ontem que te ensombra ainda. Como é possível que a impermanência ainda surpreenda alguém - suspiras sempre como quem se suspeita em falta ao auto-exame suficiente.
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''...decidiu-se fazer do cinema uma matéria de educação, e decidiu-se bem. Quanto mais cedo as crianças forem expostas ao cinema, melhor. Um miúdo de 4 ou 5 anos enfiado numa sala para ver um filme mudo de Chaplin ou de Buster Keaton reage de uma maneira espantosa, e para muitos adultos - mesmo, às vezes, professores - completamente inesperada. Apesar dos bombardeamentos de televisão, desenhos animados e toda a sorte de imagens e ecrãs domésticos a que muitos, nessas idades, já foram submetidos, a maioria ainda conserva um olhar suficientemente despoluído para, em frente a um Chaplin ou a um Keaton, ser de facto um "contemporâneo" dos espectadores que viram esses filmes em estreia nos anos 10 ou 20 do século passado. Ao contrario do que se diz, a juventude não está perdida, nem mesmo para o cinema...''


https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-favor-da-nova-cinefilia-310932
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GODARD, Jean-Luc. Histoire(s) du cinéma: Une vague nouvelle.
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 the birth betrayed  the marriage spent  
Yeah the widowhood  of every government 
 signs for all to see. 
Leonard Cohen, Anthem


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PITCH BLACK, EMPTINESS, ABSOLUTE SILENCE 
- Scene I - 
CIVILIZATION is vomiting at the corner.


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 Hermia e Helena, Matías Piñeiro, 2016 

Julieta, Almodóvar, 2016 

Meet Me in StLouis Vincente Minnelli, 1944

Eden, Mia Hansen-Løve, 2014
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" I have long been suspicious of the 'aesthetics equals ethics' tendency in serious film criticism, with its absolutist claims of what are good and bad styles in cinema.......Critics today need to reaffirm the principle that anything goes, and that anything can work — rather than place their trust in spurious, artificial systems of absolute value. In film criticism, the only acceptable court of law operates on a case-by-case basis. "

ADRIAN MARTIN, on 'God Only Forgives'
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Não me interpretem mal, quem me conhece sabe que eu saúdo com a alma e com a verve esse projecto começado em Straub e Huillet. O que eu desprezo é um fanatismo religioso chamado Straubianismo, que só remotamente participa no verdadeiro espírito veículado por Straub e Huillet.
O materialismo raro dos seus filmes brota de uma fenda radical que é desferida na evolução do cinema, e que propõe uma incansável reflexão sobre os mais definidores alicerces da estrutura e da técnica. De filme para filme, os cineastas repensam o osso da linguagem cinematográfica, destilando os elementos que se adicionam para compôr um filme. ‘‘E o que é um filme?’’ perguntou um dia Straub. Cada filme é ocasião para a construção de uma resposta a esta pergunta, desconfiando do cinema e permanentemente perguntando-lhe - com palavras que podiam ser de João César Monteiro, o primeiro crítico de cinema a defender Straub em páginas portuguesas e cineasta tão melómano quanto o casal - acerca dos porquês disto ser assim e não assado. Conhecer é perguntar, é não papaguear e é precisamente por isso que Straub e Huillet são decisivos, incontornáveis, obrigatórios. Aprender com o seu cinema, ser tão revolucionário como Straub e Huillet é querer activamente pertencer ao presente, respondendo-lhe e participando na mesma fúria desconstrutora que por eles foi ensinada, mas NÃO ser seu seguidista-copista. Não há crítica menos jovem do que essa fechada em ponto de não me toquem nas vacas sagradas. Benjamin ensinou-nos que a juventude é um estado de espírito, e pode ouvir-se numa cantata de Bach: ''Que a tua velhice seja como a tua juventude.''
No estímulo de voltar a pensar na raíz de tudo, foi com o maior prazer que escrevi para o catálogo do LEFF sobre quatro filmes particularmente consagrados à música de Bach e Schoenberg: Chronique d’ Anna Magdalena Bach, Einleitung..., Moses und Aaron e Von Heute Auf Morgen.
Acompanhem de 4 a 13 de Novembro, a homenagem a Jean-Marie Straub e Danièle Huillet : http://www.leffest.com/seccoes/musica-cinema/homenagem-a-jean-marie-straub-daniele-huillet


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eu, se escolhesse, pensava branco. pensava a claro, sem negro, sem trágico, sem cruel. pensava sempre a giz como quem está a aprender. pensava longe do mal como se pensam os primeiros pensamentos. pensava a nascer. pensava lógico, limpo, imaculado. branco era a cor em que eu queria pensar.
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«nós estamos entre elas, assim como elas estão entre nós. A questão é saber como nos movemos entre elas, como as fazemos circular.» Ranciére
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Cinema Novo, Eryk Rocha, 2016
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No que escreve, no que filma, no que diz. O Bitomsky é genial três vezes. Neste ''Das Kino und der Tod''/ ''O Cinema e a Morte'' de 1988, reflecte sobre um nunca-acabar de stills impressos, numa relação táctil de proximidade que antecipa a ligação afectiva que hoje temos na experiência do cinema enquanto fragmento. Entre stills e gifs, com raridades ou blockbusters, a partir dos filmes fazemos hoje os nossos próprios postais virtuais - enquanto, descontextualizado e dessacralizado, todo o cinema auspiciosamente regressa à sua génese popular.


Das Kino und Der Tod, Hartmut Bitomsky, 1988
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"Sabemos que é verdade aquilo que o contrário nos impede de pensar." Leibniz
I.
Aprender é acreditar. É pensar com o que, tendo sido transmitido por outro, nos aparece como verdadeiro. Deixámos de questionar a partir do momento em que acreditámos em algo que, por nos surgir como deduzível, achamos que podia ter sido pensado por nós. O que nos é verdadeiro, é-nos óbvio: agarramos e construímos nosso a partir daí.
II.
Elegemos mestres por crença: acreditamos no que dizem ou fazem e, por introspecção, comparação e mimesis, melhoramo-nos. A tal ponto nos parecem verdadeiros, que deles decalcarmos versões apuradas de traços de personalidade comuns. Reconhecemos no outro uma alteridade esculpida, uma ''forma mais competente de ser'' e, ao mesmo tempo que renovamos a fé no Humano, aumentamos ao espelho a fasquia.
III.
Estava na faculdade na quinta-feira para ter uma aula às 18h quando o Ricardo Araújo Pereira passa por mim. Tinha já uma remota ideia de que ele frequentava esparsamente o doutoramento em Línguas e Literaturas mas nunca o tinha visto. Senti uma irreprimível vontade de me esquecer da minha aula para ir sorrateiramente sentar-me na dele.
IV. Só que não fui. ''A idolatria é um humanismo muito lindo mas também tem limites, minha menina!''. Facto é que a consciência é a mestre derradeira.
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Falando de chapéus.


Morocco, Josef von Sternberg (1930)


Marlene não diz uma palavra ao anfitrião desse clube nocturno de elites, onde o exotismo de Marrocos avança no inesperado da noite. Faz expandir a cartola com um estalido e, a passo altivo, entra a fumar em palco. O súbito travestismo total em nada se encaixa no nome previamente anunciado: Amy Jolly. E se um primeiro coro de vaia demonstra como este número agrada a pouca audiência, é pela femínissima voz saída do mais desenhado dos rostos que a todos - homens e mulheres - igualmente conquista. Encantadoramente ambígua, é simultaneamente o homem galante que guarda de uma mulher uma rosa enquanto lhe rouba um beijo, e a mulher que lança a um homem a sua rosa como uma promessa ao vento.
‘‘Se jogara hibridamente no estatuto masculino (...) termina na assunção total da feminilidade’’, acerta João Bénard da Costa ao ver na bela mulher de rosto fechado que de várias formas se viriliza, uma mulher à procura de um nova forma de ser mulher.
Amy Jolly perde-se em Marrocos para não ser quem já foi mas, ao segurar de si para si o permanente espelho (obsessivo emblema de auto-exame em que nos é apresentada) é, construindo contra o passado, uma redefinição geral de feminino o que autonomamente inventa.
Seduzindo-nos pelo mistério, Amy Jolly e Marlene são apresentadas ao mundo na dureza cortada daquele fato negro, pontuado por uma cartola que o fôlego de Sternberg fez voar para Hollywood. E daquela cartola sairiam as mil Marlenes com que o cinema só aqui, em 1930, começava a sonhar.
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Three Crowns of the Sailor,  Raúl Ruiz, 1983

“How foolish of me to believe that it would be that easy. I had confused the appearance of trees and automobiles, and people with a reality itself, and believed that a photograph of these appearances to be a photograph of it. It is a melancholy truth that I will never be able to photograph it and can only fail. I am a reflection photographing other reflections within a reflection. To photograph reality is to photograph nothing.”
- Duane Michals
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''Pois o que é a cultura?
Eu sempre acreditei que era o ciclo que o Indivíduo percorria para chegar ao conhecimento de si próprio.''

Søren Kierkegaard, Temor e Tremor


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Iluminações, Rimbaud
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Spring, Louis Feuillade, 1909

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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