Defesa de Duras


E lá voltamos nós para plantar as faltas: deseja-se chegar à vida adiante, rapidamente sentir o não sentido, abrir ao escuro esse grande coração secreto que teme definhar em peito jovem. A solidão é sempre a morada dos pensamentos mais puros. O cinema acontece na cabeça, finge sempre ser o Outro que melhor couber a esse par de braços estendidos. N'importe qui. 

''Muito cedo na minha vida era tarde demais''
O AMANTE



AGATHA ET LES LECTURES ILLIMITÉES

Escada acima e escada abaixo, Duras fez vida de ir desde a sua pequena avenida até aos céus, uma e outra vez. A sua idade é das décadas quietas da mesma juventude revisitada, essa água donde mil vezes fez nascer o seu grande amor ausente, que à partida lhe deixou uma alma por resolver. Pela extensão da escrita, em cada dia se costura a memória - e o breve encontro de uma adolescência dura uma vida. Quinze anos e meio, apenas e para sempre, porque os desejos da juventude serão infinitos : o primeiro toque eternamente imprimido na brancura do corpo afaga a mortalidade das horas. Tudo cai e tudo muda mas, em segredo, um peito resiste :

"Uma pessoa nunca deve curar-se da sua paixão."
O AMANTE

''Nada os atingirá.''
AGATHA

''Porquê negar evidentemente a necessidade da memória?"

HIROSHIMA MEU AMOR

Já não era ele. O grande viajante de S.Thala, o príncipe do Ganges, o barqueiro do Mekong, o elegante diplomata bengalês, o desejável desconhecido das Indochinas, o estranho da praia, o belo chinês que lhe iniciou o corpo ao fim da tarde, num quarto quente em Laos. Todos variações do mesmo nome, o nome desse primeiro homem lançado sobre todos os outros. (O seu nome de Veneza numa Calcutá deserta.) Um duplo ataque do Tempo : neles agora o peso de não terem chegado antes. Nela, sempre a busca vã pela vida já vivida. Embarquei com ele, feliz de ser como todas as outras. (...) Tudo foi pensado depois, no barco de volta a França : amei-o sem dúvida. (...) Era muito muito forte. Era para toda a vida.

''Dás-me um grande desejo de amar.''
HIROSHIMA MEU AMOR

 Moderato Cantabile, Peter Brook, 1960

''enquanto nada acontecer entre eles, a memória está amaldiçoada com o que não aconteceu.''
OLHOS AZUIS, CABELO PRETO

Das tuas mãos incessantes, uma caneta e um copo. Viajas de pernas torcidas nos cafés, e ignoras o jornal dia após dia. Contra o rodopio do mundo vivo, a tua missão é a de ir inventando a própria memória : a guerra acabou, o país já não existe, tu voltaste da colónia. Ele onde está?  (- Por ti, meu amor, estou às mãos de ser.) Tu escreves, Marguerite (para sempre, destinada a chamar ''meu amor'' a uma página em branco). 
Foste tu quem em India Song / Son Nom de Venise nos explicou como os nomes próprios são fôlegos muito secretos em espera, são feitiços que a língua vicia entre sussurros e suspiros, para dentro de si. Numa palavra um sopro e a memória faz-se numa esperança de amanhã. (Deste nome, um rosto. Deste outro, um espelho.)




India Song (Marguerite Duras, 1975) 

O romance é um trabalho do espírito. Vive do concretismo do poder erótico e replica-o : o erotismo é, em primeiro lugar, intelecto projectado sobre um corpo, um rosto, um pormenor como uma tela branca pronta a abrir-se à imagem do sonho lúcido. A paixão é um enredo em que se entra com vontade de vestir ostensivamente as faltas e os limites, uma narrativa calada a ser completa pelo estado de encantamento. Os olhos encantados procuram afundar-se - pelo prazer, curar-se de um mundo e afogar-se noutro. Que esteja sempre aberta a vontade de ver, e que o projecto avance com a minúcia de imaginar tudo o que ficou por experimentar. 
O teu trabalho, Marguerite, é literal - escrever romances. Doar páginas de onde se extraem lembranças de mundos primeiramente teus. Procurar sentidos universais nos corpos interrompidos, essas faltas de onde o erotismo nasce. E depois as pessoas que tão bem escreves serem peles que largas para a leitura vestir. E aí, tudo muda. Aí, acredita-se.

Il dialogo di Roma (Marguerite Duras, 1983) 

Mas, se o idealismo é o primeiro mandamento do espírito aberto, é mais fácil detalhar a beleza na nostalgia das horas cada vez mais longínquas. A paixão não é afinal a história de criar deuses na terra? O desejo é um treino da imaginação e todos os corpos implicados têm o mesmo protagonismo nestas danças ambíguas de encontros e fugas. Cada qual irá plantar para si as suas expectativas, abrir os dedos, largar as roupas e fingir o amor - e um dia, este amor será verdadeiro e um dia, afastados entre si os corpos, este amor será perfeito. Foi isto que Duras nos ensinou, lembrando como o desejo vive da ausência e como o tempo é matéria de modelação da memória : até à idealização que melhor servir o propósito de contar a história (e toda a História é distância). E depois perceber que a ficção constrói o real - e que há, de facto, horas perfeitas como filmes. 


La Femme Du Gange, Marguerite Duras, 1974

Todos os Verões sonhamos os Verões de Marguerite : os mesmos quartos de praia tão vazios de amor como os corpos ansiosos das mulheres ainda jovens que só toleram a perfeição por chegar. De olhos postos no mar, a súbita palavra certa que sempre ficou por ouvir. Que estas são as mesmas ondas de Virginia, os batimentos da possibilidade. Agatha et Les Lectures Illimitées também é sobre amar profundamente sem saber a quem. Recolher as flores para quando Alguém chegar, animar as horas com visões e dedicar eternidade fiel a um amor sem rosto certo. O romance é uma das mais extraordinárias formas de idealismo: tem ambição de infinito. E na voragem de sentir desenfreadamente até, àquela hora, querer morrer de amor nos lençóis onde o mundo parece ter acabado, foi o caminho para o fim o que, por um instante breve, ali se interrompeu. 





Um fio apanhou um fio:  / separamo-nos enlaçados. (Paul Celan)






HIROSHIMA, MON AMOUR

Os problemas dos espíritos cruzam os mesmos caminhos : o pensamento vicia círculos para voltar sempre às suas fundações, às suas verdades imutáveis porque, para o pensar, nunca se parte sem nada. E é porque os mesmos temas, lugares e sujeitos ressurgem no mundo de Duras que é comum ouvir-se  que ela é uma cineasta repetitiva ou uma escritora medíocre. Injustiças, quando foi das poucas que deu a ver, crua e lancinantemente, quão irremediável é a incompletude do corpo, mesmo que animada pelas pequenas afeições que se acreditam reais nos romances fechados nos livros e nos filmes. Por enquanto, deixou-nos num último fundo de fé : um futuro que se espera é uma salvação que não chegou ainda. 

As Mãos Negativas, Marguerite Duras (1979)



tu m'as coûté les yeux de la tête

J'ai peur de ne prendre intérêt à rien du tout
Mais à personne
Je ne m'en irai plaindre même pas à vous
Belle personne
Vous que j'aime, que j'aimerai, que j'ai aimée
Plus que personne
Vous qui faites l'innocente vous le savez
Mieux que personne

Non jamais je n'aurais dû porter la main sur
Votre personne
Il me fallait me maîtriser, être plus sûr
De ma personne
Pour qui me prenez vous, mais non je n'en dirai
Rien à personne
Croyez-moi je vous ferai passer pour une ai-
Mable personne
Bien sûr, si je vous dis tout ceci, je ne veux
Blesser personne
Ce sont là quelques vérités qui ne font de
Mal à personne
Peut-être aurais-je dû vous les dire à la troi-
Sième personne
Je reconnais que je suis assez maladroit
De ma personne

Jamais plus je n'aimerai comme je t'aimais
Ma belladone
Oui, tu m'as coûté les yeux de la tête, mais
Je te pardonne
Je ne dois et je crois bien n'avoir jamais dû
Rien à personne
Jamais je ne me suis aussi bien entendu
Qu'avec personne


Personne, Serge Gainsbourg

meus olhos / de repente / comovidos



«As coisas que me cercam, silenciosas/

São almas a chorar, que me procuram» 
( Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea)


Fräulein Else, Paul Czinner, 1929

C'était bien l'enfer.

N'eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d'or, - trop de chance ! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle ? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m'expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave MariaJe ne sais plus parler !
Pourtant, aujourd'hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C'était bien l'enfer ; l'ancien, celui dont le fils de l'homme ouvrit les portes.
Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l'étoile d'argent, toujours, sans que s'émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur l'âme, l'esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer - les premiers ! - Noël sur la terre !
Le chant des cieux, la marche des peuples ! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

Rimbaud

La Vie Nouvelle , Phillppe Grandieux

''O teu fantasma passa nos espelhos''




 People Will Talk, Joseph L. Mankiewicz, 1951

São aves cheias de abismo / Como nos sonhos as há.

Night of the demon, Jacques Tourneur, 1957


''Où est-elle ? aux lieux impossibles, dans la forêt des ronces, sur la lande, où l’épine, le chardon emmêlés, ne permettent pas le passage. La nuit, sous quelque vieux dolmen. Si on l’y trouve, elle est encore isolée par l’horreur commune ; elle a autour comme un cercle de feu. Qui le croira pourtant ? C’est une femme encore. Même cette vie terrible presse et tend son ressort de femme, l’électricité féminine. La voilà douée de deux dons : L’illuminisme de la folie lucide, qui, selon ses degrés, est poésie, seconde vue, pénétration perçante, la parole naïve et rusée, la faculté surtout de se croire en tous ses mensonges. Don ignoré du sorcier mâ- le. Avec lui, rien n’eût commencé.''
Jules Michelet — La sorcière (1862) 


 Faust, Murnau, 1926


Night of the demon, Jacques Tourneur, 1957

''« Nature les a fait sorcières. » — C’est le génie propre à la Femme et son tempérament. Elle naît Fée. Par le retour régulier de l’exaltation, elle est Sibylle. Par l’amour, elle est Magicienne. Par sa finesse, sa malice (souvent fantasque et bienfaisante), elle est Sorciè- re, et fait le sort, du moins endort, trompe les maux. Tout peuple primitif a même début ; nous le voyons par les Voyages. L’homme chasse et combat. La femme s’ingénie, imagine ; elle enfante des songes et des dieux. Elle est voyante à certains jours ; elle a l’aile infinie du désir et du rêve. Pour mieux compter les temps, elle observe le ciel. Mais la terre n’a pas moins son cœur. Les yeux baissés sur les fleurs amoureuses, jeune et fleur elle-même, elle fait avec elles connaissance personnelle. Femme, elle leur demande de guérir ceux qu’elle aime. ''
Jules Michelet — La sorcière (1862) 

The Seventh Victim, Mark Robson, 1943

The Seventh Victim, Mark Robson, 1943

Cat People, Jacques Tourneur, 1942

Que sa fidélité lui coûte !... Reines, mages de la Perse, ravissante Circé ! sublime Sibylle, hélas ! qu’êtes-vous devenues ? et quelle barbare transformation !... Celle qui, du trône d’Orient, enseigna les vertus des plantes et le voyage des étoiles, celle qui, au trépied de Delphes, rayonnante du dieu de lumière, donnait ses oracles au monde à genoux, — c’est elle, mille ans après, qu’on chasse comme une bête sauvage, qu’on poursuit aux carrefours, honnie, tiraillée, lapidée, assise sur les charbons ardents !... 
Jules Michelet — La sorcière (1862) 

The Woman on the Beach (Jean Renoir, 1947)


The Leopard Man, Jacques Tourneur, 1943

The Devil's Hand ( William J. Hole Jr, 1961)


''Certains auteurs nous assurent que, peu de temps avant la victoire du christianisme, une voix mystérieuse courait sur les rives de la mer Égée, disant : « Le grand Pan est mort. » L’antique Dieu universel de la Nature était fini. Grande joie. On se figurait que, la Nature étant morte, morte était la tentation. Troublée si longtemps de l’orage, l’âme humaine va donc reposer.''


Le tempestaire (Jean Epstein, 1947)


D’où date la Sorcière ? je dis sans hésiter : « Des temps du désespoir. » Du désespoir profond que fit le monde de l’Église. Je dis sans hésiter : « La Sorcière est son crime. » 
Jules Michelet — La sorcière (1862) 


I Walked with a Zombie, Jacques Tourneur, 1943

 ''Osiris meurt, Adonis meurt, il est vrai, pour ressusciter. Eschyle, sur le théâtre même, dans ces drames qu’on ne jouait que pour les fêtes des dieux, leur dénonce expressément, par la voix de Prométhée, qu’un jour ils doivent mourir. Mais comment ? Vaincus, et soumis aux Titans, aux puissances antiques de la Nature. ''

  Carnival of Souls, Herk Harvey, 1962


Haxan, Benjamin Christensen, 1922

 ''Ils sont des démons... » — Donc, ils vivent. Ne pouvant en venir à bout, on laisse le peuple innocent les habiller, les déguiser. Par la lé- gende, il les baptise, les impose à l’Église même. Mais, du moins, sont-ils convertis ? Pas encore. On les surprend qui sournoisement subsistent en leur propre nature païenne. Où sont-ils ? Dans le désert, sur la lande, dans la forêt ? Oui, mais surtout dans la maison. Ils se maintiennent au plus intime des habitudes domestiques. La femme les garde et les cache au ménage et au lit même. Ils ont là le meilleur du monde (mieux que le temple), le foyer.''

Maniac, Dwain Esper, 1934


 ''Ils lui parlent ; nous savons de quoi. Ils réveillent en elle les choses que lui disait sa mère, sa grand-mère, choses antiques, qui, pendant des siècles, ont passé de femme en femme. C’est l’innocent souvenir des vieux esprits de la contrée, touchante religion de famille, qui, dans l’habitation commune et son bruyant pêle-mêle, eut peu de force sans doute, mais qui revient et qui hante la cabane solitaire. Monde singulier, délicat, des fées, des lutins, fait pour une âme de femme. Dès que la grande création de la légende des saints s’arrête et tarit, cette légende plus ancienne et bien autrement poétique vient partager avec eux, règne secrètement, doucement. Elle est le trésor de la femme qui la choie et la caresse. La fée est une femme aussi, le fantastique miroir où elle se regarde embellie.''



 Dracula, Tod Browning, 1931

Elles sont bonnes, elles sont mauvaises et pleines de fantaisies. A la naissance d’un enfant, elles descendent par la cheminée, le douent et font son destin. Elles aiment les bonnes fileuses, filent elles-mêmes divinement. On dit : Filer comme une fée.

 Night of the demon, Jacques Tourneur, 1957


Haxan, Benjamin Christensen, 1922


 Faust, Murnau, 1926

 The Devil's Circus, 1926, Benjamin Christensen

''Elle enferme dans son cœur le souvenir, la compassion des pauvres anciens dieux tombés à l’état d’Esprits. Pour être Esprits, ne croyez pas qu’ils soient exempts de souffrances. Logés aux pierres, au cœur des chênes, ils sont bien malheureux l’hiver, ils aiment fort la chaleur. Ils rôdent autour des maisons. On en a vu dans les étables se réchauffer près des bestiaux. N’ayant plus d’encens, de victimes, ils prennent parfois du lait. La ménagère, économe, ne prive pas son mari, mais elle diminue sa part, et, le soir, laisse un peu de crème. ''

Night of the demon, Jacques Tourneur, 1957