quarta-feira, 30 de agosto de 2017

GLADLY BEYOND




somewhere i have never travelled,gladly beyond

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

domingo, 27 de agosto de 2017

All we ever wanted was everything.



Paterson (regresso de Jarmusch a Jarmusch)

''Paterson é um filme sobre poesia que não tem nenhuma literatura.''
Eduardo Lourenço 

sábado, 26 de agosto de 2017

Only rebelling.

Wine of Youth, King Vidor, 1924

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

FAROESTE 66: coreografia cinematográfica para dois sóis em fuga







Faroeste 66

COREOGRAFIA CINEMATOGRÁFICA PARA DOIS SÓIS EM FUGA

(Mary, the not so empty heart, a esgotar Agosto e a correr com os blues na madrugada de 24.8.2017)


1.
Largo afundando américa pela 66
e expulso da cabeça a inteireza.
Perco matéria enquanto subo a pulso no wild side
across the Mississippi across the Tennessee
sei tudo sobre esses dias perdidos para o sol posto
(cansei de fotografar postais, baby
agora assino contos de amor e sangue
- e tu?
escreve-me Lou.)


Corto a cena em azul chevy
sunchasing para noroeste no horizonte expandido
e às vezes finjo que é 1955 e o velho deserto alinha na farsa:
- St Dean vive ainda.


Miro a Daisy do diner, a gente troca desabafo de mulher separada
e eu afio a faca e apresento-me
- sou profissional da fuga
- going somewhere or just going?
estou feita outra
só os hotsweats não me deixam dormir
- pode ser que eu volte, Lou.


O alfabeto do meu fumo negro comunica com os velhos espíritos dos planaltos e
e eles ensinam-me vales e lumes e símbolos montanhosos e eu
gravito na brasa a sós e a diesel, com o pensamento em ti e um grande canyon de cada lado.


No calo arruaceiro deste cosmos, é chapa ganha, chapa gasta e o catecismo é de carne:
há sereias a assobiar dos becos, há filhos de Ferlinghetti a profetizar na batota,
há bermas de Thoreaus do backpack e neohippies à procura de Vedder no verde.
Cai a meia-noite na inquietude forasteira e a hidromancia do Niagara levanta uma missa de dançar:
- sei que sabes tudo sobre esta sede, Lou.


Naquela noite,
dirigi a estereoscopia ao relento e
dormi em Monument Valley numa versão western de Mrs. Muir,
unha de fantasma com John Wayne e um cobertor. (- no crime to be alive.)

Sinto-me em casa para lá do Wyoming
- ainda devo ter guelra cherokee, não achas?
peso no pedal, vôo sem depois no cortar das areias e vou morar onde o vento quiser
peregrina de cinema, bebo ao vivo a epopeia de cada coisa e invento pontos cardeais
nos ditirambos happy-end do rei Vidor
nos peitos furados a tiro por Ford
nas labaredas de um armistício consumado em Walsh
nas carabinas nupciais de Mann


A caravana avança, o auto-rádio sintoniza Lucifer e a minha raça vai cair ao trailerpark.
Baptiza-me uma roda de junkies e de jailbirds, de beats e de belles,
de vagabundos do darma e de rebeldes de causa vária
e eu acredito neles
como acredito que Nick Ray acabou aqui os dias
- we can’t go home again.

A vida é melhor quando não dá para luxos
a gente enfeita-se menos com leis grandes e pequenas e
não há crise que uma rodada não cure
- agora pago eu, depois pagas tu
siga.


Um dia, fui à boleia de um deus, Shenandoah,
na rasante de um pássaro do canal
abri a regra de par em par, alinhei a líbido pela brisa e de joelhos para sul
entrei mártir num mantra nativo:


(desculpa a caligrafia feia, Lou, queimei o polegar no forno da Cynthia e ainda dói:
- sopras?)


Treino no ecrã sempre ligado a arte de observar à distância e
vou emprestando flirts às psico-portas do Huxley.
De resto, sigo secreta na minha vidinha
insone como quem reina sobre o que não pode ser esquecido


2.
Recuo a manobra até ao grande século de os ver chegar
: a barca dá à costa e abre-se de
anarcas, sindicalistas, libertinos, transcendentais, socialistas, satânicos, comunas, ateus, ladrões, vadios, animalescos, puritanos, gananciosos, cantores folk, individualistas, colombos, gold-rushers, piratas, bêbedos, radicais, filósofos, mafiosos, lobos maus, humanitários, existencialistas, utópicos, cristãos, fedelhos, perversos, estudiosos, operários, velhos do mar, negreiros, latifundiários, agiotas, excitados, poetas, desgovernados, charlots, steamboat willies, boys named Sue, deportados, tarados, exilados, judeus, colonos, apátridas, etcs e tais,
todos com fome de erguer selvajaria onde ainda se podia.


Great mother of disorder, Proudhon estava certo: o homem-livre é automático.
À beira de tudo o que parece possível, o pulmão inaugural prega remakes ao recém-nascido
e o novo mundo começa agora,
com o cadastro a zeros e um punhado de Internacionais à boca-de-cena:
- a sociedade por fazer é o poema a encher-se.


enrolo um cigarro com o Iggy na rota interrompida e
ensaiamos nas esquinas da noite, recolhendo provas do coração claro dos homens:
- os pioneers foram os primeiros punks
- às tantas, mas esqueceram ao que vinham
- ainda guardam os pássaros sem nome
- precisam deles mais do que nunca

Faço casa em cada rosto porque em cada rosto encontro a terra prometida,
essa ilha inata, esse Stagecoach perpétuo,
esse Woodstock 69 free pass, esse carrossel dos sangues todos, essa geração sem genealogia.
Estes caravanistas montam barraca e américa em qualquer lado
porque sabem como se abrigar no prego-a-fundo:
- o yankee é cidadão do mundo.

Easyriding, segui as pistas da harmónica de Dylan e
como nunca me soube calar, vim cá parar para derrubar estes dias do ódio:
- se quiserem erguer mais muros no peito da terra
vão ter de assentar betão nos meus ossos, motherfuckers.


3.
Quando eu nasci, já Deus tinha morrido
mas ainda houve quem visse a virgindade vegetal destas planícies e outros viços dos homens natos.
Era o tempo dos mapas por fazer:
em horizontes largos que cheguem para todos, replica-se o milagre encontrado e
a utopia é o envio dos sitiados: os braços experimentam atalhos para o futuro
- homens a sair de escravos em Noshoba
- um alter-cristo para os Harmonies do Indiana  
- a extinção da moeda em Modern Times
- a autonomia comunal do Ohio
- o amor livre nas Phalanx do Fourier
e outros pasmos descontinuados da primeira gestação.

é uma corrida: as ideias despicam-se com o tempo
mas a liberdade teima como a mais memorável música e
toda a ronda chega até aqui,
a este céu-em-dia, a este asfalto a três, a este bacanal de rolamentos,
a esta idade sem idade que vai dar à Two Lane Blacktop.
(todos os dias são dias de começar or i’m gonna die from trying.)


4.
Fundiu-se a lâmpada do candeeiro e eu tenho-me esquecido de a trocar e
para não entrar já em treva (she’s so heavy), pesquiso paraísos na última sessão do drive-in:
- resisto, exilo-me na utopia de todos os dias
emolduro as luzes
dou corda à cauda
- foi ficção nossa, telhado a mais para estas três europas a arder.


somos o que nos tornámos:
sangue com os outros, animais a meio caminho, colegas no incessante,
frentes de ataque olho-por-olho, pilotos da estrada prática, alvos para pistoleiros,
delinquentes de punhal no bolso, milicianos do livre-arbítrio:
- uma casa de cowboys está sempre vazia.


5.
#ontheroad mas ainda assim, baby
e os hotsweats apertam como uma coroa de espinhos, esticados na noite em cinema de ser
(esta guerra irreparável
tem o alto patrocínio do gene romântico da minha avó:
esse good looking son of a gun chamado Elvis)
mato a canção com os dentes
que sacaste à baleia de Jonas mas
a cerimónia escala pela febre: apareces em linho gladiador e nisto
dançamos uma morninha das nossas, colados ao último equador que te viu nascer.

Encontro-te no sofá da sala, enrolado no gato,
bebendo cachaça e estudando a queda dos Austro-Húngaros  
engendrando no franzido uma táctica terminal contra todos os impérios.
Sei que estás de mala feita para a próxima revolução
e que não voltas tão cedo.
Vais desenterrar na Toscânia as barbas de Leopoldo,
mas acabar perdido na flama aljubarrota de uma italiana que ainda é bisneta da Maria Roda.  
Vais bater milhas de Harley para dentro da floresta negra
numa de ir rebentar a petardo a escadaria KKK da Zschäpe
e depois subir pela Mancha com os WOMBLES
para ir bradar contra a corja corporativa numa antestreia do Al-Gore em Greenwich.


you little troublemaker
you little heartbreaker


Noutra primavera em tempo útil,
tropeçamos no lamaçal filosofal de uma manif da Greenpeace e
às costas da Córsega, afundamos tudo a rir
medindo cicatrizes, queimando a roupa, destilando unção da maré negra e bebendo à nossa
- é o diabo isto (lá vamos nós outra vez)
as sombras seguem-nos e tudo recomeça


6.
(sempre fomos assim,
sempre amámos mais depressa o que nos é longínquo.)


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Peace of mind.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

no one is invited - repeat

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Tempo para nascer e também tempo para viver e morrer


O Chapinhar do tempo
Noémia de Sousa

Tempo para nascer
e também tempo para viver
e morrer

É preciso tempo
para crescer nas coisas sérias
nas coisas mescladas de harmonia
tempo para amar a miséria
e as lágrimas derramadas
nos púcaros sagrados da esperança

É preciso tempo
para ser aquilo que não nos deixam ser
e também tempo para vencermos
as fadigas e indômitas teimas
vazadas em catadupas

É preciso tempo
para se provar à humana criatura
a nossa valia o nosso fervor
na castiça mas chata caminhada
marca vida

É preciso tempo
para se repudiarem
ódio e inveja
arrogância e altivez
e também tempo
para nos identificarmos
com os labirintos crassos
emergidos da dor incompreendida

É preciso tempo
para incondicionalmente
aliarmos os redondeis
e valermos nas tempestades
como também nas honras e lisonjas

Como o chapinhar do tempo
nós seremos e sempre
a filosofia garante do tempo presente.

sábado, 19 de agosto de 2017

(esperamos no futuro.)


The New World, Terrence Malick, 2005
La Folie Almayer, Chantal Akerman, 2011
Embrace of the Serpent, Ciro Guerra, 2015 
Fitzcarraldo, Werner Herzog, 1982
The Lost City of Z, James Gray, 2016






quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Summer.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

AR DOS TEMPOS



WHAT is your image? WHAT are you?

Ici et Ailleurs, Godard, 1976

Je tu il elle, Chantal Akerman, 1974

"And I wonder, I wonder, WHAT I am...."
Efterklang, Hollow Mountain







A Insurreição que Vem, Comité Invisível