domingo, 17 de junho de 2018

''Come out od your auto alienation''


 Le Redoutable, Hazanavicius, 2017


Piquena Refexão sobre a Crítica de Cinema:

Ser um bom crítico não é desgostar constantemente, fazendo uso da verve treinada para tornar mais um texto em mais um exercício masturbatório de lancinantes-precisamentes que, à partida, já se sabe dorminar com eloquência e sem esforço. Não é mais sofisticado de gostos o que não gosta de nada: o melhor crítico, para mim, é o que não aparece constantemente de impermeável vestido, estupidamente zelando por se apresentar de intelecto acabado. O melhor crítico é esponjoso, jovem como os jovens, passando ao lado desses bafios nostálgicos de um-ontem-melhor-do-que-o-hoje e, à altura da sua letra, amplificando entre ecos o entusiasmo constante de quem acredita que o cinema ainda o é. Essa é, aliás, a única forma de um crítico acordar de manhã para, durante mais um dia, ser crítico. Digo eu.

sábado, 16 de junho de 2018

Nouvelle vague, Jean-Luc Godard, 1990

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Stereodox: to share a bit of moon with me

smart people being smart.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

STEREODOX - ''This is a journey and we call it home''


''...
We're breaking promises we thought we could keep
We trigger avalanches unknowingly
We travel in and out, we take off, we land
We live in airports like we don't have a plan
This is a journey and we call it home
...''

quarta-feira, 13 de junho de 2018

''A pele demasiado larga para a carne.''



Do tempo
Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar, e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


in Lérias (Lisboa: Averno, 2011)

''Esqueço porque o que se esquece não nos magoa.'' Pedro Mexia

Daisuke Yokota

terça-feira, 12 de junho de 2018

''Passámos a falar de amor.''



Shop Around the Corner, Lubitsch, 1940

STEREODOX: ''I wanna line my walls with photographs you sent''

segunda-feira, 11 de junho de 2018

''...a força vertical de ser quem sou...''

As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.
O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.
Sem sílabas de água, avança até ao outono.
Uma árvore estende os ramos. As nuvens
[ subsistem.
O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante
Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,
uma árvore se desloca com a alegria das folhas.
Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.
Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz
da testa do cavalo, a eternidade férrea,
o ser em explosão e eu tão leve folha
na sombra deste ser animal vegetal
busco a razão perfeita, a humildade estática,
a força vertical de ser quem sou e o ar.
António Ramos Rosa, em "Círculo Aberto" (1979)

domingo, 10 de junho de 2018

voilá.

Miyako Ishiuchi

"Só gosto das pessoas boas 
quero lá saber que sejam 
inteligentes artistas sexy sei lá o quê 
se não são boas pessoas 
não prestam" 
Adília Lopes

quinta-feira, 7 de junho de 2018

STEREODOX: Present Tense

This dance
This dance
Is like a weapon
Is like a weapon
Of self-defense
Of self-defense
Against the present
Against the present
The present tense
No I won't get heavy
No don't get heavy
Keep it light and
Keep it moving
I am doing
No harm
As my world
Comes crashing down
I'll be dancing
Freaking out
Deaf, dumb, and blind

In you I'm lost
In you I'm lost

domingo, 3 de junho de 2018

...Pois pensar é o mesmo que existir.



 The Passenger, Antonioni, 1975

[versos de PARMÉNIDES traduzidos por ALBANO MARTINS]

Pois bem, eu vou falar, e tu escuta e retém as minhas palavras,
que te ensinarão as duas únicas vias do conhecimento que é possível conceber.
A primeira é o que é e que não pode deixar de ser.
É a via da persuasão, companheira da Verdade.
A segunda é o que não é e como é forçoso que não exista.
Digo-te: esta via é uma senda que não se pode percorrer.
Pois não poderás conhecer o que não é
nem exprimi-lo por palavras.

...Pois pensar é o mesmo que existir.

(in 'Antologia da Poesia Grega Clássica', Portugália editora, 2010)

quinta-feira, 31 de maio de 2018

#FERIAR


So Is This (1982, Michael Snow)

Cinetrácts (1968, SLON)

From the life of the marionettes (1980, Bergman)

Fugazi - I'm so tired

sábado, 26 de maio de 2018

''Tentou na palavra o extremo-tudo''







''Pelo Fim da Tarde"- João Miguel Fernandes Jorge


O escritor e seus múltiplos vêm-nos dizer adeus.
Tentou na palavra o extremo-tudo
E esboçou-se santo, prostituto e corifeu. A infância
Foi velada: obscura teia da poesia e da loucura.
A juventude apenas uma lauda de lascívia, de frêmito
Tempo-Nada na página
Depois, transgressor metalescente de percursos
Colocou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra
Poupem-me os desperdícios de explicar o ato de brincar.
A dádiva de antes (a obra) excedeu-se no luxo.
O Caderno Rosa é apenas resíduo de um “Potlatch”.
E hoje, repetindo Bataille:
“Sinto-me livre para fracassar”.

Hilda Hilst, na quarta capa de Amavisse, 1989

O que é esse Isso




Ou este. Mas um destes dois.
"O que é a carne? O que é esse Isso
Que recobre o osso
Este novelo liso e convulso
Esta desordem de prazer e atrito
Este caos de dor dobre o pastoso.
A carne. Não sei este Isso.
O que é o osso? Este viço luzente
Desejoso de envoltório e terra.
Luzidio rosto.
Ossos. Carne. Dois Issos sem nome."

HILDA HILST

sexta-feira, 25 de maio de 2018

truly something.




"devia chorar quando penso no cinema... convida às lágrimas, e não ao riso."
Adieu Philippine (1962), Jacques Rozier

quinta-feira, 24 de maio de 2018

''à flor de todos os écrans / que os meus contemporâneos ligam e desligam''

 Poemfield No. 2 (1966, Stan VanderBeek)

Zeitgeist
Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, para conservarem
o equilíbrio físico e mental.
Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
plo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pla madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acedia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.
Fernando Pinto do Amaral

quarta-feira, 23 de maio de 2018

''Sempre. Dormiram, acordaram, esgotaram-se. Vivem na escuridão, no vácuo. Têm mãos. Respiram sombriamente sobre as mãos. Depois param.'' Herberto Helder


terça-feira, 22 de maio de 2018

''a memória levanta a onda morta''








STEREODOX: ever so great