quinta-feira, 29 de outubro de 2020

as asas espancando o negro plástico, flap, flap, flap.

Aves devoram o lixo.
Debatem-se sob o peso da gula
investindo ciladas, disposições
de onde se isenta a alma.
Flap, flap, flap, fazem asas
no negro plástico. Tu paras.
Por vontade alheia observas.
Por aforismos sagras
as razões dos que desesperam.
O que faz a poesia?
Remir e remir e remir
como as asas espancando
o negro plástico, flap, flap, flap.
(Luís Quintais, Angst)

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

o espaço onde esta mesa de verga / gira nas grandes nebulosas.

Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

the color of time

 


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Quando vamos começar verdadeiramente a falar sobre a relação entre REDES SOCIAIS e DEPRESSÃO?

 

The Social Dilemma, Jeff Orlowski 2020

sábado, 5 de setembro de 2020

''The world is sated with the world''


Sergei Parajanov, The Colour of Pomegranates

Lo, I am drunken with thy love! I wake, but my heart sleeps.
The world is sated with the world; my heart its hunger keeps.
What shall I praise thee by, when naught is left on earth, save thee?
Thou art a deer, a Pegasus sprung from the fiery sea!
—Sayat Nova, ‘Love Song’

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

STEREODOX - Please don't go

 

 https://www.youtube.com/watch?v=dL60VXOXtSQ&fbclid=IwAR3Sbyv3kegxvef3Skl16tH95SJpPKrBDRW2K8hyGQE6lh9nAOTG7pRxiHA

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

STEREODOX - That's why

domingo, 23 de agosto de 2020

Sempre actos e coisas que nos ajudam / neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje / e a nossa morte



Energia e Ética - Gonçalo M.Tavares
Sei isto: a minha energia está canalizada
Para a palavra fazer, gosto da ideia da construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sítio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às de que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
- e é talvez uma moral -
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar abaixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço de onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.

''Os escravizados pela minha família''

sábado, 15 de agosto de 2020

your pain is neverending. is it still the same?

terça-feira, 11 de agosto de 2020

11.8.2020 / A Associação Portuguesa de Serviços Técnicos para Eventos (APSTE) manifesta-se no Terreiro do Paço



segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Serve-se morto.

Pattes BLANCHES, Jean gremillon, 1949


RECEITA PARA FAZER UM HERÓI

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.