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Próximos Programas na Galeria


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In a Lonely Place, Nick Ray, 1950

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão. 


Vergílio Ferreira, in 'Pensar' 
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Autobiografia
Vejo o meu pai, no limite da minha infância, dobrar a porta do pátio, com um baú de folha na mão. Vejo-o de lado, e sem se voltar, eu estou dentro do pátio e não há, na minha memória, ninguém mais ao pé de mim. Devo ter o olhar espantado e ofendido por ele partir. Mas alguns meses depois o corredor da casa da minha avó amontoa-se de gente, na despedida de minha mãe e da minha irmã mais velha que partiam também. Do alto dos degraus de uma sala contígua, descubro um mar de cabeças agitadas e aos gritos. Estou só ainda, na memória que me ficou. Depois, não sei como, vejo-me correndo atrás da charrete que as levava. O cavalo corria mais do que eu e a poeira que se ia erguendo tornava ainda a distância maior. Minha mãe dizia-me adeus de dentro da charrete e cada vez de mais longe. Até que deixei de correr. Dessa vez houve choro pela noite adiante - tia Quina contava, conta ainda. Mas não conta de choro algum dos meus dois irmãos que ficavam também. Deve-me ter vibrado pela vida fora esse choro que não lembro. É dos livros, suponho. Depois a infância recomeçou. Três irmãos, duas tias e avó maternas, depois a vida recomeçou. Mas toda essa infância me parece atravessar apenas um longo Inverno. É um Inverno soturno de chuvas e de vento, de neves na montanha, de histórias de terror, contadas à luz da candeia no negrume da cozinha, assombrada de tempestade. Até que um dia um tio de minha mãe, que era padre na aldeia, se pôs o problema de eu não ser talvez estúpido. E imediatamente se empolgou para me consagrar ao Altíssimo. E para me ir desbravando a alma, juntamente com a doutrina, atacou-me a memória com o latinório todo da missa. Aprendi-o sem falhas, ia eu nos seis anos. E quando aos sete o fui ver esticado na cama, a face toda negra, e me obrigaram a beijar-lhe a mão morta, já tinha o destino talhado para o Senhor. Minhas tias apoderaram-se logo de mim, negligenciando um pouco os meus irmãos, e sufocaram-me de religião. Na instrução primária cumpri. Deus mostrava à evidência que me chamava ao seu serviço. Era forte em contas, mais atrapalhado em História, de qualquer modo, os desígnios de Deus eram evidentes. E assim, para se cumprir a sua vontade, parti. Ficava à distância de um dia de comboio, o Seminário. Saio na estação ao anoitecer, há uma multidão de seminaristas à minha volta, todos vestidos de preto. Estou entre eles, não conheço ninguém. Avançamos pelo escuro estrada fora, no tropear confuso de uma enorme massa negra. O Seminário espera-nos numa curva da estrada. É um casarão enorme, olho-o do fundo do meu pavor. Há Outono à minha volta, respiro-o agora em todo esse passado morto, nos castanheiros a desfolharem-se na cerca, no espaço dos salões, nos longos corredores ermos, nos ângulos cruzados pelos espectros perfeitos. Mas seis anos depois, levantado de heroísmo, saí. Fiz o liceu, entrei na Universidade. Mas não o fiz assim em três palavras como o faço aqui. Meu irmão corpo. Como foi difícil acomodarmo-nos um ao outro. A vida que me coube não a pude utilizar toda. Numa fracção dela acumulei assim aquilo com que se realiza - o sonho, o trabalho, a alegria.
E eis que se me levantam os sete anos de Coimbra. Sombrios, longos, penosos. Mas o que acede desse tempo à evocação tem apenas o halo de uma balada. Ruas da Alta, e a Torre, e o plácido rio do alto da Universidade, e os mestres que eu julgava um prodígio da Natureza, quando cheguei à cidade, e fiquei a julgar também, a vários deles, quando saí, mas com outro sinal, e a praxe estúpida, e os namoros estúpidos, e a descoberta, enfim, da literatura, que só então descobri, embora trabalhasse há muito o verso com obstinação, e as tertúlias, as rixas, o próprio futebol, as próprias desgraças físicas - tudo me ressoa agora a uma toada de legenda. Da festa juvenil, como da festa literária eu só conhecia as margens do rumor que transbordava da alegria dos outros. Isso basta, porém, a que a legenda se me levante e o seu eco me ondeie ao espaço da evocação. Assim Coimbra, só no ressoar do seu nome tem já um timbre de guitarra. Música de miséria, não é nela que eu a ouço, mas no passado que a transcende e é da memória inatingível, da memória absoluta. Coimbra da saudade difícil, Coimbra de sempre e de nunca. Comigo a levei, longo tempo me acompanhou, presente, obsessiva. Mas havia tanta coisa ainda à minha espera. Faro do ar marinho, da laguna das águas mortas, Bragança das invernias, Évora, Lisboa. Professor sou-o por fatalidade. Mas alguma coisa se me impõe na avidez dos alunos que me escutam, na necessidade de responder à sua descoberta do Mundo - e assim me invento o professor que não sou, e eles imaginam em verdade o que é em mim só ficção. Mas dos centros de irradiação da minha actividade, apenas Évora transbordou de emoção para a lembrança. E como a Coimbra, é de novo a música, agora o coral dos camponeses, que a levanta ao espaço da minha comoção. Ouço-o ainda agora, a esse coro de amargura, raiado à infinidade da planície. Évora do silêncio com sinos nas manhãs de domingo, estradas abandonadas à vertigem da distância, ó cidade irreal, cidade única, memória perdida de mim. Sou do Alentejo como da serra onde nasci, a mesma voz de uma e outra ressoa em mim a espaço, a angústia e solidão.
E a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que se lá viva há 18 anos como eu. Eu o disse, aliás, a alguém, na iminência de vir: quando for para Lisboa, levo a província comigo e instalo-me nela. E assim se fez. Os livros que aqui escrevi são afinal da província donde sou. Terrorismo do trânsito, das relações pessoais, da luta em febre pela glória por que se luta ou do ódio surdo pela que calhou aos outros, terrorismo das distâncias, das relações humanas ao telefone, das cartas que nos escrevemos para de uma rua a outra ao pé, da cultura tratada a uísque nos salões do mundanismo, da individualidade perdida, da vida massificada. Vejo-me numa enfermaria do hospital, acordando estranhamente de não sei que tempo de inconsciência, com vários médicos conversando entre si e sobre mim. Pergunto de que se trata, porque estou ali. «Foste atropelado» - diz-me o meu filho, que é um dos médicos. Tenho fractura do crânio, várias contusões pelo corpo. Lisboa, selvagem, cidade bonita na claridade dos prédios, no rio das descobertas, no aéreo das colinas, meu veneno e minha sedução. Fui atropelado. Mas é talvez justo que o fosse. Porque eu não sou daqui.
Maio, 1977 - Godinho, Helder e Ferreira, Serafim (organização), Vergílio Ferreira - fotobiografia, Bertrand Editora, Outubro de 1993.
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''...Tenho a cabeça cheia de frases!, do Eliot, do Rilke, do Alexandre O’Neil, do Ruy Belo e do Winnie The Pooh; para além de outras que não reconheço, e que se calhar são as mais importantes ou significativas. Quando falo na minha poesia do que está atrás dos cortinados, o que está debaixo da cama, esses medos infantis, tenho no horizonte relações com esses poemas do Milne....''
Manuel António Pina
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Até dia 19 de Julho!, vamos falar de Género e Identidade no Nimas. Em colaboração com os Medeia e a Leopardo Filmes, Bruno Marques, Mariana Gaspar, Luís Mendonça e Sabrina Marques (Instituto de História da Arte - FCSH NOVA / FCSH ) organizaram uma selecção de filmes clássicos e contemporâneos entre 4 capítulos - (RE)DEFINIÇÕES DO FEMININO, WOMEN POWER, SUBJUGAÇÃO E VIOLÊNCIA, QUEER & TRANSGÉNERO - e a primeira sessão+debate acontece já no dia 15 de Fevereiro, em torno do filme ACADEMIA DAS MUSAS (de Guerín) com moderação de Luís Mendonça e participação de Clara Rowland e Elisabete Marques.🌈

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"Ludus est necessarius ad conversationem humanae vitae." [O brincar é necessário para a vida humana.] São Tomás de Aquino


A Grin Without a Cat (Chris Marker, 1977)
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Archigram Gasket Housing (1968)

Cushicle, Mike Webb, Archigram, 1964

"The Last Of The Mohicans" (1920) Maurice Tourneur & Clarence Brown

Brígida Mendes

''Por fim ele só conseguia imaginar salas
inexequíveis, quartos giratórios, decorações caleidoscópicas, caixas de mudança para a alma...''

Robert Musil, O Homem sem Qualidades
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''Love, Arthur, is a poodle's chance of attaining the infinite, and personally I have my pride.'' 
Louis-Ferdinand Céline
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"Being with you and not being with you is the only way I measure time"
BORGES


Marina Abramović + Ulay, Relation in Space, 1976



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"A promessa da cinefilia encontra-se no potencial das imagens terem um efeito que não se conforma às nossas ideias ou expectativas pré-concebidas, portanto será igualmente grave para a cultura cinematográfica se, por parte do mundo académico, o que conte para a escrita aceitável fique restringido a causas prováveis e a efeitos mensuráveis, isolando o cinema do pensamento especulativo e das realidades políticas. Segundo Jacques Rancière, o conhecimento do mundo a que chamamos cinema é sempre cambiante e sempre controverso e pertence a qualquer um que o tome como um lugar em que pode forjar o seu próprio e pessoal caminho." 
Nico Baumbach,''All that heaven allows'' 
Film Comment magazine 2012
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''De gente que se arremete contra as ondas porque não saberia o que fazer com um mar morto.'' 
Pedro Jordão 


Autumn Leaves (The Way We Are) de Robert Aldrich (1956)




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Written on The Wind, Douglas Sirk, 1956

"This is the kind of thing Douglas Sirk makes movies about. People can’t live alone, but they can’t live together either. This is why his movies are so desperate. "
http://www.filmcomment.com/blog/sirk-from-the-archives/

The Bitter Tears of Petra von Kant, Rainer Werner Fassbinder, 1972


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Toda a maldade é fraqueza. 
John Milton
THE ARRIVAL, de Dennis Villeneuve (2016)

O pensamento molda a linguagem. Somos maus porque pensamos mal - é uma fraqueza de pensamento, logo, de linguagem. WHY ARE THEY HERE? Porque melhorar é um exercício do exemplo, da cópia, da fasquia. O derradeiro humanismo de THE ARRIVAL chega dos aliens e demora a fazer-se entender: Language is our weapon. Our weapon is our gift. Esta invasão não invade; não é senão um espelho por decifrar - o ''casulo'' é o do Homem em potência. Sim, a narrativa tem falhas (científicas, inclusivé) mas o coração está no sítio: Arrival (2016) é um risco íntegro de Denis Villeneuve. Porquê risco? Porque, verdadeiramente fenomenológico, se atreve a pensar até ao osso, a propor distinto à raiz. Porque vai levar com os dedos apontados da ridicularização massiva e sabe-o. Porque se arrisca a surgir sincero, a ter mais meditação embrulhada em mistério do que a acção-e-suspense que o público espera de um sci-fi pós-apocalíptico. Porque é que este filme existe? Porque precisamos dele. E só se vê ao espelho quem se atreve.

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Blanche (Walerian Borowczyk, 1971)

https://www.youtube.com/watch?v=Y7O0rBGSqjI

Is this about where your head’s at? (fuck)
No, Blanche, she’s upset because they keep changing the taste of coke
Golden Gal on her screen
Some kind of tube she'd never seen
Gift to the girl ready to dream
Hope in new forms the elderly be
Spirit is burning to hear it for the girls again
So complex and brave
A power and lure without showing some legs
Different roads not just sexual things
Went and cut a rude hue said it did right away
And I’m keeping it new, and relearning girls again
It’s a strange kind of plot who steps and paves the golden way
With a humor that is known to quickly put me in my place
Every words so tricky how we know what to say
My gal you're so strong you should hold your head above them
And you need not ask for much to get my praise
Golden Gal on her screen
Some kinda tune she'd never seen
Gift to the girl ready to dream
Hope in new forms the elderly be
Spirit is burning to hear it for the girls again
Let me dress up like a golden gal and have my golden day
Let me watch the mark of maleness from a table side in greys
I can only dream of how I’d be so amazed
The Gals were right on, when she needed laughs to fall on
For all of this and more I give them praise
You think the gals should feel so comfortable these days
But sexy genders bring some troubles to the fray
And trouble tears apart another golden heart
So I want to be the reminder that she’s stronger than the bulk on other days
Golden Gal gave me my strength
She said I’ll be here for you later, boy
Now run along you have to fall
Golden Gal gave me my faith
All it took was some belief
But don’t believe that she should change at all
Golden Gal taught me restraint
She said you'll want me more much later, dude
I'm your everything and not your toy
Golden Gal I’ll be beside her
And I might want to stand in line
To find the kind of mind she can provide
You think the gal should feel so comfortable these days
But sex and gender brings some troubles to the fray
And trouble tears apart another golden heart
So I want to be the reminder that she’s stronger than the bulk on other days
Golden Gal gave me my strength
She said I’ll be here for you later, boy
Now run along you have to fall
Golden Gal gave me my faith
And all it took was some belief
But don’t believe that she should change at all
Golden Gal taught me restraint
She said you'll want me more much later, dude
I'm your everything and not your toy
Golden Gal I’ll be beside her
And I might want to stand in line
To find the kind of mind she can provide
Here for a while I will follow my golden gal

ANIMAL COLLECTIVE


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ilustrações de Jacques Fabien Gautier d'Agoty

A cabeça muda o corpo, o corpo muda a cabeça. No corpo a mudança dá-se a ver, mas precisamos da claridade de certas horas muito secretas para nos assegurarmos de que mudámos de ideias. Manso e súbito, chega o momento em que te sabes outro, incrivelmente longe de um qualquer ontem que te ensombra ainda. Como é possível que a impermanência ainda surpreenda alguém - suspiras sempre como quem se suspeita em falta ao auto-exame suficiente.
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''...decidiu-se fazer do cinema uma matéria de educação, e decidiu-se bem. Quanto mais cedo as crianças forem expostas ao cinema, melhor. Um miúdo de 4 ou 5 anos enfiado numa sala para ver um filme mudo de Chaplin ou de Buster Keaton reage de uma maneira espantosa, e para muitos adultos - mesmo, às vezes, professores - completamente inesperada. Apesar dos bombardeamentos de televisão, desenhos animados e toda a sorte de imagens e ecrãs domésticos a que muitos, nessas idades, já foram submetidos, a maioria ainda conserva um olhar suficientemente despoluído para, em frente a um Chaplin ou a um Keaton, ser de facto um "contemporâneo" dos espectadores que viram esses filmes em estreia nos anos 10 ou 20 do século passado. Ao contrario do que se diz, a juventude não está perdida, nem mesmo para o cinema...''


https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-favor-da-nova-cinefilia-310932
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GODARD, Jean-Luc. Histoire(s) du cinéma: Une vague nouvelle.
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 the birth betrayed  the marriage spent  
Yeah the widowhood  of every government 
 signs for all to see. 
Leonard Cohen, Anthem


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PITCH BLACK, EMPTINESS, ABSOLUTE SILENCE 
- Scene I - 
CIVILIZATION is vomiting at the corner.


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 Hermia e Helena, Matías Piñeiro, 2016 

Julieta, Almodóvar, 2016 

Meet Me in StLouis Vincente Minnelli, 1944

Eden, Mia Hansen-Løve, 2014
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