Há que dar largas à vontade de gritar.A REVISÃOSe há regra importante na vida é a da Segunda Oportunidade. Esta concessão aplica-se ao Cinema. O visionamento de um filme é inevitavelmente condicionado pelas mesmas limitações do que qualquer experiência, como sejam os estados de espírito, as lembranças recentes, a maturidade ou a indentificação com experiências prévias.
Por isso, todos os filmes que não foram anteriormente apreciados, merecem uma oportunidade posterior, plena da vontade de resgatar a qualidade e o gosto e de efectivar as certezas. Dei a minha segunda oportunidade ao Closer, e foi das melhores coisas que fiz.
Visto há uns anos, o filme só levou de mim o rótulo de pretensioso e novelesco: não possuía, então, a experiência e sensibilidade necessárias para engolir a magnitude de um Closer, e a realidade presa àquelas relações. O murro que levei no meu idealismo pueril, preso às concepções erróneas que esculpiam o relacionamento amoroso na ordem, desencadeou-me uma repulsa distante. Por contraste, imagens encheram-me os olhos e ficararam a pairar-me na mente, estimulando a vontade de rever. Os cabelos algodão-doce sobre azul da "Alice", a stripper de jeito infantil, traços angelicais e carências afectivas, interpretada com brilhantismo pela Natalie Portman; a mesma figura rodando sobre dourados com uma peruca loira que lhe dá corpo a toda a aura; a emblemática e magnífica cena da fotografia, em que o misterioso vulto de Alice observa, com curiosidade, o próprio retrato.





São cenas conseguidas com perfeição aguda, em que os cenários se fundem em pleno com as personagens. O guarda-roupa e a cenografia equilibram-se numa sintonia despercebida e creditada, que provoca a transmigração inconsciente do espectador: apenas perante a unificação de uma determinada realidade cinematográfica é que o plot viverá. O espectador entregar-se-á em pleno ao convite para acesso a uma nova realidade, se acreditar que ela é, efectivamente, real, num determinado tempo, espaço e condições previamente delineadas. E só esta construção sucessiva e credível se constituirá como instrumento capaz de suster a atenção de quem vê um longa metragem.
Neste sentido, vamos desdobrar o Cinema como síntese de várias artes, num globo de dependência, mutualismo e recíprocidade, mas longe de qualquer supremacia relativa. O Cinema, como experiência sensorial totalizante, tem ao seu dispôr a especificidade da música, do teatro, da literatura, da pintura, da fotografia, da moda, do design . A arte está na conjugação orquestrada de todos estes meios, na perfeita consciência da equivalente importância de cada um.
É-me frequente encontrar assumidos "cinéfilos" (inclusiva e ridiculamente debaixo dos holofotes da comunidade cinematográfica da blogoesfera portuguesa), que elevam o Cinema aos píncaros da representação artística, desvalorizando os outros meios da expressão, ou tomando-os por incompletos. Ouça-se Peter Greenway, que aponta Vermeer como o primeiro cineasta da história e que recentemente nos trouxe o lindíssimo "A ronda da noite", perfeitamente enquadrado à semelhança dos renascentistas, e iluminado "à Rembrandt". Lembrem-se estes cinéfilos que, segundo aprendemos, nos primórdios do Cinema, a primeira inovação de iluminação cinematográfica chegou-nos pelas mãos de Griffith em 1919, no seu Broken Blossoms, exactamente com o nome de "Rembrandt lightning" devido às semelhanças com as técnicas de projecção da luz únicas utilizadas pelo pintor.
A ESCOLA DE CINEMA E EU ou O QUE EU JÁ ESTOU FARTA DE DIZERVou-me dirigir em particular a determinados coleguinhas da ESTC, que tive o prazer de rever na noite de apresentação anual dos filmes produzidos pela Escola no ano lectivo 2007-2008, e a quem já não via desde a minha desistência do curso em questão. Desta cerimónia, só posso apontar agrado e surpresa: efectivamente, a ESTC produziu algumas coisas com qualidade, entre os quais os meus favoritos, os exercícios Aleluia (2º ano), Sturm e Duelo (3ºano).
Aos que, com familiaridade, se mantêm, inchados, no pedestal do escárnio e maldizer, eu vou insistir em deixar o conselho apontado ali em cima: REVISÃO! Balanços existenciais esporádicos são saudáveis, acreditem em mim, e estranha-me a sucessão de desgostos cinematográficos expostos com essa amplitude arsenal de insulto. Felizmente, os grunhidos de enjoo continuam a surtir o mesmo efeito sobre mim e, assim, a decisão de saída deste estabelecimento regozija-se pelas comprovações da certeza.
E a quem ainda esta semana se atreveu, mesmo contra a minha sucessiva explicitação deste tópico como discussão encerrada, a mencionar a minha desistência como a manifestação de uma infantilidade patológica a precisar de cura, eu vou apontar com veemência a enumeração feita aos condicionantes da experiência: A subjectividade mora nos limites mais ínfimos da vivência pessoal e, como se a irritação própria não atingisse os ouvidos em meu redor e a expressão do tédio não achasse leitura nas percepções do senso comum que se esperam, eu deixo por escrito: não mais falarei sobre a possível recandidatura à Escola de Cinema e muito menos desfiarei em contas os inúmeros motivos que me afastaram de lá, enquanto aluna. Este canibalismo discursivo será sempre tão descontrolado como absolutamente inútil e a insistência desrespeituosa só culminará em acessos sinceros de falta de diplomacia.
Aos talentos que encontrei na minha passagem pela ESTC, nos vários parâmetros e turmas, eu desejo evolução e sucesso. Cumprimento também os alunos do 3º ano pelo maravilhoso trabalho que vi, entranhado com a esperança de novos valores no Cinema português.
Do mesmo modo, faço votos de progressos na dispersão das rivalidades entre os departamentos de Teatro e Cinema, assentes num ódio latente que sempre que me foi absolutamente incompreensível! O Teatro mais uma vez tende a ser desvalorizado por muitos pseudo-cinéfilos por aí. A todos estes, lembrem-se de que o Teatro é milenar, enquanto que o Cinema é uma arte relativamente recente e, como tal, naturalmente embuída e inspirada por toda uma História de representação artística, remota aos primórdios da existência humana. O próprio Closer foi, antes da tela cinematográfica, uma peça de teatro.
O CLOSER E EU, A SÍNTESE DOS MEIOS E A DIRECÇÃO ARTÍSTICAVolta a menção da importância de trabalhar especificamente cada uma das vertentes de um filme. Toda a gente tem, obviamente, determinados momentos cinematográficos favoritos (ou até filmes integrais). Independentemente dos motivos que fundamentam qualquer preferência, esses serão, para o indíviduo em particular, sínteses perfeitas da imagem, argumento e banda sonora. É indiscutível num filme, que é afinal um objecto de consumo sensorial, a importância da conjugação do som com a imagem. A exaustação em busca do enlace perfeito traz-nos os melhores momentos da história do cinema. Dos silvos de Herrmann em "Psycho", de Hitchock, aos agudos de aves de rapina que servem a melodia de Morricone em "O Bom, O Mau e o Vilão". Da beleza pura do "Theme de Camille" em loop sucessivo em "Le Mèpris" de Godard, à realidade concreta constituída pelo sons no Dogville de Lars Von Trier.
Agora vou elevar à dignidade a direcção artística em particular, função que considero profundamente desvalorizada apesar de do seu carácter essencial. É certo que cada uma das etapas técnicas na execução de um filme está subordinada à equipa de realização. Neste sentido, o guarda-roupa, maquilhagem e cabelos, são fulcrais ao serviço da narrativa e da caracterização das personagens, mas esta importância raramente é assumida pelo típico teórico cinéfilo, que se assume conceptualmente e desvaloriza aquilo que toma como futilidades menores.
O que é certo é que, geralmente, os filmes repousam nas mentes com imagens aleatórias particulares, distinguidas pela lembrança por peculiaridades inconscientes. Ou, na verdade, manipuladas pela direcção artística.
O que era do Atonement sem o vestido verde da Keira? Da Lolita sem os óculos em forma de coração? Do James Dean sem o blusão vermelho? Do Travolta sem as calças à boca de sino? Do Humphrey Bogard sem o chapéu? Do Paris Texas sem a camisola rosa felpuda da Nastassja? Do Marie Antoinette sem aquele cor-de-rosa teen? Do Clockwork Orange ou do Funny Games sem as roupas brancas dos "gangs"?


