quinta-feira, 3 de maio de 2012

... A entrada numa nova era, seja ela qual for.


" (...) Se um filha da puta de um tiro aniquila irremediavelmente o triste ser de corpo e alma que é o polícia de Electra – mas, permitam-me a divagação, um daqueles filhas da puta de tiros pré-digitais, sem as merdas de maquiagem que agora tudo facilita e enfraquece, sim um estouro que chega ao sangue e aos ossos do lado de cá da tela e nos fode de alguma maneira - no filme em que agora me vou deter, um filme de terror extensível a qualquer um que por aí ande, alma penada ou não – a pelicula arde, e como sabemos, quando tal acontece, é o fim de um mundo, qualquer coisa que se parece com aquele término que se deu antes dos homens aparecerem neste canto do universo, essa suprema explosão, ou muito simplesmente, algo irrecuperável e a entrada numa nova era, seja ela qual for. "
(...)
Two – Lane tem o seu corpo embebido pela medonha consciência de que alguém fodeu tudo, um basto alguém, que tais alicerces mentirosos de uma sociedade apenas aniquilaram o que valia a pena, que o que foi certo tempo jamais voltará a ser, que a tristeza não terá fim. Por isso Paul Vecchicali, num texto sobre o filme publicado à época, tem toda a razão ao falar de um filme inteiramente político, francamente político, lancinantemente político. Política nunca por palavreado das personagens ou por figurações mais ou menos literais ou subversivas, sim política da forma, da pura e violenta forma que vinga, política pelos meios eminentemente cinematográficos, politica pela consciência que se nos instala, e mesmo por um envolvimento a que ninguém escapa, de que cada plano está carregado, sem sabermos porquê e inexoravelmente porque a câmara escancara, com algo do que Jean – Marie Straub uma vez disse que todos os verdadeiros trabalhos deveriam ter, ou seja: “cada filme que se faz, cada obra de arte que se faz, deve ter sempre uma coisa presente, é que hoje em dia já não se pode tomar banho num rio “. A grande farsa que quem quer pressente a planar da superfície para a infinitude do campo… " 

José Oliveira in Rolar em Seco sobre "Electra Glide in Blue" (1973, James William Guercio) e Two Lane Blacktop (1971, Monte Hellman) 

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