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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Mas hoje


Também eu trago a saudade
nos sentidos

se dissesse que não
era mentira

Também eu perdi um cão
casas
rios

Mas hoje
tenho mulher
amigos
e uma saudade mais real
é que me inspira

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Realizações.

Rodagem do filme " Trás-os-Montes " de Margarida Cordeiro e António Reis 1976

"...Eles viam pelo trabalho que fazíamos que também nós éramos 'camponeses do cinema' porque, por vezes, tínhamos de trabalhar dezasseis, dezoito horas por dia e acho que eles gostavam de nos ver trabalhar..."
António Reis
entrevista a Serge Daney e Jean-Pierre Oudart

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um Portugal Mítico.

''É essa espécie de respeito total pelas pessoas e pelos traços : uma árvore, uma paisagem, um castanheiro, uma maneira de dispor flores, uma maneira de arranjar uma casa, um modo de por uma mesa, um objecto ... É essa busca de um Portugal mítico que ele vai tentar agarrar e que tentará depois, através dos filmes e do seu magistério na Escola Superior de Teatro e Cinema, transmitir (...)"
JOÃO BÉNARD DA COSTA sobre António Reis (em ''Cinema Português?'' de Manuel Mozos, 1996)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

ROSA DE AREIA.

A Poesia da Terra.





Rosa d'Areia
ANTÓNIO REIS E MARGARIDA CORDEIRO (1989)




*


A propósito de "Rosa de Areia" 
para o catálogo
"António Reis e Margarida Cordeiro : A Poesia da Terra"
editado pelo cineclube de Faro,
a 23 de Novembro de 1997.
(in Textos Cinema Portuguesa, Pasta 56-439-440.)por Luís Miguel Oliveira





Rosa de Areia ficou como o último fime realizado por António Reis, que morreria menos de dois anos depois da conclusão deste trabalho. E é um filme que permaneceu, ao longo destes oito anos, inédito nas salas comerciais portuguesas. Ou seja, é um filme que ficou praticamente invisível durante todo este tempo, exceptuando esporádicas exibições em Festivais ou em salas como a da Cinemateca.
Quando preparavam e rodavam Rosa de Areia, António Reis e Margarida Cordeiro não sabiam que este haveria de ficar como o filme definitivo da dupla. Por isso talvez não seja muito útil recorrer ao chavão, sempre tentador quando se trata de "últimos filmes", do "filme-testamento". Pelo contrário, parece evidente em Rosa de Areia uma vontade de apontar para novos caminhos, de experimentar coisas novas, que não se compadece com o registo de súmula que normalmente caracteriza os "testamentos". Se em Rosa de Areia está uma série de temas e de ideias desenvolvidas nas obras anteriores, o filme aponta decisivamente para o futuro, para um percurso no qual António Reis não terá tido tempo senão de dar os primeiros passos. De Jaime a Ana não há nenhum outro filme onde o radicalismos estético de Reis e Cordeiro tenha aparecido assim, de maneira tão exuberante e tão abertamente "experimental". Rosa de Areia é assim uma espécie de "filme incompleto", como um esboço, capaz de gerar uma descendência (tivesse Reis tido tempo para isso) porventura ainda mais fascinante do que ele próprio. Rosa de Areia é um filme que está muito longe de se fechar a si próprio, o seu movimento é para fora, não é para dentro: há poucos filmes capazes de criar, como este cria, hipóteses para a sua descendência.
É curioso que, numa entrevista concedida aos Cahiers por ocasião da estreia de Ana, tenha sido perguntado a António Reis e Margarida Cordeiro se não encaravam a hipótese de, um dia, fazerem um filme a partir de uma adaptação literária. Apesar da série de renitências apresentadas pelos realizadores, não havia um não definitivo e Reis acabava mesmo por dizer que, provavelmente, um dia acabaria por conceber um filme assim. O que é interessante nisto é que se Rosa de Areia (o filme que se seguiu a Ana) não é propriamente uma adaptação literária, é o filme que, na obra de Reis e Cordeiro, vem trazer a questão da relação do cinema com a literatura. Questão que não se põe aqui, evidentemente, com os termos com que costuma pôr-se: não há adaptação nem mesmo uma qualquer narrativa pedida "emprestada". O que há é uma selecção de textos (que vão de Montaigne a Kafka, de relatos jurídicos da Idade Média a Carl Sagan), lidos ou declamados pelos actores do filme, e organizados segundo um trabalho que tem sobretudo a ver com a ideia de "colagem". Se os filmes de Reis e Cordeiro sempre se afastaram do naturalismo, Rosa de Areia é que vai mais longe na procura do artifício - e esta opção marca um dos percursos que aqui se inauguravam. O estilo de "colagem" que marca a organização (tanto a "literária" como a montagem) já diz um pouco sobre isso, mas o artifício está ainda presente na convocação do teatro, aparentemente ausente da obra de Reis e Cordeiro (embora haja alguns momentos de Trás-os-Montes e de Ana em que certos rituais familiares e sociais são filmados como se se estivesse a filmar teatro), e no modo como quase todos os planos do filme são compostos a partir de um jogo de pura sensibilidade estética, decidido muitas vezes a partir de equilíbrios ou confrontos cromáticos.
Daqui resulta um filme que é um desafio: um desafio, primeiro, aos cânones e normas estabelecidas (a dificuldade para encontrar quem o quisesse estrear é um sintoma da violência deste desafio); um desafio, depois, ao espectador: para entrar nesta espécie de palco cósmico onde se encenam os mais variados tempos e lugares (Rosa de Areia é um filme de lugar nenhum, num tempo sem data, mas é em simultâneo um filme de todos os lugares e de todos os tempos) é preciso merecê-lo e avançar de espírito tão despojado quanto possível. Afinal de contas, o que está aqui em causa, mais do que a poesia da terra, é a poesia da Terra.






*

 "Rosa de Areia"
na sessão de 18 de Abril de 2010
Mostra Panorama : Cinema S.Jorge



"- A própria mulher que era feita de hábitos mais velhos do que ela."

"- Gostaria de ser verdadeiramente múltipla. Gostava de ser mãe, infinitamente.''

''- Eu sou ainda viva mas sou já uma morta. Não existo."


"Para onde se vão as luas em união com os anos?
Porque não descansa nunca o vento, porque não descansa nunca o espírito?"

 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

PANORAMA 2010.




Com toda a causa e importância se fez foco das honras da mais recente mostra Panorama (9 - 18 de Abril), o casal português de cineastas António Reis e Margarida Cordeiro. Se a criação do evento assume privilégios de reflexão geral sobre o cinema documental, à vida e obra de António Reis coube este ano a função de elo unificador entre os vários trabalhos em exibição e propostas de debate. A partida para o mote da 4ª edição do Panorama, fez-se sob a questão "como se ensina o documentário português?", e com circunstância se submergiu o olhar sobre alguns dos trabalhos documentais que, em Portugal, saem das variadas escolas dedicadas ao ensino da modalidade documental.
Entre os 59 documentários exibidos, foi possível, graças à colaboração da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, assistir a 4 quatro importantes títulos da obra de Reis e de Cordeiro: «Jaime»; «Trás-os-Montes»; «Ana» e «Rosa de Areia», singularidades imprescindíveis à aprendizagem, qualificação e reflexão acerca do cinema português. Esperando continuidade na propagação regular desta influente revisão, há por enquanto que agradecer o gesto recente à organização do Panorama.



Convidei Inês Sapeta Dias, documentarista e programadora da mostra, a fazer um balanço da edição deste ano.
a ler no número de Maio da revista RUA DE BAIXO

domingo, 21 de fevereiro de 2010

a mesa dos simples



Jaime, António Reis, 1974


Still Life with jug on a table, Dana Levin

Aurora, Murnau, 1927



Jaime.


Jaime
ANTÓNIO REIS (1974)














Foi contundente a estreia de António Reis no trabalho de realização. Não tendo sido caso único de uma grande primeira obra no cinema português - um cinema em que, no fim de contas, os mais interessantes realizadores o foram desde as suas primeiras obras - Jaime marcou de facto, tanto pela sua beleza, como pela sua contundência. A obra inicial de Reis irrompeu no panorama da nossa cinematografia, como gesto único de solidez e força instintiva. Marcou pelo extremo de modernidade e pelo extremo de originalidade. Inaugurou uma liberdade única no tratamento das formas e uma combinação única de ascese e precisão no discurso. Foi, nesse sentido, uma entrada directa para o primeiro plano da nossa produção, e foi também, curiosamente, um caso de aposta colectiva, por via da defesa acérrima que dele fez grande parte a geração de 60 - (uma geração que nessa altura ainda demonstrava um espírito de "corpo", como ficou provado nos muitos textos de defesa apaixonada, entre as quais destacaria como peça fulcral, o diálogo com João César Monteiro publicado no "Cinéfilo" de Abril de 1974, na semana do "25").
Oriundo do Porto, auto-formado no cineclube local, autor de dois livros de poemas ("Poemas Quotidianos" e "Novos Poemas Quotidianos"), colaborador da obra colectiva "Auto de Floripes" (uma produção independente do cineclube do Porto), assistente no Acto da Primavera, responsável pelos diálogos de Mudar deVida, Reis chegou à realização munido de três trunfos maiores: cultura sólida em domínios afins ( cultura plástica, musical, poética); disponibilidade e capacidade para se servir cinematograficamente dela como se tal estivesse a ser feito pela primeira vez; amor profundo pela cultura popular e pelos homens que a veiculam, e da qual procurou sistematicamente arrancar os dados antigos, depurando-a não só da aculturação contemporânea como, em alguns casos, de todo o invólucro pós-renascentista que a ela se colou.
Em Jaime, abordou de imediato essa cultura com toda a liberdade do ficcionista. Preocupando-se também, sempre, com a função de registo (foi ele o teorizor do projecto do "Museu da Imagem e do Som", lançado pelo Centro Português de Cinema de 1974, e ao qual ficariam ligados Trás-os-Montes, Máscaras de Noémia Delgado e Argozelo de Fernando Matos Silva), o seu programa de trabalho excedeu logo aí essa função, estipulando que não pode haver registo profundo e durador se o acto de registar não for, igualmente, com a mesma força, um acto criador, logo, transformador.
Como os impresssionistas, Reis conduziu o realismo à consciência da própra matéria do meio utilizado (neste caso, planos, espaço, tempo, cor, silêncios, sons...). Como os expressionistas, construiu as suas imagens a partir de uma marcada visão interior (a rigorosa arquitectura dos seus planos, o princípio declaradamente construtor que os organiza). Mas, como ele próprio disse a a propósito do lado fauve e expressionista dos desenhos de Jaime, "se a sua estética não foi contemporânea desses movimentos europeus, também nada lhes serve. O seu tempo histórico outro era (é)". Ou seja, e dizendo de outro modo: não é por qualquer retorno às vanguardas nem por qualquer associação às mais modernas práticas cinematográficas que podemos encontrar o verdadeiro contexto do cinema de Reis. O lugar de Reis no cinema é nuclear (experimentador das formas) mas, ao mesmo tempo, "externo". O seu universo não pode ser entendido fora das relações com a natureza e essa cultura antiga (o próprio autor veio a falar do neolítico a propósito do projecto de Trás-os-Montes) e a sua criação cinematográfica que podemos encontrar o verdadeiro contexto do cinema de Reis. O lugar de Reis no cinema. O lugar de Reis no cinema é nuclear (experimentador das formas) mas, ao mesmo tempo, "externo".O seu universo não pode ser entendido fora das relações com a natureza e essa cultura antiga (o próprio autor veio a falar do neolítico a propósito do projecto de Trás-os-Montes) e a sua criação cinematográfica,a invenção de cada plano, revela também da ciência (apeteceria dizer da Cosmologia, lembrando, por exemplo, o pararelo entre o gráfico hospitalar e a curta dos montes em Jaime, ou a fabulosa história do eclipse em Ana.)
Jaime, quem foi e como o abordou António Reis? Nasceu com o século (1900), casou, foi internado como esquizofrénico no Hospital Miguel Bombarda com a idade de 38 anos e morreu três décadas depois. Em 1965 (ou seja, três anos apenas antes da morte) começou a pintar, com lápis e esferográfica, ao mesmo tempo que escrevia abundantemente em cadernos vários. Grande parte (a maior parte, talvez) da sua originalíssima criação plástica foi perdida. Da que ficou, acrescentada aos textos encontrados, ao local de internamento e ao contacto ainda possível com a viúva (então com 71 anos), fez António Reis o seu filme. À maneira de Straub na obra sobre Bach, não se trata portanto de um documentário sibre uma vida já então inexistente nem - muito menos - de uma "reconstituição" dessa vida. O que Reis fez foi filmar e trabalhar sobre os materiais e figuras concretas que existiam no tempo da rodagem do filme e exclusivamente sobre isso. A evocação biográfica e a outra (humana, psicológica) surge por outros caminhos, ou seja, pelo próprio trabalho (que nesse sentido é documentário e é ficção) sobre esses materiais.
Jaime-filme, começa (como, aliás, acaba) com a fotografia do internato. E uma frase dele: "Ninguém, só eu". De imediato, passamos à visão actual do pátio do hospital e aos homens que o habitam ("não há doentes no filme - não há pessoas normais nem anormais", dirá Reis), vistos a sépia como se por um óculo. Em silêncio. Depois, a câmara recua e ascende, do pátio ao c+eu, e aí um súbito ruído (avião?) corta o espaço, abrindo-o para outra dimensão : do céu, em plongé, abre-se-nos a visão mais larga do pátio, entrando a cor e a música (Armstrong). Estamos então no interior do hospital, descarnado, vazio, sem corpos ou com eles, fechados, nas respectivas camas. E, de novo, voltamos ao exterior: o volume circular do edifício e as gretas, verticais, por onde lhes entra a luz. Depois será a cena alegórica do "mágico" junto da fonte, ao centro do pátio (simbologia da vida e da criação) e nova entrada para dentro, até ao plano da banheira corroída pelo tempo (interior, vazio e morte). Mas já a banda sonora enche esse vazio com outro elemento natural, o vento que, desse mergulho mortal, nos arranca para fora, para a natureza (o barco preso, o curso de água, as plantas) donde, por sua vez, vimos depois a entrar, finalmente, no universo pictórico de Jaime. Daí para a frente é então essa dialéctica organizadora das imagens e dos sons: o confronto entre as figuras desenhadas por Jaime e os sucessivos espaços e sons da sua ahabitação, real e imaginária; o espaço a duas dimensões dos desenhos, contra a profundidade de imagem entre elas; a intervenção dessas figuras imaginárias - animalescas ou demoníacas - a povoar o espaço natural.
Em "Jaime" não há assim uma "história" nem uma progressão linear da narrativa. Há um movimento através de lugares e objectos, espaço e tempo, que é de destruição sistemática de uns planos por outros, ou de destruição sistemática do "plano" em que as coisas são vistas. O raccord da rodagem - ou na imagem/som - é sempre de corte sucessivo para outra dimensão, comprimindo ou expandindo a dimensão imediatamente anterior. Por meios dessa ruptura sistemática corre um discurso em espiral baseado na oposição das matérias fílmicas (cromatismos, espaço visual e espaço sonoro), e por via disso, um sucessivo desdobramento de áreas e volumes - uma sucessão de esferas de progressiva interioridade, que, ao mesmo tempo, são de progressiva libertação. E é esse o duplo movimento (para a frente e para dentro, para trás e para fora) que serve a António Reis para, em última análise, fazer explodir o mundo interior de Jaime ("ninguém, só eu") e a sua comunhão secreta com a vastidão dos espaços naturais.
Tal como o furo que a certa altura é feito no corpo do animal, tal como a história das arcas dentro da casa vazia (volumes abrindo-se para volumes dentro deles), o filme vai ao âmago da solidão de Jaime e nele descobre a grandeza de uma imensa liberdade.
Convidando à leitura microscópica (ao nível do plano e do raccord), não deixa portanto de oferecer uma leitura "macro" onde passa o cerne do seu tema. É um filme sobre o homem, um filme sobre a arte, um filme sobre a criação, e um trabalho concreto, material, minucioso e programático, sobre o cinema. O manifesto de um conceito próprio de mise-en-scène.

José Manuel Costa




TRÁS-OS-MONTES










Trás-os-Montes

ANTÓNIO REIS e MARGARIDA CORDEIRO (1972)



Nem a chuva amainou ainda, nem o sudoeste deixou de soprar em rajadas fortes, nem é menor o frio que há pouco sentia. Porém, ao olhar pela vidraça, como quem espairece o ânimo alquebrado por um momento de desânimo ou talvez de cansaço, que vejo? Que esperança é esta que sinto correr com o meu sangue?
Desculpai a confidência: à chuva, ao vento, as roseiras que podei em Dezembro rebentam já, e um cacho de glicínias – um só cacho ainda – antecipando-se em promessa do que será, em breve, um lençol lilás...
Portugueses somos, amigos. É bom sabê-lo – e assumi-lo.

Joel Serrão

Tendo por objecto o modo de vida, o desejo é sempre feudal.
Roland Barthes


Não há prefácio possível a um filme que se organiza e se propõe, ele próprio, como prefácio a uma memória cujo regaço está por preencher. Como falar dessa sedução em que a nossa história nos envolve? Multiplicando o eco final do grito branco e ateu de um comboio, poderíamos apenas sugerir o cansaço, as trevas e a persistência do olhar.
Estamos em 1976 – é, pelo menos, assim que referenciamos e delimitamos o espaço histórico que faz o nosso fazer a história. É tarde, muito tarde para evitar as lágrimas que nem sabemos. Mas é manhã, madrugada ainda, por todos os jardins e orvalhos escavados além dos montes do nosso desejo.
Não admira que digam que somos um povo religioso. O nosso conhecimento de nós e de nós outros tem sido sabido e ignorado por entre presságios de mal disfarçadas conspirações. A nossa cultura, a rede de diferenças que conciliam e dividem as nossas culturas, é um templo de muitos inexplorados, um corpo sem margens, casto e dorido.
É talvez por isso que o regime de “Trás-os-Montes” é, por excelência, a perversão, a contínua resolução do natural no artificial, do individual no colectivo, do real no onírico, do cultural noutro cultural. Lembremos as crianças, se é que sabemos lembrar as crianças.
A arte, o cinema, o cinema neste Portugal, parece estar historicamente condenado a ser a tela irreal onde se vem incrustar a lava vertida nessa fricção profunda, uterina, esquecida – cultura contra cultura, povo contra povo, cinema contra cinema.
Somos diferentes nas nossas diferenças e é preciso que esse ser diferente marque o nosso movimento fugaz pelos pinhais da história. Se assim não for, estaremos apenas a ser diferentes no desconhecimento das nossas diferenças.
Tudo isto para dizer que “Trás-os-Montes” não é um filme que mistura ficção e reportagem, objectividade e subjectividade, passado e presente. Estamos cansados (e o que tem sido esta cultura com que escrevemos senão o espectáculo, ora patético, ora deprimente, desse cansaço?) dos esquemas, das frases, das certezas, da falta de pudor, do medo de parar dos profissionais da cultura. “Trás-os-Montes” é um filme sobre Portugal e Portugal.
Da finalidade, da eficácia, da oportunidade, da mensagem, da acessibilidade ou da dificuldade de “Trás-os-Montes” não sei senão não saber o que isso seja e guardar silêncio. De “Trás-os-Montes”, eu diria, não sem a sombra de uma dor que não sei explicar, que é um filme que me ensina a conhecer o meu corpo e a respeitar os corpos.
Que sabemos nós do nosso desejo? E “Trás-os-Montes” é isso mesmo, uma encenação do desejo, isto é, o desejo de uma outra encenação – distante, fluida, absoluta e redonda, numa palavra, impossível. Lá, onde Portugal é cicatriz adiada.

João Lopes



[Estreia no cinema Satélite, Lisboa - Sexta-feira, 11 de Junho de 1976]
Revista ISTO É ESPECTÁCULO, n.º 1, pág. 42, Setembro de 1976 (Director e proprietário: Lauro António)
Via http://antonioreis.blogspot.com

terça-feira, 25 de abril de 2006

viver, existir.

La madre (Vsevolod Pudovkin, 1926)


"- Gostaria de ser verdadeiramente múltipla. Gostava de ser mãe, infinitamente.
- Eu sou ainda viva mas sou já uma morta. Não existo."

Rosa d'Areia, António Reis e Margarida Cordeiro, 1982


sexta-feira, 16 de janeiro de 2004

("ali ao lado" começa mesmo ali, na próxima curva do rio.)

Onde é a Alemanha?
Pergunta ela ao seu pai, trabalhador emigrante na Alemanha. O pai responde: "Ali, do outro lado." 

Sentimos que para a criança "ali ao lado" começa mesmo ali, na próxima curva do rio. No fim do mundo, no meio do mundo.

Serge Daney, Libeération, 1983




































Trás-os-Montes, António Reis, 1976