Jaime.

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Jaime
ANTÓNIO REIS (1974)














Foi contundente a estreia de António Reis no trabalho de realização. Não tendo sido caso único de uma grande primeira obra no cinema português - um cinema em que, no fim de contas, os mais interessantes realizadores o foram desde as suas primeiras obras - Jaime marcou de facto, tanto pela sua beleza, como pela sua contundência. A obra inicial de Reis irrompeu no panorama da nossa cinematografia, como gesto único de solidez e força instintiva. Marcou pelo extremo de modernidade e pelo extremo de originalidade. Inaugurou uma liberdade única no tratamento das formas e uma combinação única de ascese e precisão no discurso. Foi, nesse sentido, uma entrada directa para o primeiro plano da nossa produção, e foi também, curiosamente, um caso de aposta colectiva, por via da defesa acérrima que dele fez grande parte a geração de 60 - (uma geração que nessa altura ainda demonstrava um espírito de "corpo", como ficou provado nos muitos textos de defesa apaixonada, entre as quais destacaria como peça fulcral, o diálogo com João César Monteiro publicado no "Cinéfilo" de Abril de 1974, na semana do "25").
Oriundo do Porto, auto-formado no cineclube local, autor de dois livros de poemas ("Poemas Quotidianos" e "Novos Poemas Quotidianos"), colaborador da obra colectiva "Auto de Floripes" (uma produção independente do cineclube do Porto), assistente no Acto da Primavera, responsável pelos diálogos de Mudar deVida, Reis chegou à realização munido de três trunfos maiores: cultura sólida em domínios afins ( cultura plástica, musical, poética); disponibilidade e capacidade para se servir cinematograficamente dela como se tal estivesse a ser feito pela primeira vez; amor profundo pela cultura popular e pelos homens que a veiculam, e da qual procurou sistematicamente arrancar os dados antigos, depurando-a não só da aculturação contemporânea como, em alguns casos, de todo o invólucro pós-renascentista que a ela se colou.
Em Jaime, abordou de imediato essa cultura com toda a liberdade do ficcionista. Preocupando-se também, sempre, com a função de registo (foi ele o teorizor do projecto do "Museu da Imagem e do Som", lançado pelo Centro Português de Cinema de 1974, e ao qual ficariam ligados Trás-os-Montes, Máscaras de Noémia Delgado e Argozelo de Fernando Matos Silva), o seu programa de trabalho excedeu logo aí essa função, estipulando que não pode haver registo profundo e durador se o acto de registar não for, igualmente, com a mesma força, um acto criador, logo, transformador.
Como os impresssionistas, Reis conduziu o realismo à consciência da própra matéria do meio utilizado (neste caso, planos, espaço, tempo, cor, silêncios, sons...). Como os expressionistas, construiu as suas imagens a partir de uma marcada visão interior (a rigorosa arquitectura dos seus planos, o princípio declaradamente construtor que os organiza). Mas, como ele próprio disse a a propósito do lado fauve e expressionista dos desenhos de Jaime, "se a sua estética não foi contemporânea desses movimentos europeus, também nada lhes serve. O seu tempo histórico outro era (é)". Ou seja, e dizendo de outro modo: não é por qualquer retorno às vanguardas nem por qualquer associação às mais modernas práticas cinematográficas que podemos encontrar o verdadeiro contexto do cinema de Reis. O lugar de Reis no cinema é nuclear (experimentador das formas) mas, ao mesmo tempo, "externo". O seu universo não pode ser entendido fora das relações com a natureza e essa cultura antiga (o próprio autor veio a falar do neolítico a propósito do projecto de Trás-os-Montes) e a sua criação cinematográfica que podemos encontrar o verdadeiro contexto do cinema de Reis. O lugar de Reis no cinema. O lugar de Reis no cinema é nuclear (experimentador das formas) mas, ao mesmo tempo, "externo".O seu universo não pode ser entendido fora das relações com a natureza e essa cultura antiga (o próprio autor veio a falar do neolítico a propósito do projecto de Trás-os-Montes) e a sua criação cinematográfica,a invenção de cada plano, revela também da ciência (apeteceria dizer da Cosmologia, lembrando, por exemplo, o pararelo entre o gráfico hospitalar e a curta dos montes em Jaime, ou a fabulosa história do eclipse em Ana.)
Jaime, quem foi e como o abordou António Reis? Nasceu com o século (1900), casou, foi internado como esquizofrénico no Hospital Miguel Bombarda com a idade de 38 anos e morreu três décadas depois. Em 1965 (ou seja, três anos apenas antes da morte) começou a pintar, com lápis e esferográfica, ao mesmo tempo que escrevia abundantemente em cadernos vários. Grande parte (a maior parte, talvez) da sua originalíssima criação plástica foi perdida. Da que ficou, acrescentada aos textos encontrados, ao local de internamento e ao contacto ainda possível com a viúva (então com 71 anos), fez António Reis o seu filme. À maneira de Straub na obra sobre Bach, não se trata portanto de um documentário sibre uma vida já então inexistente nem - muito menos - de uma "reconstituição" dessa vida. O que Reis fez foi filmar e trabalhar sobre os materiais e figuras concretas que existiam no tempo da rodagem do filme e exclusivamente sobre isso. A evocação biográfica e a outra (humana, psicológica) surge por outros caminhos, ou seja, pelo próprio trabalho (que nesse sentido é documentário e é ficção) sobre esses materiais.
Jaime-filme, começa (como, aliás, acaba) com a fotografia do internato. E uma frase dele: "Ninguém, só eu". De imediato, passamos à visão actual do pátio do hospital e aos homens que o habitam ("não há doentes no filme - não há pessoas normais nem anormais", dirá Reis), vistos a sépia como se por um óculo. Em silêncio. Depois, a câmara recua e ascende, do pátio ao c+eu, e aí um súbito ruído (avião?) corta o espaço, abrindo-o para outra dimensão : do céu, em plongé, abre-se-nos a visão mais larga do pátio, entrando a cor e a música (Armstrong). Estamos então no interior do hospital, descarnado, vazio, sem corpos ou com eles, fechados, nas respectivas camas. E, de novo, voltamos ao exterior: o volume circular do edifício e as gretas, verticais, por onde lhes entra a luz. Depois será a cena alegórica do "mágico" junto da fonte, ao centro do pátio (simbologia da vida e da criação) e nova entrada para dentro, até ao plano da banheira corroída pelo tempo (interior, vazio e morte). Mas já a banda sonora enche esse vazio com outro elemento natural, o vento que, desse mergulho mortal, nos arranca para fora, para a natureza (o barco preso, o curso de água, as plantas) donde, por sua vez, vimos depois a entrar, finalmente, no universo pictórico de Jaime. Daí para a frente é então essa dialéctica organizadora das imagens e dos sons: o confronto entre as figuras desenhadas por Jaime e os sucessivos espaços e sons da sua ahabitação, real e imaginária; o espaço a duas dimensões dos desenhos, contra a profundidade de imagem entre elas; a intervenção dessas figuras imaginárias - animalescas ou demoníacas - a povoar o espaço natural.
Em "Jaime" não há assim uma "história" nem uma progressão linear da narrativa. Há um movimento através de lugares e objectos, espaço e tempo, que é de destruição sistemática de uns planos por outros, ou de destruição sistemática do "plano" em que as coisas são vistas. O raccord da rodagem - ou na imagem/som - é sempre de corte sucessivo para outra dimensão, comprimindo ou expandindo a dimensão imediatamente anterior. Por meios dessa ruptura sistemática corre um discurso em espiral baseado na oposição das matérias fílmicas (cromatismos, espaço visual e espaço sonoro), e por via disso, um sucessivo desdobramento de áreas e volumes - uma sucessão de esferas de progressiva interioridade, que, ao mesmo tempo, são de progressiva libertação. E é esse o duplo movimento (para a frente e para dentro, para trás e para fora) que serve a António Reis para, em última análise, fazer explodir o mundo interior de Jaime ("ninguém, só eu") e a sua comunhão secreta com a vastidão dos espaços naturais.
Tal como o furo que a certa altura é feito no corpo do animal, tal como a história das arcas dentro da casa vazia (volumes abrindo-se para volumes dentro deles), o filme vai ao âmago da solidão de Jaime e nele descobre a grandeza de uma imensa liberdade.
Convidando à leitura microscópica (ao nível do plano e do raccord), não deixa portanto de oferecer uma leitura "macro" onde passa o cerne do seu tema. É um filme sobre o homem, um filme sobre a arte, um filme sobre a criação, e um trabalho concreto, material, minucioso e programático, sobre o cinema. O manifesto de um conceito próprio de mise-en-scène.

José Manuel Costa




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