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sábado, 29 de novembro de 2014

Tout va bien.

( place = everything is in its right place )

“É a minha própria casa, mas creio que vim fazer uma visita a alguém”
Maria Gabriela Llansol

Le Horla, 1966, Jean-Daniel Pollet

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fatale Beauté.

"Calmos blocos aqui em baixo, caídos
de um desastre obscuro", talvez,
mas sem nunca o dizer. Dizendo apenas
os calmos blocos e a sua permanência."
Francis Ponge, Proêmes


"(...)  Violação da natureza, perda do mundo: errância do homem abafado pelo seu saber e pela sua arrogância, surdo à palavra silenciosa das coisas, cego à sua presença. No meio da enorme vastidão e quantidade de conhecimentos adquiridos por cada ciência, do número cada vez maior de ciências, estamos perdidos. A melhor coisa a fazer é, pois, considerar todas as coisas como desconhecidas e ir passear pelos bosques ou estender-se na erva e recomeçar tudo desde o princípio. Pollet aprendeu a lição de Ponge: desde Méditerrannée esforça-se por mostrar as coisas como nunca foram vistas, por arrancá-las à visão vulgar para reaprender a vê-las tais como em si mesmas, fora de qualquer significado, repousam e, mudas, nos falam. Os objectos que povoam Dieu Sait Quoi são libertados pela câmara de Pollet. Coisas "fora de uso" erguidas no centro do plano como estátuas que enrolam o mundo à sua volta, irradiando uma presença que impõe respeito e silêncio."
Cyril Neyrat, in"Uma Casca de Caracol Como Um Templo Grego", sobre "Dieu Sait Quoi", de Jean-Daniel Pollet (1993)

(imagem)
O talento de cada um vem da terra : é algo sagrado, tal como a peste que também vem da terra. 
Mitologia, linguística, psicologia, ideologia não esclarecem o poema. O poema é que, acidentalmente, pode esclarecê-las a elas. Mas não me parece ser este o seu propósito. O propósito do poema é esclarecer-se a si mesmo e nesse esclarecimento tornar viva a experiência de que é o apuramento e a intensificação. 
O poema inventa a natureza, as criaturas, as coisas, as formas, as vozes, a corrente magnética unificando tudo num símbolo: a existência.
A poesia não é feita de sentimentos e pensamentos mas de energia e do sentido dos seus ritmos. A energia é a essência do mundo e os ritmos em que se manifesta constituem as formas do mundo. 
Assim: 
a forma é ritmo
o ritmo é a manifestação da energia 





Em certo sentido prezável nunca há evolução. Esse sentido é o da fidelidade aos fundamentos da experiência - a aquisição de uma imagem do mundo. A experiência ulterior poderá ser considerada como apenas desenvolvimento "em linguagem". A poesia procura sempre exercer-se sobre essa massa central e sensível. Mas a experiência é somente um ponto de partida, núcleo sólido e contínuo onde assenta a experiência posterior da criação. A criação é assim o encaminhamento, até consequências simbólicas extremas, de uma experiência em si própria não organizada. O que se chama "descoberta do mundo" não possui, intimamente, coerência ou finalidade. É preciso constituir um corpo orgânico em que a experiência: um cosmos explícito, "objectural". A superação do caos exprime-se pelo encontro de uma linguagem. É na linguagem que a experiência se vai tornando real. Sem ela não há uma efectiva imagem do mundo.
O mundo repõe-se na qualidade de enigma jamais decifrado.
O mundo é a linguagem como invenção.
A escrita é a aventura de conduzir a realidade até ao enigma, e propor-lhe decifrações problemáticas (enigmáticas).
Helberto Helder, Photomaton & Vox

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ruínas

... depois de o coração se ter cansado de a levar para o céu de outras vidas... 
in "os meus sentimentos", Dulce Maria Cardoso 

#1 
Arruinar a matéria












Pierrot le Fou, Jean-Luc Godard, 1965







Bassae, Jean-Daniel Pollet, 1964
Le Horla, Jean-Daniel Pollet, 1966


6.8.1945, Hiroshima


RUHR, James Benning,  2009





#2 
Arruinar a teoria
Pierrot le Fou, Jean-Luc Godard, 1965



#3 
Reconsiderar a matéria-prima.
 


Pintura de Mark Rothko
Imagem via Stephane du Mesnildot
Stills de Pierrot Le Fou





sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Racines


"J'aime mon pays. Et j'aime y vivre parce que j'ai ma racine."
LE HORLA - JEAN-DANIEL POLLET (1966)

( ... )

( CICLO
( NADO ( CORPO ( VIDA ( ENTE ( EU (EGO ( SER ( ESPÍRITO ( EXISTÊNCIA ( ESSÊNCIA ( (

celtic tree of life.
mayan tree of life

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

OS SIGNOS ENTRE NÓS.




Les Signes Parmi Nous


André Uerba, performer, por Bruno Simão



Estarei sujeito aos mesmos incidentes de Polónio, capaz de ver nas nuvens o que Hamlet queria? Nenhuma vontade me dominava, sucedia apenas que a minha cabeça se sucedia de imagens de plantas para comparar, e cada vez que eu encontrava uma parecença estava realmente na boa pista. (...) Sei muito bem que os psicólogos inventaram um horrível nome grego para definir essa tendência de em tudo ver analogias, mas não era coisa que me assustasse, pois em todo o lado há parecenças, uma vez que tudo existe em tudo e em todo o lado. (...)
Sabe-se que o sol é um maravilhoso fotógrafo! Veja-se o interior da rosa, que através de espelhos côncavos, projecta na ponta dos estames raios amarelos em forma de cáustica! Observe-se o desenho das folhas de trevo e como é possível construí-lo a partir da elipse. Recorde-se o dorso da cavala, às ondas verdes do mar fotografadas sobre prata. (...) A mugem, que vive à superfície das águas, quase ao ar livre, tem flancos de um branco prateado e só o dorso colorido de azul. O gardão, que procura águas baixas, começa a tingir-se de verde-mar. A perca, que se mantém a profundidades médias, já escureceu e as suas riscas laterais desenham o negro rendilhado das ondas. A carpa e o barbo, exploradores do lodo, apropriaram-se da sua cor verde-azeitona. A cavala, que prospera nas regiões superiores, reproduz no dorso o movimento das ondas como um pintor de marinhas. A cavala de ouro, porém, que desliza entre ondulações oceânicas com uma névoa que corta os raios do sol, tingiu-se através do arco-íris e imprimiu-o em fundo de ouro e prata... Tudo isto o que é senão fotografia? Na placa de prata (seja cloreto, brometo ou iodeto de prata, pois diz-se que a água do mar contém estes três halogéneos), ou na sua placa albuminosa ou, melhor, gelatinosa impregnada de prata, o peixe condensa as cores refractadas pela ágia. Submerso no revelador sulfato de magnésio (ferro), o efeito faz-se tão energético no stata nascendi que a heliografia se reproduz directamente. E o fixador hipossulfito de sódio não deve andar muito longe de um peixe que vive em cloreto de sódio e nos sais sulfatados, e que traz ele próprio consigo, de resto, uma provisão de enxofre.
Será mais do que a metáfora? Com certeza! Admitindo que a prata das escamas do peixe não é prata, a verdade é que a água do mar contém cloretos de prata e o peixe não passa de uma placa de gelatina. Para estas reproduções gráficas da natureza, existem, no entanto, causas que não são químicas. Por isso, o leopardo tem a pele cheia de marcas que lembram pegadas de cão ou gato, com os seus cinco dedos das patas da frente. Alguma vez, em tempos imemoriais, terá acontecido que uma fêmea grávida atacada por cães e gatos transmitisse aos filhos as manchas ou "desejos" que a ciência da embriologia desconhece? Haeckel fala de um touro que perdeu a cauda na porta do estábulo e procriou uma raça bovina sem rabo.
O acaso na origem das espécies... Até ter comprado uma borboleta-caveira a um naturalista, eu nunca tinha visto essa Acherontia Atropos com o crânio humano no corselete. E espantado com a imagem, mais distintamente gravada do que alguma vez supus, deu-me para estudar o insecto. Li que os Bretãos a tomam por um presságio de morte; que dá um grito lamentoso quando a importunam; que a sua lagarta se alimenta de solonáceas, jasmim e barata espinhosa (Datura Stramonium) e se crisalida bem enfiada na terra, num casulo aglutinado. Há nisto muitas relações com a morte: o prenúncio do falecimento; a canção lúgrube; a mortal beberagem do Stramonium; o enterro da lagarta....
Leitor! Não sou de natureza supersticiosa, mas depois de colher esta informação fui cair em Réaumur, o célebre físico perito em insectos, que nos conta como a borboleta-caveira surge periodicamente, sobretudo em época de grandes epidemias, e não pude deixar de meditar sobre os hábitos deste animal e as relações que tem com a libré macabra.
Em primeiro lugar, a lagarta alimenta-se de solanina e daturina, dois alcalóides vegetais aparentados com a morfina mas de igual modo muito próximos dos venenos cadavéricos, como as ptomaínas e as leucomaínas. Entre outros aromas, estes venenos exalam o do jasmim, da rosa e do almíscar. Há plantas ditas de cadáver (o Arum, a Stapelia, a Orchis, etc) que cheiram a mortos e têm cores cadavéricas, atraindo insectos que se alimentam de carne putrefacta.
Não será lógico que a borboleta-caveira visite locais onde epidemias grassam e há corpos em decomposição?
(...) Imaginemos, portanto, uma borboleta caveira perdida pelo seu olfacto enganador em cemitérios, lixeiras, cadafalsos e forcas, locais onde observa caveiras humanas formidavelmente ampliadas. A nós próprios perguntamos se não pode tudo isto actuar sobre os nervos de uma borboleta tão impressionável que emite gritos lamentosos quando a importunam, de uma borboleta em duplo delírio de cio e veneno embriagante da jusquiama; dupla bebedeira que só a grande histeria iguala. (...) Li em Bernardim de Saint-Pierre que há quem chame Ai à borboleta-caveira, devido ao doloroso canto que ela emite. Que som, o deste "ai!", grito de dor de todos os povos da terra; grito do tardígrado que lamenta o amargor da existência; grito da mágoa de Apolo pela morte de Jacinto que ele desenhou no cálice da flor com o nome desse amigo falecido. (...) E admitindo que haja tais caprichos, reconheçamo-los também neste caso; é capricho mas não milagre, isto de um insecto poder adaptar o seu exterior ao meio ambiente quando a borboleta, chamada folha-seca, tomou a forma de uma folha só para se esconder. Não se trata de milagre, mas a transformação da lagarta no casulo é, sim, um verdadeiro milagre equivalente à ressurreição dos mortos. (...) quando crisálida, a lagarta passa por um processo idêntico ao do cadáver no túmulo onde se transforma numa gordura amoniacal. (...) Morte-viva!(...) O que é lá isso! A lagarta morre no casulo, pois transforma-se em massa gorda, informe, e apesar disto vive e ressuscita numa forma mais elevada, mais livre e mais bela? Afinal o que é a vida? E a morte? A mesma coisa! Imagine-se lá isto, os mortos não serem mortos e a indestrutibilidade da energia não passar de imortalidade!

in "Inferno", de AUGUST STRINDBERG



Histoire(s) du cinéma: Les signes parmi nous, JLG 1998


The House is Black ( Khaneh Siyah Ast) Forugh Farrokhzad(1962)



L'Ordre, Jean Daniel Pollet (1973)


Saber que o canto de Orfeu não salva ninguém, que é como o condenado à morte que pede para ser executado antes do amanhecer. Para não macular a linhagem. E para o assassino é a mesma coisa. Que as ninfas recolham os seus ossos depois. Não salva ninguém. O cigarro que o assassino vai acender antes ou depois da madrugada é o mesmo. O canto de Orfeu é um canto fúnebre, da ausência ao cume do seu lirismo.
excerto de "Até que também esta árvore incendeie", Mariana Gonçalves Pereira


Preliminary sketches for Hiding in Plain Sight II,
by Damian Goidich





Há a verdade dos símbolos. Há a verdade mais escondida. Há aquilo que está sob a nossa vida aparente. É muito curioso isto porque não há profundidade, há infinitas superfícies.
ANTÓNIO LOBO ANTUNES






THANKS TO
- FEDERICO ROSSÍN
- MARIANA GONÇALVES PEREIRA
- MATTHEW FLANAGAN
- BRUNO SIMÃO
- MÓNICA CALLE
- MÓNICA GARNEL

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Jean-Daniel Pollet

JEAN-DANIEL POLLET

LE HORLA , 1966
(1/3)

POUR MEMOIRE, 1978
(1/4)