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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fatale Beauté.

"Calmos blocos aqui em baixo, caídos
de um desastre obscuro", talvez,
mas sem nunca o dizer. Dizendo apenas
os calmos blocos e a sua permanência."
Francis Ponge, Proêmes


"(...)  Violação da natureza, perda do mundo: errância do homem abafado pelo seu saber e pela sua arrogância, surdo à palavra silenciosa das coisas, cego à sua presença. No meio da enorme vastidão e quantidade de conhecimentos adquiridos por cada ciência, do número cada vez maior de ciências, estamos perdidos. A melhor coisa a fazer é, pois, considerar todas as coisas como desconhecidas e ir passear pelos bosques ou estender-se na erva e recomeçar tudo desde o princípio. Pollet aprendeu a lição de Ponge: desde Méditerrannée esforça-se por mostrar as coisas como nunca foram vistas, por arrancá-las à visão vulgar para reaprender a vê-las tais como em si mesmas, fora de qualquer significado, repousam e, mudas, nos falam. Os objectos que povoam Dieu Sait Quoi são libertados pela câmara de Pollet. Coisas "fora de uso" erguidas no centro do plano como estátuas que enrolam o mundo à sua volta, irradiando uma presença que impõe respeito e silêncio."
Cyril Neyrat, in"Uma Casca de Caracol Como Um Templo Grego", sobre "Dieu Sait Quoi", de Jean-Daniel Pollet (1993)

(imagem)
O talento de cada um vem da terra : é algo sagrado, tal como a peste que também vem da terra. 
Mitologia, linguística, psicologia, ideologia não esclarecem o poema. O poema é que, acidentalmente, pode esclarecê-las a elas. Mas não me parece ser este o seu propósito. O propósito do poema é esclarecer-se a si mesmo e nesse esclarecimento tornar viva a experiência de que é o apuramento e a intensificação. 
O poema inventa a natureza, as criaturas, as coisas, as formas, as vozes, a corrente magnética unificando tudo num símbolo: a existência.
A poesia não é feita de sentimentos e pensamentos mas de energia e do sentido dos seus ritmos. A energia é a essência do mundo e os ritmos em que se manifesta constituem as formas do mundo. 
Assim: 
a forma é ritmo
o ritmo é a manifestação da energia 





Em certo sentido prezável nunca há evolução. Esse sentido é o da fidelidade aos fundamentos da experiência - a aquisição de uma imagem do mundo. A experiência ulterior poderá ser considerada como apenas desenvolvimento "em linguagem". A poesia procura sempre exercer-se sobre essa massa central e sensível. Mas a experiência é somente um ponto de partida, núcleo sólido e contínuo onde assenta a experiência posterior da criação. A criação é assim o encaminhamento, até consequências simbólicas extremas, de uma experiência em si própria não organizada. O que se chama "descoberta do mundo" não possui, intimamente, coerência ou finalidade. É preciso constituir um corpo orgânico em que a experiência: um cosmos explícito, "objectural". A superação do caos exprime-se pelo encontro de uma linguagem. É na linguagem que a experiência se vai tornando real. Sem ela não há uma efectiva imagem do mundo.
O mundo repõe-se na qualidade de enigma jamais decifrado.
O mundo é a linguagem como invenção.
A escrita é a aventura de conduzir a realidade até ao enigma, e propor-lhe decifrações problemáticas (enigmáticas).
Helberto Helder, Photomaton & Vox

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

TEMPS D'IMAGES 2011

CINEMATOGRAFIA - MUSICALIDADE 1
http://ocinemaavoltadecincoartes.blogspot.com/

: destaque
SÁBADO 19 NOVEMBRO
BOB DYLAN E O CINEMA

Conferência de Cyril Neyrat à volta de MASKED AND ANONYMOUS de Larry Charles - 19.11.2011 - 16h00

Allen Ginsberg: «What attracts you, as a poet, to movies? What do you look for?»
Bob Dylan:
«To shift my consciousness somewhere – hopefully to a place that applies to my own personal experience. I want to be entertained. If I see a movie that really moves me around I’m totally astounded; I’m wiped out. If film was around when Da Vinci was operating he’d have made film ...»
(«Wanted Man. In Search of Bob Dylan.» Edited by John Bauldie, Black Spring Press)


(...) A importância do cinema na música de [Bob Dylan] e na sua própria obra cinematográfica merecem ser reavaliadas. (...) Embora os filmes de, com ou sobre ele, formem uma filmografia esporádica, o cinema constituiu uma linha contínua na sua obra. Na superfície, há inúmeras referências e citações fílmicas disseminadas pelas suas canções. Mais profundamente, é a própria escrita, a poética de Dylan que, qualquer que seja o seu campo experimental, tem em si a marca do cinema, revela a sua influência essencial. Cantor, músico, poeta e pintor, Dylan é tudo isso, com a idade do cinema.

Por variadíssimas razões, Dylan preferiu esquecer a sua obra de cineasta (...) O fracasso de público e da crítica de
Renaldo and Clara fere profundamente Dylan que decide então renunciar ao cinema. Até regressar a ele em 2003, discretamente, como que através de uma porta secreta: escrevendo o guião e interpretando o papel principal de Masked and Anonymous, realizado por Larry Charles. Nova incompreensão: a crítica despreza-o, o público fica indiferente – como se um grande cantor e poeta não se pudesse perder no cinema. Contudo, Masked and Anonymous merece que lhe dediquemos mais atenção: por detrás de uma aparência de esboço mal filmado, de parada de estrelas desempenhando os seus papeis em roda livre, esconde-se uma referência importante da obra de Dylan: uma meditação melancólica sobre o duplo destino de um país e de um artista, uma espécie de anti-filme com uma escrita sem dúvida desconcertante mas enraizada na tradição poética do patchwork carnavalesco e da farsa alegórica.
(...)
Cyril Neyrat
in catálogo "cinematografia - musicalidade 1"
Lisboa, Novembro de 2011



sábado, 5 de dezembro de 2009

: um dos meus Brisseaus favoritos

À l'aventure, Brisseau, 2009

''Diálogos de um rigor e uma clareza inéditos. [...] O sucesso sem precedentes de À Aventura, é, acima de tudo [...] um argumento exemplar.'' Cyril Neyrat, Cahiers du Cinéma