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terça-feira, 14 de agosto de 2018
segunda-feira, 6 de junho de 2016
TELL ME THAT YOU LOVE ME JUNIE MOON / Dylan odiou e disse que afinal já não queria.
TELL ME THAT YOU LOVE ME JUNIE MOON / 1970
(Diz-me Que Me Amas, Junie Moon)
Um filme de Otto Preminger
Para não variar o tom destes últimos anos da obra de Otto Preminger Tell Me That You Love Me Junie Moon foi um filme mal recebido na altura em que estreou, e não encontrou, em todos os anos que entretanto passaram, praticamente ninguém disposto a reavaliá-lo positivamente. Vincent Canby, no New York Times, dizia (em 1970) assim: “Tell Me That You Love Me Junie Moon is not an unintelligent film, but it is so cool and ordinary that it almost made me nostalgic for Skidoo, which was epically bad but the obvious work of a brazenly gifted director”. Tinha, e tem, um ponto, porque Junie Moon não só não é um “unintelligent film” como não é um mau filme, tendo até duas ou três coisas bastante curiosas que indiciam que Preminger não estava interessado em seguir o caminho mais simples, e tinha “ideias”. O problema é, de facto, como diz Canby, o filme ser tão “cool and ordinary”, tão tépido e indistinto, se não indigno em absoluto, certamente indigno de alguém que foi capaz de chegar aonde, no passado, Preminger chegou. Evidência maior é o facto de Junie Moon (embora se possa tentar explicar isso, mais para a frente) ser um filme estilisticamente “dissoluto”, de onde parecem ter desaparecido até as marcas mais fortes e mais essenciais (ainda visíveis três anos antes, em Hurry Sundown) do “estilo Preminger”. É quase anónimo – e à vista desarmada (sem informações nem genérico) seria impossível adivinhar que era Preminger o realizador. Num texto mais recente, o crítico americano Chris Fujiwara escreveu algo que parece bastante pertinente enquanto análise explicativa deste esvaziamento estilístico quase demissionário: “the eruption of the zoom, which seems to signal a general devaluation of the image as such (…); the image is reduced to a convenient milieu, lacking intrinsic compositional interest and making no claim to grace or order, for characters who loosely redefine its limits as they move”. Esta passagem descreve bem o que se passa, formalmente falando, no filme de Preminger. Podemos supor, e não mais do que supor, com a involuntária contribuição de Preminger, que este aspecto (o zoom, a troca da “composição intrínseca” por outros valores e por um registo supostamente mais acelerado e mais fluido) que o cineasta se tentava aproximar da época em que filmava, e de algumas coisas que por essa altura iam acontecendo no cinema americano pelas mãos de realizadores de uma geração muito mais nova do que a sua. Preminger falou muito na altura, da “juventude”, e este é, sem sombra de dúvida, um filme sobre a “juventude” de 1970, como o demonstra, de resto, o lado mais “tipado” e mais exemplar das personagens (em particular a de Robert Moore, o homossexual), e como o demonstram as alusões a um “estilo de vida” marcado pela “contracultura” da época. Duas coisas que Preminger disse na altura da estreia, se lidas em reverso, dão uma boa chave para Junie Moon – “Isto não é um filme feito para o ´público de hoje´”; e “Easy Rider foi um filme que teve sucesso, e agora toda a gente tenta fazer Easy Riders”. Ora isto é bem possível que seja um lapso freudiano do cineasta vienense, porque “um filme para o público de hoje” e, o que vai dar quase ao mesmo, “um Easy Rider”, é exactamente aquilo que, visto de hoje, Preminger parece ter tentado. O precedente de Skidoo, aliás, favorece esta interpretação.
Sem perder mais tempo, vamos directos às três ou quatro coisas que nos parecem escapar à indistinção. Uma é a presença de Liza Minnelli, em bizarríssimo papel de rapariga desfigurada. Era apenas o seu terceiro papel em cinema desde que chegara à idade adulta, e se alguma perversidade haveria, da parte de Preminger, em brincar aos Lon Chaneys com a recordação de Judy Garland, hoje esse frisson tem outro eco, porque, à sua maneira e no seu contexto, Liza acabou por se tornar, como a sua mãe, num “ícone”. De resto, Judy morreu durante a rodagem de Junie Moon, o que para alguns comentadores (e para o próprio Preminger) explicava a “intensidade emocional” (ou, conforme a perspectiva, o “overacting”) do seu desempenho. Preminger só tinha elogios para Liza, mas ela limitou-se a dizer, numa conferência de imprensa depois da rodagem, que “nunca na vida” voltaria a trabalhar com tão “tirânico” realizador.
Liza escapa à indistinção, como escapam sobretudo dois momentos, ambos relativamente cedo no filme. O momento (o travelling que a segue até ao espelho) em que Liza remove as ligaduras para descobrir o amontoado de cicatrizes em que a sua face direita se tornou, e depois, no flash back a caminho da explicação para as cicatrizes, a cena do strip tease no cemitério – com as flores e a improvável escolha de Bach para acompanhamento musical (e um strip tease ao som de Bach é algo que ou é sublime ou é “trash”, hesitamos, mas em qualquer caso fallait y penser).
Finalmente, é o derradeiro pormenor a sublinhar, a intrigante, porque totalmente desligada da narrativa, estrutura circular do filme, que abre e fecha com Pete Seeger a cantar, por entre bosques quase straubianos, uma canção chamada Old Devil Time. É absolutamente certo que para Preminger passa por aí uma ideia de comentário – mas nada se explicita, nem mesmo que tempo é o “tempo do diabo”. Diga-se, para acabar, que Pete Seeger foi uma segunda escolha. Quem estava apalavrado para figurar (e cantar) nessas cenas de introdução e posfácio era Bob Dylan. Como eram as últimas cenas a serem rodadas, Preminger mostrou-lhe o resto, já pronto e montado. Dylan odiou e disse que afinal já não queria. Não consta que até hoje se tenha arrependido.
Luís Miguel Oliveira
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
sábado, 29 de novembro de 2014
at all.
Some speak of the future.
My love she speaks softly.
She knows there's no success like failure.
And that failure's no success at all.
My love she speaks softly.
She knows there's no success like failure.
And that failure's no success at all.
Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard
sábado, 17 de março de 2012
Há sucesso, há fracasso e vice-versa até ao fim.
Urashima Taro No Koei (A Descendent of Taro Urashima), Mikio Naruse, 1946
...
In the dime stores and bus stations
People talk of situations
Read books, repeat quotations
Draw conclusions on the wall
Some speak of the future
My love she speaks softly
She knows there’s no success like failure
And that failure’s no success at all
...
Love Minus Zero, No Limit by Bob Dylan (1965)
sexta-feira, 16 de março de 2012
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Ilusão.




La Grande Illusion, Jean Renoir (1937)
SHELTER FROM THE STORM.
BOB DYLAN
When blackness was a virtue and the road was full of mud
I came in from the wilderness a creature void of form
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
And if I pass this way again you can rest assured
I'll always do my best for her on that I give my word
In a world of steel-eyed death and men who are fighting to be warm
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
Not a word was spoke between us there was little risk involved
Everything up to that point had been left unresolved
Try imagining a place where it's always safe and warm
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
I was burned out from exhaustion buried in the hail
Poisoned in the bushes and blown out on the trail
Hunted like a crocodile ravaged in the corn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
Suddenly I turned around and she was standing there
With silver bracelets on her wrists and flowers in her hair
She walked up to me so gracefully and took my crown of thorns
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
Now there's a wall between us something there's been lost
I took too much for granted got my signals crossed
Just to think that it all began on a long-forgotten morn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
Well the deputy walks on hard nails and the preacher rides a mount
But nothing really matters much it's doom alone that counts
And the one-eyed undertaker he blows a flugelhorn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
I've heard newborn babies wailing like a mourning dove
And old men with broken teeth stranded without love
Do I understand your question man is it hopeless and forlorn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
In a little hilltop village they gambled for my clothes
I bargained for salvation and they gave me a lethal dose
I offered up my innocence and got repaid with scorn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
Well I'm living in a foreign country but I'm bound to cross the line
Beauty walks a razor's edge someday I'll make it mine
If I could only turn back the clock to when God and her were born
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
TEMPS D'IMAGES 2011
CINEMATOGRAFIA - MUSICALIDADE 1
http://ocinemaavoltadecincoartes.blogspot.com/
: destaque
SÁBADO 19 NOVEMBRO
BOB DYLAN E O CINEMA
http://ocinemaavoltadecincoartes.blogspot.com/
: destaque
SÁBADO 19 NOVEMBRO
BOB DYLAN E O CINEMA
Conferência de Cyril Neyrat à volta de MASKED AND ANONYMOUS de Larry Charles - 19.11.2011 - 16h00
Allen Ginsberg: «What attracts you, as a poet, to movies? What do you look for?»
Bob Dylan: «To shift my consciousness somewhere – hopefully to a place that applies to my own personal experience. I want to be entertained. If I see a movie that really moves me around I’m totally astounded; I’m wiped out. If film was around when Da Vinci was operating he’d have made film ...»
(«Wanted Man. In Search of Bob Dylan.» Edited by John Bauldie, Black Spring Press)
Allen Ginsberg: «What attracts you, as a poet, to movies? What do you look for?»
Bob Dylan: «To shift my consciousness somewhere – hopefully to a place that applies to my own personal experience. I want to be entertained. If I see a movie that really moves me around I’m totally astounded; I’m wiped out. If film was around when Da Vinci was operating he’d have made film ...»
(«Wanted Man. In Search of Bob Dylan.» Edited by John Bauldie, Black Spring Press)
(...) A importância do cinema na música de [Bob Dylan] e na sua própria obra cinematográfica merecem ser reavaliadas. (...) Embora os filmes de, com ou sobre ele, formem uma filmografia esporádica, o cinema constituiu uma linha contínua na sua obra. Na superfície, há inúmeras referências e citações fílmicas disseminadas pelas suas canções. Mais profundamente, é a própria escrita, a poética de Dylan que, qualquer que seja o seu campo experimental, tem em si a marca do cinema, revela a sua influência essencial. Cantor, músico, poeta e pintor, Dylan é tudo isso, com a idade do cinema.
Por variadíssimas razões, Dylan preferiu esquecer a sua obra de cineasta (...) O fracasso de público e da crítica de Renaldo and Clara fere profundamente Dylan que decide então renunciar ao cinema. Até regressar a ele em 2003, discretamente, como que através de uma porta secreta: escrevendo o guião e interpretando o papel principal de Masked and Anonymous, realizado por Larry Charles. Nova incompreensão: a crítica despreza-o, o público fica indiferente – como se um grande cantor e poeta não se pudesse perder no cinema. Contudo, Masked and Anonymous merece que lhe dediquemos mais atenção: por detrás de uma aparência de esboço mal filmado, de parada de estrelas desempenhando os seus papeis em roda livre, esconde-se uma referência importante da obra de Dylan: uma meditação melancólica sobre o duplo destino de um país e de um artista, uma espécie de anti-filme com uma escrita sem dúvida desconcertante mas enraizada na tradição poética do patchwork carnavalesco e da farsa alegórica.
(...)
Por variadíssimas razões, Dylan preferiu esquecer a sua obra de cineasta (...) O fracasso de público e da crítica de Renaldo and Clara fere profundamente Dylan que decide então renunciar ao cinema. Até regressar a ele em 2003, discretamente, como que através de uma porta secreta: escrevendo o guião e interpretando o papel principal de Masked and Anonymous, realizado por Larry Charles. Nova incompreensão: a crítica despreza-o, o público fica indiferente – como se um grande cantor e poeta não se pudesse perder no cinema. Contudo, Masked and Anonymous merece que lhe dediquemos mais atenção: por detrás de uma aparência de esboço mal filmado, de parada de estrelas desempenhando os seus papeis em roda livre, esconde-se uma referência importante da obra de Dylan: uma meditação melancólica sobre o duplo destino de um país e de um artista, uma espécie de anti-filme com uma escrita sem dúvida desconcertante mas enraizada na tradição poética do patchwork carnavalesco e da farsa alegórica.
(...)
Cyril Neyrat
in catálogo "cinematografia - musicalidade 1"
Lisboa, Novembro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
IGREJA ADVENTISTA DE SÃO DYLAN
WALK A MILE IN HIS SHOES.
IT'S MR TAMBOURINE
* Como é óbvio, este post é dedicado ao Gonçalo Soares.
** Este filme está presentemente em exibição no Cinema City Classic Alvalade, em sessão dupla com a interessante curta VOODOO de Sandro Aguilar.
IT'S MR TAMBOURINE
"...But it's alright, Ma, it's life and life only."
OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE (Esmir Filho, 2009)
Chaos is a friend of mine.
Bob Dylan, Newsweek (9 December 1985)
IGREJA ADVENTISTA DE SÃO DYLAN
- O ÍDOLO
- ''... It'll soon shake your windows and rattle your walls/ There's a battle outside and it is ragin'...''
Rapidamente ultrapassada a estranheza imediata do título (que chega do livro homónimo, de Ismael Caneppele), e cá estamos dentro de um filme que se tornará, decerto, num fenómeno de culto. É sobre idolatria que tratamos, de viagem na companhia do jovem Julian, nicknamed "Mr Tambourine", fervoroso de Bob Dylan. Do legado da figura lendária, inspirador de gerações, decalca-se o espírito deambulador em que a dúvida adolescente sempre vagueia: A palavra solta-se. As frases aspiram a ser partilhadas. O outro é o destino das pequenas aprendizagens, para melhor luz sobre presente que se compartilha.
- LOOKALIKES
- ''Everybody’s wearing a disguise / To hide what they’ve got left behind their eyes''
Os mesmos olhos rasgados, a mesma figura frágil. A imitação é a melhor forma de homenagem e o idólatra parece-se com o ídolo. Como na postura deste jovem Dylan, o filme sente-se com a frescura das obras inaugurais. A primeira longa de Esmir Filho é vital, um filme que não podia ser senão de hoje.
- ESTRELA-GUIA
- '' a highway of diamonds with nobody on it''
Envoltos no encantamento, entre os enublados de efeito onírico e os recorrentes flares, os ambiente adicionam ao surreal: neste cenário, a dúvida adolescente recorrentemente vai procurando uma definição. Nesta pequena cidade vai-se crescendo. As jovens figuras perdem-se dentro dos nevoeiros campestres, das noites ao relento, das alucinações de erva. A suspensão das estrelas decora os plano. Constantemente se relembra a necessidade de uma luz-guia para a protecção contra o que não se sabe. Difuso, sopra um mistério que evoca a possibilidade desses duendes e dessas fadas. Talvez Bob Dylan apareça hoje...
- A NECESSIDADE DO(s) ÍDOLO(s)
- ''They need somewhere to go''
Está erguido o pedestal, a mitificação está legitimada. Seja por Dylan ou por qualquer outro ícone pop, afinal endeusa-se sempre onde, por alguma vestígio de identificação, se ajuda a entender o próprio eu, formulação em ponto de crise.
- A SEMPRE-ADOLESCÊNCIA
- ''...He really wasn't where it's at...''
Jogos de desfocados, granulados de handycam caseira, macros em vídeo de alta definição.... a expressividade resulta da justaposição dos vários dispositivos de captação. Na abstracção de certos quadros pixelizados, os contornos difusos lançam à imaginação uns mesclados de cor e movimento, a contrastar maravilhosamente com os aproximados de um pormenor quase microscópico. Os controlos sobre o enquadramento quebram-se e há navegações da câmara doméstica entre as mãos. O rigor da composição do quadro liberta-se pelos ritmos da vida - a energia é mais viva.
- GASTAMOS CADA VEZ MAIS TEMPO COM A MEMÓRIA?
- '' I live in another world where life and death are memorised / Where the earth is strung with lovers' pearls and all I see are dark eyes''
As facilidades de acesso a todos os géneros de dispositivos de captação, quase garantem hoje que qualquer espaço há uma qualquer câmara à mão. Estes novos moldes de arquivo pessoal exaustivo, operam alterações na máquina da memória. A rememoração decorre da preservação, mas no meio de tantos documentos do passado trazidos para o presente, é fácil gastar cada vez mais demasiado tempo com a memória (mesmo quando na pulsão da energia adolescente).
- SER ADOLESCENTE ONLINE
- ''An' for each an' ev'ry underdog soldier in the night / An' we gazed upon the chimes of freedom flashing''
A internet é o palco de umas portas demasiado abertas, demasiado cedo. O problema do online é, quase sempre, que permanecerá online. Como se de um arquivo criminoso se tratasse, os registos da internet pela recorrência ao seu acesso, persistem, perturbadores, a mostrar infinitamente uma dor de ontem. Daqui, vê-se nascer uma nova melancolia, que se abate sobre círculos das personagens que alternam entre ser reais e virtuais. (O virtual é o real ou o seu contrário?) Naquela pequena cidade com pouco para oferecer, perante a recusa constante do mundo físico o tempo é gasto na internet, esse infinito cosmos para a variedade das viagens, para o encontro com quem é mais igual a nós próprios.
- O QUE É SER ADOLESCENTE HOJE?
- "Strange how people who suffer together have stronger connections than people who are most content.''
- UNIDOS CONTRA OS ‘‘DUENDES DA MORTE’’
- ''May you build a ladder to the stars / And climb on every rung / May you stay forever young''
(How many deaths will it take till he knows that too many people have died?) Mal tinham eles chegado à idade da consciência de si próprios, e já tantos lhes tinham morrido. Sem verbalizações, a vida é dos dias unidos contra os “duendes da morte”, essas criaturas insondáveis, que empestam em bandos invisíveis as moribundas cidades de periferia… essas que atraem para o abismo, que vão afastando o corpo do seu préstimo físico, que vão levar um corpo para dentro da ficção "… Ela não tinha pernas. Não precisava de ninguém para ir embora." Lia-se no seu blogue, lembrando essa jovem amiga que decidiu abdicar de vez.
- A INTERNET É GLACIAR
- ''Are you where you ought to be?''
Invento o termo glaciação histórica como quem quer referir-se aos ilimitados blocos de informações contemporâneas e passadas na simultaneidade da mesma plataforma. Glaciares estáticos por onde o tempo não passa. A internet justapõe tanto do passado como do presente. Quando a contemporaneidade tudo disponibiliza, ser contemporâneo de, é fazer-se contemporâneo de.
- SER CONTEMPORÂNEO É FAZER-SE CONTEMPORÂNEO DE
- ''On the rising curve / Where the ways of nature will test every nerve / You won’t get anything you don’t deserve/ Where we were born in time''
Sendo um filme intrinsecamente contemporâneo, ainda assim nos mostra precisamente como idolatrar é escolher os ídolos que melhor nos servirem para nos construirmos e não os ídolos da ‘‘nossa geração’’. Assim, nas paisagens sonoras encontramos a música de Dylan junto das memoráveis composições originais do talentoso Nelo Johann, que também carrega consigo um travo dos seventies.
- EXISTIR SOB NICKNAME
- "I thought you'd never say hello," she said / "You look like the silent type"
A internet é um palco de substituições, paraíso para os tímidos. As palavras escritas, sob o nickname, saem cada vez melhores.
- O PRIMEIRO AMOR
- '' Well, my nerves are exploding and my body’s tense / I feel like the whole world got me pinned up against the fence / I’ve been hit too hard, I’ve seen too much / Nothing can heal me now, but your touch / I don’t know what I’m gonna do / I was all right ’til I fell in love with you''
O virtual inventou para a vida novos rituais. Até o amor é outro. Afundamos na travessia do rato do computador sobre os traços guardados nas fotos dela. Poesias da banalidade, ou faltas à presença que se desejaria. Os sonhos vestem-se com o desconhecido. A narrativa compõe-se mais facilmente a partir da distância do que não se pode tocar, conhecer, ter. É na ausência de concreto, que a musa toma forma. A sua presença espectral, deixa crer que está mesmo ali, quando talvez a forma com que se dilui entre os pixéis do vídeo de webcam facilmente suspenda a hipótese de uma outra vida, de um outro tempo, de um não-tempo.
"Estar perto não é físico." Lê-se na descontracção de uma janela de chat a frase que sintetiza a natureza de todas estas idolatrias, todos estes pedestais, todas estas ficções.
- PLAY A SONG FOR ME
- ''...To be wanderin'/ I'm ready to go anywhere...''
A evasão juvenil continua fora portas. De phones nos ouvidos, a transfiguração do ambiente entrega-se à música de Dylan que sai do leitor portátil - como tão bem descreve afinal o hino que a tudo ordena, a “Mr. Tambourine Man”. Como uma utopia em suspenso, a possibilidade de que Julian se aventure para longe, com a ambição de ir ver um concerto de Dylan, recorre. Mas, porque seria o derradeiro destino, o último refúgio, não se contam esforços reais para a sua materialização. Porque depois disso não haveria mais nada.
HEY MR TAMBOURINE MAN
BOB DYLAN
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
Though I know that evenin's empire has returned into sand,
Vanished from my hand,
Left me blindly here to stand but still not sleeping.
My weariness amazes me, I'm branded on my feet,
I have no one to meet
And the ancient empty street's too dead for dreaming.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
Take me on a trip upon your magic swirlin' ship,
My senses have been stripped, my hands can't feel to grip,
My toes too numb to step, wait only for my boot heels
To be wanderin'.
I'm ready to go anywhere, I'm ready for to fade
Into my own parade, cast your dancing spell my way,
I promise to go under it.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
Though you might hear laughin', spinnin', swingin' madly across the sun,
It's not aimed at anyone, it's just escapin' on the run
And but for the sky there are no fences facin'.
And if you hear vague traces of skippin' reels of rhyme
To your tambourine in time, it's just a ragged clown behind,
I wouldn't pay it any mind, it's just a shadow you're
Seein' that he's chasing.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
Then take me disappearin' through the smoke rings of my mind,
Down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves,
The haunted, frightened trees, out to the windy beach,
Far from the twisted reach of crazy sorrow.
Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free,
Silhouetted by the sea, circled by the circus sands,
With all memory and fate driven deep beneath the waves,
Let me forget about today until tomorrow.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
* Como é óbvio, este post é dedicado ao Gonçalo Soares.
** Este filme está presentemente em exibição no Cinema City Classic Alvalade, em sessão dupla com a interessante curta VOODOO de Sandro Aguilar.
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