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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

No futuro é que vamos viver.



Há uma banda, dos frescos Robim e Diogo (Sébastien), com um nome que sempre me fascinou : ‘‘Como se vai viver no futuro’’. Lembra-me daqueles prospectos retro-futuristas dos anos 60 e 70, que prometiam ‘‘Futuro Houses’’, ‘‘Geodesic Domes’’ e ‘‘Xanadu Homes’’, a postos para descolar e participar na perfeição por chegar da era espacial, como quem foge a um presente assolado pela ameaça nuclear. E ocorre-me isto porque hoje sinto muito precisamente que, no que a laços humanos diz respeito, pareço pertencer a uma geração que vive no futuro. São as circunstâncias que assim suspendem as vidas, ou as vidas que assim se deixam suspender pelas circunstâncias.
Vamos lá ver: há uma candura bonita nesta atitude geral de adiar o presente em direcção ao que se prevêem dias melhores. O êxito desse futuro previsto, será uma recompensa pelo mérito, pelo esforço individual, num misto de esperança e de expectativa. Na era do individualismo, deseja-se que vença o ‘‘eu’’, em toda a sua potência. E vive-se num futuro sem data concreta:
- Vou trabalhar em mim, chegarei mais eu;
- Serei um eu mais cumprido e mais conseguido;
- Terei mais coisas, serei mais bem sucedido, serei mais rico, serei mais bonito, serei mais viajado, serei mais admirável, serei mais cool e até, creio, mais jovem.
Então, as emoções humanas e a medida em que se enlaçam são trespassadas por essa ideia de ‘‘melhor por vir’’. A alma gémea será o encaixe da vida pessoal do futuro. A aceitar um Outro, que ele seja tão perfeito como o Eu que está por vir. Esse amor será verdadeiramente mútuo, verdadeiramente intenso, verdadeiramente total, verdadeiramente vitalício. Entretanto, o corpo-aquém do presente vai bamboleando em zigue-zague como dita o ritmo da juventude em seu redor, entre corpos tão semi-perfeitos como ele próprio, com o desdém de quem sabe intimamente que o seu melhor está por dar.
Eis, subitamente, que o inesperado acontece. Eis que, sem aviso prévio, se fende o presente planeado. Eis que alguém maravilhoso acaba de chegar:
- Mas como é que isto aconteceu?
Aconteceu. É um ser verdadeiramente único, não há como negá-lo. Chegou uma pessoa rara como não as há:
- É esta, de certeza?
Dir-se-ia que sim, dir-se-ia que esta convergência de índoles é o mais próximo possível daquilo a que vulgarmente chamamos de ‘‘almas gémeas’’:
- Mas que destino é este? Porque apareceste agora? Então mas tu não sabes que no futuro é que eu vou ser eu?
- Foi uma coincidência de espaço e de tempo, desculpa.
- Dá licença, se fazes favor. Vou esquecer que existes. Não tenho tempo para amar agora, estou a trabalhar em mim.
*
* PS. Ao longo deste último mês, Maria Filomena Molder deu início a um ciclo de palestras a que chamou ‘‘Não te esqueças de viver’’, disponíveis online. Aconselho.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Regeneração (2) : Descontinuar



Mauvais Sang, Leos Carax, 1986

"O momento ou o instante ou o que é iminente e tem o “acesso bloqueado” pode ser compreendido como aquela hora que um dia vem ter connosco, raras vezes preparados para ela, embora possamos estar quase a adivinhá-la, mesmo à espera dela — como se diz que uma mulher espera um filho —, e nessa hora um mundo acabou de morrer e nessa hora um mundo acabou de nascer, hora irrepresentável, reveladora, libertadora, esmagadora, fonte, coração de alguma coisa ou de todas as coisas. Podemos ver o instante como a descontinuidade que se solta do contínuo da vida e se sustém a si própria, como um brilho irreprimível que jorra da fusão entre necessidade e contingência, onde vemos Cronos temporariamente destronado..."

Maria Filomena Molder in "Como Responder ao Tempo Presente"
via blog Forma de Vida

Regeneração (1) : o amor lúcido




La Bohème, King Vidor, 1926

"O amor é uma força e - isto ensinou-me a vida e, por outro lado, Platão - é uma força que atira para a frente e é uma força que liga, que penetra tudo. Não se diz que essa força constitui comunidade, mas na verdade se ela atira para a frente, como um desejo, se ela liga tudo o que existe no cosmos inteiro, entre nós e os animais e entre tudo o que há, não podemos falar verdadeiramente de solidão.
(...) Nos gregos, a força amorosa ou o "eros" tem a ver com um pensamento muito profundo que considera que todos os seres que vivem aspiram à imortalidade e que há formas de imortalidade que são próprias de todos os seres vivos, engendrar o semelhante, e há umas que são próprias do ser humano : desde inventar leis, discutir problemas de filosofia, escrever poemas, etc. A força amorosa é supremamente criativa. (...) O amor é a condição sem a qual não se pode chegar à contemplação, que é o grau supremo do conhecimento.  (...) Há uma espécie de consciência aguda de que a procura amorosa é um deixar cair ligações"

Maria Filomena Molder

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Reino d'Aquém

DESTINO > ORDEM
"O homem enfeita-se com a sua sorte". 
Paul Valéry







Das Nuvens à Resistência, Straub/Huillet, 1979


"A  heroicidade do poeta está em dissolver a ordem do mundo sem entrar nas suas guerras, conduzir ao recolhimento, pelo poder do canto, os homens semelhantes aos deuses, raça solitária, os próprios deuses e o coro dos príncipes."
"Ao poeta, tomam-no pelos cabelos os senhores dos céus (...) A passagem do poeta ao canto - o acto alquímico da transmutação dos vivos em destino poético..."
MARIA FILOMENA MOLDER in "DIA ALEGRE, DIA PENSANTE, DIAS FATAIS", 
Lógica Poética - Friedrich Holderlin




PREVISÃO > RECORDAÇÃO
| "figura única" | 

... No poema não pode ele viver e permanecer;
Ele vive e permanece no mundo.
Holderlin, final do poema "Buonaparte"


Como começaste, assim hás-de ficar,
Por mais forte que seja a necessidade
E a disciplina; é que o que mais pode
É o nascimento
E o raio de luz
Que atinge o recém-nascido.
Holderlin


"A natureza ama ocultar-se" | "o nascimento gosta de esconder-se."
traduções do fragmento 14 de Heráclito













Tarnation, Jonathan Caouette, 2003




VIR A MUNDO > SER ESPERADO POR > VOCAÇÃO DE >
(...) Qual é o lugar do poeta - neste caso, Baudelaire - para Benjamin? É aquele que na sua obra pode dar a ver a imagem da vida? Porque a sua função não é nem a do comentário nem a da crítica.
O poeta não entra na relação entre o químico e o alquimista. Essa relação é a do leitor. Por isso o subtítulo do livro é "Benjamin, leitor de Baudelaire". Benjamin diz que as obras de arte, os poemas, são como pessoas muito atraentes e secretas. Para as conhecermos teríamos de exercer violência sobre elas; mas abstemo-nos de o fazer e perguntamo-nos se essas pessoas não têm familiares (irmãos e irmãs) a quem fosse possível fazer perguntas. Ele diz que esses irmãos e irmãs se encontram nos problemas filosóficos. Considera que os poemas da filosofia estão relacionados uns com os outros e podem constituir uma unidade, mas que não podemos chegar a exprimi-la. A essa falta de possibilidade chama ele ideal do problema.



A pergunta sobre a unidade não pode ser feita ou não tem resposta?
Não pode ser feita porque não tem resposta. Mas o facto de não poder ser respondida não invalida que ela ocorra e tenha a sua fertilidade. Qual será o acesso a essa pergunta inexistente? O acesso é-nos dado pela obra de arte. Não é que a obra de arte concretize o ideal do problema. A obra tem nela própria o ideal do problema enterrado, daí o comentário poder ser visto como um desenterrar. O que implica, no pensamento de Benjamin, uma relação muito profunda entre arte, poesia e filosofia. No fundo, a actividade filosófica exercita-se no reconhecimento das obras de arte e da poesia. A poesia de Baudelaire representa para Benjamin um modo de tocar a raias da vida, o que passa por cima do conceito, da argumentação. O poeta do século XIX canta a cidade, mas já não é ouvido. Há um desajustamento entre a actividade poética e o modo como as forças sociais e económicas se desenvolveram, em particular cristalizadas na teoria do progresso. A criatividade humana, se não contribuir para a utilidade da existência, no que concerne à sua sobrevivência, não é considerada, ou é mesmo rejeitada.
Porque a pergunta que se impõe é: para que serve?
A partir de certa altura, poético começou a querer dizer inexacto, irreal, desnecessário, absurdo, inconsistente. Isto diz qualquer coisa sobre a compreensão do que é a poesia por parte daqueles que, em geral, não a lêem. Pensemos num poeta do século XVI, Tasso. Foi muito lido, reconhecido pelos poderes estabelecidos que lhe pagavam a existência (o duque de Ferrara em particular), mas recusou a coroa de louros. Petrarca, poucas dezenas de anos antes, tinha aceitado. Rilke considera que com Tasso começa, em termos de poesia, a época moderna. A coroa de louros era a aceitação por parte do poeta desse reconhecimento exterior. Tasso teve consciência de que esse reconhecimento não acertava com a intimidade do poeta. Temos uma equivalência disto em Baudelaire, cheia de humor, na auréola do poeta que cai na lama. E que ele não apanha.
"A arte não salva a nossa noite, a arte ilumina a nossa noite como as estrelas, as ideias. Iluminar, porém, não só não é despiciendo, como é indispensável". O lugar da poesia é este?
É impressionante essa carta de Benjamin a Florens Christian Rang, em que faz uma distinção entre a arte e a vida a partir dessas imagens da noite e do dia. As obras de arte pertencem à nossa noite, como estrelas. Não nos salvam. Para nos salvar da noite só o nascer do dia. É aí que se insere a acção histórica. Benjamin tem a este respeito uma posição paradoxal. A noite retorna. E tudo o que ela arrasta - o nosso lado sombrio. É a nossa natureza que escapa à história. Estar diante do abismo é ser moderno em sentido excêntrico (como ele diz). Essas imagens de abismo e noite são qualquer coisa que pertence ao ser humano e que está para além da redenção. A arte não redime.
Mas é indispensável que ilumine. Se não, seria o breu total.
Exacto. Esse brilho não é equivalente à salvação. O coração da arte não é salvar a vida humana. Há quem sofra por causa disso. Hermann Broch, Jorge de Sena também. Sabe que a arte não redime a angústia de viver. Em Benjamin não vemos essas graves perturbações. Só vemos o paradoxo.
A poesia pode ser vista como uma tradução da vida?
Benjamin nunca usa essa expressão para especificar a passagem da vida à poesia. Pensa na tradução como a passagem de uma língua para outra numa relação de vida, redentora. Em texto anterior (que ele desenvolve a partir do Génesis), a linguagem humana da nomeação é já uma forma de tradução. É interessante que não volte a retomar esse conceito de tradução. Talvez porque ela, à luz desse texto, só se possa fazer de uma linguagem inferior para uma superior, da linguagem das coisas para a linguagem humana. Antes da expulsão do Paraíso, é difícil conceber Adão como humano, porque não nasceu. O nascimento é um acontecimento pós-paradisíaco. Nietzsche retoma em "O Nascimento da Tragédia" uma ideia que está presente em textos muito antigos (védicos e gregos) da separação do todo, da individuação. É uma concepção de justiça mítica, de culpa natural, que Benjamin recusa liminarmente. Ele tem a tese de que fomos esperados na Terra.
Que entronca numa expressão que se usa: a mãe está a espera de bebé.
Sermos esperados na Terra implica um dever de rememoração em relação aos que nos esperaram. Os nossos pais e todos os outros. Isso significa que todo o sentido da vida humana tem a ver com a transmissão. Por isso é que a linguagem é sempre a que passa de pais para filhos. É a linguagem em que nos banhamos desde que nascemos, e não uma linguagem construída.   
(...) O fogo-de-artifício de Maria Filomena Molder, Ipsilon 18.05.2011, entrevista de Anabela Mota Ribeiro
... Cada um de vós é um mundo, como estrelas do céu
Vós víveis, um deus cada qual, juntos em livre união.
Pudesse eu tolerar a servidão,  já não invejava
Este bosque e bem me amoldava à vida em comum.
Não me prendesse já à vida em comum o coração
Que não deixa de amar,
Como eu gostava de morrer entre vós!
excerto de "Os Carvalhos" in "Poemas", Holderlin




India Song, Marguerite Duras

aguarela de DALI sobre La Divina Commedia de Dante




autor desconhecido




CORAÇÃO > VERDADE EM VIDA


"O coração não é só uma víscera tenra. Há um sistema moral algures na parte mole do corpo." Gonçalo M.Tavares in "Um Homem: Klaus Klump" 


"I said I love. That is the promise. Now, I have to sacrifice myself so that through me the word 'love' means something. As a reward, at the end of of this long undertaking, I will end up being he who loves. That is, I will merit the name I gave myself. A man, nothing but a man, no better than any other, but no other better than he." Godard


CAOS SAGRADO. 
"Quando era menino | Salvou-me um deus muita vez."
HOLDERLIN


"... pura hybris, o poeta oferece o corpo, as suas mãos - é tudo, é muito e apenas o que tem - e ainda a ajuda que lhe vem da ausência de deus..."
MARIA FILOMENA MOLDER in "DIA ALEGRE, DIA PENSANTE, DIAS FATAIS", Lógica Poética - Friedrich Holderlin



"O "estilo de velhice" não é sempre um efeito dos anos. É um dom implantado no artista conjuntamente com os outros seus dons, amadurecendo talvez com o tempo, florescendo muitas vezes antes de tempo, sob os signos premonitórios da morte, ou desdobrando-se por si próprio antes da chegada da idade ou da morte..." 
Broch, "The style of the mythical Age. Einlung zu Rachel Bespaloff Iliade"


May you build a ladder to the stars
And climb on every rung.
May you stay forever young
BOB DYLAN
Jehson Baak
Desiree Doiron







autor desconhecido


NOMINARE. TERRA. 
PERTENÇA > VIDA, HERANÇA, TRABALHO.

"O cadáver está condenado à terra. 
A terra está condenada ao cadáver."
Gonçalo M. Tavares in "Um Homem: Klaus Klump"


"No princípio, Eurínome, Deusa de Todas as Coisas, brotou nua do Caos, mas não vendo substância em redor onde firmar os pés, apartou do céu o mar, dançando solitária por sobre as suas ondas. Ao dançar para sul, descobriu no vento, que se soltava por trás de si e a cada passo seu, qualquer coisa de novo e distinto com que iniciar um acto de criação."
excerto de "O Mito Pelásgico da Criação", in Os Mitos Gregos, de Robert Graves 



















  





Das Nuvens à Resistência, Straub/Huillet, 1979


LUCIDEZ > RESISTÊNCIA

"Não há nada de mais admirável do que um lúcido vivo."
Mariana Gonçalves Pereira

"Demoremo-nos junto do dia pensante que não abandona Holderlin, e citando Pão e Vinho / Brot und Wein: Tu amas mais do que ela o dia lúcido (der bersonnene Tag). Quem é ela? A noite, a misteriosa, a sonhada, a admirável, a estrangeira, a sublime, noite, triste e faustosa." MARIA FILOMENA MOLDER IN "DIA ALEGRE, DIA PENSANTE, DIAS FATAIS",  Lógica Poética - Friedrich Holderlin


Eucharist, Nicolas Poussin






"L'alcool a été fait pour supporter le vide de l'univers, le balancement des planètes, leur rotation imperturbable dans l'espace, leur silencieuse indifférence à l'endroit de votre douleur; l'homme qui boit est un homme interplanétaire. C'est dans un espace interplanétaire qu'il se meut. C'est là qu'il guette. L'alcool ne console en rien, il ne meuble pas les espaces psychologiques de l'individu, il ne remplace que le manque de Dieu. Il ne console pas l'homme. C'est le contraire, l'alcool conforte l'homme dans sa folie, il le transporte dans les regions souveraines où il est le maître de sa destinée..." Marguerite Duras, La Vie matérielle