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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol, / e solta ventos sobre os campos lavrados.



''Liberté et patrie'', JLG + Anne Marie Mieville, 2002



Dia de Outono


Senhor: é tempo. O Verão foi muito demorado.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol,
e solta ventos sobre os campos lavrados.

Faz arredondar os frutos temporãos;
dá-lhes inda um par de dias meridionais,
leva-os à sua perfeição e espreme
o final doce e negro do vinho da estação.

Quem agora não tem casa, já nenhuma construirá.
Quem agora está só, vai continuar carente,
vai velar, ler, escrever cartas extensas
e vai cirandar aqui, ali, nas alamedas
sem pouso, entre trémulas folhas densas.


Rainer Maria Rilke

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

''Há quem corra por desgosto / porque cansou de gostar''



"The New World" (Godard @ RoGoPaG, 1964) 

Há os que lambem os sorvetes
na ponta do iceberg
Os que fodem bem melhor
entre o primeiro e o quinto
Os que não pedem licença
para chegarem a velhos
E os que guardam esqueletos
em armários sempre abertos
Os que já matam o bicho
ainda o sol não desponta
E os que lêem romances
e ninguém lhes faz de conta.

Há os que correm o risco
de sair mesmo ao papá
Há os que fazem crianças
nos lugares onde se morre
Os que só vestem a roupa
por outros já muito usada
Há os que ousam dizer
se ninguém estiver a ouvir
Há os que gostam da rua
se ela for mal frequentada
E os que saem à semana
pouco antes da madrugada
com ar de cair da cama.

Há quem durma no jardim
mesmo na hora de ponta
Há quem aprenda espanhol
por pura correspondência
Há quem ande mascarado
por horror ao carnaval
Há quem venda o seu cuzinho
para não vender o resto
Há quem cague fora de horas
e coma fora do prato
Há quem seja pau mandado
só para mandar num rebanho
E há quem chore baba e ranho
quando toda a gente se ri
de um disparate tamanho.

Há reis com reis na barriga
e rainhas só de copas
Há segredos que se dizem
só para alguém os guardar
Há todos os que só atraem
para não serem traídos
Há muitos que acendem fogos
que não sabem apagar
Há santos em cada casa
e alguns fazem milagres
E há demónios à solta
que só podem causar danos
a quem conseguir prendê-los.

Há quem fique p’ra morrer
com vontade de matar
Há quem corra por desgosto
porque cansou de gostar
Há quem não saia do sítio
para não perder lugar
Há quem se ponha na fila
para ser mais indiano
Há quem se ponha às escuras
para crescer mais depressa
E há quem acenda uma luz
e a mantenha sempre acesa
para ser sombra chinesa

Regina Guimarães, 40 x Abril

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

''E nós a garatujarmos em papel transparente o coral duma lágrima''

Adieu au Langage, Jean-Luc Godard, 2014

Tive um sonho
(Hugo Santos)
Tive um sonho: uma escola aberta, voltada para a luz dos astros, com uma vozinha a inquirir-me do fundo da sala: «Eh, professor, tu sabes isto?». E eu a dizer que não e a esperar que me ensinem.
Tive um sonho: uma escola sem horários, aberta de manhã à noite, com as paredes forradas de pássaros e de sonhos, e com bolas de sabão voando por dentro do coração das palavras e dos números.
Tive um sonho: uma escola sem planos, sem fichas, sem esboços, com a vida sentada a nosso lado, a ensinar-nos as canções de todas as infâncias e a mostrar-nos por onde passam os rios de todas as memórias.
Tive um sonho: uma escola com o chão atapetado de música, para que nos passos ressoem os acordes dos assombramentos.
Tive um sonho: uma escola dentro dum oceano, para que todos pudéssemos ser pescadores de pérolas e utopias.
Tive um sonho: uma escola debruçada para o país que somos e para o país que temos, para que professores e alunos aprendam todos os dias onde descansam os vales, vigiam as serras e o coração das coisas adormece no justo lugar em que as palavras e as emoções se confundem.
Tive um sonho: uma escola com uma floresta crescendo por dentro das salas, alcatifada de nenúfares, com a luz a bater nas folhas das palavras e os frutos crescendo nas pequenas mãos entreabertas.
Tive um sonho: uma escola que diga: «Aqui é a tua casa. Entra». E, ao entrar nos apercebamos de que aquela é a nossa casa e que, para lá dela, todas as outras casas nos pertencem.
Tive um sonho: uma escola onde o olhar saiba adormecer serenamente como os silêncios e não seja precisa a voz para proclamarmos a festa de estarmos.
Tive um sonho: uma escola onde ensinar e aprender sejam sinónimos e não se saiba nunca o suficiente para nos congratularmos com o êxtase da sabedoria.
Tive um sonho: uma escola, um álamo, um rouxinol anunciando as albas e os crepúsculos. E nós a garatujarmos em papel transparente o coral duma lágrima de emoção inesperadamente sobrevinda.
Tive um sonho: e por dentro do sonho uma casa, uma escola, um regato de peixes prateados. E o Sol, grande, de mil cores, dos desenhos das crianças a pousar-nos nas mãos enternecidas.

sábado, 23 de junho de 2018

‘‘Onde falta a dúvida falta o saber’’ JLG

 JLG / JLG - Autoportrait de Decembre, Jean-Luc Godard (1994)


sábado, 19 de maio de 2018

Godardland




Cahiers du Cinéma Spécial Godard / 1990

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

WHAT is your image? WHAT are you?

Ici et Ailleurs, Godard, 1976

Je tu il elle, Chantal Akerman, 1974

"And I wonder, I wonder, WHAT I am...."
Efterklang, Hollow Mountain







A Insurreição que Vem, Comité Invisível 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A falsa valsa, o baile imaginário

Adieu au Language, Godard, 2014
Sonhando danças, vigil marcas passo
Vivendo dormes, vives se adormeces
Na caixinha de música em que esqueces
Como um velho, sobre o éter do bagaço.
Oh, em ti rodopias, pobre piasca,
Que sonhas teu compasso visionário,
A falsa valsa, o baile imaginário
Nos clássicos salões da tosca tasca.
E abraços tantos são em que te abraças
Que em sonho lasso o abraço lhe prolongas;
Em aguardente imerso o capitão
Assim aceita os braços de outras braças.
A vida… Porque nela te delongas?
A vida cabe toda num caixão.
Daniel Jonas,
in “Nó” assírio & alvim, 2014

domingo, 11 de janeiro de 2015

demasiadas palavras para uma língua

o entendimento natural dos corpos
que a doença da civilização intelectualiza
planta o caos onde o primeiro encaixe é óbvio

e a segunda vida do ser
a vida da cabeça
pesa tanto quanto mais pesar a língua




Adieu au Langage. Godard, 2014

sábado, 10 de janeiro de 2015

Le chien


" Quelque chose s’insinue dans la 3D : des parasites, des couleurs altérées, comme si le réel n’était qu’un fossile, capturé dans une vielle VHS usée par les copies. Dans ces images dévorées par l'anti-matière, mais aussi dans la neige et l’obscurité, la forme humaine est en train de s’estomper ; il reste encore des voix, récitant la vieille philosophie, mais elles ne tarderont pas à s’éteindre elles-aussi. Lorsque la guerre entre les riches et les pauvres, entre les hommes et les femmes sera achevée, il ne restera que Roxy le chien, à l’écoute de ce que l’eau d’une rivière a à lui dire."
Stéphane du Mesnildot sobre Roxy Mieville 

 


sábado, 29 de novembro de 2014

frutos interrompidos

“...não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.”
Fernando Pessoa

Adieu au Langage, JLG
All that Heaven allows, Douglas Sirk, 1955
Brakhage, Persian Series, 1999
Party Girl, Nicholas Ray
The fruit of passion, Vera Chytilová
A cor das romãs, Paradjanov, 1968
Beyond a reasonable doubt, Fritz Lang

Women of Ryazan, 1927, O Preobrazhenskaya


que primavera prever para depois deste inverno?

Blood and roses, Roger Vadim, 1960
"(...)
sei: há esse quotidiano de mãos
que se afundam na distância
e beijos por dar
sempre por dar"





ilustrações de Victor Hugo

Bosphore, Maurice Pialat, 1964



Nouvelle Vague, Jean Luc Godard, 1990


Os Amantes, Louis Malle, 1958
De sábado para domingo, 1931, Machaty

Une femme mariée, JLG, 1964