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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Milady of Moi-Même

Sinto-me agredida quando me tratam por Minha Senhora. Se lhe pareço uma, peço imensa desculpa. Desde o berço que me esforço muitíssimo por não o ser. Tenho a informar-lhe de que não só não sou Senhora, como não sou Sua. Sou milady de moi-même, muy obrigada. Não sei se foi informado, Meu Senhor, mas já bateu na badalada o século XXI. A sua designação é inaceitável e, com franqueza, eu estimo que faça o favor de falecer bem falecido. Agora, desapareça da frente da Senhora antes que passe a conhecer este Senhorial escarro, salivado pelo Seu muito contemporâneo desdém por si. Então boa tarde.


domingo, 25 de março de 2001

APONTAMENTOS PUBERESCENTES (SOBRE A FOTOGRAFIA DE COMEÇAR)




porquê
: FOTOGRAFAR?

I. 
Contra os olhos guardar o efémero!
Reorganizar o relógio pela fixação do instante! 
Contrariar as fronteiras da retina e da atenção!
Vencer o tempo humano!
Superar o Mestre pela técnica!
Guardar segredos dentro de uma objectiva!
Fixar o Tempo que corre!
Rezar ao milagre do Movimento!
Prever a potência e o advento do cinema!
[A FESTA]



II. 

o dia-após-dia transporta a morte

o ritmo pulsa e parece aproximar-se

- os pequenos

espaços que se alargam entre o dia e a noite

registam a aura fotográfica de Benjamin na sua plena morbidez 

senhor cocheiro: tudo é preto tudo é deprimido

tudo é referencial da passagem breve



III.

os instantes sufocados reclamam autenticidade! pois que

não há momento igual a outro

com os nervos o Tempo bate em retirada
só sobra espaço para click 
um disparo certeiro > ao axial / ao asfixial
(ei-lo futuro já morto 
dentro de uma câmara-obscura)

IV.
Velho debaixo de lentes
contempla o album da sua paralisia
: ei-la facada óptica 
bilhete de viagem sem retorno 
papel de chiaroscuro abismo do que 
se foi e se deixou de ser
: VÁCUO.


V.
click click click
chegaram os 25 frames por segundo
em socorro dos olhos e das rugas e
o poema arranca-se à serena mise-en-scéne 
: o cinema feito máscara de máximos é
um sonho suspenso da morte 
um mero episódio técnico onde
as vidas se deixaram viver
no seu recontar romântico
(levando para recordação
instantâneos de enfeites)

VI.
as expectativas ordenam-se
(retocadas e maquilhadas e enfiadas nos seus vestidos melhores)
: aguardam num alvo sentado
como quem espera pela missa

VII.
a Fotografia ganhou à Pintura ~ hooray 
as mãos modernistas estão livres pela máquina mas
que artes é que ainda interessam
nesta idade obesa de objectos?

porquê
: POSTAR?
VIII. 
DAQUI
temos vista para a arte e para a morte e
na febre tudo se funde e profuz 
(bacante, dialético, cinético, frutífero)
: a realidade vende-se juvenil e
a contemporaneidade compra 
cupidos e ninfetas e sex-symbols (poliédricos no Myspace)

IX. 
o maniqueísmo é intemporal e
chega sempre por + 
: a pequenez aberta dos dois olhos 
desde o princípio impressionados pelo 
jogo das formas e das cores
embalsama imagens à mercê do câmbio
(passeando o fardo infiel da ditadura dos mercados)

X.
queremos punctum
queremos ídolos
queremos o fim longe (há todo um EU por achar)
: sacudimos do pêlo os discursos e as disciplinas 
somos fantasmas post-mortem mas
deixamos pairar o Deus panóptico
imprimindo vigilância na regra
apelando à contenção e à modéstia  
(não vá a vaidade engolir-nos)

XI.
a falta de arte confunde-se com a arte
MAS
a proibição subsiste púdica e castrada
reinando para fechar as cabeças
esgotando os nossos innuendos e os nossos sublimes
prosseguindo por exorcismo para abençoar o túmulo 

XII.
as redes celebram um novo sinistro 
idolatrando esteticamente os pares impossíveis  
como quem reza por mais
(e se isto ~ em fatum fulminante ~ agora desaparecer tudo
para onde foi que se trabalhou tanto???) 
o nosso entretenimento é escapar 
à hora em que a goela do macabro expira
nem a cloud salva - o pesadelo foge em totentaz
: não há outro dueto na danse macabre 

porquê
: FILMAR?
XIII.
as veias excitam a melodia da fuga
as séries explodem nos canais todos - por cabo e por fibra
uma mancha negra de ver e ser visto
em tentáculo, em rítmico, em fásico, em telecoito 
abre portas nos pixéis e nós
fugidos para lá 
descomplexamos o catecismo e 
abrimos o corpo por dentro
: CSI
: Dexter
: Grey's Anatomy
: Dr.House
: Nip/Tuck
quero ver a bom ver
quero ver o que nunca vi
quero ver para lá da visão

XIV.
Nasce uma ideia pública de verdade
Nasce um argumento jurídico
Nasce uma evidência em sinal aberto
Nasce a incontestabilidade pela prova:
uma imagem vale mais do que mil palavras
: chata a fotografia enquanto documento = ufa
: chata a fotografia enquanto verdade = ufa
(que arte vai ser a nossa afinal?)

XV.
Muybridge fotografava contra a óptica  
demorando retratos sobre horizontes
ensaiando omnipresenças 
com cavalos e bailarinas e atletas e prodígios e
emprestando ângulos à ciência do útil
perseguia o Cinema por chegar e
fiscalizava ao detalhe
sem adivinhar que a lupa ia evoluir para reality-show
(e que - via vídeo - para todos chegaria 
d'alto abaixo
o Big Brother que Orwell previu em 1984)

quinta-feira, 2 de março de 2000

{ Friday Night }

: porque
1) me têm perguntado pelo Yoshida
2) queria experimentar o Giphy novo
3) sexta-feira



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2000

:autobiografia sumária

Nick Drake - One Of These Things First


domingo, 13 de fevereiro de 2000

*irony alert*


às vezes
há ali segundos em que
de mim para mim
digo piadas tão boas mas tão boas
precisas, pertinentes, rigorosas
sobre assuntos de leque variado
que, de tão contente comigo, 
rio-me, decifro-me,
cumprimento-me como quem se estima e
dando a volta toda cá dentro
deixei passar o momento e 
em voz alta 
não cheguei a dizer nada.