porquê
: FOTOGRAFAR?
I.
Contra os olhos guardar o efémero!
Reorganizar o relógio pela fixação do instante!
Contrariar as fronteiras da retina e da atenção!
Vencer o tempo humano!
Superar o Mestre pela técnica!
Guardar segredos dentro de uma objectiva!
Fixar o Tempo que corre!
Rezar ao milagre do Movimento!
Prever a potência e o advento do cinema!
[A FESTA]
II.
o dia-após-dia transporta a morte
o ritmo pulsa e parece aproximar-se
- os pequenos
espaços que se alargam entre o dia e a noite
registam a aura fotográfica de Benjamin na sua plena morbidez
senhor cocheiro: tudo é preto tudo é deprimido
tudo é referencial da passagem breve
III.
os instantes sufocados reclamam autenticidade! pois que
não há momento igual a outro
com os nervos o Tempo bate em retirada
só sobra espaço para click
um disparo certeiro > ao axial / ao asfixial
(ei-lo futuro já morto
dentro de uma câmara-obscura)
IV.
Velho debaixo de lentes
contempla o album da sua paralisia
: ei-la facada óptica
bilhete de viagem sem retorno
papel de chiaroscuro abismo do que
se foi e se deixou de ser
: VÁCUO.
V.
click click click
chegaram os 25 frames por segundo
em socorro dos olhos e das rugas e
o poema arranca-se à serena mise-en-scéne
: o cinema feito máscara de máximos é
um sonho suspenso da morte
um mero episódio técnico onde
as vidas se deixaram viver
no seu recontar romântico
(levando para recordação
instantâneos de enfeites)
instantâneos de enfeites)
VI.
as expectativas ordenam-se
(retocadas e maquilhadas e enfiadas nos seus vestidos melhores)
: aguardam num alvo sentado
como quem espera pela missa
VII.
a Fotografia ganhou à Pintura ~ hooray
as mãos modernistas estão livres pela máquina mas
que artes é que ainda interessam
nesta idade obesa de objectos?
porquê
: POSTAR?
VIII.
DAQUI
temos vista para a arte e para a morte e
na febre tudo se funde e profuz
(bacante, dialético, cinético, frutífero)
: a realidade vende-se juvenil e
a contemporaneidade compra
cupidos e ninfetas e sex-symbols (poliédricos no Myspace)
IX.
o maniqueísmo é intemporal e
chega sempre por +
: a pequenez aberta dos dois olhos
desde o princípio impressionados pelo
jogo das formas e das cores
embalsama imagens à mercê do câmbio
(passeando o fardo infiel da ditadura dos mercados)
X.
queremos punctum
queremos ídolos
queremos ídolos
queremos o fim longe (há todo um EU por achar)
: sacudimos do pêlo os discursos e as disciplinas
somos fantasmas post-mortem mas
deixamos pairar o Deus panóptico
imprimindo vigilância na regra
apelando à contenção e à modéstia
(não vá a vaidade engolir-nos)
XI.
a falta de arte confunde-se com a arte
MAS
a proibição subsiste púdica e castrada
reinando para fechar as cabeças
esgotando os nossos innuendos e os nossos sublimes
prosseguindo por exorcismo para abençoar o túmulo
XII.
as redes celebram um novo sinistro
idolatrando esteticamente os pares impossíveis
como quem reza por mais
(e se isto ~ em fatum fulminante ~ agora desaparecer tudo
para onde foi que se trabalhou tanto???)
o nosso entretenimento é escapar
à hora em que a goela do macabro expira
nem a cloud salva - o pesadelo foge em totentaz
: não há outro dueto na danse macabre
porquê
: FILMAR?
XIII.
as veias excitam a melodia da fuga
as séries explodem nos canais todos - por cabo e por fibra
uma mancha negra de ver e ser visto
em tentáculo, em rítmico, em fásico, em telecoito
abre portas nos pixéis e nós
fugidos para lá
descomplexamos o catecismo e
abrimos o corpo por dentro
: CSI
: Dexter
: Grey's Anatomy
: Dr.House
: Nip/Tuck
quero ver a bom ver
quero ver o que nunca vi
quero ver para lá da visão
XIV.
Nasce uma ideia pública de verdade
Nasce um argumento jurídico
Nasce uma evidência em sinal aberto
Nasce uma evidência em sinal aberto
Nasce a incontestabilidade pela prova:
uma imagem vale mais do que mil palavras
: chata a fotografia enquanto documento = ufa
: chata a fotografia enquanto verdade = ufa
(que arte vai ser a nossa afinal?)
XV.
Muybridge fotografava contra a óptica
demorando retratos sobre horizontes
ensaiando omnipresenças
ensaiando omnipresenças
com cavalos e bailarinas e atletas e prodígios e
emprestando ângulos à ciência do útil
perseguia o Cinema por chegar e
fiscalizava ao detalhe
sem adivinhar que a lupa ia evoluir para reality-show
(e que - via vídeo - para todos chegaria
d'alto abaixo
d'alto abaixo
o Big Brother que Orwell previu em 1984)
