domingo, 25 de março de 2001

APONTAMENTOS PUBERESCENTES (SOBRE A FOTOGRAFIA DE COMEÇAR)




porquê
: FOTOGRAFAR?

I. 
Contra os olhos guardar o efémero!
Reorganizar o relógio pela fixação do instante! 
Contrariar as fronteiras da retina e da atenção!
Vencer o tempo humano!
Superar o Mestre pela técnica!
Guardar segredos dentro de uma objectiva!
Fixar o Tempo que corre!
Rezar ao milagre do Movimento!
Prever a potência e o advento do cinema!
[A FESTA]



II. 

o dia-após-dia transporta a morte

o ritmo pulsa e parece aproximar-se

- os pequenos

espaços que se alargam entre o dia e a noite

registam a aura fotográfica de Benjamin na sua plena morbidez 

senhor cocheiro: tudo é preto tudo é deprimido

tudo é referencial da passagem breve



III.

os instantes sufocados reclamam autenticidade! pois que

não há momento igual a outro

com os nervos o Tempo bate em retirada
só sobra espaço para click 
um disparo certeiro > ao axial / ao asfixial
(ei-lo futuro já morto 
dentro de uma câmara-obscura)

IV.
Velho debaixo de lentes
contempla o album da sua paralisia
: ei-la facada óptica 
bilhete de viagem sem retorno 
papel de chiaroscuro abismo do que 
se foi e se deixou de ser
: VÁCUO.


V.
click click click
chegaram os 25 frames por segundo
em socorro dos olhos e das rugas e
o poema arranca-se à serena mise-en-scéne 
: o cinema feito máscara de máximos é
um sonho suspenso da morte 
um mero episódio técnico onde
as vidas se deixaram viver
no seu recontar romântico
(levando para recordação
instantâneos de enfeites)

VI.
as expectativas ordenam-se
(retocadas e maquilhadas e enfiadas nos seus vestidos melhores)
: aguardam num alvo sentado
como quem espera pela missa

VII.
a Fotografia ganhou à Pintura ~ hooray 
as mãos modernistas estão livres pela máquina mas
que artes é que ainda interessam
nesta idade obesa de objectos?

porquê
: POSTAR?
VIII. 
DAQUI
temos vista para a arte e para a morte e
na febre tudo se funde e profuz 
(bacante, dialético, cinético, frutífero)
: a realidade vende-se juvenil e
a contemporaneidade compra 
cupidos e ninfetas e sex-symbols (poliédricos no Myspace)

IX. 
o maniqueísmo é intemporal e
chega sempre por + 
: a pequenez aberta dos dois olhos 
desde o princípio impressionados pelo 
jogo das formas e das cores
embalsama imagens à mercê do câmbio
(passeando o fardo infiel da ditadura dos mercados)

X.
queremos punctum
queremos ídolos
queremos o fim longe (há todo um EU por achar)
: sacudimos do pêlo os discursos e as disciplinas 
somos fantasmas post-mortem mas
deixamos pairar o Deus panóptico
imprimindo vigilância na regra
apelando à contenção e à modéstia  
(não vá a vaidade engolir-nos)

XI.
a falta de arte confunde-se com a arte
MAS
a proibição subsiste púdica e castrada
reinando para fechar as cabeças
esgotando os nossos innuendos e os nossos sublimes
prosseguindo por exorcismo para abençoar o túmulo 

XII.
as redes celebram um novo sinistro 
idolatrando esteticamente os pares impossíveis  
como quem reza por mais
(e se isto ~ em fatum fulminante ~ agora desaparecer tudo
para onde foi que se trabalhou tanto???) 
o nosso entretenimento é escapar 
à hora em que a goela do macabro expira
nem a cloud salva - o pesadelo foge em totentaz
: não há outro dueto na danse macabre 

porquê
: FILMAR?
XIII.
as veias excitam a melodia da fuga
as séries explodem nos canais todos - por cabo e por fibra
uma mancha negra de ver e ser visto
em tentáculo, em rítmico, em fásico, em telecoito 
abre portas nos pixéis e nós
fugidos para lá 
descomplexamos o catecismo e 
abrimos o corpo por dentro
: CSI
: Dexter
: Grey's Anatomy
: Dr.House
: Nip/Tuck
quero ver a bom ver
quero ver o que nunca vi
quero ver para lá da visão

XIV.
Nasce uma ideia pública de verdade
Nasce um argumento jurídico
Nasce uma evidência em sinal aberto
Nasce a incontestabilidade pela prova:
uma imagem vale mais do que mil palavras
: chata a fotografia enquanto documento = ufa
: chata a fotografia enquanto verdade = ufa
(que arte vai ser a nossa afinal?)

XV.
Muybridge fotografava contra a óptica  
demorando retratos sobre horizontes
ensaiando omnipresenças 
com cavalos e bailarinas e atletas e prodígios e
emprestando ângulos à ciência do útil
perseguia o Cinema por chegar e
fiscalizava ao detalhe
sem adivinhar que a lupa ia evoluir para reality-show
(e que - via vídeo - para todos chegaria 
d'alto abaixo
o Big Brother que Orwell previu em 1984)

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