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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Philippe Garrel, Isabelle Huppert and Maurice Pialat.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

''Onde estou que não me encontro?''

La naissance de l'amour, Philippe Garrel, 1993

Quero a fanfarra dos simples, o augusto coreto das sombras!
Onde estou que não me encontro?
Eu tenho uma fome assassina, de descarnar os cabos
das costelas, de estraçalhar milagres biológicos,
a existência miserável de seres que antes eram vivos
e agora enfeitam o cemitério do meu prato.
Esta afluência ao restaurante põe-me doido!
Este querer comer como eu quero este querer cuspir como eu
quero”
(Canícula, pag.48)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Chacun Son Lit (ou pas de tout)

O Coração Fantasma, Philippe Garrel, 1995

sábado, 7 de abril de 2018

''O Direito a Desligar''

Marie pour Mémoire, Garrel, 1967 
‘‘É um erro de ingenuidade, por vezes também cometido por Karl Marx, achar que é a tecnologia que nos vai elevar a um patamar superior’’ Franco Piperno

* http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-03-25-Acorrentados-ao-trabalho-#gs.ATn4MFw

sábado, 20 de janeiro de 2018

- De que é que vocês falam? / - Da guerra. / - De qual guerra? / - Da próxima.

L'Amant d'un jour, Philippe Garrel, 2017

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

: VISA

Actua 1, Philippe Garrel,1968



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Le vent de la nuit




LE VENT DE LA NUIT / 1999


Um filme de Philippe Garrel
Folha da Cinemateca

Temos insistido muito, nestas “folhas” sobre os filmes de Garrel, na questão da “serenidade”, e de como as mais recentes obras do realizador a exibem de maneira impressionante. Le Vent de la Nuit não muda essa maneira de ver – é um filme que nunca levanta a voz, porventura mais contemplativo do que qualquer outro filme de Garrel, e onde, de novo, se pressente haver uma espécie de misteriosa “sagesse” a comandar-lhe as entrelinhas.

Houve muita gente que o descreveu como um “road movie”, coisa que o filme, literalmente, até é. Basta ver como nos ficam na memória aquelas auto-estradas que correm ao longo da costa do Mediterrâneo (há outras auto-estradas no filme, mais interiores e nubladas, mas estas deixam uma marca especial), filmadas de maneira belíssima e com uma fotografia onde a luz e a cor (o trabalho de Caroline Champetier é fabuloso) adquirem uma textura digna de alguns outros grandes filmes sobre o Mediterrâneo (estamos, claro, a pensar em Godard ou em Rozier). Le Vent de la Nuit tem estradas e automóveis (um magnífico Porsche vermelho) suficientes para cumprir os requisitos de qualquer “road movie”. Mas, ainda assim, se essa expressão se nos agarra ao espírito é menos porque precisemos de o inscrever num género ou subgénero do que pela sensação de que a um nível, digamos, metafórico, “road movie” é mesmo a expressão mais adequada para descrever Le Vent de la Nuit. Ou, mais exactamente, um “end of the road movie”, um filme sobre o fim do caminho.

Que significado tem, numa hipotética tipologia do protagonista garreliano, a personagem de Daniel Duval, Serge? É fácil de notar que, em Le Vent de la Nuit, é essa a personagem que mais se aproxima de uma representação do próprio Garrel – quer pela idade e pelo estatuto dentro do filme, quer por aquilo que nos é revelado sobre a sua história: um “veterano” do Maio de 68 (“faz-se a revolução porque se é revolucionário”), que viveu as euforias idealistas da juventude mas que não encontrou nada, aparentemente, capaz de as substituir uma vez passado o tempo dos idealismos de juventude. Encontramo-lo, portanto, num impasse, preso duma suspensão e duma falta de horizonte (apenas iludido pela conquista do horizonte nas auto-estradas) que se percebe durar há demasiado tempo e que não tem saída à vista. O encontro com Paul (Xavier Beauvois), a história com Hélène (surpreendente Catherine Deneuve), têm entre eventualmente outros efeitos o de tornar clara (quanto mais não seja para o próprio Serge) a profundidade desse impasse.

Ao mesmo tempo, a relação entre Garrel e o seu protagonista não é, como noutros casos, preenchida por qualquer autobiografia visível – tudo se mantém suficientemente vago e alusivo, como se Garrel se projectasse, sim, mas desta vez non troppo. Vejamos Serge como um duplo de contornos indefinidos do próprio Garrel, não como um auto-retrato.

Vejamo-lo assim porque, em última análise, Serge não é Garrel, e isso é um dado fundamental. Dir-se-ia que Le Vent de la Nuit existe para o provar, e que tira daí a sua razão de ser. É uma superação, o momento em que à serenidade do olhar de Garrel se vem juntar a sua pacificação (uma coisa e outra não são sinónimos nem se implicam mutuamente). Num certo sentido, Garrel filma Serge para se afastar dele, para confirmar que, ao contrário dele, levou a bom porto um processo de aceitação (de si e da sua história) que lhe permite não ser Serge – e sobretudo não ter o seu destino. É o momento determinante do filme, essa cena, uma das mais extraordinárias que Garrel já filmou, do suícidio de Serge (e aqui, uma chamada de atenção para o actor, Daniel Duval, de quem os espectadores portugueses talvez se lembrem em Y Aura-t-il de la Neige à Nöel? de Sandrine Veysset). É um momento que parece determinante, ainda, na própria obra de Garrel, qualquer coisa como uma resolução do passado e uma decorrente aceitação do presente. Como se Garrel se desfizesse do seu duplo, e isso fosse uma maneira de seguir em frente: Serge suicidou-se, Garrel fez um filme. É óbvio que não podem ser a mesma pessoa.


Luís Miguel Oliveira

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

- pelas planícies todas do azul

Le Bleu des Origines, Philippe Garrel, 1979

SARÇA ARDENTE

Um toque leve,
e eu perder-me-ei
- pelas planícies todas do azul,
pelos campos mais longos
que quiseres,
em direcção a leste, a norte,
a sul

Um toque tão macio de rouxinol
que a tortura se apague,
um nome se incendeie
junto ao chão
e expluda com a tarde

Desliza-me na pele
o fio incandescente dos teus dedos,
que eu entrarei de frente
pelo sol,
e arderei no sol,
sem medo


Ana Luísa Amaral


terça-feira, 24 de março de 2015

Café com o último dos românticos.




A entrevista que, com a Mariana Castro, fiz a PHILIPPE GARREL.

http://www.apaladewalsh.com/2015/02/24/philippe-garrel-a-razao-profunda-da-vida-e-o-amor/

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Mapas de tempo.

 Possível mapa da Lemúria ( ou do continente Mu) e da Atlântida



 Anemone, Philippe Garrel 1967


Rue Fontaine, Philippe Garrel 1984


Bigger than Life, Nicholas Ray 1956

Kardiogramma (Kairat), Omirbaev 1992




segunda-feira, 5 de setembro de 2011

- Pour continuer à faire marcher le monde?

- Oui, pour continuer à t'aimer. 







HOMEM #1 - Li que algumas pessoas, cegas de nascimento, podem agora ter a sua visão, mas algumas enlouquecem porque não conseguem ver.
MULHER #2 - Como?
HOMEM #1 - Eles vêem mas não sabem o que escolher. Não sabem distinguir certas superfícies, certos objectos. Quando somos pequenos, aprendemos como captar esta realidade, somos ensinados. Eles não sabem como fazê-lo. Por exemplo, Josette, se olhares para a rua, vês tudo parecido.
HOMEM #2 - Como uma camera.
HOMEM #1 - Sim. Talvez seja para isso que uma camera serve.
HOMEM #2 - Talvez seja a história que nos obriga a escolher.
MULHER #2 - E se não houver uma história, digo, em cada um de nós... A cada dia, acordo e pergunto-me "O que é a vida?", "O que é que eu sou na vida?"
HOMEM #1 - Impossível !
HOMEM #2 - Sim. Cada vez que se começa um filme, ou se grava uma cena, é como esse levantar de manhã e perguntar-se, Que azul é esse com esse branco por cima, ou o que são essas caixas sobre os carris...
HOMEM #1 - Mas continua a ser uma história.
MULHER #2 - Sem uma história, não poderíamos conhecer pessoas, ou estar apaixonados.
HOMEM #2 - Tu és a minha história!
MULHER #1 - Uma história é uma história de amor. É o amor que faz as histórias nas nossas vidas.
MULHER #2 - Cada vez que amamos, a história desse amor é uma contagem decrescente até outra história. Eu nasci para o amar. Se não tivesse feito isto e aquilo, se não tivesse conhecido os que mo apresentaram... Apenas o amor dá significado às coisas. 
HOMEM #2 - Não podemos fazer uma história sozinhos. Procuramos alguém para amar e... para fazer uma história de vida, com um princípio, um meio e um fim.
MULHER #2 - Engraçado!
HOMEM #1- O fim de uma história é como o fim do amor. Quando era miúdo, chorava quando terminava uma história de que gostava. Uma pessoa habitua-se.
MULHER #1 - Viver um amor é como ler e simultaneamente escrever uma história. Vê-se a acontecer e, ao mesmo tempo, tenta-se que vá durando. É por isso que o amor é interessante.
HOMEM #1 - Como podemos discutir o amor? Não é um objecto, não é uma máquina nem uma função. Somos nós. Como é que podemos discutir-nos, ou às nossas vidas, como algo interessante?
MULHER #1 - Porque eu não tenho medo de olhar para nós. Tu não te atreves. Assusta-te.
MULHER #2 - Os homens usam o amor para viver mas não conseguem fazer com que resulte. É como conduzir um carro, repetindo-lhe: "Não deixes de funcionar." Eles não conseguiriam arranjá-lo, por isso têm medo. 
HOMEM #1 - Você sai, levanta o capot e arranja o carro. 
HOMEM #2 - É você quem faz andar a história.
MULHER #2 - Ninguém faz uma história andar. Ela vai!
HOMEM #2 - Você disse...
MULHER #1 - Vemos uma manutenção diária. Não o conduzimos. Segue sozinho até ao acidente. 
HOMEM #2 - Acidente?
MULHER #1 - Um acidente acontece sempre em todas as histórias. Quem diz que uma história tem de acabar? Toda a gente quer que dure, mas acaba. Nem o autor consegue dizer porque é que acaba. É um acidente.
HOMEM #1 - Dizes isso tão friamente.
MULHER #2 - É como a morte. Sabemos que existe mas não acreditamos nela.
HOMEM #2 - Vou morrer nos teus braços.
MULHER #2 - Eu também gostava de morrer assim.

(...)









LES BAISERS DE SECOURS, PHILIPPE GARREL, 1989

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Serge Daney sobre L'enfant secret





Um homem deixa entender que sofreu. Um cineasta diz que ele testemunha por sua geração. Uma experiência luta para chegar à narrativa.Um conto ainda está brilhante de ter passado por tanto gelo. É um filme? Se sim, L’enfant secret assemelha-se bem “àquilo que se passa hoje no cinema francês. “Sofrimento”, “testemunha”, “experiência”, “Narrativa”.Palavras maus vistas, maus ditas, envelhecidas e que fazem medo.Retomemos.
O homem sofreu, mas ele não se lamenta muito não ( é um dandy).Sua geração? Perdida, é claro, aliás como a nossa. A experiência? Banal de chorar. Um homem e uma homem com nomes bíblicos ( Elie e Jean-Baptiste), interpretados por dois atores bressonianos ( Anne Wiazemssky e Henri de Maublanc ), ou o encontro do eletrochoque e da overdose nos tetos de Paris. Entre eles , o segredo mal guardado de uma criança, Swann. Swann é um pouco de película tremular.E a narrativa? Como já não se fazem mais. Cada movimento talhado com jaspe ou acariciado com um seixo em mãos , com um começo e um fim, um antes e um depois. Retomemos, portanto.

O sofrimento é surdo, contido, nada orgulhosa.Ela não dispõe nem de muitas palavras nem de muitas imagens.Ela está lá, isto é tudo.Lá por onde devemos necessariamente passar.Em um gesto convulsivo, olhem Wiazemsky na cena final, olhem suas mãos; ou em uma voz muito branca escutem o homem falar de seu internamento psiquiátrico: a dor de se “juntar” entre duas ausências a si-mesma). Ela está na feiúra dos quartos de hotel, em uma Paris friorenta, sobre um lenço ensangüentado, no sorriso de um que tarde a vir ou no rictus de outro que passa por um sorriso. Do sofrimento não há nada a dizer.É cada um por si e plano por plano.Para a espectadora também( suponhamos aqui que o espectador também  havia sofrido).

O testemunho,podemos rir. À “geração perdida” podemos dizer: uma a mais!Recentemente, nos perguntávamos qual tio Godard nos contaria as mais belas histórias da geração que teve 2O anos em 68.( aquela de Garrel).
Era no momento de Morrer a vinte anos. Quem filmaria o militantismo, a droga, a mendicância, as trips e os flips? Quem o teria feito do interior? L’enfant secret não é Mãe e a puta, mas dez anos depois é do que mais se aproxima dela. Em Eustache, falava-se até vomitar, julgava-se a todo instante, morria-se de discurso , ou administritava-se uma zona de silêncio mortal no coração de uma língua colocada para fora dela mesma. Em Garrel, é semelhante, com a condição de ser inverso. Não se cala muito,todas as palavras são desajeitadas, ninguém sabe julgar,faz-se vagamente parte de um mundo onde todo mundo deve ser bom (há angelismo em Garrel, não é segredo para ninguém), mas em alguma parte ou lugar , e jamais ali onde ele está. No seio da afasia, Garrel maneja uma espécie de monólogos em branco. Olhem Elie e Jean-Bapthiste”se parler” em um único movimento de câmara que os segue, aéreo.

---Tu a mangé aujourd’hui?  ----Attends, laisse-moi te raconter le film...
Agora, a experiência. A experiência não é a comunicação fácil; é um péssimo condutor de “fenômenos de sociedade”, mas esta deixa traços . Seria preciso, pensa Garrel, que estes traços sejam os menos espetaculares possível. Porque o espetáculo é o outro pólo da experiência , o pólo vendedor.Teria tudo dado errado em França se tudo tivesse sido sacrificado ao espetáculo (ou mesmo, como em Boisset, sua denunciação hipócrita), porque o cinema francês, frágil em demasia no espetacular, é muito forte no experiencial, no existencial.É assim. Filmes irresumíveis , telas tomadas por “folhas arrancadas”a livros de bordo e diários íntimos, do negro e do branco e das vozes off, é isso o que rende o cinema francês único: Um chant d’amoir, Pickpocket,Testamento de Orfeu, Le petit soldat, L’enfance n de janeiro de janeiro de janeiroue, Amour fou, todo Eustache, todo Garrel, e agora enfant secret.
A narrativa, para acabar. Ali onde o filme toca na mais justa questão, o lugar deste balbucio severo à la Paulhan. Pois o filme conta ao mesmo tempo em que não quer morrer ou então porque já está morto ( esperemos pelo próximo Ruiz!) Contamos para nos curar.Dizer “antes” e “depois”, esta coisa que tanto intrigava a Musil, é um signo de vida. A filmografia de Garrel, às vezes era como o deserto de Cicatriz interior, plano como um encefalograma, com remontadas ao céu sulpiciennes e de olhares de ícones-câmera.Neste sentido, L’enfant secret, tão vacilante pobre assim como é, é desconcertante.
E porque se trata aqui de questões de infância, eu pensava neste pequeno eslovaco do cinema moderno porque, em quartoze anos, havia aprendido uma coisa: que é preciso semear migalhas detrás de si, e que cada uma destas migalhas seja única. As “cenas” de Enfant secret são longos inserts, saynètes (esboços) ou, como Jean Douchet tem bem razão de dizer , são carícias. Às vezes áridas ( dir-se-ia então que se trata de cinema de amador), às vezes suntuosas (lembremo-nos agora que Garrel não ignora nada da beleza; que ele a mantém sentada, muito jovem, sobre seus joelhos).
É como se este filme autobiográfico tivesse conseguido não perder o Norte sem esquecer o traço de cada etapa. Ataques de experiência sensorial pura ( tocar, ter fome), atos em sua secura ( o eletrochoque), momentos serenos e furtivos.Gosto muito da cena onde Jean Bapthiste , realmente sob os hábitos de um mendigo, acende a bituca de cigarro que acabara de pegar sob o banco.Eu disse a mim mesmo que, era como se fosse Griffith ou Charlot que viessem por alguns instantes. Que Garrel havia filmado esta coisa que jamais se viu: a cabeça dos atores dos filmes mudos nos momentos em que é  o noir do carton, com suas pobres palavras de luz, que ocupa a tela.

Tradução: Luiz Sares Junior

domingo, 9 de agosto de 2009

REVELAÇÃO :




Le Révélateur
PHILIPPE GARREL (1968)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A sobrevivência do Amor :




A câmera-coeur de Garrel é o acto tempo da epifania.

CARMELO MARABELLO em "Journal, Nico"


Drogámo-nos no seu cinema, sonhámos sonhos de sexo e noite, de natureza e de corpos, nós os filhos serôdios do salazarismo, que já nada queriamos nem de deus, nem da pátria e da família apenas aguardavamos a mesada.
Depois de Rossellini, depois de Godard, o cinema rasgava os cânones da teia dos sentidos, da mecânica narrativa, das motivações psicológicas, recuperava do par de namorados esse beijo que é o intenso desejo de filmar, a câmara possuindo a rapariga abandona, pintor e modelo presos pelo rodar da película, prazer consentido e desvendado.

JORGE SILVA MELO em "O Cinema do Filho"




J'entend plus la guitare
PHILIPPE GARREL (1991)


"- Devias fazer o retrato da Lola. Verias que ela tem uma existência própria.
- Eu sei que ela existe, mas podia muito bem ser outra.
- Achas que as mulheres são todas iguais.
- Digamos que sim. É por isso que não quero outra. Sei que se fosse outra seria a mesma...
- Tu, por outro lado, nunca deixarás de procurar a mulher ideal. Hás-de ir mudando sem te dares conta de que a mulher ideal tem de ser criada por ti. Receias o fim de um amor como receias a morte. "Só as grandes coisas têm grandes fins", já dizia Heidegger.
- Quem?
- Um outro Martin...
- Julgas que se vive de citações mas elas só vêm nos livros. E a vida...
- A vida também vem nos livros.
- És um parvalhão!
- O amor foi inventado pelos trovadores.
- Começou nos livros e acabará...
- Quando não tivermos mais livros.
- Talvez sejamos a última geração a amar...
- ... ou a falar de amor."






Le Coeur Fantôme
PHILIPPE GARREL (1996)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Celebram-se...


OS 40 ANOS DO MAIO DE 68


Vem a propósito. Porque aqui se falou de Os Amantes Regulares (Philippe Garrel, 2005) , um filme que vive na pele dajuventude revolucionária na França que proteagonizou o Maio de 68, que Garrel viveu na pele e filmou in loco, E há Louis Garrel, filho do realizador, que não só encarna um desses jovens em os Amantes Regulares, como também em The Dreamers (Bertolucci, 2003).

A celebração desdobra-se:
PAUL SMITH lança 68 exemplares de um livro contendo os posters mais marcantes da época.



Fotografias de HAMBOURG, no Berkeley Art Museum


Em Portugal, a data será celebrada com um ciclo de colóquios, sessões de cinema e exposições:

- Semana de 5 a 9 de Maio:


"Maio de 68 no cinema"- duas sessões por dia que descobrem filmes realizados em 1968 ou que tenham um olhar sobre os acontecimentos da época, no Instituto Franco-Português. "Loin Du Vietnam, um documentário de intervenção contra a guerra do Vietname uniu os pontos de vista de realizadores como Jean Luc Godard, Agnès Varda, Chris Marker ou Alain Resnais e será exibido nesta semana. Os "Cinétracts", cerca de 50 filmes curtos, com uma duração de dois a três minutos, realizados em 1968 por um colectivo que reuniu amadores e consagrados do cinema francês, com o objectivo de despertar consciências e de agitação imediata, integram também a lista dos filmes a apresentar nesta semana. O Instituto Franco-Português espera também exibir dois filmes de Godard (ainda sem confirmação) "La Chinoise" e "Un Film comme les autres".



- As comemorações dos 40 anos do Maio de 68 incluem ainda um concerto, que vai decorrer na Fábrica de Braço de Prata, com os Kronstadt Big Band.

- 22 de Abril a 29 de Maio: A Fundação Mário Soares também se associa às comemorações com uma exposição de Cartazes de Maio de 68 nas suas instalações e um colóquio que aborda as consequências do acontecimento em Portugal.




FONTES:
http://estudossobrecomunismo2.wordpress.com/2008/04/10/maio-de-1968-visto-de-berkeley/
http://sound--vision.blogspot.com
http://vogue.fr
http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=336745&visual=26&rss=0

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Révélateur (Philippe Garrel)




Le Révélateur
PHILIPPE GARREL (1968)

sábado, 18 de novembro de 2006

Caio para cima de ti.

(...)

E assim continuámos. 

Aquela hora não esquece. 
Não pode esquecer, 
nem se repete. 

(...)
IRENE LISBOA

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

"Estas são as nossas mulheres."




Marianne Faithfull


Anna Karina


Faye Dunaway


Anna Karina


Marianne Faithfull


Brigitte Bardot


Sharon Tate


France Gall


Edie Sedgwick


Nico



Jean Seberg



Trailer japonês de "La Cicatrice Intérieure", de Philippe Garrel (1972), com Nico, na banda sonora e no papel principal.

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

: GÉNESE GARREL

( o nascimento de uma nação)



A CICATRIZ INTERIOR, Philippe Garrel, 1972

a carta escreveu-se da terra
ascendida do ventre até ao primeiro rochedo 
onde o nevoeiro poisou à hora da aparição  


Mãe
que espécie de aura é esta que se levanta e me anima
entre as areias e a bruma? 

tudo aconteceu antes disto ainda o quadro era aridez e  
foi como se ela dissesse em segredo: 
- encontra-te comigo na minha casa
o deserto onde qualquer criança nasce do branco
tudo aconteceu antes disto 
ainda os ventos lamentavam no sopé do penedo:

                    não há cura para a transumância 
                    continuam-se os braços históricos da reza 
                    os rebanhos passeiam  a carne temporária do sacrifício

tudo aconteceu antes disto ainda a lua-nova descia aos rostos e
a escassez introduzia os seus corpos

 
Mãe 
talvez não haja por aqui 
coisa mais bonita do que isto: sentires ampliados para filme 
inseminação cromática     impressões do mundo superior

juro um deus qualquer neste ecrã: a cicatriz interior 
debita em electricidade 
a luz de ser luz 
:  cores que respondem com universos
à avidez secreta de qualquer fome 
reforjando milagres com as palavras incessantes
da alucinação fiz espera e depois aconteceu-me: NICO
            


voz da Deusa formulando fantasmagoria 
regressados os céus da tempestade humana 
- ela reza - 
nem a brancura do manto que me cobre
esconde a vergonha de ser corpo


quando explodirá este vulcão 
onde todos os gritos engolidos
ocupam uma colossal garganta?
que me dirás tu
Mãe
que me trouxeste por dentro
sobre os maciços cavernosos 
onde os espíritos se fazem nas formas?
Mãe como sou livre afinal na minha finitude
esgoto o futuro em todos estes possíveis ~ 
mas
como não endeusar o que 
assim expia a fome? a esperança de ainda ~~~
ecoando para longe a sua canção insatisfeita

MAS 
sempre consenti uma tragédia ao peito
se me chegou por grandes imagens
 como se presenteasse a paisagem 
com uma humaníssima necessidade de ordem
GRAÇA tu que me lançaste para o choradinho da geração
 alucina comigo medidas-mínimas para o mundo 
livra do caos as minhas rosas 
lambe de orgulho as minhas feridas

tudo aconteceu antes disto e eu 
com sede de já não ser
guardo dentro de mim esta grande guerra
bato-me pelo que não sei se existe
tudo aconteceu antes disto: À GENESE 
desalucinaram-me
desenterram-me de astros e artes 
fui morar longe das batidas de cavaleiros e 
desse vermelho-lava que parecia verdade
Mãe 
(escolhe para mim um comum entre os comuns
despede-te nas lágrimas do consentimento e
borda nos regaços : la vie nouvelle

contágio por chegar
dor das águas e das pressas : memória prenhe de ares 
donde se ouvirá o grito que 
inaugura a primeira existência
: música do princípio matéria dos corpos oferecendo-se

: soberania viril de rotas
: embalo de cá continuar a raça
o repetitivo RITUAL das MÁGICAS
ESPUMA essa voz de tempo rasga REGRA sobre mim
: fronteiras de mulher donde cresce um corpo
Mãe 
onde estás tu agora
que adoeci de grande? 
- são dias de dez mil anos de alma já

fina pele a estalar de sóis

porque já tudo aconteceu
não se afogam mágoas entre a pele e o linho 

: não haverá vida possível depois deste deserto


tudo parece ter acontecido antes disto  
: bêbedos hoje os nossos passos são baladas 
despidas lembranças de futuro
estradas do medo ~ cabelos cinza ~ vincos da idade
: é sintoma de CINEMA
a movimentação dos meus traços? 
 o rodopio de acontecer não descansa e
a este entusiasmo sem fôlego chamo juventude
pássaros são pássaros ~ cartas lançadas para revelar os paraísos por ver 
          uma prescrição fictícia 
um cinema de ser!

Mãe
o que deve o meu corpo 
à outra História que eu não fui? 

                                                                                                                        - será que a deusa se cansou da vida? 
                                                                                                                        - o que acontece à imortalidade que se cansou da vida? 

tudo aconteceu antes disto e eu
condenada a desejar como todos
cá estou novo passeando pelo anterior prometido  
para sempre escavando as paisagens da alma por dentro:

tudo o que aconteceu antes disto  
virou sala escura 
virou solidão aberta
virou filme
 filme como verdade
uma verdade qualquer
Mãe  
ainda hoje sei pouco 
mas sei que 
poesia é um quadro de Garrel