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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Le vent de la nuit




LE VENT DE LA NUIT / 1999


Um filme de Philippe Garrel
Folha da Cinemateca

Temos insistido muito, nestas “folhas” sobre os filmes de Garrel, na questão da “serenidade”, e de como as mais recentes obras do realizador a exibem de maneira impressionante. Le Vent de la Nuit não muda essa maneira de ver – é um filme que nunca levanta a voz, porventura mais contemplativo do que qualquer outro filme de Garrel, e onde, de novo, se pressente haver uma espécie de misteriosa “sagesse” a comandar-lhe as entrelinhas.

Houve muita gente que o descreveu como um “road movie”, coisa que o filme, literalmente, até é. Basta ver como nos ficam na memória aquelas auto-estradas que correm ao longo da costa do Mediterrâneo (há outras auto-estradas no filme, mais interiores e nubladas, mas estas deixam uma marca especial), filmadas de maneira belíssima e com uma fotografia onde a luz e a cor (o trabalho de Caroline Champetier é fabuloso) adquirem uma textura digna de alguns outros grandes filmes sobre o Mediterrâneo (estamos, claro, a pensar em Godard ou em Rozier). Le Vent de la Nuit tem estradas e automóveis (um magnífico Porsche vermelho) suficientes para cumprir os requisitos de qualquer “road movie”. Mas, ainda assim, se essa expressão se nos agarra ao espírito é menos porque precisemos de o inscrever num género ou subgénero do que pela sensação de que a um nível, digamos, metafórico, “road movie” é mesmo a expressão mais adequada para descrever Le Vent de la Nuit. Ou, mais exactamente, um “end of the road movie”, um filme sobre o fim do caminho.

Que significado tem, numa hipotética tipologia do protagonista garreliano, a personagem de Daniel Duval, Serge? É fácil de notar que, em Le Vent de la Nuit, é essa a personagem que mais se aproxima de uma representação do próprio Garrel – quer pela idade e pelo estatuto dentro do filme, quer por aquilo que nos é revelado sobre a sua história: um “veterano” do Maio de 68 (“faz-se a revolução porque se é revolucionário”), que viveu as euforias idealistas da juventude mas que não encontrou nada, aparentemente, capaz de as substituir uma vez passado o tempo dos idealismos de juventude. Encontramo-lo, portanto, num impasse, preso duma suspensão e duma falta de horizonte (apenas iludido pela conquista do horizonte nas auto-estradas) que se percebe durar há demasiado tempo e que não tem saída à vista. O encontro com Paul (Xavier Beauvois), a história com Hélène (surpreendente Catherine Deneuve), têm entre eventualmente outros efeitos o de tornar clara (quanto mais não seja para o próprio Serge) a profundidade desse impasse.

Ao mesmo tempo, a relação entre Garrel e o seu protagonista não é, como noutros casos, preenchida por qualquer autobiografia visível – tudo se mantém suficientemente vago e alusivo, como se Garrel se projectasse, sim, mas desta vez non troppo. Vejamos Serge como um duplo de contornos indefinidos do próprio Garrel, não como um auto-retrato.

Vejamo-lo assim porque, em última análise, Serge não é Garrel, e isso é um dado fundamental. Dir-se-ia que Le Vent de la Nuit existe para o provar, e que tira daí a sua razão de ser. É uma superação, o momento em que à serenidade do olhar de Garrel se vem juntar a sua pacificação (uma coisa e outra não são sinónimos nem se implicam mutuamente). Num certo sentido, Garrel filma Serge para se afastar dele, para confirmar que, ao contrário dele, levou a bom porto um processo de aceitação (de si e da sua história) que lhe permite não ser Serge – e sobretudo não ter o seu destino. É o momento determinante do filme, essa cena, uma das mais extraordinárias que Garrel já filmou, do suícidio de Serge (e aqui, uma chamada de atenção para o actor, Daniel Duval, de quem os espectadores portugueses talvez se lembrem em Y Aura-t-il de la Neige à Nöel? de Sandrine Veysset). É um momento que parece determinante, ainda, na própria obra de Garrel, qualquer coisa como uma resolução do passado e uma decorrente aceitação do presente. Como se Garrel se desfizesse do seu duplo, e isso fosse uma maneira de seguir em frente: Serge suicidou-se, Garrel fez um filme. É óbvio que não podem ser a mesma pessoa.


Luís Miguel Oliveira

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

L’Ombre de Femmes: nunca tão longe das liras.

L’Ombre de Femmes: nunca tão longe das liras.
‘‘Numa encruzilhada do coração / não há templos para Apolo.’’
RAINER MARIA RILKE
L’Ombre des Femmes é um Garrel no estado último do desencanto. E nós com ele: rapidamente sufocamos no interior destas relações amorosas reduzidas ao alicerce mais prosaico das suas existências materiais. Sofremos com a repetida mundanidade dos seus recantos físicos e cronológicos, e descremos na possibilidade de encontrar uma qualquer verdade no meio desta sinfonia de banalidades. O que sustém a rota destes corpos de cama em cama? Num fundo de sofreguidão, sente-se um desfoque, uma suspensão do ‘‘eu’’, uma falta de rumo que a todos une. A languidez decorre da fadiga, ou assim parece. Na exaustão de quem assiste à vacuidade destas danças, convenço-me de que há compreensões a que nunca chegarei: o que fazemos a nós próprios em nome dessa suposta ideia de amor? 

Com ‘‘L’Ombre des Femmes’’, Philippe Garrel, o mestre do atemporal romance, do filme a preto-e-branco, tira-nos o que nos deu. Reduz o amor a um sistema de posses e de expectativas, e tapa o último feixe de luz: tudo se ensombra com ciúmes, negociações, traições, revelações, cache-cache, separações e o desamor último, que lança cada um para a solidão. Mas nenhum dos desenlaces possíveis é um final feliz - porque, afinal, nisto do amor, aprendemos, não há finais felizes. Neste cenário, a música não tem por onde acontecer. A poesia mora nos véu de Apolo e, aqui, a realidade é demasiado real. A precariedade deste quotidiano secou qualquer fundo de beleza, tão dependente do mistério. Se não parece, é porque não é - esta não é a casa de um romance. 

O anterior ‘‘Jalousie’’ já nos tinha deixado no travo amargo desta decadência remendada. E em ‘‘L’Ombre de Femmes’’, para vincar ao extremo o argumento, há o exemplo contrapontual que dá aos protagonistas o espelho que não usam: o velho casal (do qual conhecemos apenas o nome do homem, o ‘‘resistente impostor’’) no seu quadro de farsa desvelada no fim. O que Garrel parece enunciar é que a farsa é total e que o amor para sempre não existe - e que o que une esses casais ao longo de uma vida só pode ser (mais uma) história que eles se vão contando e acreditando.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Não fazer nada é a minha perdição.

Les Amants Réguliers, Garrel, 2005
Opiário

Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro


É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smokink-room com o conde -
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma.
A minha Pátria é onde não estou.
Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co'a sueca... e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O fato é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranqüilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um gênero de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me o mesmo modo.
Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O fato essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co'os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a ...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh'alma!

(No Canal de Suez, a bordo)


Álvaro de Campos

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

"Movies are about boys taking pictures of girls." JLG

.
Belle de jour, Luis Buñuel, 1967

Man with a movie camera, Dziga Vertov, 1929

Une femme mariée, Godard, 1964


L'Amant d'un jour, Philippe Garrel, 2017

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

Garrel - Kubrick




LE RÉVÉLATEUR
PHILIPPE GARREL (1968)


A CLOCKWORK ORANGE
(STANLEY KUBRICK, 1971)


No soturno "Korova Milkbar", cenário central de "A Laranja Mecânica", o memorável ambiente compõe-se das famosas esculturas de Allen Jones, femininos torcidos à utilidade de uma adaptação mobiliária, às quais se acrescentam as reconhecíveis estátuas que vertem o leite para os clientes do bar - Estas esculturas excêntricas são da autoria de Liz Moore, que parece decalcar o modelo de um momento emblemático (e constitutivamente, vital) do predecessor filme de Garrel.