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sábado, 28 de janeiro de 2012

o olhos sem rosto.

"Nada lhe pertence mais do que os seus sonhos." Friedrich Nietzsche

Dr. Bill Harford: Are you sure of that? 
Alice Harford: Am I sure? Only as sure as I am that the reality of one night, let alone that of a whole lifetime, can ever be the whole truth. 
Dr. Bill Harford: And no dream is ever just a dream. 


"As figuras esfumadas do baile de máscaras tomavam conta da realidade e pairavam diante deles."
 "Exageraram levemente a atracção que os parceiros mascarados lhes despertavam..."


"O seu olhar não me procurou, mas eu brincava com a ideia de me juntar a ele na sua mesa e dizer-lhe: - Aqui estou, meu amor tão ansiado, meu querido. Leva-me contigo."

excertos de Traumnovelle, Arthur Schnitzler, 1926
stills de Eyes wide shut, Kubrick, 1999

I.
BILL: 
Deitada. A mão fechada sobre si guarda o Mistério. A vivacidade de olhos e gestos suspende-se;  Plena entrega às fronteiras do invisível. Do corpo, o mínimo. Uma mortificação, quase, não lhe fosse a respiração branda, o batimento lento. O sono dela, um meu não expresso tremor, como se... como se algum dia ela chegasse a... Pequena angústia pela ausência, a cada momento em que não te sei. Uma dor distante, descontrolada, fosse o teu sono um minúsculo ensaio para o vislumbre de qualquer outra falta... Ah soubesses tu... Como se o desejar-te não aceitasse menos do que a plenitude. Como se nem aqui, dormindo, a tua ausência me fosse suportável... Beleza. Desejo. Vida. O meu amor habita a vida que te anima. Quero estar vivo, quero viver no teu corpo. Quero estar tão no teu corpo, mapa seguro, tacto treinado, quero saber-te inteira. Quero abrir o teu corpo. Quero abrir o teu corpo e perceber o que te acende o brilho nos olhos. Quero abrir o teu corpo e conhecer o que compõe o teu espírito. Quero abrir o teu corpo e adiantar cada gesto teu, saber minuciosamente quanto me queres, dissecar a misteriosa fortaleza da tua alma, todas as linhas do teu encanto, as memórias preservadas, cada um dos teus sonhos. Quero que me ofereças o Mistério. ( Será sempre o mesmo, o Mistério, inominável dom que prende certos homens a certas mulheres, para lá dos confortos físicos? ) Pudesse eu ter-te, posse plena... minha mulher, minha casa, minha cama, let's fuck. Que a minha solidão seja sempre tua, esta é a minha privacidade: eu preciso de ti. Uma privacidade que se quer pública - o nosso casamento é a minha afirmação pública de que eu preciso de ti. Mas só eu e, espero, tu, sabemos o quanto, o como, eu preciso de ti.  Pudesse eu escolher não dormir, viver sem abdicar da vigília, nunca me entregar à inconsciência... Penso, recomeço a pensar, o coração bate, bate, bate, bate, o meu coração ainda bate, o teu coração ainda bate, o coração da pequena ainda bate, e a realidade é só isto -  ainda estamos, ainda nós, ainda o nosso tempo, ou o tempo dos nossos ritmos, por um momento, uníssonos. Como relaxar no meio deste momento? Ganhando sempre a consciência no combate com o cansaço, porque é limitado o corpo. Não falta o armário dos remédios e das ervas que me poderão enfim descansar. Sei tudo sobre a exaustão do corpo;  a minha profissão é ver de muito perto a morte. Vê-se a morte lentamente a espalhar-se no corpo, a adoecer à vez cada uma das partes; em tempo nenhum, os orgãos raquíticos quase no limite, e o contorcer-se dos minutos finais, e o pacificar-se na derradeira inércia. Depois, nada mais. - Eu que não suporto sequer que durmas meu amor. Como poderás duvidar? Se tu soubesses... Se soubesses em que dúvida se suspendem as horas até chegar - estará ela na nossa casa, com a nossa filha... não dormirá ainda, à espera que eu chegue... estará ainda viva...?  Se tu soubesses... O meu amor é a vida do teu corpo - para mim, és o único corpo da vida. É com este pessimismo que os curo da cura impossível. Todos eles, os outros, não passam das partes adoecidas de um corpo que carrega em si a morte, na calma do seu processo habitual de ir chegando... Vejo-a a levar a vida dos corpos todos os dias, mas a verdade é que nunca deixei de me surpreender.  Para o teu corpo, eu não prevejo nenhuma.

Victor Ziegler: Life goes on, until it doesn't. 
II.
ALICE : 
Não é tanto uma monotonia. Nem é uma descrença, nem uma dessas índoles que tendem para a insatisfação constante. Não é sequer um excesso de conforto material, a dar para o destrave dos delírios, sem um fundo de ligação à realidade, sem um apego ao passado do presente, à história que dá a vida a cada uma das coisas.  Não sei como se explicam os ímpetos. Como te explicar este meu apego aos sonhos. A fome de desconhecido. O corpo abandonado à novidade pura,  algo como uma reinvenção do existir, um recomeço breve... 
Percebe a necessidade da minha ausência - a minha imposição de mim. O sublinhado dos meus próprios contornos. Lembrando que no encaixe físico se encontram dois corpos. Eu sou o outro corpo.  Nascida de um outro ventre, crescida com o quer que seja que me fez reflectir. Uma personalidade a materializar-se durante os vinte e cinco anos em que nem me sabias na terra - vinte e cinco anos de distância até à hora em que nos conhecemos. Por mais fundo que seja o enlace dos corpos e dos espíritos, a soma dos nossos orgãos e membros é clara, não deixa dúvidas : são sempre dois corpos deitados nesta cama. A repetição dessa cena nocturna, o momento uníssono de descanso na nossa cama, no nosso quarto, na nossa casa, é a disposição física que a cada dia se repete, para acrescentar um presente à nossa história em comum. 
Mas... como não abandonar o sonho a um rosto diferente ...  ao desejo de outro corpo... de outra cama? Reflectir, à entrada da segunda metade da vida - voltar a escolher tudo o que se trouxe da primeira metade. Tudo porque esta cara, este corpo, estão a cair. Ao espelho, não há como não recordar a juventude das possibilidades não gastas - cada olhar que suspendeu um convite, cada proposta de sedução, cada vontade não consentida... Celebrar a memória que habita o corpo que não pára de cair. Celebrar o que permanece no corpo dessa juventude em fuga. Celebrar o corpo. Celebrar a sua acção, a vida - Celebrar a aparição de um brilho, um ânimo, um entusiasmo, nos olhos do outro rosto.  Uma máscara, uma alucinação de erva, ... o mesmo alívio do fardo da identidade.




Anemone, Philippe Garrel, 1967



sábado, 18 de abril de 2009

AUTO-RETRATO E ALTERIDADE.

"When you see your own photo,
do you say you're a fiction?"

Godard



Alteridade.
“A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, quotidiano, e que consideramos ‘evidente’. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afectivas) não tem realmente nada de ‘natural’. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única.”
(F. Laplantine, 2000:21)

“noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, à medida que esta efetiva-se através das dinâmicas das relações sociais. Assim sendo, a diferença é, simultaneamente, a base da vida social e fonte permanente de tensão e conflito.”

(G. Velho, 1996:10)




Jorge Molder



Cindy Sherman



Ana Vieira, A Casa



Cet obscur object du désir, 1977, Luis Buñuel


La Double Vie de Veronique, 1991, Kieslowski


Persona, 1966, Ingmar Bergman


Humbert Humbert, Lolita, 1962, Kubrick


Karol Karol, Branco, 1989, Kieslowski


Sugestões:
Ler Takes on Feminism, East and West, after 1989: Kieslowski's "White"
Ler The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Aryan Papers.



Instalação de Jane e Louise Wilson
recupera filme de Kubrick


"Aryan Papers" é o nome do filme que Stanley Kubrick nunca chegou a fazer, apesar de ter trabalhado longamente nele. Parte dessa pesquisa foi agora recuperada pelas artistas plásticas Jane e Louise Wilson, numa instalação que poderá ser vista no British Film Institute, Londres, entre 13 de Fevereiro e 19 de Abril.
As duas gémeas foram convidadas a explorar os arquivos Kubrick, na University of the Arts de Londres, e o que as fascinou mais do que tudo foi esse trabalho iniciado mas nunca concluído. "Aryan Papers" adaptaria o romance "Wartime Lies", de Louis Begley (1991), história, passada no gueto de Varsóvia, de um rapaz judeu cuja identidade a tia esconde, fazendo-o passar por católico.
"Sentimo-nos como crianças numa loja de doces, há tanto [nos arquivos] que podíamos facilmente passar lá dias, é incrível", disse Louise ao "Guardian". Mas no meio de tanto material, optaram não por um dos filmes conhecidos por Kubrick mas por esse projecto que o realizador acabou por abandonar.
As irmãs encontraram imagens filmadas por Kubrick da actriz holandesa Johanna ter Steege, com diferentes roupas, luzes, ângulos. A instalação que conceberam cruza essas imagens com as que elas próprias fizeram posteriormente com Ter Steege, que o realizador escolhera para o papel de Tânia, uma judia polaca que tenta salvar a família dos nazis. Ter Steege recria para as Wilson os momentos dos ensaios com o guarda-roupa que fizera para Kubrick.
"É uma história amarga-doce", explica Louise. "O filme teria sido uma coisa extraordinária para ela. Foi memorável ter conhecido Kubrick e ter trabalhado com ele. Ela teve que manter segredo durante oito meses. Foi, obviamente, um enorme golpe o filme nunca ter acontecido".
E porque é que nunca aconteceu? Segundo o "Guardian", uma das razões pode ter sido o facto de "A Lista de Schindler", de Steven Spielberg, ter estreado em 1993, esvaziando o que seria outra história sobre o Holocausto. A pesquisa das irmãs Wilson levou-as a admitir outra hipótese, que Louise conta: "Tendo falado com Johanna, percebemos que ele começou a ficar muito deprimido. Mergulhou tão fundo neste projecto que julgo que terá ficado muito perturbado".

Ipsilon 09.01.2009>

quinta-feira, 19 de junho de 2008

STEREODOX: Há beleza na velocidade.

Melo e Castro

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

CESÁRIO VERDE


TZARA


"...Nós afirmamos que a magnificiência do mundo foi enriquecida por uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um carro de corrida cuja capota é adornada com grandes canos, como serpentes de respirações explosivas de um carro bravejante que parece correr na metralha é mais bonito do que a Vitória da Samotrácia.(...) Nós cantaremos as grandes multidões excitadas pelo trabalho, pelo prazer, e pelo tumulto; nós cantaremos a canção das marés de revolução, multicoloridas e polifónicas nas modernas capitais; nós cantaremos o vibrante fervor noturno de arsenais e estaleiros em chamas com violentas luas elétricas; estações de trem cobiçosas que devoram serpentes emplumadas de fumaça; fábricas pendem em nuvens por linhas tortas de suas fumaças; pontes que transpõem rios, como ginastas gigantes, lampejando no sol com um brilho de facas; navios a vapor aventureiros que fungam o horizonte; locomotivas de peito largo cujas rodas atravessam os trilhos como o casco de enormes cavalos de aço freados por tubulações; e o vôo macio de aviões cujos propulsores tagarelam no vento como faixas e parecem aplaudir como um público entusiasmado..."



MANIFESTO FUTURISTA- MARINETTI (1909)


SANTA RITA


ALMADA NEGREIROS



SPACE ODDITY!

Ground control to major tom
Ground control to major tom
Take your protein pills and put your helmet on

Ground control to major tom
Commencing countdown, engines on
Check ignition and may gods love be with you

Ten, nine, eight, seven, six, five,
Four, three, two, one, liftoff

This is ground control to major tom
Youve really made the grade
And the papers want to know whose shirts you wear
Now its time to leave the capsule if you dare

This is major tom to ground control
Im stepping through the door
And Im floating in a most peculiar way
And the stars look very different today

For here
Am I sitting in a tin can
Far above the world
Planet earth is blue
And theres nothing I can do

Though Im past one hundred thousand miles
Im feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell me wife I love her very much she knows

Ground control to major tom
Your circuits dead, theres something wrong

Can you hear me, major tom?
Can you hear me, major tom?
Can you hear me, major tom?
Can you....
Here am I floating round my tin can
Far above the moon
Planet earth is blue
And theres nothing I can do.






Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!


ANTERO DE QUENTAL

"Quando um tempo vier não mais empanado pela sombra da consciência da própria culpabilidade, a conservação de si mesmo criará a tranqüilidade íntima, a força exterior, brutal e sem considerações, para matar os maus rebentos da erva ruim."
A MINHA LUTA


TRANS EUROPE EXPRESS
KRAFTWERK



little by little in the barbaric breasts
of the sons, hate becomes love of hate,
burning only in them, the few, the chosen.

Who has the courage to tell them
that the ideal secretly burning in their eyes
is finished, belongs to another time, that the children

of their brothers have not fought for years,
and that a cruelly new history has produced
other ideals, quietly corrupting them?. . .

Where have the weapons gone, peaceful
productive Italy, you who have no importance in the world?
In this servile tranquility, which justifies

yesterday’s boom, today’s bust—from the sublime
to the ridiculous—and in the most perfect solitude,
j’accuse! Not, calm down, the Government or the Latifundia

or the Monopolies—but rather their high priests,
Italy’s intellectuals, all of them,
even those who rightly call themselves

my good friends. These must have been the worst
years of their lives: for having accepted
a reality that did not exist. The result

of this conniving, of this embezzling of ideals,
is that the real reality now has no poets.

PIER PAOLO PASOLINI

A história de toda a sociedade até aqui
é a história de lutas de classes.


"Eis porque a luta recíproca surge aqui, motivada, menos por antipatia íntima, por exemplo, do que por impulsos de fome e amor. Em ambos os casos, a Natureza é espectadora, plácida, e satisfeita. A luta pelo pão quotidiano deixa sucumbir tudo que é fraco, doente e menos resoluto, enquanto a luta do macho pela fêmea só ao mais sadio confere o direito ou pelo menos a possibilidade de procriar. Sempre, porém, aparece a luta como um meio de estimular a saúde e a força de resistência na espécie, e, por isso mesmo, um incentivo ao seu aperfeiçoamento.














O DANTAS É UM SONETO D'ELLE-PRÓPRIO!

O DANTAS EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECCA E EM TALENTO É
PIM-PAM-PUM!

O DANTAS NÚ É HORROROSO!

O DANTAS CHEIRA MAL DA BOCA!

MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!



Para o lugar da actividade social tem de entrar a sua actividade inventiva pessoal; para o lugar das condições históricas da libertação, [condições] fantásticas; para o lugar da organização do proletariado em classe processando-se gradualmente, uma organização da sociedade urdida por eles próprios. A história mundial vindoura resolve-se para eles na propaganda e na execução prática dos seus planos de sociedade.



JEAN PAUL

JEAN LUC

O narcisismo da mulher empobrece-a, ao invés de a
enriquecer: à força de não fazer outra coisa senão contemplar-se,
ela se aniquila; até o amor que dedica a si mesma se estereotipa.

O SEGUNDO SEXO

Beauvoir

Bovary


"Ama me fideliter!
Fidem meam noto:
De corde totaliter
Et ex mente tota,
Sum presentialiter
Absens in remota!"



BEAT! beat! drums! -- blow! bugles! blow!

Through the windows -- through doors -- burst like a ruthless force,
Into the solemn church, and scatter the congregation,
Into the school where the scholar is studying;
Leave not the bridegroom quiet -- no happiness must he have now with his bride,
Nor the peaceful farmer any peace, ploughing his field or gathering his grain,
So fierce you whirr and pound you drums -- so shrill you bugles blow.

Beat! beat! drums! -- blow! bugles! blow!
Over the traffic of cities -- over the rumble of wheels in the streets;
Are beds prepared for sleepers at night in the houses? no sleepers must sleep in those beds,
No bargainers' bargains by day -- no brokers or speculators -- would they continue?
Would the talkers be talking? would the singer attempt to sing?
Would the lawyer rise in the court to state his case before the judge?
Then rattle quicker, heavier drums -- you bugles wilder blow.

Beat! beat! drums! -- blow! bugles! blow!
Make no parley -- stop for no expostulation,
Mind not the timid -- mind not the weeper or prayer,
Mind not the old man beseeching the young man,
Let not the child's voice be heard, nor the mother's entreaties,
Make even the trestles to shake the dead where they lie awaiting the hearses,
So strong you thump O terrible drums -- so loud you bugles blow.


"Eu passava muito bem sem Deus e, se utilizava o seu nome, era para designar um vazio que tinha, a meus olhos, o clarão da plenitude."



WALT WHITMAN


PESSOA

A descrição fantástica da sociedade futura brota— num tempo em que o proletariado ainda está sumamente pouco desenvolvido, e por isso, apreende a sua própria posição de um modo ainda fantástico — da sua primeira aspiração, cheia de imagens vagas, de uma reconfiguração geral da sociedade.


ODE TRIUNFAL!


À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical --
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força --
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,

Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,

Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés -- oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos da estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos pianos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opera que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-la-hó la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes;
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer,
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!


Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes --
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraitre amarelos com uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)

>E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes --
Na minha mente turbulenta e incandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,

Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamento, políticas, relatores de orçamentos;
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)


Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o amor antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.
Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hó jóquei que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levantado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!
Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos -- e eu acho isto belo e amo-o! --
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!
(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje. . . )

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!
Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!

Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!




Veronica . Jan Saudek


A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. a dor é inevitável. o sofrimento é opcional.Carlos Drummond de Andrade


The Lovers. Jan Suadek.


Foi a mão sem anéis antes da luva
Sorriso breve antes de um beijo lento
Foi a rosa entreaberta antes da chuva
Foi a brisa encontrada antes do vento

Foi a noite, a inocência na demora
Foi a manhã, verde janela aberta
Dois corpos lisos que se vão embora
Como a acordar a praia ainda deserta

Foi a paz, o silêncio antes do grito
Foi a nudez antes de ser brocado
E foi o cântico interdito
E todo o meu poema recusado

Pedro Homem de Melo
Voz: Camané



First Steps. Jan Saudek



NESTE POST: EXCERTO DE POEMA "NAS NOSSAS RUAS", CESÁRIO VERDE - GRAFISMOS DE TRISTAN TZARA E MARINETTI - EXCERTO E IMAGEM DO MANIFESTO DO FUTURISMO, MARINETTI - FOTOS DE SANTA RITA, ALMADA NEGREIROS, SIMONE DE BEAUVOIR, MADAME BOVARY (FLAUBERT), HITLER, JEAN PAUL SARTRE, JEAN LUC GODARD, WALT WHITMAN, FERNANDO PESSOA, DAVID BOWIE - LETRA DE "SPACE ODITTY" DE DAVID BOWIE - POSTER ALUSIVO AO "MAIO DE 68 EM FRANÇA" - STILLS "2001-UMA ODISSEIA NO ESPAÇO", DE KUBRICK, "LA CHINOISE" DE GODARD E "SALÓ" DE PASOLINI - EXCERTO DO POEMA "NOX" DE ANTERO DE QUENTAL - EXCERTOS DE "A MINHA LUTA" DE HITLER - VIDEO DE "TRANS EUROPE EXPRESS" DOS KRAFTWERK - 1977 - POEMA "LITTLE BY LITTLE" (TRADUZIDO PARA INGLÊS) DE PASOLINI - EXCERTOS DO "MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA" DE MARX E ENGELS - EXCERTOS DE "O SEGUNDO SEXO", DE SIMONE DE BEAUVOIR - POEMA "FOI", DE PEDRO HOMEM DE MELO - CAPA DA REVISTA INTERVIEW DE ANDY WARHOL, EDIÇÃO COM SALVADOR DALI. - EXCERTO DE CARMINA BURANA , "OMNIA SOL TEMPERAT" - EXCERTO DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - FOTOS DE JAN SAUDEK - POEMA "BEAT BEAT DRUMS", DE WALT WHITMAN - POEMA "ODE TRIUNFAL" DE ÁLVARO DE CAMPOS.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Somos a sombra da nossa imaginação.

2001- Odisseia no Espaço, Kubrick, 1968

"Our imagination flies; we are its shadow on the earth."
Vladimir Nabokov

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

Garrel - Kubrick




LE RÉVÉLATEUR
PHILIPPE GARREL (1968)


A CLOCKWORK ORANGE
(STANLEY KUBRICK, 1971)


No soturno "Korova Milkbar", cenário central de "A Laranja Mecânica", o memorável ambiente compõe-se das famosas esculturas de Allen Jones, femininos torcidos à utilidade de uma adaptação mobiliária, às quais se acrescentam as reconhecíveis estátuas que vertem o leite para os clientes do bar - Estas esculturas excêntricas são da autoria de Liz Moore, que parece decalcar o modelo de um momento emblemático (e constitutivamente, vital) do predecessor filme de Garrel.




segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

2001-Odisseia no Espaço, Kubrick, 1968




 2001-Odisseia no Espaço, Kubrick, 1968
"(...)Sunrise appears thrice within the film and this isn’t simply through coincidence.  Sunrise comes from Strauss’ tone poem of Nietzsche’s Thus Spoke Zarathustra; a story explicitly concerning the journey towards the Ubermensch through the Eternal Return.  At each point where the film uses the music, it is to mark this transition and creation.  In the film’s opening visual sequence, it signifies the birth of the universe itself, making it the least applicable in this theory.
However the second and third time it comes into use, it seems to be explicitly referencing this transition.  The second time is when an ape first learns to use a weapon, showing a montage of its gradual evolution into what would eventually turn into Homosapien.  The last time it is used is in the film’s final sequence at the birth of the Star-Child.  This is a film where the musical references are not just well-fitting but are philosophically in touch with the narrative itself.  This is also what my next essay will chiefly concern itself with only with musical emphasis on Ligeti and its use in the in the blank opening sequence; a cinematic choice that has fascinated me ever since I first viewed the film."
Adam Scovell

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

Lolita (Kubrick, 1962)