"- De agora em diante serei eu a descrever as cidades - disse o Kan - Tu nas tuas viagens verificarás se existem. Mas as cidades visitadas por Marco Polo eram sempre diferentes das pensadas pelo imperador. - Contudo eu tinha construído na minha mente um modelo de cidade de que deveria deduzir-se todos os modelos de cidade possíveis - disse Kublai. - Contém tudo o que corresponde à norma. Como as cidades que existem se afastam em grau diverso da norma, basta-me prever as excepções à norma e calcular as combinações mais prováveis. - Também pensei num modelo de cidade de que deduzo todas as outras - respondeu Marco. - É uma cidade feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contrasensos. Se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número de elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade. Portanto, basta que eu subtraia excepções ao meu modelo, e proceda com que ordem proceder, chegarei a encontra-me perante uma das cidades que existem, embora sempre com excepção. Mas não posso fazer avançar a minha operação para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras." in AS CIDADES INVISÍVEIS, Italo Calvino
Notre Siècle, Artavazd Peleshian (1983)
"(...)No entanto, a maioria dos ensinamentos de Cristo é muito mais contrária aos costumes do mundo de hoje do que são as minhas palavras." in UTOPIA, Thomas More
"O espaço da sobremodernidade, esse, é trabalhado pela seguinte contradição : só conhece indivíduos ( clientes, passageiros, utentes, ouvintes), mas estes não são identificados, socializados e localizados (nome, profissão, local de nascimento, local de residência), excepto à entrada e à saída. Se os não-lugares são o espaço da sobre-modernidade, é necessário explicar este paradoxo : o jogo social parece jogar-se alhures que não nos postos avançados da contemporaneidade." NÃO LUGARES, Marc Augé
A Zona, Sandro Aguilar (2008)
Horas, cor-de-Maio, frescas. A não mais nomeável, quente, audível na boca.
Voz de ninguém, outra vez. Dolorosa profundidade do globo ocular: a pálpebra não barra o caminho, a pestana não conta aquilo que entra.
A lágrima, a meio, a lente mais nítida, ágil, traz-te as imagens.