VAMPYR, Dreyer, 1930
por João Lopes (Folhas da Cinemateca)
Vampyr foi rodado em 1930 graças a uma encomenda proveniente do Barão
Nicolas de Gunzburg que é também o intérprete de Alan Gray. Trata-se de um dos
objectos mais míticos da história do cinema, não só pela referência emblemática
ao mundo fantástico dos vampiros, mas também pelo facto de por muito tempo
terem sido extremamente raras as suas cópias.
É
evidente que podemos referir o filme a obras anteriores como O Gabinete do Dr. Caligari (Robert
Wiene, 1919) ou Nosferatu (Friedrich
Murnau, 1922); por outro lado, podemos mesmo lançar a hipótese de que Vampyr é um dos mais legítimos
antepassados do “filme de vampiros” na produção da Hammer inglesa, sobretudo
nos anos 60.
Tudo
isto é possível, mas quanto mais insistimos nas comparações, tanto mais se
torna claro que Vampyr é um objecto
completamente original e irredutível a
qualquer género ou tendência histórica.
Na
trajectória de um cineasta que, três anos antes, rodara A Paixão de Joana d'Arc (filme que, para lá de todas as possíveis
extrapolações, apresenta um substracto histórico perfeitamente identificável) é
algo surpreendente que venha a dirigir uma obra como Vampyr . Na verdade, se há coisa em que o filme aposta desde o
início é, justamente, na possibilidade de aplicar o cinema como o processo
autónomo de invenção de universos que transcendem a percepção imediata. Começa
aqui, aliás, o insólito deste filme: utilizando pela primeira vez o som,
Dreyer, ao contrário do que o senso comum fazia crer, não se serve do novo
recurso técnico para obter qualquer ganho de “realismo”. Vampyr, é todo ele uma aposta no poder que os meios
cinematográficos concebem de investir o mundo do sonho e do indizível.
Não
se pense, por isso, que Vampyr pode
ser interpretado como simples ilustração do animismo próprio das histórias de
vampiros. A démarche de Dreyer não o
conduz a opôr o “sonhado” ao “vivido”, mas a criar um espaço e um tempo em que
todas as revelações entre os personagens no interior do filme e o espectador e
o filme surgem tocadas por uma ambiguidade irrecuperável. Isso mesmo fica
explícito na incrível sequência em que Alan Gray sonha a sua própria morte -
mas não será que, de certo modo, a habita? - onde a câmara vem ocupar o ponto
de vista subjectivo(!) do morto, remetendo a fruição do próprio filme para um
ritual de celebração fúnebre de que, enquanto espectadores, somos cúmplices sem
regresso.
Por
tudo isso, Vampyr é um filme cujo
fascínio não pode senão redobrar com a passagem dos anos. O seu segredo (se é
que há) reside, talvez, muito simplesmente na crença directa na linguagem
cinematográfica como acontecimento que longe de reproduzir o mundo das
aparências, o inventa, desagrega e, de algum modo, o faz renascer - história de
vampiros, portanto. Rever e reler Vampyr
sob essa luz será, seguramente, um desafio empolgante e talvez descubramos na
obra final de Dreyer - Gertrud
(1964) - o mais radical libelo já filmado contra o trabalho social das
aparências.