sábado, 15 de janeiro de 2005

Vampyr (Dreyer, 1930)


VAMPYR, Dreyer, 1930

por João Lopes (Folhas da Cinemateca)


Vampyr foi rodado em 1930 graças a uma encomenda proveniente do Barão Nicolas de Gunzburg que é também o intérprete de Alan Gray. Trata-se de um dos objectos mais míticos da história do cinema, não só pela referência emblemática ao mundo fantástico dos vampiros, mas também pelo facto de por muito tempo terem sido extremamente raras as suas cópias.

É evidente que podemos referir o filme a obras anteriores como O Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1919) ou Nosferatu (Friedrich Murnau, 1922); por outro lado, podemos mesmo lançar a hipótese de que Vampyr é um dos mais legítimos antepassados do “filme de vampiros” na produção da Hammer inglesa, sobretudo nos anos 60.

Tudo isto é possível, mas quanto mais insistimos nas comparações, tanto mais se torna claro que Vampyr é um objecto completamente original e  irredutível a qualquer género ou tendência histórica.

Na trajectória de um cineasta que, três anos antes, rodara A Paixão de Joana d'Arc (filme que, para lá de todas as possíveis extrapolações, apresenta um substracto histórico perfeitamente identificável) é algo surpreendente que venha a dirigir uma obra como Vampyr . Na verdade, se há coisa em que o filme aposta desde o início é, justamente, na possibilidade de aplicar o cinema como o processo autónomo de invenção de universos que transcendem a percepção imediata. Começa aqui, aliás, o insólito deste filme: utilizando pela primeira vez o som, Dreyer, ao contrário do que o senso comum fazia crer, não se serve do novo recurso técnico para obter qualquer ganho de “realismo”. Vampyr, é todo ele uma aposta no poder que os meios cinematográficos concebem de investir o mundo do sonho e do indizível.

Não se pense, por isso, que Vampyr pode ser interpretado como simples ilustração do animismo próprio das histórias de vampiros. A démarche de Dreyer não o conduz a opôr o “sonhado” ao “vivido”, mas a criar um espaço e um tempo em que todas as revelações entre os personagens no interior do filme e o espectador e o filme surgem tocadas por uma ambiguidade irrecuperável. Isso mesmo fica explícito na incrível sequência em que Alan Gray sonha a sua própria morte - mas não será que, de certo modo, a habita? - onde a câmara vem ocupar o ponto de vista subjectivo(!) do morto, remetendo a fruição do próprio filme para um ritual de celebração fúnebre de que, enquanto espectadores, somos cúmplices sem regresso.

Por tudo isso, Vampyr é um filme cujo fascínio não pode senão redobrar com a passagem dos anos. O seu segredo (se é que há) reside, talvez, muito simplesmente na crença directa na linguagem cinematográfica como acontecimento que longe de reproduzir o mundo das aparências, o inventa, desagrega e, de algum modo, o faz renascer - história de vampiros, portanto. Rever e reler Vampyr sob essa luz será, seguramente, um desafio empolgante e talvez descubramos na obra final de Dreyer - Gertrud (1964) - o mais radical libelo já filmado contra o trabalho social das aparências.




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