Mostrar mensagens com a etiqueta EUGÉNIO DE ANDRADE. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta EUGÉNIO DE ANDRADE. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

STEREODOX: Holding you until you fall asleep

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Venha que vento

When a woman ascends the stairs, Naruse, 1960


Wild Strawberries, Bergman, 1957


Naquela tarde quebrada contra o meu ouvido atento eu soube que a missão das folhas é definir o vento. (Ruy Belo)


The wind, Victor Sjöström, 1928

Vento vento Há tanto há só vento no meu país Vento branco verde vento negro ardente Seca as lágrimas Corta a voz na raiz


EUGÉNIO DE ANDRADE

Faubourg St Martin, Jean-Claude Guiguet, 1986

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Já gastámos as palavras.

CRONOCA DI UN AMORE, ANTONIONI, 1950


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade