Mostrar mensagens com a etiqueta ALAIN RESNAIS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ALAIN RESNAIS. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de agosto de 2018

''Numa vida tão curta mudei tanto''

Muriel ou le temps d'un retour, Alain Resnais, 1963

MURIEL 

Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido

Ruy Belo

domingo, 28 de janeiro de 2018

"Its not my revolution if i can't dance to it" Emma Goldman

''I grew furious at the impudent interference of the boy. I told him to mind his own business, I was tired of having the Cause constantly thrown into my face. I did not believe that a Cause which stood for a beautiful ideal, for anarchism, for release and freedom from conventions and prejudice, should demand the denial of life and joy. I insisted that our Cause could not expect me to become a nun and that the movement should not be turned into a cloister. If it meant that, I did not want it. "I want freedom, the right to self-expression, everybody's right to beautiful, radiant things." Anarchism meant that to me, and I would live it in spite of the whole world--prisons, persecution, everything. Yes, even in spite of the condemnation of my own comrades I would live my beautiful ideal.''
[EMMA GOLDMAN, Living My Life (New York: Knopf, 1934), p. 56]

''La guerre est finie'' , Alain Resnais (1966)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Um pouco mais do que é simples.

Aimer, boire et chanter, Alain Resnais, 2014

Os primeiros meses de Janeiro são também sobre parar para reflectir acerca dos tops que cruzam os horizontes cinéfilos e procurar ver o que de bom nos escapou nas salas este ano (ou o que escapou às nossas salas, portuguesas). 

 O último filme de Alain Resnais, realizador que nos deixou este ano, foi um desses títulos que perdi em sala mas ganhei no abrir do ano (graças ao top 10 do Vasco Baptista Marques no À Pala ). O que mais interessa em ''Amar Beber e Cantar'' é a sua convocatória ao minimalismo, como se de uma prescrição ao cinema de amanhã se tratasse. O brilhantismo do corpo de trabalho de Resnais foi também um movimento de depuração da própria estética, dando cada vez mais espaço ao trabalho do actor que a própria encenação se torna uma parte integrante da narrativa dos filmes, particularmente das suas últimas décadas, nunca esquecendo a estreiteza em que se rimam papéis sociais e personagens fictícias. Se este filme nos lembra tanto ''Smoking / No Smoking'' (1993), sente-se como uma prequela a "Vous n'avez encore rien vu" (2012) - aí vimos a família que o cinema lhe trouxe (o seu grupo habitual de actores) e reflectimos acerca do que é o legado de um realizador (através de um jogo de espectros que programou como celebração-síntese de uma obra); aqui não há planos, trabalhos ou compromissos para os instantes que nos separam da morte anunciada (afinal, trata-se apenas de amar mais um pouco, beber mais um pouco, cantar mais um pouco).

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Les Statues.



It's all such a blur
When time goes so quickly
Trying to hang on to
The way that you like things to stay,

Trace back the seconds,
Recall the detail
From someone will, to someone does,
To someone did, you know I did,

Oh there must be a hole in you memory
But I can see
A distant victory,
A time when you will be with me.

You cut me off just as I was starting to speak
The language you keep hidden away
It's just like the question on everyone's lips
But it's not on mine,
Where all you find is a twisted smile
From another time


...
A pedra só é dura e durável em confronto com os seres humanos, que deverão ter visto nela o contrário da fragilidade da carne
...
Bragança de Miranda







Guernica, Alain Resnais e Robert Hessens (1950)
















Les Statues Meurent Aussi, 1958, Alain Resnais e Chris Marker































L'Année Derniére à Marienbad, 1961, Alain Resnais




Astrid Kirchherr


(foto via blog Português Amarelo)


Shadows of Forgotten Ancestors
Paradjanov 1965
Duelo ao Sol
King Vidor, 1946




RIZE,
David Lachapelle (2005)





quinta-feira, 3 de abril de 2008

L'Amour c'est ça


COEURS!
ALAIN RESNAIS (2006)

A vida são as circunstâncias de cada um. 

Acerca deste fabuloso filme, não arranjo melhores palavras do que as de João Lopes:

"Pose dramática ou atitude irónica? Ou ainda: comédia ou tragédia? Em boa verdade, está lá tudo o que pode acontecer quando se viaja próximo dessas fronteiras instáveis, saltitando com um pé de um lado, um pé do outro. Com a serenidade de um mestre — e sabe bem poder aplicar a palavra mestre com toda a propriedade —, Resnais faz um filme de riquíssima psicologia que, ao mesmo tempo, escapa a qualquer padrão psicológico convencional ou académico. Vem à memória a velha máxima: os melhores efeitos especiais são os factores humanos. E os seus guardiões são os actores. Voilà!

http://sound--vision.blogspot.com

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Hiroshima,

MON AMOUR.



«Daqui a uns anos, quando te tiver esquecido e quando outras histórias como esta, pela força do hábito, voltarem a acontecer, lembrar-me-ei de ti como do esquecimento do próprio amor. Pensarei nesta história como o horror do esquecimento.»


Sempre devastadores,
os diálogos de Marguerite Duras!

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Não ha filme político sem memória.


Eu gostaria agora de acrescentar [...] que não há filme político sem memória. Por memória se entende colocar-se em oposição à social-democracia, ao reformismo e a toda a bagunça, porque, estes aí, a única coisa que eles recusam é que houve um passado, coisas diferentes, são completamente antimarxistas: o método marxista por excelência consistia em voltar até os assírios e mostrar como as coisas eram diferentes, o que havia mudado. E Marx ia cada vez mais longe à medida que envelhecia.

(Jean-Marie Straub, 2001)

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

STEREODOX : Intimos do Labirinto