segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Já gastámos as palavras.

CRONOCA DI UN AMORE, ANTONIONI, 1950


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade

2 comentários:

  1. olá Sá. desculpa a minha ausência mas talvez o excesso de haveres ou a falta deles tornam-me apático com cheirinho a insencivel. eu sei que tu percebes as minhas palavras. Adoro este poema do Eugénio e queria partilhar isso contigo. beijinho grande amor*
    Gosto muito de ti
    ass. MU

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  2. Oh Mu! =) Muito obrigada por vires cá visitar-me! Com certeza que percebo, nós andamos sempre demasiado ocupados, sempre demasiado distantes....
    Claro que não és insensível. Não o serias nem que tentasses.
    Um beijinho, querido. Tu sabes, eu também gosto muito de ti.
    =)

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