"A mind of a certain size can feel only exasperation toward a city. Nothing can drive me more fully into despair. The walls first of all, and even then all the rest is only so many horrid images of selfishness, mistrust, stupidity, and narrow-mindedness. No need to memorize the Napoleonic code. Just look at a city and you have it. Each time I come back from the country, just as I am starting to congratulate myself on my calmness, there breaks out a furor, a rage... And I come upon my mark, homo sapiens, the acquisitive wolf. Cities, architectures, how I loathe you! Great surfaces of vaults, vaults cemented into the earth, vaults set out in compartments, forming vaults to eat in, vaults for sex, vaults on the watch, ready to open fire. How sad, sad..."
Henri Michaux
Repete-se sempre como a história do cinema acompanha o crescimento da habitação urbana no século XX, com o cinema a nascer como o grande entretenimento para as massas que, em parte constituídas por gentes rurais aí chegadas sem instrução, encontravam imediata compreensão na popularidade do cinema mudo. Mas, se o cinema noir viveria intimamente do mistério do ambiente urbano, em cativantes quadros nocturnos de show girls, bares para solitários e clubes de jazz, nos primórdios do cinema o tom era outro - aí, a cidade existe contra os corpos, foge à escala humana. Antes do entusiasmo das sinfonias urbanas do final dos anos 20, a cidade tende a ser retratada como um ambiente hostil, pontuada pela pobreza generalizada (a personagem do Tramp de Chaplin surge pela primeira vez em 1914), pelo vício (Sunrise de Murnau, 1927, é um emblema da desconfiança no carácter das pessoas da cidade face às do campo), pelo álcool, pela exploração do corpo, pelo crime e pelo ludibrio (uma falta de esperança geracional estudada, por exemplo, em Regeneration de Raoul Walsh, 1915), ou descrita como o último reduto das expectativas infelizes dos que dependem das oportunidades materiais da cidade mas que dela anseiam por fugir (City Girl, Murnau, 1930). Mesmo um cenário de especulação futurista como Metropolis (Fritz Lang, 1929), dá uma definição-tipo de cidade: uma máquina de relações assente numa estrutura de desigualdade, que opõe os arranha-céus de uma elite de privilegiados aos subterrâneos infernais onde a maioria é escravizada em trabalhos forçados.
- But where am I to go? What am I to do ?
- If I had a face and a figure like yours, I wouldn't ask silly questions.
Helen Mack
in
While Paris Sleeps (Allan Dwan, 1932)
Talvez só com a Nova Vaga e com o princípio do cinema independente norte-americano cheguemos em pleno ao mais liberto dos retratos da cidade, diurno, livre, à medida do flâneur e como fórum de intervenção e de acção política por excelência. Aqui começam os situacionismos.





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