sexta-feira, 29 de junho de 2012

L.M.Oliveira sobre "A Estrada de Palha"



Da obediência ao western

sobre
Estrada de Palha de Rodrigo Areias

Estrada de Palha, dito um “western português”. Nenhum problema com a ideia: arrancado à sua mitologia específica, o western tornou-se uma linguagem, um conjunto de códigos, replicável noutros territórios e noutros cinemas que não os originais - provam-no os spaghettis, provam-no, no caso português, algumas experiências de aproximação ao género, Alentejo sem Lei de João Canijo (nos anos 90, série televisiva) ou mais recentemente um filme amador, por certo conhecido apenas pelos que o viram numa sessão da Cinemateca, Lost West de Mário Fernandes. Estrada de Palha traz a lição bem estudada, sobretudo na relação entre o género e a geografia, o terreno, a paisagem - no caso as terras altas, a serra, entre as Beiras e o Alto Alentejo (depois de um prólogo nórdico, filmado na neve finlandesa). Isto respira razoavelmente ao longo de boa parte do filme, marca-lhe o ritmo e a pontuação. Quando deixa de marcar, e a narrativa - história de vingança e “desobediência civil”, com excertos de Thoreau e um protagonista a que a partir daí se associa, ou se quer que se associe, a uma aura waldeniana - se torna predominante sobre o carácter alusivo que o filme assumiu, as suas fraquezas revelam-se: a “impressão” do western sustenta o filme, mas é incapaz de impedir que ele desabe. Estrada de Palha está à procura de se parecer com um western, mas fica sempre nessa exterioridade, enverga o género de maneira pouco orgânica, pouco interior, é quase um adorno. Tem como parecer-se, mas falta-lhe algo para ir além disso. Ainda assim, menos mal. Porque quando o adorno não funciona perde-se a capa que escondia as debilidades do filme: a profunda banalidade de todas as cenas de “interacção”, os diálogos pobrezinhos, a rigidez académica da mise en scène, as personagens, baças sem nunca serem, sequer, as silhuetas estereotipadas do spaghetti. Não é um filme indigno, mas é um objecto rudimentar no seu esforço copista, que falha por não ter nada de relevante, de “desobediente”, para dar um sentido - e uma vida - à cópia.

Luis Miguel Oliveira
in Ipsilon, 29.6.2012

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