segunda-feira, 25 de junho de 2012

Mãe Natureza.




Foi uma revisão emotiva do Bambi (1942) - com cumprimentos a Manuel Mozos, que a inclui na sua lista ao BFI. (Lembro-me de achar muito bem pensado que vários créditos do Miguel Gomes - e provavelmente do Manuel Mozos também - agradecessem ao Walt Disney, uma referência que, sendo tão incontornável e disseminada, é também tão escassamente referida.)

Bambi traz, para sempre, a pureza da infância e dos corações grandes: amor puro, ternura, uma musicalidade mágica que o cinema perdeu com a falência do género musical, e que só sobrevive, talvez, em alguns filmes de animação. (A tentativa de Gomes de se aproximar dessa pureza que vem do imediato elo com a linguagem da música brota em todos os recantos d'Aquele Querido Mês de Agosto, é o mais próximo que vi no cinema contemporâneo dessa necessária reaproximação.)
É impossível não chorar a morte da mãe do Bambi e é impossível que não nos apiedemos de todos aqueles adoráveis animais, protegê-los com a imaginação de uns braços abertos do fogo das espingardas do homem, o impetuoso vilão que surge como força destrutiva de um éden harmonioso. Nada ali escapa à verdade. 

Inevitavelmente, volto ao discurso que ontem partilhava de Vandara Shiva : 
É preciso aceitar, pela consciência, tomar parte nos ciclos de que fazemos parte desde o nascimento. Este querer fazer parte, é aceitar ter nascido e corresponde à maioridade de cada um no seu trabalho sobre si, que é a sua tarefa de aceitação da vida. É o elo do reconhecimento da sua pertença à existência, sendo o ciclo de vida de cada um apenas mais um entre os restantes com que se deve conjugar. Querer fazer parte é aceitar a vida que lhe foi dada, e é aceitar a causalidade da acção enquanto vivente, sob a lei natural da Terra em que nasceu e vive - uma lei superior e maior que a relativa insignificância de toda a história da espécie humana. Sem antropocentrismos: a soberania humana sobre a natureza é o maior mito da história da civilização. (Olhe-se, por exemplo, para as notícias de hoje sobre Fukushima, exemplo de auto-aniquilação do Homem pelo Homem. Por sua vez, a natureza é regenerativa - o instinto de sobrevivência é comum a todas as espécies vivas, plantas e animais, e seria naturalmente copiado não fossem certas inclinações duvidosas que pautam um ''princípio de civilização''.)
Todos os agentes da vida são modificadores, e a acção humana não é excepção - mas declarar consciência de si é tomar parte numa vida activa de respeito pela natureza e pelos animais, e pelos equilíbrios naturais que fazem a terra girar. 
A mensagem que chega de Bambi não é só para crianças. Não ensinaríamos a um filho algo de essencial em que não acreditássemos nós mesmo. À passagem do ser humano pela terra cabe respeitar, tratar, cuidar da vida - para as gerações seguintes, para os nossos filhos ou filhos da nossa espécie. O ciclo de cada um é um sopro. O corpo caminha sobre o planeta mas o planeta gira, em primeiro lugar, no interior das nossas cabeças - a consciência da acção sobre a terra e os outros seres é o grande trunfo humano, passível de consequências visíveis no exterior e no interior.

Se passamos a inocente infância a abraçar coelhinhos de peluche, a brincar com cachorrinhos, e a tremer de terror com as mortes dos animais pelos 'adultos inexplicavelmente maus' nos desenhos animados, como explicar que, inaugurada a consciência adulta, na plenitude do seu esclarecimento, informação e realização da capacidade de escolha, não se exerça a razão e se viva sem que isso implique a morte a outros animais? Não é coerente. Queremos mesmo esse papel de Humanos...?

No que respeita ao sobre-consumo de animais, 
claro que ainda há os animais de caça (veados, aves, javalis, coelhos, lebres, etc)
há os animais marinhos (peixes, moluscos, crustáceos, etc) 
e outros, que correspondem a regimes de alimentação não ocidentais (répteis, insectos, certos mamíferos, etc).
Ainda, o sofrimento dos que são utilizados para experimentação (cosmética, farmacológica, etc),
 para divertimento (touradas, circos, parques temáticos, zoos, lutas, tv, etc) 
e para vestuário (casacos, botas, malas, cintos, etc)...

Não conseguimos mesmo deixá-los em paz, hum...?





ADENDA com notícia recente :  
Rapaz de 26 anos, forcado, vai ficar paraplégico, na sequência de pega de touros, na passada noite de quinta-feira, 30 de Agosto, no Campo Pequeno :  http://diariotaurino.blogspot.pt/2012/09/infelizmente-o-forcado-nuno-carvalho.html
e ainda há quem defenda esta barbárie, que exerce violência sobre todos, humanos e animais?

PS. Às invariáveis acusações de moralismo que sempre me são levantadas, bom, eu respondo assim, com a simplicidade de uma crença: o moralismo é um mal necessário. Assumi no passado, partilhar tudo o que se afigurasse enquanto verdade - a minha verdade, certamente, nunca me alheio à consciência da minha subjectividade. Se neste processo de encontrar sentidos nenhumas são as garantias de encontrar verdades, tudo o que se me adiante como razoavelmente próximo de algo verdadeiro há-de contribuir enquanto alicerce franco para segurar a restante estrutura da dúvida. Julguei então que seria o dever de partilhar o que também busco - e este é o meu espaço, o espaço onde me dou. Não fui talhada para as insistências da pregação - todas as palavras voam e só as agarra quem quer.

"Sabemos que é verdade aquilo que o contrário nos impede de pensar." Leibniz

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