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domingo, 28 de fevereiro de 2021

e eu sem braços.

 
Anatomie d'un Rapport 

Oh lábios aos pares
onde se fecha o espaço
e eu me monstro escasso
Oh caldo de pétalas
onde boiam olhos de óleo
e os meus postos em nada
Oh estradas da noite
onde os cães morrem de espanto
e eu me misturo mal
Oh selva esbracejante
onde flores e êmbolos
onde ninhos e compassos
e eu sem braços.

Regina Guimarães

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

''Há quem corra por desgosto / porque cansou de gostar''



"The New World" (Godard @ RoGoPaG, 1964) 

Há os que lambem os sorvetes
na ponta do iceberg
Os que fodem bem melhor
entre o primeiro e o quinto
Os que não pedem licença
para chegarem a velhos
E os que guardam esqueletos
em armários sempre abertos
Os que já matam o bicho
ainda o sol não desponta
E os que lêem romances
e ninguém lhes faz de conta.

Há os que correm o risco
de sair mesmo ao papá
Há os que fazem crianças
nos lugares onde se morre
Os que só vestem a roupa
por outros já muito usada
Há os que ousam dizer
se ninguém estiver a ouvir
Há os que gostam da rua
se ela for mal frequentada
E os que saem à semana
pouco antes da madrugada
com ar de cair da cama.

Há quem durma no jardim
mesmo na hora de ponta
Há quem aprenda espanhol
por pura correspondência
Há quem ande mascarado
por horror ao carnaval
Há quem venda o seu cuzinho
para não vender o resto
Há quem cague fora de horas
e coma fora do prato
Há quem seja pau mandado
só para mandar num rebanho
E há quem chore baba e ranho
quando toda a gente se ri
de um disparate tamanho.

Há reis com reis na barriga
e rainhas só de copas
Há segredos que se dizem
só para alguém os guardar
Há todos os que só atraem
para não serem traídos
Há muitos que acendem fogos
que não sabem apagar
Há santos em cada casa
e alguns fazem milagres
E há demónios à solta
que só podem causar danos
a quem conseguir prendê-los.

Há quem fique p’ra morrer
com vontade de matar
Há quem corra por desgosto
porque cansou de gostar
Há quem não saia do sítio
para não perder lugar
Há quem se ponha na fila
para ser mais indiano
Há quem se ponha às escuras
para crescer mais depressa
E há quem acenda uma luz
e a mantenha sempre acesa
para ser sombra chinesa

Regina Guimarães, 40 x Abril

domingo, 27 de junho de 2010

48.

: sobre
48 DE SUSANA DE SOUSA DIAS (2009)


48 anos de ditadura em Portugal e a discussão colectiva da história vê-se à distância de um Portugal encerrado no próprio exílio que já diz passado. A necessidade de resposta ao silêncio é a primeira convocatória de "48", o filme de Susana Sousa Dias, que se compromete com uma tarefa reveladora. A base é a sua relação com as imagens de arquivo, a que se afeiçoa e que ciclicamente adapta, numa particular proximidade da realizadora aos documentos que remanescem da época do Estado Novo. A este processo de recolha documental, a realizadora adicionou em "48" o testemunho oral de ex-presos políticos, confrontando um conjunto de fotografias de cadastro com a voz das memórias que hoje ainda guardam a verdade do trauma. Os ecos segmentados da rememoração  situam-se numa inquietante fronteira intimista- e o espectador entra na árdua tarefa de  reviver uníssono com as vítimas do sofrimento, tais são as garantias da veracidade e tal é vocalização descritiva da realidade dos detalhes e das convulsões em que se desabam sinceras as vozes.
A estilização formal em que se trata o material de base, esclarece a preparação manipulada dos testemunhos recolhidos. Assim,  facilmente surgem sensações de uma invasão com cada passado narrado em voz própria. Como estipular princípios morais e éticos como guias reguladoras da exposição? Como ser válido quando se caminha entre as delicadezas da revisitação traumática?
Para lá de formalismos, o surgimento de "48" não está sabotado pelos seus maneirismos estéticos. Antes pelo contrário. É um filme alicerce do próprio tempo que o vê surgir, e serve as necessidades gritantes da reflexão histórica, dando o testemunho à memória viva das vítimas do fascismo em Portugal. As palavras de Amarante Abramovici são propositadas em situar a importância de "48" na força de evitar que "se pense que, por comparação com os fascismos europeus, tivemos uma ditadura branda e que foi por isso que ela durou 48 anos." 















O que faz falta
por Regina Guimarães
10 de Junho de 2010


Falando curto e grosso : 48 é um filme que fazia falta. Fazia falta num país onde, como indignada e amargamente uma das resistentes entrevistadas por Susana de Sousa Dias sublinha, os agentes da PIDE-DGS tiveram direito à protecção zelosa de um aparelho de justiça apostado em branquear o cadastro dos criminosos, nem que isso implicasse denegrir as pessoas das vítimas vivas e injuriar a memória dos mártires mortos.
Pois claro, 48 fazia falta num país em que os contornos de um passado recente, marcado pela prática quotidiana da violência e pela insidiosa instalação do medo, tendem a esbater-se, a ponto de ter sido possível um concurso - para o qual grandes meios mediáticos foram mobilizados - atribuir ao criminoso-mor o estatuto de "melhor português de sempre". Contudo, a falta que este 48 surgido por "entre as brumas da memória" nos fazia, ecoa tanto mais poderosamente quanto, de facto, é "falta" que sentimos, uma vez volvida hora e meia de confrontação com fragmentos de testemunhos, com farrapos de vozes testemunhando, com o cilício dos muitos silêncios, com o difícil reconhecimento dos rostos congelados pelos próprios "protagonistas", de várias e perversas maneiras desapossados das suas caras, corpos e crenças.
Foi talvez preciso hiper-estetizar o cortejo de imagens para diferir do contexto de desumanidade em que aquelas fotografias foram tiradas, obviamente contra a vontade dos retratados, mas ainda assim convocando todas as fileiras da vontade de resistir, como a dada altura confidencia um dos entrevistados. Foi talvez necessário extrair do caos emocional, mental e moral das memórias de cada um, a quintessência das palavras que se reportam ao capítulo da humilhação e da ofensa: tortura física, maus tratos psicológicos, manipulação afectiva, aniquilamento moral, etc. Foi porventura útil enfatizar a heroicidade de uma galeria de cidadãos que preferiram suportar, até ao limiar da alucinação e da loucura, até às portas que separam da morte e a fazem desejar, os piores horrores e terrores em vez de ceder às ameaças e aos actos dos torcionários. Foi decerto uma opção estilística plenamente consciente das suas consequências entrecortar os pedaços de depoimento com silêncios densos de ruído e gritantes de vazio, fazer entrar as vozes em solene derrapagem ou na rasura da incerteza, a fim de que o fora de campo se tornasse mais avassaladoramente habitado de pressentimentos. Porém, tudo isso - tudo isso acrescido do que se imagina ser a penosa abertura das comportas perante os clichés de má memória - apenas contribui para que a tal falta se torne sensorialmente espessa e eticamente dolorosa.
Porque - e a ordem das razões aponta para o pau de dois bicos deste exercício no fio da navalha - as pessoas cujo testemunho foi sabiamente retalhado, reduzido ao paroxismo de um dizer que não pode ser ousado por comparação à tortura da lembrança e à lembrança da tortura, todas essas pessoas que afirmam terem resistido possuíam motivos de grande envergadura para o fazerem. E se, desafiando os limites do humano, resistiram lá dentro é porque cá fora, desafiando as condições de possibilidade impostas pelo regime, também se atreveram, activamente, a resistir. Da expressão desses motivos que mantiveram vivos os recursos de resistência de um punhado de vítimas da opressão salazarista e pidesca, o espectador não pode deixar de sentir falta. Em última análise, o silenciamento dos motivos que é parte constitutiva do dispositivo de "48" pode soar como uma, mais uma, operação de censura, inflingida a pretexto de valores estéticos que mais alto se alevantaram.
Frente à dilaceração das palavras que "48" encena e encerra, por entre negros e negros, qualquer espectador se sente abalado, comovido, imensamente desconfortável com a perspectiva de que os gestos e actos relatados aconteceram mesmo, num passado não longínquo, aos donos daquelas vozes. O carácter insuportável e intolerável do que ali se conta, configura uma verdade transpessoal. Absoluta, digamos. No entanto, a fraquíssima sinalização do contexto historico-político e a ausência quase total de referência aos motivos que moviam os resistentes, coloca o espectador na estranhíssima situação de pactuar com um dispositivo que prefere não correr o risco da dispersão dos afectos e da deflagração das ideias. Mais do que abrir o leque daqueles sentimentos que ninguém suporta em vão, Susana de Sousa Dias fecha-os na caixa de ressonância das confissões. E quem se "vê" na situação de "ver" o que apenas se ouve, algures por detrás, fotografias que são fruto do roubo de imagem e violação de pessoa, só pode sentir-se duplamente excluído de um entendimento mínimo das dores e pavores em questão : porque não pode, evidentemente, ter deles vivência, e porque as pessoas que os viveram não têm a ocasião de exprimir ali quais os modos de resistência mental que lhes permitiram, contra tudo o que é expectável, manter a sua dignidade, através da árdua prática do silêncio atirado à cara do carrasco. Ora, esse entendimento mínimo deveria ser-nos pão para a boca.
Em tempos de ditadura, era eu uma catraia, havia lá por casa um poster - os posters eram coisa bastente em voga nas famílias anti-regime e faziam as vezes de cartazes contra a repressão dentro do espaço pribado, já que na rua não podia ser... - com um poema do Livro Sexto de Sophia de Mello Breyner. Os três últimos versos desse texto causavam-me grande inquietação, embora na altura eu não conseguisse compreender porquê.

PRANTO PELO DIA DE HOJE
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas.


Se fizesse algum sentido resumir a primeira impressão que colhi do primeiro visionamento de "48", ela giraria em volta de palavras para falar de uma inquietação, essa inquietação, a inquietação de saber que as maneiras sábias, subtis e peritas da opressão - na verdade, grosseiras, brutais e perversas - não podem, ao contrário do que parece pensar Susana de Sousa Dias, ser bem descritas.
Posto isto, e para que não se depreenda de todos os meus senãos uma rejeição liminar e injusta da presenta obra de Susana de Sousa Dias, é-me imperativo acrescentar duas notas finais altamente positivas. A primeira tem a ver com o lugar concedido às vozes femininas em "48", um lugar preponderante que não somente lança alguma luz sobre a forma como os carrascos defensores da (sagrada) família utilizam os laços de afecto familiar no âmbito da sua actividade criminosa, como também contribui para esclarecer que a resistência antifascista não encaixa no molde da virilidade, não coincide com o boneco da masculinidade, barba rija e companhia. A segunda prende-se com a preciosa inclusão de depoimentos que nos revelam a que ponto a actividade da PIDE-DGS nas chamadas "províncias ultramarinas" era redobradamente violenta e assassina, sendo que pouco tem sido dado a conhecer acerca desta faceta da intervenção da polícia política do salazarismo-marcelismo. Embora eu não capte o propósito das imagens concretas utilizadas para colmatar a ausência de fotografias nesse trecho do filme, há que reconhecer a forma inaudita do antepenúltimo e penúltimo depoimentos. Uma força, também no entido estrito, que recentra pertinentemente a questão dos interesses subjacentes a um regime apodrecido cujo derrube contudo tardou.
O "desfecho" de "48" é uma oportuna chamada de atenção para uma potencial prossecução dos trabalhos de memória relativos à história negra da PIDE-DGS, tão imprescindível e urgente quanto os que directamente podem testemunhar o farão à custa da dolorosa convocação de lembranças impossíveis de apagar nas suas cabeças. Sob o ângulo de uma retórica assente no pathos, esta é uma escolha de abrupta quebra de um contínuo crescendo. Todavia, Susana de Sousa Dias faz aí, creio eu, uma opção ajuízada. "48" é o filme que fazia falta porque fazia falta a falta que o fissura.