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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Não, não é o meu género, regressar à terra, depois de morrer.

As cidades e as trocas, Luísa Homem e Pedro Pinho, 2014


Não sei quando morri. Sempre me pareceu que morri velho, por volta dos noventa anos, e que anos, e que o meu corpo o comprovava, da cabeça aos pés. No entanto, neste final de tarde, sozinho na minha cama gelada, sinto que vou ser mais velho do que o dia, do que a noite em que o céu caiu com todas as suas luzes sobre mim, o mesmo céu que tantas vezes olhei, desde que vagueava pela terra longínqua. Porque hoje tenho medo demais para me ouvir apodrecer, para esperar pelos grandes e violentos baques do coração, pelas contorções do ceco sem saída e para esperar que se cumpram na minha cabeça os longos assassínios, o assalto aos pilares inquebrantáveis, o amor com os cadáveres. Vou portanto contar a mim mesmo uma história, vou portanto tentar contar mais uma vez a mim mesmo uma história, para tentar acalmar-me, e é nessa história que sinto que serei velho, muito velho, ainda mais velho do que no dia em que caí, clamando por socorro, e o socorro chegou. Ou talvez nessa história eu tenha regressado à terra, depois de morrer. Não, não é o meu género, regressar à terra, depois de morrer.
(…)
samuel beckett
novelas e textos para nada

via Rita M. Pestana

quarta-feira, 1 de março de 2017

A Fábrica de Nada: o filme que passou ao lado do seu tempo

A Fábrica de Nada, Pedro Pinho, 2017


Se A Fábrica de Nada convoca ideias importantes (já escrevi sobre algumas) não é verdadeiramente um filme do Portugal do seu tempo. O que é de lamentar, considerando a sua proveniência, a estrutura que o assina, a abertura da sua forma e o facto de poder (dever?) ter endereçado questões que têm a ver com o próprio cinema enquanto trabalho.
Será, com certeza, emotivo que o operário que trabalhou décadas a fio na mesma fábrica agora se veja dispensado. Mas a minha empatia está com ele apenas até certo ponto: apesar das lágrimas, ele vai receber um subsídio de despedimento, sempre na ordem dos milhares. E a geração dos recibos verdes, na qual me incluo, que não recebe é nada quando dispensada?
Não estou a opor os trabalhadores uns contra os outros: tem a ver com auto-reflexão e sentido de oportunidade. Se os filmes que reflectem sobre o trabalho não reflectem sobre as condições de trabalho de quem trabalha nos filmes, quem reflectirá? Percebê-lo-ão melhor do que ninguém os que precariamente trabalham nos ofícios do cinema, com vínculos tão fugazes como as restantes que compõem os meios literados, artísticos e culturais (sempre os mais interessantes e sempre os menos compensatórios). Em termos práticos, aquele cidadão é protegido pelo mesmo Estado que me ignora e pelo mesmo Patronato que não me contrata. Em termos jurídicos, quem não tem um contrato de trabalho é mais maquinal do que estes operários que operam máquinas: o seu corpo não pode falhar, nunca. Se nós, os prestadores pontuais de serviços, não pudermos trabalhar (por doença, assistência a outrem, filhos ou qualquer outro motivo), simplesmente não recebemos. Definitivamente, este filme não é um emblema de uma geração porque a geração não se consegue identificar com ele. Nós, os ''falsos recibos-verdes'', estamos ainda em piores lençóis - mas porque é transversal às classes profissionais, a mobilização das vozes falha na sua organização. É preciso que, de uma vez, surja uma legislação apertada que controle este sistema abusivo e socialmente insustentável. Em vez disso, os filmes ainda andam a pensar isto tudo como se fosse o século XX, sem atender aos principais problemas que os trabalhadores contemporâneos portugueses têm de enfrentar, especialmente os das mais recentes gerações e que pertencem, aliás, à classe profissional dos realizadores e pensólogos que aqui se debruçam sobre estas questões. Porque é que, se analisarmos a forma como o trabalho tem vindo a ser representado no cinema português, encontramos zero menções ao problema dos recibos verdes, vínculo precário em que a maior parte das pessoas do meio trabalha? Precisamente por isso. É óbvio que não se fazem filmes sobre a questão dos recibos verdes porque é praticamente impossível que qualquer filme não recorra a eles e o objecto tornar-se-ia um contrassenso. E é precisamente porque o Cinema não tem interesse em falar do Cinema que cá estou eu, a debitar por escrito estas minhas postas de pescada.