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sábado, 28 de novembro de 2020

perdi o coração, triturado / por uma máquina de fazer dias sem remorso



As minhas ideias têm ideias próprias. Há muito
que é assim. Desde que perdi o coração, triturado
por uma máquina de fazer dias sem remorso
nem consideração pelas fragilidades que inventaram
o cristal e os versos. Tenho a língua coberta de musgo
e raiva, tenho uma moeda na algibeira e não telefono
nem ao Céu nem ao mar. Vou tendo mulheres
mas só dos olhos para fora. Sonho em matar
o tempo e caio para trás à beira do precipício
de todas as contingências. Como. Como-me.
Sozinho com as estrelas sem luz ou ainda tão distante
que só alumia o passado. Há-de haver um verbo
para isto. Desconheço-o. Desrecordo-o. Hoje
é dia de festa. Festa de São Miguel da Desorientação.
O Diabo mostra a sua cara no sono das crianças
e na falsa simplicidade dos frutos. As minhas ideias
impedem-me de estar presente. Logo hoje
que tanto queria dançar a vida numa malga de vinho.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

‘’Os sentimentos são onde sei viver, onde me sinto menos morto’’ #miguelmartins


quarta-feira, 13 de junho de 2018

''A pele demasiado larga para a carne.''



Do tempo
Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar, e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


in Lérias (Lisboa: Averno, 2011)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Uma força imoral, uma urgência rara como todas / as urgências

The postman always rings twice, Tay Garnett, 1946


Naquele tempo, era costume chegarmos de madrugada
às grandes capitais do mundo, depois de varrermos países
e países de estradas secundárias com as nossas lanternas,
e anunciarmo-nos como quem veste a guerra e o amor,
fazendo soar os sinos dalgum pequeno campanário de algibeira,
normalmente defronte de um balcão feito cascata,
enquanto as nossas vozes vendiam ilusões bíblicas
às raparigas que olham para o tecto como se fosse o chão.

Era ainda demasiado cedo para que os sapatos se impusessem
entre os pés e a estrada; demasiado tarde, todavia,
para que lhes confessássemos os jardins onde sonháramos
imagens difusas, feitas apenas de cor e dispersão,
antes da ordem, muito antes do caos, a anos-luz da arte
e do abandono. Uma força imoral, uma urgência rara como todas
as urgências, decompunha espelhos sobre espelhos, encadeava
os dias e inventava a serpentina aparentemente interminável
a que se chama vida quando se tem ainda a dentição intacta.

Foi há muito tempo. Somos ridículos, hoje, quando evocamos
escaramuças ou risos, lábios fendidos ou beijados,
como se quinhentas vezes o nevoeiro não tivesse feito gritar
entretanto a sirene do nosso cabelo em recessão, como se
as nossas namoradas de Toledo ou Avinhão não se tivessem abortado
a si mesmas quinze vezes, e os anos, também a elas, não toldassem
os passos, como vómito até aos calcanhares. Resta-nos
a compostura de uma gravata nova, do cabelo aparado
até ao pavilhão auricular, e a talha dourada de uma partita de Bach
para enganar a flacidez da carne, como se a carne precisasse de nós
para sentir a deserção da água, a inominável deserção da água,
de todas as praias a que não voltaremos.


MIGUEL MARTINS

#motto ''Queimar tudo''

Hustle, Robert Aldrich, 1975

Queimar tudo. Alugar uma casa num lugar sem história
na história da minha vida, um lugar de postais antigos,
desbotados, e do passado guardar apenas uma urna
de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças.
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas
cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos. Tentar,
sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe
miúdo e roupas com defeitos às ciganas. Ser anónimo
por fora e por dentro, criança que não se conhece
nem quer conhecer e que procura apenas o início
e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente
para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar
os gloriosos fundos de um oceano de merda. Beber
pouco. Foder com a moderação que a improbabilidade
do diálogo impõe. Emular os pioneiros americanos,
pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe
das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes
e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor.
Miguel Martins (Desvão)