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quarta-feira, 13 de junho de 2018

''A pele demasiado larga para a carne.''



Do tempo
Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar, e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


in Lérias (Lisboa: Averno, 2011)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

STEREODOX: ''Visitou-me um velho amigo / Outrora solto em meu umbigo / Eu dei-lhe abrigo na prisão''

Daido Moriyama
''(...)
Eu nasci sem entender
A forma certa de viver
Até que a vida me ensinou

A aprender
O que eu quis mostrar ao mundo
Era tão forte e tão profundo
Eu quase me afoguei na emoção
Visitou-me um velho amigo
Outrora solto em meu umbigo
Eu dei-lhe abrigo na prisão
Só que eu já não sei
Mudou a força da razão
E não fui eu que a mudei
A vida tem um peso para nós
E pesa quando estamos só

(...)''